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Entenda Melhor | Invocação do Mal: Featurettes de Uma Franquia

por Leonardo Campos
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Os featurettes de filmes nos apresentam situações de bastidores que estão inseridas no que podemos chamar de crítica genética, campo de atuação legítimo que investiga processos produtivos na construção de documentos e obras artísticas. Aqui, apresentamos ao leitor um panorama do processo de construção criativa nos filmes da franquia Invocação do Mal, conjunto de narrativas que desde 2012, nos apresenta um coeso agrupamento de expressões cinematográficas que envolvem entidades folclóricas, presenças demoníacas e famílias devastadas pela instauração de maldições em determinado momento da vida daqueles que as integram. Com a chegada de Invocação do Mal 3, decidi traçar um panorâmico estudo sobre como e por quais motivos, determinadas escolhas artísticas e narrativas foram adotadas nos filmes que compõem esse universo de produções formidáveis e alguns exemplares destoantes da proposta, haja vista a qualidade duvidosa de suas estruturas dramáticas. As duas partes de Invocação do Mal, os três filmes da saga Annabelle, o equivocado A Freira e o mediano A Maldição da Chorona são analisados ao longo dos próximos tópicos desse texto. Desde já, desejo uma viagem aterrorizante para todos os leitores.
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Invocação do Mal

O primeiro episódio da franquia e o melhor até então. Invocação do Mal traz três featurettes interessantes sobre o seu processo criativo, conteúdo que interessa não apenas aos que admiram filmes de terror, mas também para aqueles que gostam de entender como funcionam os mecanismos que movem a formação da linguagem cinematográfica. Aqui, temos três materiais bem elucidativos para compreensão da força criativa que move a franquia. James Wan, diretor escolhido por unanimidade entre os produtores que organizaram o material dramático, concebe o que ele chama em todos os featurettes onde depõe: uma estrutura de respeito para os filmes de terror, campo de realização considerado como “desfocado” ou perdido, conforme o ponto de vista do cineasta. No primeiro featurette analisado, Frente a Frente Com o Terror, acompanhamos depoimentos dos envolvidos no caso da Família Perron, grupo de pessoas que parte para morar numa região considerada idílica, mas sofrem os horrores de uma presença demoníaca que resolve se apossar da casa, da família e em especial, sugar energias da matriarca, Carolyn Perron, também participante na lista dos entrevistados deste material riquíssimo em crítica genética. Lorraine Warren também concede depoimento, participação que tal como ocorre em outros featurettes da franquia, parece legitimar as informações que são apresentadas ao espectador.

Tocante e ao mesmo tempo assustador é observar como Carolyn Perron, a personagem da vida real, alega não saber se terá coragem de assistir ao filme, da mesma forma que não acredita ser possível retornar para a casa onde vivenciou situações de tanto medo e horror. Concebido por depoimentos fundamentais para amarrar as suas ideias, as informações dos featurettes de Invocação do Mal continuam com qualidade em Uma Vida na Demonologia, material que explora dados biográficos do casal Lorraine e Ed Warren, por meio de declarações de pessoas próximas, fotos e outros materiais de arquivo, além da participação da própria biografada. Conhecemos um pouco do casal onde o casal viveu, a história de amor forte que os manteve entrelaçados por longos anos, a iniciativa de fundar a Sociedade de Pesquisa Paranormal em 1952, dentre outros detalhes que ajudam o espectador a compreender melhor a trajetória de casos sobrenaturais da dupla que desde criança, já tinha percebido a sensibilidade para coisas sobrenaturais. Ed, dos 7 aos 12 anos, vivenciou experiências insólitas/numinosas em sua casa e Lorraine, desde a mesma idade, percebia a comunicação exercida pelo mundo sobrenatural a gravitar em torno da sua existência.

