Entenda Melhor | O Cinema de Wes Craven

Habitamos uma esfera pública de diálogos cada vez mais interessada em desconstrução de rótulos, apesar de uma grande massa ainda aderir aos processos de classificação facilitadores para a compreensão de determinados fenômenos sociais. Analisar o legado de um cineasta com quase quatro décadas de atuação é um desafio, pois acidentalmente podemos cair em determinados rótulos, estereotipando a análise da experiência alheia. Com Wes Craven, por sua vez, essa preocupação não é ponto nevrálgico do que se propõe enquanto breve discussão sobre a sua permanência no imaginário dos filmes de terror. Wes Craven foi sim, um dos mestres do horror, tal como Mario Bava, Dario Argento, Steven Miner, Sean S. Cunningham, John Carpenter, dentre outros, salvaguardadas as suas devidas proporções comparativas.

Nascido em Cleveland, nos Estados Unidos, filho de pais devotos da Igreja Batista, o cineasta teve bastante influencia religiosa em seus primeiros anos de vida, apesar de na vida adulta ter se declarado ateu, alguém que “não acredita formalmente em Deus”, pois “as religiões mais fizeram mal as pessoas do que o bem propriamente”. Falecido em agosto de 2015, mesmo mês de seu nascimento, Wes Craven iniciou a sua paixão por filmes ainda na adolescência, como espectador, indo para o processo criativo alguns anos depois. Antes da carreira cinematográfica, Craven foi professor de Língua Inglesa na Faculdade de Westminster e atuou no setor de Humanidades da Universidade de Clarkson, em Nova Iorque, experiências anteriores aos filmes pornográficos que trabalhou como membro da equipe técnica.

Steve Miner, Mario Bava, Sean S. Cunningham, John Carpenter, Dario Argento e Wes Craven: mestres do horror e do macabro entre a Itália e os Estados Unidos. 

Com formação em Psicologia, Filosofia e Letras, aplicou os aprendizados e as leituras em seus filmes, com produções focadas nas inquietudes que marcaram o seu amadurecimento intelectual, afinal, Wes Craven viveu as profundas transformações sociais de sua época, isto é, os badalados anos 1960 e 1970, atuou já com prestígio nos anos 1980, outra era de mudanças bruscas nos comportamentos, além de ter conseguido atravessar os anos 1990 e 2000 com o devido passe, atento aos processos de renovação e cumprimento da agenda das novas gerações, tal como fez com Kevin Williamson em Pânico 4. Inicialmente não tinha interesse em trabalhar com o gênero que marcou a sua vida, o terror, mas as coisas não caminharam bem como o planejado, o que nós, espectadores, agradecemos.

Sean S. Cunningham, um dos idealizadores da franquia Sexta-Feira 13, foi um dos seus parceiros de trabalho ao longo dos primeiros anos de trabalho. Depois do primeiro filme da saga de Ghostface, o cineasta trabalhou ao lado de Kevin Williamson em Pânico 2, começou a esboçar Pânico 3, mas por diferenças criativas com a companhia Weinstein, Ehren Kruger entrou na jogada, num retorno ao lado de Williamson no quarto filme da franquia, a sua última realização cinematográfica. Trabalhou como editor de som, sua primeira função, para mais adiante, assumir outras posições dentro do esquema de produção.

Alguns filmes com Wes Craven na produção executiva. Em Paris, Eu Te Amo, o cineasta assumiu a direção de uma das histórias. 

Em Wes Craven – O Homem e Seus Pesadelos, biografia assinada por John Wooley Wiley, construída com base em entrevistas, recortes de imprensa, dentre outras fontes, somos informados que o cineasta trabalhou como editor de uma revista literária na faculdade, esteve nos bastidores do clássico Garganta Profunda, assinou o roteiro de Pulse, em 2006, versão estadunidense de um filme de horror oriental. Diretor de A Hora do Pesadelo e do sétimo filme de Freddy Krueger, Craven produziu o terceiro filme, apesar de seu afastamento criativo diante dos rumos tomados pela franquia. Conhecido por seus filmes que mesclam pesadelo e realidade, o cineasta também teve a sua parcela de doçura ao assumir a função de diretor entre os 22 idealizadores de Paris, Eu Te Amo, além de Música do Coração, o típico drama de Meryl Streep.

