Entenda Melhor | Narratividade e Créditos de Abertura em Game of Thrones

A ficção audiovisual, seja no cinema ou na televisão, nos oferta elementos narrativos que vão além dos enquadramentos, iluminação, contra-planos que demonstram personagens em duelos dramáticos por meio de diálogos, design de produção sofisticado, figurinos deslumbrantes, dentre outros. O “miolo” da produção e seu desfecho são os pontos mais observados, mas há um determinado trecho que merece a nossa atenção, principalmente quando elimina qualquer postura burocrática e nos faz contemplar um panorama de significados.

A referência aqui, caro leitor, é a importância dos créditos de abertura de filmes e séries. Faremos uma breve excursão por diversas produções, mas o ponto central é a análise dos momentos iniciais de Game of Thrones, momento informativo que alcança importância narrativa semelhante aos acontecimentos inseridos no interior dos episódios. Desde a primeira temporada, ao longo de seus oito anos, a série investiu em mudanças nas aberturas, tendo em vista demonstrar visualmente algumas pistas que sinalizam o destino de casas e personagens ao longo dos próximos conflitos bélicos e interpessoais, marcas da adaptação televisiva do universo de George Martin, realizada pela HBO.

A ficção audiovisual, seja no cinema ou na televisão, nos oferta elementos narrativos que vão além dos enquadramentos, iluminação, contra-planos que demonstram personagens em duelos dramáticos por meio de diálogos, design de produção sofisticado, figurinos deslumbrantes, dentre outros. O “miolo” da produção e seu desfecho são os pontos mais observados, mas há um determinado trecho que merece a nossa atenção, principalmente quando elimina qualquer postura burocrática e nos faz contemplar um panorama de significados.

Breve História dos Créditos e Aberturas no Cinema e na Televisão

Traçar um panorama das significativas aberturas ao longo da história da ficção audiovisual é uma missão que às vezes não contempla todos os casos merecedores de nossa atenção. Por isso, desde já, esclareço que as obras comentadas nesta reflexão estão longe de ocupar um lugar de exclusividade, tampouco são as listadas de maneira hierárquica. São apenas exemplos vindos de exposições audiovisuais mais recentes. Um dos casos é bem clássico. Como esquecer das entradas triunfais do agente James Bond na franquia 007? No sexto episódio da trajetória de Jason em Sexta-Feira 13, os realizadores fizeram uma divertida abertura em homenagem ao clássico da espionagem, já estabelecendo em seus primeiros momentos que a renovação da série viria nos trilhos da autoparódia.

A emblemática abertura de 007 e a paródia realizada no sexto filme da franquia Sexta-Feira 13

Outro caso de abertura sensacional é a sequência da imagens realizadas no filme O Quinto Poder, cinebiografia sobre Julio Assange, idealizador do Wikileaks. Em meio aos nomes dos integrantes do elenco e da equipe de produção apresentados por uma tipografia discreta, podemos observar a evolução da história da informação. Dos pergaminhos aos primeiros impressos, dos jornais aos televisores, dos computadores aos dispositivos móveis, fazemos uma breve viagem pelo universo midiático com ilustração dos principais suportes que demarcam a história do compartilhamento de informação da humanidade.

Já é convenção a seleção da abertura de Watchmen, realizada pelo cineasta Zack Snyder, como um marco na história dos créditos narrativos relevantes como parte das explicações do filme em seu todo. Com referências que nos remetem aos mais diversos fatos históricos entre os anos 1940 e 1980, ao som de Bob Dylan, o trecho flerta com a Guerra do Vietnã, a morte de JFK, a reeleição de Nixon, a chegada do homem à lua, dentre outros fatos marcantes na trajetória do mundo polarizado no pós-guerra.

Como já observado, essenciais para o efeito persuasivo que permite a entrada do espectador na história a ser contada, os créditos se dividem tradicionalmente em dois tipos: o principal e o secundário. Alguns secundários são adornados cuidadosamente, mas no geral, o foco é no principal, momento marcado pela necessidade de adesão dos espectadores para o que será contado nas próximas horas de projeção.

Abertura da animação mais famosa da TV: Os Simpsons

Como não amar as aberturas a cada temporada de The Simpsons? Margie no supermercado com a bebê, Lisa e seu inseparável saxofone, Bart dando exemplo de comportamento inadequado, Homer e suas desastrosas ações no ambiente de trabalho. Tudo isso é repetido a cada ano, somado aos demais personagens e situações do momento. Em The Walking Dead, as temporadas modificam as suas aberturas e revelam, aos espectadores, o destino dos personagens e dão algumas pistas de suas próximas ações e conflitos. American Horror Story, surpreendente em seus primeiros dois anos, não fornece pistas como Game of Thrones e a série de zumbis citada anteriormente, mas funcionam como narrativa que permite, ao público, adentrar no clima da atmosfera sombria proporcionada pelos episódios assustadores.