Com depoimentos de padres, familiares e membros da equipe técnica de Invocação do Mal, o featurette explora a saga do casal de demonologistas e conta como Ed deu protagonismo ao caso da Família Perron quando um dos produtores, amigo de longa data, questionou no passado qual a história que ele teria mais interesse em transformar em narrativa cinematográfica. No ótimo Por Trás das Cenas, James Wan ganha destaque, tendo o seu trabalho na direção elogiado pelos envolvidos nos bastidores, elenco, etc. No geral, as opiniões depõem de maneira favorável para o cineasta que é considerado um dos responsáveis por elevar a qualidade do gênero na indústria contemporânea. Ele é um cineasta que não precisou trazer sangue e vísceras para tornar assustadora a franquia que hoje possui quase dez filmes. Um dos pontos de destaque para o seu trabalho é a excelência na construção da tensão, criada de maneira gradativa, sem necessariamente ficar dependente do jumpscare, apesar do filme ter vários. Apaixonado pelo visual, haja vista o estilo virtuoso da câmera de seus diretores de fotografia, James Wan revela ser bastante focado na sonoplastia de seus filmes, elemento considerado essencial para o tipo de construção narrativa adotado na franquia. No geral, um conjunto de featurettes bem elucidativos.
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Invocação do Mal 2

O desenvolvimento dramático de Invocação do Mal 2 é a demonstração de um bem-sucedido trabalho de elaboração para uma sequência. Com o sucesso do antecessor, James Wan e sua equipe de produtores precisam criar algo tão bom quanto ou até melhor. Apesar de achar Invocação do Mal o melhor da franquia em todos os aspectos, a sua segunda parte também é muito boa e apresenta mais uma família em apuros, desta vez, em Enfield, caso emblemático tido como real e com potencial suficiente para gerar um filme coeso, assustador e intenso. Os featurettes da produção trazem as já esperadas cenas deletadas e outros materiais interessantes para quem curte a franquia e se interessa pelos processos criativos na concepção de uma narrativa cinematográfica. O primeiro featurette, com participação de membros da equipe técnica e de alguns atores, apresenta ao espectador a busca de James Wan por reforçar o seu projeto de respeitabilidade para o terror e transformar situações clichês em materiais reinventados. Desta vez, os envolvidos buscaram atenuar o tom sombrio e destacar o potencial do caso Enfield, um dos mais conhecidos momentos assombrosos da trajetória de Ed e Lorraine Warren. Para os realizadores, um dos grandes pontos para o filme ainda mais assustador foi a atmosfera londrina de 1977, era das manifestações do movimento Punk, as greves trabalhistas, dentre outras tensões históricas.

Para o diretor e produtor James Wan, um dos setores que mais se destaca em Invocação do Mal 2 é a direção de fotografia de Don Burgess, responsável por concretizar a visão do cineasta e empreender o horror por meio de imagens. Quem também ganha destaque é Julie Bergoff, design de produção, gestora da equipe de cenógrafos, diretores de artes, maquiadores e figurinistas, profissional que permite virtuosismo para a movimentação, angulação e planos na movimentação na concepção das imagens. Outro destaque do material é a explanação da história de Ed e Lorraine como uma presença de amor diante de temáticas tão macabras, elementos que favorecem a força da catarse. É um conteúdo que ganha maior delineamento nos featurettes de Annabelle 3 – De Volta Para Casa. Ademais, o extra ainda nos permite ver a concepção da voz de Bill Wilkins, a busca dos membros da equipe pela manutenção do nível da franquia e a presença de duas pessoas que fazem parte da história verídica retratada no filme, um “toque de realidade” bem interessante, estratégia que aproxima o público do tom de veracidade da macabra narrativa. Adiante, temos O Caso Enfield, featurette que traz depoimentos das mencionadas visitantes e stills, excertos de jornais da época e outros materiais sobre o caso sobrenatural que acometeu uma família inteira e já foi retomado em documentários, produções ficcionais e até na literatura.

Há um vasto panorama da época, com pessoas que foram testemunhas oculares do caso. As duas envolvidas, ao visitarem os bastidores, comentam a forma como James Wan e sua equipe criativa trouxeram todo o horror de Enfield, obviamente inserindo os elementos ficcionais necessários para a transformação do caso em material cinematográfico. Um dos melhores momentos do featurette, por sinal, é a presença de Lorraine Warren num dia de filmagem. Ela traz legitimidade ao material, conteúdo que reforça o quão impactante foi toda a história na vida daquelas pessoas. Em O Homem Torto, James Wan revela que adora mexer com os medos infantis e explica como foi o processo para extrair a entidade das cantigas de ninar e trazer para Invocação do Mal 2. Storyboards são explanados, os figurinos do personagem ganham destaque e Ariel Shaw, supervisor de efeitos visuais, conta sobre a predileção de James Wan pela cor vermelha e a escolha do figurino vitoriano na concepção Homem Torto, criatura que muitos desejam a presença em um filme solo. Eu, particularmente, acho que há entidades bem mais interessantes para investimento. Além de um featurette sobre o caçador de fantasmas indo ao set e filmagens para identificar presenças sobrenaturais, o material menos interessante do conjunto, temos em O Som do Horror a cereja do bolo, isto é, uma exploratório abordagem da composição de Joseph Bishara para a produção, textura percussiva que contou com instrumentos de corda predominantes, mas também teve a presença do sopro e dos metais, associados aos coros de vozes guturais assustadoras.
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Annabelle