Craven em cena: participação em séries televisivas e na imagem da atriz Kristen Bell, uma cena de Pulse, refilmagem de horror oriental sob a sua assinatura dramática.

Tendo a metalinguagem como parte importante de seu processo criativo, Wes Craven também atuou em suas produções, com pequenas participações ao estio Alfred Hitchcock. Noutras produções, além dos documentários sobre o subgênero slasher ou historiografias do gênero horror, Craven esteve como ele mesmo em duas séries televisivas. Em Castle, no episódio 17 da 5ª Temporada, os personagens precisam investigar o misterioso caso de uma jovem que morre três dias após assistir um DVD mal assombrado. Na série Boston Legal, a sua participação é semelhante, exatamente no episódio 26 da 2ª Temporada. Assim, Craven brincou de ator e escreveu histórias instigantes, mas o posto que o manteve fixo e respeitável foi a cadeira de diretor, numa orquestra sem fim de horror e medo.

Bergman, por Craven: Crítica Social, Sátira Burguesa e O Legado de Aniversário Macabro 

Ao lado de Sean S. Cunningham, Craven recriou a atmosfera já angustiante de Bergman em A Fonte da Donzela. Assim, trouxe de maneira sádica e crua o debate sobre o estupro e a violência. As críticas na época diziam que Wes Craven dificilmente teria outra chance no cinema, haja vista a absurda quantidade de escatologia e horror em seu Aniversário Macabro. Na trama, um plano fechado apresenta a caixa dos correios da família Collingwood, moradores da última casa à esquerda de uma rua. Os pais da jovem Mari prepararam uma festa de aniversário para a jovem, mas ela decide sair com sua amiga para um show de rock numa região próxima.

O horror estampado na violência brutal de Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos…

No caminho, elas são abordadas por uma gangue de malditos, sádicos que colocam para fora toda a maldade e sujeira humana possíveis. Humilhadas e torturadas, as jovens são submetidas ao pior, num dia fatídico em suas vidas. O roteiro arruma uma maneira de leva-los até a casa da família, o que culmina na inicial hospitalidade, seguida da descoberta do crime. Agora, os pais da jovem brutalmente assassinada partem em busca de vingança, numa orquestra de dor e morte repleta de muito sangue e brutalidade. No bojo das interpretações, sempre nos debatemos com os conflitos no Vietnã e sua dissipação no imaginário social.

Valeu a pena? Questiona-se Wes Craven, em depoimento sobre o filme, ao lado de Sean. S. Cunningham. Para o cineasta, esta foi a guerra que mais produziu imagens, algo que trouxe para as pessoas protegidas em seus lares, as ironias da violência que estabelecia os conflitos bélicos da época. Em sua opinião, o filme tinha que seguir o olhar do documentário, isto é, não parar de filmar. O que isso quer dizer? Havia um roteiro a ser encenado. Quando o elenco começasse a improvisar, a câmera jamais era desligada. Muitas cenas que foram para a edição final trouxeram estes momentos. O cineasta alega, neste mesmo depoimento, que nunca mais teve a oportunidade de rever a sua produção, invasiva, crua e incomoda em seu ponto de vista.

O horror estampado nas refilmagens de Quadrilha de Sádicos (2006) e Aniversário Macabro (2009)

Semelhante ao que ocorreu com o filme de Leatherface e com O Exorcista, o filme criou uma onda impactante na cultura da época. Pessoas vomitavam, passavam mal, um homem chegou a ter um ataque cardíaco na sala de cinema, local que também às vezes sofria a invasão de pessoas revoltadas e decididas a cortar os negativos. Muitos, conforme depoimento de Craven, ficavam irados com a recepção da família, inocente nos primeiros momentos de recepção dos mesmos bandidos que ceifaram a vida de sua filha. Era uma época de revolta coletiva. Aniversário Macabro, tal como Quadrilha de Sádicos, apresentou, de certa maneira, duas famílias em conflito: os membros da Collingwood e os psicopatas da estrada. Por conta de sua formação acadêmica, Craven alega que o seu filme é uma espécie de tese, pois “até você estripar alguém e ver suas entranhas, as pessoas não se dão conta da real falta de glamour do corpo humano, sendo a nossa verdadeira essência a mente e o espírito”.

