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Entenda Melhor | O Cinema de David Cronenberg

por Leonardo Campos
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David Cronenberg é o cineasta do corpo, da imagem e da tecnologia. Foi assim que o canadense teve a sua obra apresentada numa mostra retrospectiva realizada aqui no Brasil, em 2011, no entanto, essa é uma consideração geral das reflexões críticas em torno da obra deste diretor que goza dos privilégios de assinar uma das cinematografias mais peculiares da história do cinema recente. Também conhecido como o cineasta da “Nova Carne”, isto é, um realizador com visão sobre os novos corpos, orifícios e de complexo debate sobre a formação da identidade dos seres humanos, algo sempre muito além da superficialidade, com personagens fortes, diálogos firmes e coesos, estética apurada e conexão polêmica com os contextos históricos que permeiam o seu feixe de produção, ensaiado no final dos anos 1960 com Crimes do Futuro e Stereo, ampliado com a distribuição de Calafrios, o seu primeiro longa-metragem exibido no circuito das salas de cinema, filme que rendeu críticas acirradas e não foi devidamente compreendido em sua época. Era o começo de uma carreira que envolvia debates sobre a desestruturação das ordens sociais diante do comportamento de cientistas expressivos que mudavam os corpos. Logo depois, essas figuras ficcionais seriam modificadas por seus experimentos, bem como nós, espectadores, envolvidos na teia de entretenimento crítico deste realizador nada convencional.

No panorama geral de narrativas associadas ao cineasta, algumas com sua assinatura no roteiro, outras, escritas por dramaturgos geralmente competentes, o corpo é o palco para o espetáculo dramático. Algumas vezes com presença do grotesco, noutras com transformações mais psicológicas. Em ambas as perspectivas, o extremo se faz presente. Os personagens quase sempre são levados ao alcance do ápice da catarse em suas existências abaladas, mergulhados em tramas sobre identidades nem um pouco estanques, transformações corpóreas que modificam não apenas as dimensões físicas, mas os aspectos sociais e psicológicos destas figuras ficcionais que representam um cinema nem um pouco convencional. Numa entrevista concedida aos editores da tradicional revista Cahiers du Cinéma, Cronenberg afirmou que a sua obra é dividida em capítulos, num posicionamento que ajuda o terreno da crítica no processo de organização de sua carreira para fins editoriais, interpretativos, etc. Ele reforça o que nós, como espectadores de seus filmes, podemos observar enquanto evolução de temas e multiplicidade de debates que acabam sempre convergindo diante de temas relativamente semelhantes.

Em 1969, ele escreveu e dirigiu Stereo, suspense de 65 minutos sobre um grupo de pessoas submetidas aos experimentos de um projeto sobre “indução bioquímica”. Basicamente, os indivíduos perdem a capacidade de exercer o domínio de suas cordas vocais, mas passam a desenvolver estímulos para relações sexuais telepáticas. É um ensaio para as suas preocupações em torno da manipulação tecnológica e cientifica do corpo humano, bem como a análise do comportamento quando o assunto é a sexualidade, terreno profícuo em sua cinematografia. No ano seguinte, Crimes do Futuro, também escrito e dirigido pelo cineasta, uma prática constante ao longo de sua carreira autoral, apresentou ao público ao longo de 70 minutos, uma curiosa narrativa futurista sobre uma doença chamada “mal de Rouge”, responsável por ceifar a vida de um montante considerável de mulheres que utilizaram determinada linha de cosméticos. O espectador, diante de uma narrativa com estética gélida e inquietante, descobre que há por detrás do mistério e da morte das mulheres uma estranha seita de pedófilos que pretende abusar das jovens garotas que já podem engravidar, haja vista a ausência das mulheres mortas aos milhões, numa trama que pavimentou um estilo ainda embrionário para o diretor.

Cronenberg Entre as Profícuas Décadas de 1970 e 1980  

Em Calafrios, um parasita capaz de regenerar qualquer órgão do corpo humano, criado por um cientista perturbado, torna-se a base para a devastação da humanidade, haja vista a transformação das pessoas que gravitam em torno da situação em criaturas semelhantes aos zumbis, alienadas diante do experimento que ganha dimensões catastróficas. O verdadeiro motivo da experiência era livrar a humanidade da racionalidade que integra o nosso processo civilizatório. Ao passo que a situação perde o seu rumo, a sexualidade e a agressividade se unem para que David Cronenberg possa criticar os valores hipócritas da sociedade canadense, com extensão para uma análise global da asfixia que engendra as relações contemporâneas, mediadas por valores que pregam o individualismo e decoro. Enraivecida na Fúria do Sexo, lançado dois anos depois, em 1977, foi a sua narrativa subsequente, horror sobre uma jovem submetida aos tratamentos numa clínica estética, após sofrer um grave acidente de trânsito. Numa experiência que mescla tecidos humanos e reconstituição intestinal, a protagonista se transforma numa espécie de vampira contagiosa, sedenta por uma nova dieta nada convencional.