Depois de Invocação do Mal, senti que um filme sobre a boneca Annabelle tinha grande potencial, afinal, diferente das tramas sobre brinquedos e objetos assassinos, aqui temos um item que funciona como receptáculo para as forças do mal. Com direção firme de James Wan e construção atmosférica que não se via há tempo no circuito dos filmes de terror, a espera pelo filme com a boneca sendo protagonista foi esperado com muita ansiedade, mas se revelou tão decepcionante quanto o fraco A Freira, produção que busca as origens de outro ícone da franquia. Talvez a opinião se modifique depois de revisados, mas o que temos para o momento é a definição de Annabelle como um dos pontos mais decepcionantes deste universo, resgatado com glórias nos filmes seguintes, as partes 2 e 3, ambas superiores em diversos pontos, do dramático ao estético. Tal como o material extra da trajetória de Valak, os featurettes são mais interessantes que o filme em si. Analisaremos aqui Um Processo Demoníaco, A Maldição de Annabelle, A Possessão de Lágrimas de Sangue e Boneca Demoníaca, deixando de lado apenas as cenas deletadas.

No primeiro, o cineasta John R. Leonetti conta a entidade assustadora que tira a paz da família escolhida para sediar Annabelle aparecia pouco. Suas menções visuais eram mais parcas que o material apresentado na versão final. Por isso, ele decidiu convencer os membros de sua equipe a inserir mais detalhes sobre a criatura, inspirada nas gárgulas que o design de produção John Wheaton contemplou numa viagem à Roma. Com maquiadores, supervisores de efeitos visuais e especiais experientes, tendo The Walking Dead e Piranha 3D em seus perfis profissionais, o cineasta teve o melhor para compor os elementos sobrenaturais horripilantes que tocam o terror no filme que teve Joseph Bishara como compositor da excelente trilha sonora, além de sua participação como ator na interpretação da entidade infernal com chifres, apliques de gesso e outros elementos que o tornam um demônio autentico. Em Boneca Demoníaca, os integrantes do elenco e da equipe técnica comentam brevemente sobre como tais objetos fazem parte de nossa memória afetiva e quando transformados em algo assustador, ganham potencial mais amplo para criar a atmosfera desejada pelos realizadores de filmes de terror. James Wan mostra-se bastante participativo nos featurettes, a comentar que acha a boneca com detalhes bastante próximos ao de um humano e com feições assustadoras ideais para os ângulos e movimentações da fotografia.

Quem também contribui com as informações interessantes do material é a cenógrafa Kris Fuller, profissional que elogia o design de produção de Annabelle e nos mostra os bastidores da destruição de bonecas da coleção da protagonista, ação realiza pela entidade demoníaca que se apossa da casa dos personagens que estão na linha de frente do filme. Cola quente, tinta, maçarico e outros itens são utilizados para criar a cena de horror e medo. Em A Possessão das Lágrimas de Sangue, os realizadores comentam o tom realista do filme, associado aos elementos fantasiosos, em especial, a cena de abertura que faz referência aos crimes do clã de Charles Manson. É um featurette muito bom ao revelar detalhes técnicos da direção de fotografia de James Kniest, setor que faz uso de um modelo especial de steadicam para criar a movimentação ideal dos personagens e ajudar no estabelecimento da tensão que também conta com ótimo uso da profundidade de campo. Por fim, A Maldição de Annabelle traz James Wan a comentar o seu interesse pelo caso da boneca, uma das histórias que mais o intrigaram na trajetória de Ed e Lorraine Warren. Ele conta como as pessoas ficam intrigadas com narrativas que se dizem baseada em fatos e Gary Dauberman, aqui como roteirista, expressa o tom realista adotado pelo filme, algo considerado essencial para o sucesso da fórmula que por algum motivo, perdeu o tom em sua edição final.
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Annabelle 2 – A Criação do Mal

