Entenda Melhor | O Legado de Hitchcock

Cineasta de longa carreira na indústria cultural, Alfred Hitchcock é um dos poucos realizadores da história do cinema que pode se gabar de ter seu nome transformado em conceito, afinal, quem nunca leu uma crítica com o termo “hitchcockiano”? Considerado por muitos como o “mestre do suspense”, o idealizador de Psicose, Os Pássaros, Janela Indiscreta e outros clássicos ainda bastante vivos na memória coletiva do cinema, a ressonância do seu modo de produção e condução narrativa ainda continuam presentes com firmeza no cinema contemporâneo.

Brian De Palma orquestra o suspense em Paixão, trama bastante próxima do universo de Hitchcock…

Em 2019, nos encontramos diante dos 120 anos de seu nascimento (1899-1980). Numa análise panorâmica, o texto em questão pretende abordar como os realizadores contemporâneos ainda dialogam com as estratégias narrativas do cineasta, num passeio cinematográfico pelo gênero suspense, a sua “marca maior”, numa travessia reflexiva que também contempla os filmes de ação, aventura, drama e romance. Os prestigiados Brian De Palma, Martin Scorsese, David Fincher, Roman Polanski, William Friedkin, dentre outros, emularam Hitchcock em filmes como Vestida Para Matar, Ilha do Medo, Seven – Os Sete Crimes Capitais, Busca Frenética e O Exorcista, respectivamente.

Hitchcock, o Cézanne da Sétima Arte?

Quem mais adentra o circuito privilegiado do legado de Alfred Hitchcock? Como o cineasta e suas obras-primas do cinema ganharam ressonâncias nas construções narrativas de diretores posteriores ao seu exercício no bojo da indústria? Quem são os compositores de trilhas sonoras e diretores de fotografia influenciados por seus filmes? É por meio destes questionamentos preambulares que proponho a você, caro leitor, a me acompanhar nesta viagem reflexiva que tem como propósito, lhe permitir que entenda melhor, o legado de Hitchcock. Vamos nessa?

Cabo do Medo e três referências hitchcokianas: A Sombra de Uma Dúvida, A Tortura do Silêncio e Psicose, cenas retomadas no suspense de 1991.

Para Stephen Rebello, autor de Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose, o papel do cineasta no bojo do cinema é algo semelhante ao empenho de Paul Cézanne em suas pinturas, isto é, a demonstração de domínio como destaque diante daqueles que exercem os mesmos temas. Para Rebello, “qualquer um pode pintar cestas de maçãs, mas nas mãos de Cézanne o tema se tornava outra coisa”. O mesmo ocorreu com Hitchcock durante toda a sua carreira, até nos filmes menos interessantes dramaticamente, mas deslumbrantes nos meandros estéticos.

Basicamente, o mestre do suspense pegava temas mundanos e transformava em algo transcendente. Tanta manipulação da imagem e coesão narrativa coadunam com a afirmação de John Carpenter: “devemos o suspense ao Hitchcock”. O realizador de Halloween – A Noite do Terror, A Bruma Assassina, O Enigma do Outro Mundo, dentre tantos clássicos do medo e do horror, teve Janela Indiscreta como seu primeiro contato com Hitchcock. Tal como afirma Guillermo del Toro, Cineasta das parábolas morais: o idealizador de Sabotador, Frenesi, Psicose, dentre outros, não se importava com a realidade, pois munido da alegoria, trouxe para o contexto estadunidense a evolução dos storyboards, as estratégias de planejamento, etc.

Os clássicos Psicose, Janela Indiscreta e Um Corpo Que Cai em ressonância nos filmes O Exorcista, Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros e Tubarão!

Ruth Myers, figurinistas de Los Angeles – Cidade Proibida, considera um dos legados do cineasta a sofisticação das imagens, dos trajes, da fotografia, coisa de esteta preocupado não apenas com a história, mas com a forma como as coisas seriam contadas. A forma como o cineasta usava o ponto de vista é considerada surpreendente, num cálculo da construção imagética sem precedentes, algo adotado posteriormente por realizadores engajados.

Diversos cineastas decidiram fazer cinema depois de influenciados por Alfred Hitchcock. Para Eli Roth, uma das coisas mais marcantes ao assistir Os Pássaros, exibido na TV em sua infância, era a cena em que uma das aves bicava os olhos de uma vítima já falecida. Foi um acontecimento em sua vida, algo que provavelmente escoou em suas atrocidades gráficas nos filmes da franquia O Albergue, além de Cabana do Inferno. Os Pássaros foi uma responsável por assustar muita gente. John Murphy, compositor da trilha sonora de Instinto Selvagem 2, alegou que após assistir ao filme, não conseguia tirar os olhos da jaula de seu papagaio. Suas técnicas e estilo rigoroso na concepção do suspense tornaram-se uma grife onde seus posteriores queriam utilizar em larga escala.