Em Filhos do Medo, produzido na ocasião de seu conturbado divórcio, David Cronenberg pode expurgar “o seu lado da história” pessoal, ao apresentar para o público a aterrorizante trama sobre os experimentos de um cientista escritor, autor do bestseller A Forma da Raiva, obra que discute as suas teses sobre a transformação da raiva humana em manifestações físicas no corpo humano, num festival de feridas, cistos, tumores, dentre outras manifestações que descobriremos ser apenas a superfície do horror maior a ser revelado mais adiante, algo que envolve uma mulher com profundo ódio do marido. Ela é a responsável por gerar as criaturas que ao longo dos 90 minutos da narrativa, fazem o “trabalho sujo” que é ceifar qualquer um que gravite em torno de sua pequena filha e marido. Ao executar esse horror de primeira linha, um dos melhores momentos de sua carreira, Cronenberg continua a sua discussão sobre ciência, tecnologia e seus desdobramentos no corpo e comportamento humano. A gravidez, por sinal, faz-se presente em Scanners – Sua Mente Pode Destruir, de 1981, produção focada na manipulação bioquímica da humanidade, manipulada por grandes corporações e interesses que vão além dos cientistas de seus filmes anteriores. Aqui, o pensamento pode ser escaneado. Horripilante, não é mesmo?

O filme foi uma antecipação de Videodrome – A Síndrome do Vídeo, de 1983, complexo e denso em sua reflexão sobre os impactos da mídia na vida cotidiana. As telecomunicações funcionam na trama como uma comprovação das ideias de McLuhan sobre “os meios de comunicação como extensões do homem”. Conspirações empresariais, tumores provenientes da alienação do público diante da mídia televisiva e um protagonista que trabalha como programador de um canal, mas se encontra entediado diante do marasmo de sua grade compõem os conflitos desta produção sobre um universo praticamente surrealista, tomado por mistério, medo e transformações brutais, temáticas que ganharam continuidade em A Mosca, de 1986, adaptação do conto de George Langelaan, já transformado em filme anteriormente. Na produção, transformada pela crítica e público numa alegoria para a AIDS, aborto, dentre outros temas, o excêntrico protagonista trabalha numa máquina de teletransporte e numa situação inesperada, ao se colocar como experimento, não percebe que há uma mosca doméstica a lhe acompanhar, situação aparentemente pueril, mas que se desdobra em DNA mesclado e transformações corporais que dão origem ao ser grotesco da narrativa, alegoria também para mutações corpóreas promovidas por microrganismos que ainda assustam a humanidade que se diz potencialmente evoluída.

Anteriormente, o cineasta comandou o roteiro de Jeffrey Boam, na adaptação de A Hora da Zona Morta, de 1983, trama inspirada no universo de Stephen King. O filme trata do protagonista que entra em coma por cinco anos, após um acidente de carro. Ele descobre o poder da clarividência e capaz de observar acontecimentos do passado e do futuro, torna-se também uma testemunha involuntária de situações nada agradáveis. Ao também flertar com a tecnociência, a produção trata da “zona morta” da percepção do protagonista e tece uma poderosa crítica política e social, em especial, ao imperialismo estadunidense, território que sedia a narrativa. Em 1988, o cineasta entregou um de seus filmes mais luxuosos no que tange aos mecanismos da “atuação”, também conhecido como desempenho dramático, aqui, representado pelo talentoso Jeremy Irons. Pungente em sua análise do comportamento humano levado aos extremos, Gêmeos – Mórbida Semelhança nos apresenta uma densa história de horror sobre irmãos ginecologistas que adentram numa profunda crise depois que uma mulher se estabelece entre eles e amplia as suas dimensões sobre desejos, sexualidade, obsessão, pulsão de morte, etc. Os instrumentos criados por um deles para infligir no corpo feminino o seu sentimento de vingança é um dos momentos mais arrepiantes da carreira do cineasta, também desafiado ao gerenciar a sua equipe técnica, em especial, na direção de fotografia e edição, ao ter Jeremy Irons como dois personagens.