O minimalismo de Saul Bass, também presente em Psicose e Intriga Internacional  

Os créditos evoluíram juntamente com a indústria. Nos anos 1950, por exemplo, Alfred Hitchcock e Otto Preminger investiram em desenhos de produção que permitiam o surgimento de aberturas mais discretas e intimistas, o que aumentava a carga simbólica do que era transmitido. Saul Bass foi um dos grandes nomes do período. Em meio aos excessos que eram produzidos na época, o designer investiu no minimalismo e conseguiu ganhar projeção até os dias atuais, constantemente citados quando o assunto é crédito de abertura. Intriga Internacional, Psicose e Um Corpo Que Cai são exemplos formidáveis, antecessores do que seria produzido posteriormente com os avanços tecnológicos no campo do audiovisual.

Sabemos que muitas vezes, não temos paciência para assistir aberturas a toda exibição de episódios. Mas há alguns casos que para o espectador, a abertura é parte tão integrante que contemplá-la faz parte do “ritual”. Mad Men é um caso emblemático. Uma representação do personagem de Don Draper, bem sucedido profissionalmente, mas detentor de um devastador segredo do passado, na abertura do programa que durou sete temporadas, observamos a sua derrocada do alto de um edifício comercial, em meio às demais peças publicitárias, numa representação da sua derrocada moral ao passo que seu arco dramático avança, rumo ao desfecho.

Um Olhar Analítico Para as Aberturas de Game of Thrones

Conhecida por conectar os lugares que caminharemos na série, compreendemos na abertura quem se interliga, por meio de uma condução visual erguida por engrenagens mecânicas e roldanas elaboradas com base na principal referência dos diretores de arte: o gênio renascentista Leonardo Da Vinci. O criador da série, David Benniof, queria desde o primeiro esboço, as conexões que acompanhamos nas oito temporadas. Para isso, contou com as colaborações de Hameed Shawkat, Angus Wall, Rob Feng e Chris Sanchez, alguns dos membros da imensa equipe técnica da produção de proporções visuais, tal como sabemos, gigantescas.

A tipografia fornece vida própria para as palavras. A música edificante de Ramin Djawadi prepara o público para a viagem que estão prestes a fazer, rumo aos reinos de florestas frondosas e colinas íngremes de Westeros. O movimento dos efeitos visuais, ajustados pela edição, transforma a abertura numa prévia dos acontecimentos que estão prestes a traçar o destino dos envolvidos nesta história de conflitos bélicos, amores proibidos, traições avassaladoras e simbiose de sentimentos em curto-circuito.

Em sua primeira temporada, a abertura centra as suas atenções em Winterfell, Porto Real, na  Grande Muralha e na área de Vaes Dothrak. Com a entrada de Stannis Baratheon na corrida pelo trono de ferro na segunda temporada, algumas localidades são adicionadas, tais como as ilhas de Pyke e Qarth. A terceira temporada traz Winterfell em chamas como representação visual, antecessora da cidade de Meeren que irá aparecer apenas no quarto ano, local onde Daenerys liberta os escravos e ganha mais pontos para a sua ascensão ao poder.

A abertura de Game of Thrones como preâmbulo revelador do destino de personagens e conflitos. 

A quinta temporada promoveu uma radiografia em Dorne, espaço ocupado pela família Martell, com foco também em Porto Real. A sexta temporada foca na ascensão narrativa da família Greyjoy, além de delinear o Ninho da Águia. No sétimo ano, os realizadores põem em destaque a Pedra do Dragão, local onde Daenerys vai arrematar pontas soltas em seu arco dramático. Há também a presença da velha cidade visitada por Sam durante as suas pesquisas reveladoras, destaque conflituoso de temporada seguinte.

A oitava temporada revela visualmente o que já sabemos, isto é, depois de tantos conflitos ao longo das demais batalhas, o foco da guerra pelo trono agora é entre Winterfell e Porto Real. Há a presença dos caminhantes brancos representadas por detalhes azulados, com mudança a cada episódio. Produzida pelo estúdio Elastic Productions, a abertura da temporada corrente passeia pelas criptas de Winterfell e representa também a queda da Grande Muralha.

O brasão da série traz um eclipse das casas dentro do astrolábio, agora focado em novas memórias, apresenta símbolos que nos remetem ao nascimento dos dragões de Daenerys, ao fatídico casamento vermelho e ao recente desastre da Queda da Muralha, este último, problema resolvido na primeira metade da temporada final. Basta saber agora como será a abertura do último episódio, desfecho de uma longa jornada repleta de perdas e danos.

Aos que ficaram interessados, deixo a sugestão de True Lies, Seven – Os Sete Pecados Capitais, Donnie Brasco, Moulin Rouge – Amor em Vermelho, Gattaca – A Experiência Genética. São os que consigo memorizar por agora. Você, caro leitor, colabore. Qual crédito de abertura você considera inesquecível?

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.