Vestida Para Matar: uma narrativa intensamente hitchcockiana, dos enquadramentos ao processo de manipulação do suspense!

Janela Indiscreta, por exemplo, foi um emblemático caso de releituras: Paranoia, Invasão de Privacidade e a cena em que o pequeno garoto decide utilizar o binóculo para tentar enxergar o perigo em Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros. Tributários de Hitchcock. Conforme depoimentos em diversas entrevistas de Guillermo del Toro, “Hitchcock é cinema”. William Friedkin é mais taxativo, pois alega que não é preciso fazer Faculdade de Cinema. Basta conhecer profundamente todos os filmes de Hitchcock. Ali estão as técnicas cinematográficas para qualquer interessado em exercitar a linguagem audiovisual, um legado sem precedentes.

Hitchcock e a sua “Presença”: Um Extenso Legado

Você lembra da cena em que o terapeuta da personagem de Linda Blair, em O Exorcista, de William Friedkin, é atacado no meio da fúria possessiva da garota durante uma sessão de hipnose? Se lembrou, tente agora ir ao filme Psicose, bem no momento em que o ângulo zenital observa o assassinato do detetive por alguém que até o momento da narrativa, achamos ser a Sra. Bates. Quando realizou a gravação da cena, Friedkin fez questão de demonstrar as ressonâncias do legado de Alfred Hitchcock em sua carreira, também presente em Viver Ou Morrer em Londres, filme que o suposto protagonista morre aos vinte minutos de narrativa.

Cortinas abertas para o horror: Liv Tyler e Sandra Bullock aterrorizadas nas duas reversões ao famoso momento de Psicose!

As cenas com Marion Crane a dirigir o seu veículo numa estrada onde ela sequer imagina o encontro fatal que ocorrerá na chegada ao Motel Bates é um dos momentos mais apreciados por Martin Scorsese, cineasta que considerada o trecho uma obra-prima do equilíbrio na construção do ponto de vista, dos enquadramentos matematicamente calculados para narrar, dentre outras qualidades que fizeram o realizador de Cabo do Medo, Os Infiltrados, Ilha do Medo, Taxi Driver e outros clássicos modernos, inspirar-se no mestre do suspense para composição de seus filmes. Cabo do Medo é um caso especial, com inclusão de elementos que forma um pastiche hitchcockiano com a mescla de Psicose, O Homem Que Sabia Demais, Um Corpo Que Cai e alguns traços de Marnie, Confissões de Uma Ladra.

A famosa cena de luta em Touro Indomável, de Martin Scorsese: edição e enquadramentos semelhantes ao famoso assassinato do chuveiro em Psicose! 

Na cena de luta de Robert De Niro em Touro Indomável, o corte o ritmo é basicamente a mesma estrutura do assassinato no chuveiro, execução da linguagem cinematográfica que inspirou diversos cineastas ao longo da história do cinema após 1960. Psicose se tornou um dos grandes influenciadores do cinema de horror contemporâneo. O casal interpretado por Liv Tyler e Scott Speedman em Os Estranhos, lançado em 2008 e dirigido por Bryan Bertino, viveu momentos de horror nas mãos de um grupo de psicopatas que decidem ataca-los de maneira abrupta e sem algum motivo aparente.

Há um determinado trecho que nos leva ao icônico assassinato de Janet Leigh na famosa cena do chuveiro. Aterrorizada pelos membros persecutório, a personagem de Tyler abre abruptamente uma janela, como se fosse uma cortina de chuveiro, num efeito reverso, isto é, vítima escancara a presença do algoz, sacada proposital dos realizadores interessados em emular a cena marcante por um viés diferenciado. Premonições, com Sandra Bullock, faz algo parecido numa cena chave, logo quando a protagonista se encontra diante do surpreendente reencontro com o marido que no dia anterior, havia morrido num acidente de carro.

Jamie Lee Curtis (Scream Queens – 1ª Temporada) em releitura da cena de Janet Leigh (Psicose)

O “momento cinematográfico” é tão referenciado que ganhou um documentário só pra si, lançado em 2017 e dirigido por Alexandre O. Philippe, fora as paródias, sendo a versão com Jamie Lee Curtis na segunda temporada de Scream Queens uma das melhores. O legado de Psicose também está na troca de protagonistas em O Albergue, de Eli Roth, bem como no solilóquio do homem comum perseguido por um caminhoneiro alucinado em Encurralado, de Steven Spielberg, numa referência aos momentos finais de Norman Bates na prisão. Spielberg também inseriu traços de Os Pássaros em Jurassic Park e elementos gerais de Hitchcock em Tubarão.