Cronenberg Entre o Homem e Suas Perturbações Psicológicas

Em Mistérios e Paixões, de 1991, o cineasta comanda a tradução intersemiótica do romance Almoço Nu, de William Burroughs, um dos escritores que mais influenciaram a carreira do diretor. Na complexa adaptação do livro, tomada pela construção de uma eficiente atmosfera noir, o protagonista da trama é mergulhado numa situação que envolve assassinato e logo adentra por uma labiríntica travessia repleta de alucinações, tal como a trajetória do escritor que serve como ponto de partida, um dos representantes da Geração Beat, conhecido por ter declarado a experimentação de todos os narcóticos possíveis ao longo de sua vida extensa. Nos desdobramentos de M. Butterfly, de 1993, mais uma vez temos Jeremy Irons num desempenho dramático formidável ao interpretar um diplomata francês que ao chegar em Pequim, encanta-se com uma diva que interpreta a conhecida ópera homônima de Giacomo Puccini. A ambiguidade da narrativa flerta com a fluidez da identidade e as potencialidades do desejo na transformação de trajetórias que beiram ou despencam diante do trágico para preencher as suas ânsias.  O próximo projeto, Crash – Estranhos Prazeres, de 1995, adaptou outro romance. Desta vez, Cronenberg leu o livro de J. G. Ballard, uma bizarra narrativa sobre o fetiche de pessoas que se sentem atraídas por acidentes automobilísticos. Mais uma vez, o cineasta tratou o tema da sexualidade humana e suas complexidades, numa trama despudorada e polêmica.

Mais adiante, Cronenberg retomou o clima de Videodrome – A Síndrome do Vídeo, tendo como foco a realização de ExistenZ, o filme de sua carreira que representa as ansiedades sociais na chamada virada do milênio, isto é, 1999, um ano bastante peculiar na história do cinema recente. Na produção, os debates sobre realidade e virtualidade adentram a seara dos games, numa reflexão bastante radical do cineasta no que diz respeito ao advento do “novo sujeito”, situado na nesta fase da era eletrônica, aparentemente apagado pela falta de fronteiras mais delineadas entre o que se convencionou a pensar como humano e as possibilidades de compreensão da matéria diante do mergulho profundo das sociedades no virtual. Logo mais, o labirinto de complexidades da memória se estabelece como o marco de sua entrada nos anos 2000. A esquizofrenia é o ponto nevrálgico de Spider – Desafie a Sua Mente, drama sobre o retorno de um jovem ao local de seu nascimento, uma viagem ao passado construído por uma atmosfera nebulosa, tomada por incertezas, ambiguidades e sensação claustrofóbica de aprisionamento dentro das armadilhas da própria mente do protagonista que desfia teias em torno de sua história, nos fazendo mergulhar nas dubiedades que demarcam a sua sofrida convivência em família, marcada pela relação praticamente edipiana com a sua mãe.

Identidade, Capitalismo Tardio e Outras Leituras do Ser Humano

Os próximos projetos marcam a parceria do cineasta com Viggo Mortensen. Em Marcas da Violência, de 2005, um homem pacato é obrigado a resgatar características camufladas de sua identidade anterior, tendo em vista salvar a sua família de uma situação cada vez mais tensa depois que um assalto acaba com a morte dos criminosos em seu estabelecimento comercial, algo que desperta não apenas no personagem, mas nas testemunhas, uma visão diferenciada do que se tinha sobre o tranquilo Tom Stall. Seu passado vem com força total lhe fazer algumas cobranças e será preciso retomar desatar nós que impedem o protagonista de avançar em sua nova vida, aparentemente intacta durante muitos anos, até o indesejado acontecimento. No desenvolvimento de Senhores do Crime, o corpo humano é mais metáfora para debates sobre identidade e territorialização. É uma narrativa que envolve a máfia russa na Inglaterra contemporânea, num feixe de ligações entre uma enfermeira, um dono de restaurante e uma jovem traficada para atender aos interesses da prostituição. Grávida, ela foge do cativeiro e ao chegar num hospital, deixa o seu diário com uma enfermeira, mulher que decide levar a história mais adiante e compreender o que está por detrás do trágico destino da garota.