Nos featurettes de Annabelle, os envolvidos nos bastidores comentam como alguns momentos causaram tensão no processo produtivo do filme, haja vista a quantidade de coisas assustadoras que ocorreram e até foram registradas por quem estava por lá. Lâmpadas estouraram, arranhões apareceram em pontos do cenário misteriosamente, dentre outras coisas que deixaram alguns arrepiados. Isso não ocorre nos depoimentos dos featurettes de Annabelle 2 – A Criação do Mal. Aqui, temos um tipo de material extra que há muito não via: o delineamento da tarefa de um diretor. Em Dirigindo Annabelle: A Criação do Mal, o cineasta David F. Sandberg conta que conhece os clássicos, mas vem de um padrão de produção inspirado em tutoriais, podcasts e outros conteúdos mais contemporâneos. Em sua visão, debates sobre roteiro, efeitos visuais e especiais, trilha sonora, dentre outros, protagonizam esse tipo de material de bastidores e analítico, mas pouco se expõem sobre o papel de um diretor no processo de produção de um filme, algo que vai além das orientações ao elenco na atuação. Esse é o maior featurette da franquia até então, com quase uma hora de comentários do realizador, grato em cena ao ter recebido as imagens de bastidores da Warner sem burocracia.

Ele conta que o diretor, ao contrário do que muitos pensam, não se refere apenas aos atores para posicionamento, entonação, etc. Função que é importante quando o individuo torna-se um profissional colaborativo, para Sandberg, um diretor é aquele que tem uma equipe que concretiza a sua visão sobre o filme que concepção, neste caso, Annabelle 2 – A Criação do Mal, história das origens da boneca amaldiçoada que supera a equivocada produção anterior. No featurette, podemos contemplar a sua relação com o elenco, o envolvimento com a equipe técnica, a participação bastante ativa nos bastidores e a paixão de David F. Sandberg pela direção, função assumida após algum tempo de experiência em outros setores, em especial, os efeitos visuais. Antes de fechar o material extra, ele alega que basicamente, o papel do diretor é o de “resolver problemas”. Além desse conteúdo muito interessante, temos as costumeiras cenas deletadas, dois curtas que inspiraram a produção em questão e O Universo de Invocação do Mal, featurette onde James Wan fala sobre o interesse em trazer respeito de volta ao campo dos filmes de terror, algo perdido há tempos, segundo o seu ponto de vista. Ele detalha o seu acesso aos estudos e objetos do museu de relíquias macabras de Ed e Lorraine Warren, material rico para produção de muito conteúdo para o universo, além de falar da cronologia da franquia e explicar as possibilidades de idas e vindas temporais na história de Annabelle, dando destaque ainda para uma breve passagem do segundo filme, trecho que menciona a entidade demoníaca de A Freira.
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Annabelle 3 – De Volta Para Casa 

Um raro exemplo de continuação que eleva o nível das produções anteriores. Annabelle 3 – De Volta Para Casa não chega ao padrão de qualidade das duas partes de Invocação do Mal, mas apresenta resultado melhor que os antecessores de seu segmento, isto é, Annabelle e Annabelle 2 – A Criação do Mal. É a produção que nos apresenta a chegada da boneca amaldiçoada ao espaço reservado para artefatos demoníacos na casa de Ed e Lorraine Warren. Dirigido por Gary Dauberman, o filme possui featurettes bem interessantes não só aos interessados na franquia, mas nos modos de operação que engendram a linguagem cinematográfica. James Wan é um dos primeiros a aparecer, dando informações sobre a tal sala misteriosa, ambiente que nos remete ao espaço de um museu. Entre a sua narração e trechos do filme, observamos o quão amaldiçoado é o local, abençoado frequentemente por um padre para diminuir os impactos das forças sobrenaturais. Nesta continuação, o público teve a oportunidade de contemplar itens que não foram explorados nos antecessores, tais como a enigmática roupa de samurai, o macaco que toca acordeão, dentre outros objetos que ganham destaque graças ao trabalho competente de Jennifer Spencer no design de produção. Um depoimento interessante é o de Judy Spera, filha do casal de demonologistas que inspiram a franquia. Ela fala sobre a sensação de museu e explica como os seus pais a orientaram a dar segmento aos objetos depois que eles não estivessem mais por aqui.