Diante do exposto, o seu filme é um retrato dos tensos anos 1970, mas que para Wes Craven, retrata a maldade semelhante e que já está na história da humanidade há eras. Ele cita seu aprendizado bíblico, na história de Caim e Abel, além de falar do Iraque, zona de conflito onde as pessoas precisam lidar com a violência cotidianamente, algo que na “América”, as pessoas geralmente contemplam nos filmes, vários, inclusive, focados na temática. A Vingança de Jennifer, por exemplo, também trabalhou com humilhação e vingança em doses tão pesadas quanto o filme de Craven. Alguns anos depois, tomado por muitos elementos de O Massacre da Serra Elétrica, Wes Craven escreveu e dirigiu a sua própria história de canibalismo e selvageria numa região desértica dos Estados Unidos, nação que há eras já não demonstrava a segurança prometida aos seus habitantes.

De Quadrilha de Sádicos aos pesadelos na Rua Elm Street  

Em 1977, Quadrilha de Sádicos trouxe uma narrativa que mais uma vez, flertava com choques culturais, numa colcha de tensão e violência que arregimentou os impactos da guerra e a desconfiança nas instituições. A mensagem era clara: a violência nos dominou e a humanidade se perdeu no processo de transformações sociais da época. Mais adiante, Wes Craven investiu no telefilme Verão do Medo, lançado em 1978, produção que veio logo depois de Quadrilha de Sádicos. Com Linda Blair, o filme apostou no imaginário da menina possuída para retratar, de maneira mais amena, elementos sobrenaturais que começam a pairar numa família, com o velho conflito entre o bem e o mal.

Monstros de Craven: de Ghostface à Samantha, o cineasta criou um amplo painel de criaturas abomináveis. 

Ao longo de Benção Mortal, em 1981, nos deparamos com o ocultismo e os conflitos religiosos, temas presentes em algumas produções de Wes Craven, o homem que como apontado, era ateu e não acreditava em fundamentalismo religioso, prática que demarcou a sua base familiar rigidamente religiosa. No filme, uma mulher perde o marido em seu primeiro ano de casamento. Mal vista pelo sogro, homem que lidera uma seita religiosa e acredita que a nora está possuída por uma determinada entidade, a trama versa sobre fanatismo e especulação imobiliária numa região rural cheia de mistério e obscurantismo.

O Monstro do Pântano demarca o segundo personagem da DC Comics adaptado para o cinema. Na trama, um cientista explode junto com o seu laboratório. O acidente, provocado por um colega de trabalho que desejava a sua esposa, acaba por dar errado. Ao invés de mata-lo, a explosão mescla produtos químicos com plantas da proximidade, situação que o transformou numa criatura vegetal ambulante, história que recentemente teve versão televisiva já cancelada em sua primeira temporada. Encurralado no pântano, ele precisa da atenção de sua esposa, mas como ela poderia lidar com um ser tão monstruoso?

A continuação de Quadrilha de Sádicos e O Monstro do Pântano: equívocos de uma mente brilhante…

Quadrilha de Sádicos 2, mergulhado na onda slasher dos anos 1980, apresentou uma das sequências mais descartáveis da história do horror. O pior: realizada pela mesma mente da primeira incursão. Personagens vazios e enredo vago demonstraram total falta de criatividade, aparentemente direcionada para a realização do intrigante A Hora do Pesadelo, no mesmo ano, filme de surgimento de Freddy Krueger, um dos personagens mais icônicos da cultura pop contemporânea, arquirrival de Jason no futuro.

Freddy Krueger e Ghostface: Duas Faces do Terror ou Slasher de Grife

Sem grandes referências estéticas, Wes Craven é um mestre na elaboração de enredos intrigantes. O resto a sua equipe dá conta. Não que os enquadramentos e edição da franquia Pânico, todos sob a sua supervisão, sejam meros registros audiovisuais. As suas sequências de abertura geralmente são marcantes e bem conduzidas, além dos ótimos planos gerais e sequências de perseguição em Pânico 2 e O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger. Dono de uma filmografia cheia de altos e baixos, Wes Craven ficou para a eternidade por conta de seus dois monstros mais populares: o sobrenatural Freddy Krueger e a armadura de Ghostface, invólucro para monstros de carne, osso e muita sede de vingança.