A crítica ao capitalismo tardio veio com o verborrágico Cosmópolis, de 2012, adaptação do romance homônimo de Don DeLillo sobre um jovem rico interessado em realizar o seu habitual corte de cabelo. Situado durante um tempo considerável dentro de sua limusine, a narrativa reflete, dentre tantos temas, o desespero de um homem que domina tudo que pode com o dinheiro e o poder que vem de seu status, mas que não consegue gerenciar as suas inseguranças psicológicas e o caos do destino que lhe pregou uma peça nada desejada: a sentença de morte diante de um problema de saúde sem resolução. Bastante voltado ao tecnológico, haja vista o seu design de produção caprichada para exaltar a temática, a produção sucedeu o encontro entre Freud e Jung na cinematografia de David Cronenberg, exposto em Um Método Perigoso, de 2011. Na trama, o mentor e o seu aprendiz entram em discordância depois que uma mulher passa a dividir os interesses de ambos, numa estrutura que salvaguardadas as devidas proporções, nos faz lembrar bastante alguns conflitos de Gêmeos – Mórbida Semelhança. No filme, o diretor debate inconsciente coletivo e deflagra dramas humanas dentro de algo maior, isto é, as celeumas do Holocausto que geraram cicatrizes consideráveis na história da humanidade, traumatizada pelos conflitos potencialmente destrutivos do século XX.

Cronenberg, um escritor?

Em 2014, o cineasta publicou o seu primeiro e até então, único romance, Consumidos. E foi também o período de finalização e ajustes para o lançamento do ácido e contundente Mapas Para as Estrelas, trama que critica o lado nocivo da cultura das celebridades: há uma família disfuncional, capitaneada por um terapeuta de artistas reluzentes na mídia, mas psicologicamente destroçados, ambiente que também abriga uma jovem garota recém-saída de uma clínica psiquiátrica. Envolvida com um motorista que tem como clientes uma atriz que vive atormentada pelo desejo de interpretar o papel desempenhado por sua mãe, também celebridade, num filme dos anos 1960, desejo que ao encontrar um longo desvio, transforma a sua vida em puro tormento. É a contribuição de Cronenberg na crítica ao sistema de produção cinematográfica que expõe beleza na superfície, mas é engendrado por dinâmicas internas apodrecidas, representadas nos egos inflados de seus personagens e no sofrimento cotidiano destas criaturas que precisam encenar a vida constantemente, esvaziada de sentido e desprovida de qualquer menção de bem-estar que não seja ilusório e até mesmo fantasmagórico, como sugerido em breves passagens que tentam uma inclinação metafísica, mas não entregam material suficiente para nos fazer refletir a produção como algo além da instabilidade psicológica destas figuras.

Numa entrevista relativamente recente, David Cronenberg alegou que estava prestes a declarar sua aposentadoria no mundo do cinema, haja vista a dificuldade para conseguir financiamento para os seus filmes. Se assim for, o cineasta pode se gabar de ter entregado ao público uma cinematografia brilhante, com seus momentos medianos ou questionáveis, mas no geral, formada por narrativas que ajudaram a sociedade contemporânea na reflexão sobre os mecanismos que engendram as nossas relações, seja por abordagens internas, psicológicas, voltadas ao complexo estudo da identidade, seja pela relação da humanidade com a tecnologia, um dos pontos mais proeminentes de toda a sua trajetória, sempre preocupada em debater o lugar do ser humano no mundo que habita e transforma. Ele é o cineasta do entretenimento inteligente, sagaz, nalguns momentos, um pouco hermético, mas geralmente acessível e preocupado em estabelecer diante de seu público, uma narrativa que ao ser amada ou odiada, não passará incólume pelos mecanismos que acionam as emoções de quem se dedica ao exercício analítico ou apenas (e supostamente) diletante diante de seus filmes.

Participações Especiais e Outros Projetos

Cronenberg também já flertou com breves atuações ao longo de sua carreira. Em A Mosca, foi um dos ginecologistas que fazem um parto no desfecho da trama. Também esteve em outros de seus filmes, além de pequenas participações como um empresário em Jason X, um padre em Ressurreição, além de passagens em Um Sonho Sem Limites e na série Alias. Na posição de cineasta engajado, o canadense participou de muitos congressos, encontros e demais eventos voltados aos debates sobre temas ligados aos temas de sua cinematografia. Cronenberg debate constantemente, em público, a importância do subsídio estatal para o desenvolvimento de cinematografias nacionais que possam ter algum mecanismo de enfrentamento diante do domínio hollywoodiano no sistema de distribuição global. Com alguns curtas-metragens em seu respeitado currículo, o realizador esteve na coletânea Cada Um Com o Seu Cinema e já produziu material exclusivo para o Festival de Amsterdã. Filho de uma compositora e de um escritor que também atuava como editor, David Cronenberg desenvolveu inicialmente estudos em Botânica e demonstrou interesse pela vida dos insetos no preâmbulo de sua formação intelectual, num passeio que em determinado trecho, incluiu ensaios com uma câmera que filmava em 16 mm. Do ensaio, surgiram as dissertações e teses audiovisuais, vislumbradas neste panorama que pretendeu perfazer de maneira breve, mas crítica, o percurso deste cineasta talentoso e singular.

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