As informações deste featurette, intitulado A Sala de Artefatos e Ocultismo, envolvem e explicam de maneira bem didática os processos criativos por detrás da franquia, proposta que continua no elucidativo A Luz e o Amor, trecho que traz depoimentos de Patrick Wilson e Vera Farmiga, dupla que interpreta com carisma e bom desempenho dramático, o casal Ed e Lorraine Warren. Eles reforçam como o desenvolvimento do roteiro vai na contramão dos clichês dos filmes de terror que geralmente apresentam casais em crise diante da presença de forças demoníacas tão devastadoras. No caso da franquia, temos o lado amoroso e o entrelaçamento de Ed e Lorraine como algo belo, necessário para o enfrentamento de forças tão macabras. Interpretados por atores de primeira linha, o casal promove a maior identificação do público com a história a ser contada. Para complementar os materiais extras, Annabelle 3 – De Volta Para Casa traz as cenas deletadas e o featurette Por Trás as Cenas, dividido em três partes, nomeadas Barqueiro/Demônio, A Noiva Sangrenta e O Lobisomem. No primeiro, temos a demonstração da elaboração da maquiagem, inserção de próteses e outros processos que duram em média 4 horas para ficar pronto.

Logo depois, Alexander Ward, intérprete do barqueiro e do demônio com chifres, conta os seus métodos para a criação dos personagens, ambas figuras ficcionais aterrorizantes, uma oriunda diretamente do inferno e a outra, conhecida por ser um ceifador, entidade que possui moedas nos olhos, tais como alguns cadáveres em culturas passadas. A sua função mitológica é atravessar um rio e levar as pessoas para o portal onde encontrarão o mundo dos mortos. Para a composição visual do Barqueiro, a figurinista Leah Buthler utilizou tecidos pretos, penas que o assemelham a um pássaro e outros itens que deixam a entidade com o tom macabro responsável por deixar os personagens num clima de pavor constante. Os figurinos continuam como destaque em A Noiva Sangrenta, entidade trajada com vestuário que mescla elementos dos anos 1930 e 1970 com materiais vintage, figura horripilante interpretada pela atriz Natalia Safraz, a aparecer constantemente perto da boneca Annabelle, vetor de todos os objetos demoníacos da casa. Para James Wan, essa é uma das tantas entidades que futuramente, podem ganhar filme solo. Por fim, O Lobisomem foca no interesse do diretor em ter uma cena que mesclasse rosnar de um cão e escuridão. Enquanto elaborava o texto, conversou com James Wan, produtor que já providenciava a inserção da criatura na história, um dos casos mais intrigantes do casal Warren. Mescla de animatrônicos com efeitos visuais, a criatura foi gerada com a participação de integrantes da equipe de James Wan em Aquaman, bem como artistas da concepção visual de O Monstro do Pântano.
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A Freira

Como estrutura dramática, A Freira é o elo mais decepcionante da franquia Invocação do Mal. A história não atrai como deveria, os personagens apresentam desperdício de potencial e o filme é pouco convincente. Já nos aspectos visuais, a produção é o mais deslumbrante exemplar da franquia, uma narrativa com toques góticos e presença de outros tantos elementos medievais que a deixam com uma atmosfera bastante misteriosa. Os featurettes também são empolgantes, talvez até mais que o próprio filme, ponto de partida da cronologia da franquia, em 1952, antes da boneca amaldiçoada e dos demais episódios deste universo aterrorizante. Aqui, analisaremos Um Novo Ícone dos Filmes de Terror, Um Planeta Macabro (seria universo?) e A Cronologia de Invocação do Mal. No primeiro featurette, acompanhamos a ascensão da grande estrela de Invocação do Mal 2, Valak, a entidade demoníaca representada pela assustadora figura de uma freira. O cineasta Corin Hardy, responsável por comandar a empreitada, conta que o seu filme é uma clássica história de terror gótico, produção que versa sobre o enigmático mundo das freiras. O roteirista e desenhista de storyboards Gary Dauberman fala sobre as escolhas dos realizadores para tornar esse capítulo da franquia um dos mais horripilantes, algo que olhado enquanto espectador, aponto que infelizmente ficou apenas nas intenções, pois A Freira funciona muito irregularmente.