A final girl da franquia A Hora do Pesadelo e seu algoz Freddy Krueger, nos filmes de 1984 e 1993: no sétimo capítulo, Wes Craven interpreta ele mesmo, criador da franquia que observa o seu monstro a sair dos filmes para a realidade. 

Com o lançamento de A Hora do Pesadelo em 1984, Wes Craven apresentou ao imaginário do cinema um novo e bem delineado monstro para a cultura pop: Freddy Krueger, personagem que ao lado de Jason Vorhees e Michael Myers, completou a “Santíssima Trindade” do Horror nos anos 1980. Oriundo de experiências predecessoras na vida do diretor, o personagem é a anarquia em forma de monstro. Ao atacar as suas vítimas no mundo dos sonhos, espaço que a mãe de Craven o ensinou, desde criança, ser um lugar onde podemos circular apenas por conta própria, o antagonista se torna potencialmente mais assustador que os mascarados que naquele ano, já estavam estabelecidos na cultura pop e tinham uma lista de matança gigantesca, oriunda de tramas previsíveis, destino que a franquia do próprio Freddy Krueger seguiu, pois com exceção do primeiro e sétimo filme, executados por Craven, as demais sequências são desatinadas e descartáveis.

Em 1993, ocasião do lançamento do filme que seria o desfecho da franquia, a metalinguagem é tão bem trabalhada que os seus reflexos respigam em Pânico, realizado três anos depois. Na produção, Craven interpreta a si mesmo. A final girl Nancy (Heather Langenkamp) também representa a si mesma, numa narrativa que reflete o filme dentro do filme, com as coisas reais acontecendo conforme a ordem do roteiro. É um dos melhores usos da linguagem já vistos no cinema, pois cada detalhe é pensado sem depender de coincidências, além do ritmo narrativo dinâmico e rico em pormenores. Robert Englund está ótimo, como sempre esteve em seu personagem maligno, e a dinâmica entre sonho e realidade nos faz esquecer o que ocorreu entre o segundo e o sexto capítulo da franquia.

A final girl da franquia Pânico em seus quatro filmes e com o mestre em direção nos bastidores…

Pânico, que chegou a ser interesse de Oliver Stone, ficou entre Kevin Williamson e Wes Craven. O filme, tal como sabemos, retrata a saga de Sidney Prescott (Neve Campbell), jovem aterrorizada por segredos do passado de sua mãe, personagem amaldiçoada, semelhante à sina de Cassandra na mitologia grega. Ao lado de Gale Wheaters (Courteney Cox) e Dewey (David Arquette), enfrentou o encapuzado em quatro ocasiões. No primeiro filme, os clichês do slasher foram reinventados e turbinados, colocados como linguagem e parodiados concomitantemente. Sem perder a mão, em Pânico 2, Craven e Williamson fazem uma revisão geral dos impactos da violência no cinema e refletem sobre o velho debate sobre continuações, isto é, se são ou não capazes de superar o “original”.

Em Pânico 3, a trama é levada para Hollywood e supostamente finalizada, num roteiro que conectou os três filmes desde as suas bases. Após um intervalo de 10 anos, em Pânico 4, a dupla Craven e Williamson se juntou para uma quarta produção, algo que as pessoas acreditavam ser o início de uma nova trilogia. Não rolou, pois o cineasta faleceu em 2015, além do filme, injustamente, não ter faturado as cifras para justificar outra realização no universo da franquia, transformada numa série insossa logo adiante. Com o mal dentro de sua própria família, a heroína Sidney enfrentou o seu monstro que representou seu pesadelo na vida real, num encerramento digno com destaque para as novas mídias e a banalização da violência na era da virtualidade.

Demandas Industriais: Zumbis, Possessões, Psicopatas, Lobisomens e Outros Monstros

Entre Freddy Kruger e Ghostface, Wes Craven tentou emplacar com outras histórias, num alcance entre o baixo e mediano em relação aos pontos de aceitação da crítica e do público. A Maldição de Samantha, lançado em 1986, trouxe mais uma vez uma família disfuncional. A jovem, maltratada pelo pai, é empurrada de uma escada durante uma discussão e morre por traumatismo craniano. Um jovem da rua, cientista apaixonado pela garota, decide ressuscitá-la numa experiência que acaba por dar errado. Temos, assim, a criação de um monstro em sua famosa cena da bola de basquete, marco da época.