Um dos destaques do featurette é a presença de Bonnie Aarons, a interprete da entidade maligna que torna um caos a vida de uma jovem freira que chega ao espaço cheio de segredos de uma antiga abadia. A atriz conta sobre a sua presença em Invocação do Mal 2 e os processos atravessados para chegar ao filme que conta as origens de sua personagem, um ser maligno forte, interpretado por alguém de verdade, sem dependência de CGI ou animatrônicos para a sua presença em cena. Produção que em meu ponto de vista possui a melhor trilha sonora da franquia, A Freira é uma narrativa dissecada neste elucidativo featurette que ainda explica as intenções no capuz que produz escuridão em seu rosto, parte do vestuário que também expressa a esperteza do personagem, algo que se assemelha ao tubarão, tanto em sua barbatana quanto em sua ferocidade nos mares. Para o cineasta que comanda o filme, Bonnie Aarons como Valak é o equivalente ao que Robert Englund fez com Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo, isto é, um estágio de imersão no desempenho dramático que tornou quase impossível aos envolvidos imaginar outra atriz no papel da macabra entidade demoníaca.

Para a composição do monstro, a maquiadora Eleanor Sabaduquia recebeu orientações para não deixar o ícone com tom pálido, sendo a proposta o seu alto embranquecimento, acompanhado de detalhes de veias vermelhas e roxas, com gradações de cinza na face e em outras partes visíveis do corpo, além do cuidado com os olhos, criados para causar medo e estranhamento, haja vista o tamanho e a cor que foram adotados. Logo após a análise do featurette, partir para as cenas deletadas, geralmente desinteressantes, antes de pesquisar Um Planeta Macabro, conteúdo bastante envolvente que flerta sobre a chamada Meca do Terror: a Romênia, território que serviu de base para as filmagens. Corin Hardy comenta que esta é uma região cheia de mistério e tradição, ideal para o desenvolvimento de uma narrativa situada nos anos 1950, em plena Europa Oriental. Os seus campos acidentados, os pináculos góticos e a constante névoa transformam a experiência numa competente construção de imagens visualmente instigantes. Num determinado trecho que demarca a passagem por um caminho tomado por vegetação frondosa, o figurino de um padre em meio ao ambiente enevoado não nos permite manter qualquer dissociação com o clássico cartaz do fenomenal O Exorcista, arte inspirada num dos trechos mais emblemáticos do filme de 1974.

Os primeiros takes foram realizados no Castelo de Corvin, um local formidável para a captação de imagens imponentes e assustadoras, comandadas pelo setor de Maxime Alexandre, diretor de fotografia em A Freira. Parte do sucesso destas imagens concebidas com esmero parte também do design de produção cuidadoso, elaborado pela equipe de Jennifer Spencer, gerenciadora do setor. Depois das filmagens nesta região, a equipe viajou 200 quilômetros para chegar até o Castelo de Bethlen, também situado em território romeno. Esse foi o lugar para o registro de cenas no cemitério e nalguns ambientes decrépitos da tessitura narrativa do filme. A equipe ainda foi até o Forte de Mogos, ao sul de Bucareste, tendo em vista produzir as cenas situadas em túneis deteriorados ao longo dos 98 minutos da narrativa que tal como veremos no featurette seguinte, demarca o primeiro momento da franquia criada por James Wan. Antes de adentramos nas breves considerações de A Cronologia de Invocação do Mal, vale destacar o que um dos entrevistados aponta sobre a Romênia ser uma espécie de personagem importante do filme, não apenas um espaço cenográfico. Por fim, no extra sobre cronologia, os envolvidos contam sobre a origem de Valak e questionam o interesse dos realizadores em trazer para o terror a mesma estruturação que a indústria hoje realiza com os filmes de super-heróis. Conciso, o featurette foi produzido antes do terceiro episódio de Annabelle e da inserção de A Maldição da Chorona.
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A Maldição da Chorona

Apesar de ser uma das mais frágeis incursões no universo da franquia Invocação do Mal, a fábula de horror A Maldição da Chorona é um competente exercício de manipulação da linguagem cinematográfica, tornando-se frágil apenas na concepção dramática de sua estrutura. Dirigido por Michael Chaves, cineasta que segundo relatos da equipe, bem com apresentado pelas imagens de bastidores dos featurettes, é um grande entusiasta. Concisos, mas devidamente elucidativos na apresentação de informações relevantes para compreensão das apostas deste universo, o material de bastidores inclui quatro tópicos: O Mito da Chorona, Por Trás da Maldição, Making-of de um Filme Monstruoso e Storyboards, além das habituais cenas deletadas para quem se interessa pelo que ficou de fora na edição final. Sem narração ou depoimento de membros da equipe técnica, os storyboards da produção são apresentados em paralelo com as cenas rascunhadas no material que serve como orientação para todos os envolvidos nos bastidores, em especial, a direção de fotografia, o design de produção, bem como no trabalho do diretor. É um featurette por nos mostrar como o planejamento é algo crucial para o desenvolvimento da narrativa escrita no roteiro.

Em O Mito da Chorona, os atores da linha de frente retratam o mito e suas ressonâncias em alguns países da América Latina. A mulher que chora e a mulher das lamentações é como a Chorona pode ser definida nesta linha folclórica hispânica que segundo um dos entrevistados, remete ao tempo de Cortés em seu processo de colonização do continente. Marisol Ramirez, intérprete da mulher que segundo a lenda, afogou os filhos para se vingar do marido que a tinha abandonado por outra pessoa mais jovem e atraente, alega que em sua formação, conhecia o mito por outro nome, “La Tulivieja”, personagem que possui mesma base estrutural do mito da Chorona, representada em sua cultura que mescla os panamenhos com os porto-riquenhos, matrizes integrantes de sua família. Ao longo dos relatos, ficamos sabendo que a mulher que lamenta pelos filhos e vaga assombrando famílias alheias é semelhante ao que conhecemos por aqui como Bicho-papão.

Se uma criança é muito teimosa ou vai ser punida pelos pais/responsáveis, torna-se muito comum ouvir expressões do tipo “se não se comportar, a Chorona vem pegar você”. No featurette Por Trás da Maldição, Linda Cardellini conta como ficou assustada por alguns dias, enquanto lia o conteúdo do roteiro. Ela, juntamente com outros membros da equipe, revela que parte do desenvolvimento satisfatório na produção do filme veio do entrosamento dos envolvidos, grupo de pessoas constantemente preocupadas com a pesquisa para ser o mais fidedigno possível ao universo que se propunham a radiografar por meio de uma narrativa de terror. Ademais, Melaine Jones conta as peculiaridades na análise de documentos e visitas para a elaboração do detalhado design de produção de A Maldição da Chorona, filme que tal como todos os pertencentes ao universo em questão, compõem um feixe cuidadoso de elementos visuais e sonoros. Ambientada em 1973, a história traz cenografia e direção de arte com tons dourados e terrenos, mescla de sensações que envolvem acolhimento, ao passo que também possuem pontos do estilo “casa assombrada”.

A água, na produção, é um elemento importantíssimo, pois serve como ponto de articulação entre a macabra entidade e o plano terrestre onde está situada a família de Anna. É o que acompanhamos em Making-of de um Filme Monstruoso, encerramento deste tópico de featurettes sobre A Maldição da Chorona. No material, o cineasta Michael Chaves fala sobre o visual distinto do filme, não focado apenas em efeitos visuais e especiais, com CGI utilizado apenas como recurso adicional, mas sem protagonismo na construção dos momentos de intenso terror. Quem ganha destaque ao longo do material extra é o maquiador Gage Munster, o responsável pela transformação da atriz Marisol Ramirez na Chorona, a entidade maligna amaldiçoada, em busca dos filhos de outras pessoas para suprir a sua lamentação condenada para a eternidade. Conforme os depoimentos, para a elaboração da maquiagem, o tempo diário médio era de 3 horas de trabalho. Um dos pontos de maior curiosidade é a feitura das lagrimas do monstro, de silicone, tingidas de preto, juntamente com o visual do figurino administrado por Megan Spatz, alusão ao mito da mulher de branco, com vestido de silhueta China Poblana e inspiração em peças do vestuário de Frida Kahlo, aqui enlameadas e com lodo para transmitir ao espectador o aspecto deplorável necessário para a apresentação de um monstro de tamanha proporção.

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