Em A Maldição dos Mortos-Vivos, o cineasta seguiu uma linha mais próxima ao clássico Zumbi Branco e A Morta-Viva. Um pesquisador vai para o Haiti em plena zona de conflito e vive os temas comuns da filmografia do cineasta, as tensões entre a realidade e o pesadelo. Com Shocker – 100 Mil Volts de Terror, Craven tentou emplacar uma nova franquia com toque slasher, mas felizmente o projeto cheio de “remendos dramáticos” e “defeitos especiais” comprovou a ineficácia do antagonista, cópia mal concebida de Freddy Krueger. Foram essas as suas últimas experiências na década de 1980, período que chegava ao seu final com desgaste nas fórmulas do gênero que precisava de alguma forma se reinventar.

Wes Craven, ação! Nos bastidores de Pânico, Música do Coração, A Hora do Pesadelo, em entrevista sobre o legado de Ghostface  e com Stephen King, o mestre literário do horror…

1991 foi o seu ano de retorno, com o ótimo As Criaturas Atrás das Paredes, terror cheio de críticas sociais que retrata o preconceito e os choques entre classes sociais. Um jovem, em luta constante para salvar a vida de sua família prestes a ser despejada, adentra na casa dos inescrupulosos donos da habitação, sedentos pelos valores do aluguel, mas com um plano maligno para fazer uma gigantesca limpeza étnica na região. Em 1993, como apontado, temos o retorno de Freddy Krueger, seguido do vampiro burlesco de Eddie Murphy em Um Vampiro no Brooklyn, último filme do cineasta antes do estouro de Pânico, parceria com Kevin Williamson.

Amaldiçoados é um divertido e turbinado filme de lobisomens, narrativa onde Wes Craven deita e rola em seus processos de metalinguagem relacionados aos monstros já eternizados no imaginário popular, tal como os vampiros, já abordados por meio do humor no filme com Murphy e Angela Basset, além da sua assinatura como produtor de Drácula 2000, filme com Patrick Lussier na direção e Marco Beltrami na condução sonora, ambos membros integrantes da edição e trilha, respectivamente, dos quatro filmes da franquia Pânico.

Wes Craven em ação nos bastidores de Voo Noturno…

Voo Noturno, filme considerado menor por alguns, é uma avalanche de tensão, num desempenho visual e sonoro eficiente de Wes Craven. Na trama, a gerente de um luxuoso hotel vive um pesadelo acordada, ao ter que lidar com um terrorista dedicado a dizimar uma personalidade política hospedada no local. De volta para casa após o velório de sua avó, a personagem de Rachel McAdams vive o horror numa era posterior ao 11 de setembro, período onde qualquer coisa dentro de um avião era sinal de perigo. Em A Sétima Alma, penúltima incursão, o cineasta erra a mal entre a psicanálise e o terror, numa trama de personagens frágeis e decisões dramáticas incompreensíveis para alguém que no ano seguinte conduziu com muita lucidez, o intenso retorno à Woodsboro.

Medo e Delírio na Cinematografia de Craven, o Artesão das Fobias Sociais

Em relato para John Wooley Wiley na biografia Wes Craven – O Homem e Seus Pesadelos, o artesão dos medos e fobias sociais alegou que “todos nós temos nossas maldições individuais, algo com que nos sentimos desconfortáveis e algo com que temos que lidar”. Seguindo as suas estratégias, Craven soube lidar com os seus medos, através do cinema de horror, gênero que tal como apontado na abertura desta reflexão, não fazia parte de sua programação. Ele queria fazer outras coisas, mas acabou arrastado para uma torrencial força cheia de elementos macabros.

Garras feitas com lâminas, lobisomens turbinados, psicopatas mascarados, dentre outras monstruosidades: são todos símbolos responsáveis por deixar o terreno dos filmes de terror bem pavimentado, mesmo nos momentos em que o cineasta errou a mão e falhou. Com legado único, Wes Craven foi um realizador que acertou diversas vezes, quantidade suficiente para nos fazer sublimar os equívocos e síncopes intelectuais de sua carreira, afinal, Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos, A Hora do Pesadelo e Pânico, mesmo este último tendo apoio de Kevin Williamson, são filmes que já bastam para colocá-lo numa posição de prestígio na história do cinema.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.