De volta ao filme de Martin Scorsese, Cabo do Medo, vale relembrar que há uma cena em que somos surpreendidos pela virada do personagem monstruoso de Robert De Niro, uma referência intensa ao momento final de Psicose, quando Vera Miles encontra o cadáver da Sra. Bates no porão da mansão. São passagens sutis, mas que se observadas atenciosamente, garantem a adesão metalinguística que só faz somar no resultado final. Dentre outros filmes, podemos destacar a cena de entrada dos assaltantes em O Plano Perfeito, de Spike Lee, passagem que nos remete ao tenso A Sombra de Uma Dúvida, filme que também permitiu a Scorsese a releitura mais erótica e polêmica da sedução do maléfico antagonista contra uma jovem indefesa.

Os episódios finais de Bates Motel reencenaram a memorável passagem de Psicose, mas derrubam as expectativas do público que esperava o óbvio.

Brian De Palma é um caso que deve ser analisado numa reflexão paralela, tamanha as consonâncias, releituras, homenagens e outras estratégias cinematográficas para comprovar que o mestre do suspense “ainda vive” no cinema contemporâneo. O desfecho de Dália Negra é um dos casos emblemáticos do interesse de Brian De Palma pelo pastiche hitchcockiano. A referência ao final de Um Corpo Que Cai declara-se instantaneamente diante do espectador. O solilóquio que Spielberg emulou no “filme de estrada” esteve presente também em Scarface, no momento em que De Palma dirige Al Pacino em seu momento Norman Bates. Joe Carnahan, de A Última Cartada, considera a cenografia de Psicose uma ode ao horror vitoriano.

O que dizer das cenas de Tubarão anteriores ao aparecimento do animal enfurecido. A trilha, o sangue, os movimentos e enquadramentos dão o tom, mas o espectador vê pouca coisa, tal como o mestre do suspense fez em sua cena do chuveiro, na tentativa de driblar a censura e veicular um assassinato imaginado pela plateia, aterrorizada pela possibilidade de viver algo com tamanha intensidade. O medo ao tomar banho ganhou novas proporções depois de Psicose, algo que ganhou maiores proporções sociais no caso da sensação de pavor ao entrar na água da praia depois do impacto de Tubarão, prova cabal do legado de Hitchcock ao ensinar as regras da arte do suspense aos seus seguidores.

Hitchcock Vive!

Observe os filmes da franquia Bourne. Para William Friedkin, as produções são mais gráficas que os filmes hitchcockianos, mas há de se levar em questão os avanços tecnológicos das estratégias de produção. Um homem errado, sendo perseguido pelas grandes instituições, isto é, Bourne vive as mesmas celeumas do tenso Intriga Internacional. Além da trama de inconsistência temporal em Premonições, Sandra Bullock mergulhou no universo de Hitchcock com Cálculo Mortal, leitura contemporânea do mesmo caso que inspirou Festim Diabólico. Sharon Stone, em duas ocasiões, participou de filmes e roteiros que emularam elementos hitchcockianos: Instinto Selvagem e Invasão de Privacidade, produções que nos remete aos clássicos Um Corpo Que Cai e Janela Indiscreta.

Scorsese (Ilha do Medo) e Polanski (Escritor Fantasma): herdeiros de Hitchcock!

Para o desfecho, deixo algumas observações da pesquisadora Leda Tenório, realizadas numa palestra elucidativa em 2006, na ocasião do Ciclo Entendendo o Século XXI Através de Cinema, evento organizado pelo Departamento de Cinema da UNICAMP, sob curadoria do professor e escritor Fernão Ramos, um dos agitadores intelectuais do cinema no Brasil. Em sua fala, Tenório afirma desde que muitos problemas políticos, sexuais, ambientais e comportamentais foram tópicos na filmografia do cineasta, fala que ela intitulou de “Profecias Galopantes de Hitchcock”.

É a fase estadunidense do “esteta” o período que compreende as suas afirmações. O medo de ter medo, a incompreensão dos fenômenos naturais, alguns inexplicáveis (Os Pássaros), a presença do Big Brother sofisticado de Janela Indiscreta, os desvios e debates de gênero ainda em encaminhamento no bojo de Psicose. Ao trazer para o texto em questão, percebemos ser um legado que ultrapassa a estética e adentra o tecido social, costurando-se. As aves que sobrevoam a cidade e ameaçam os seus moradores representam o enlouquecimento da paisagem sob o impacto da ação do homem. Basta lembrar que a obra literária ponto de partida, publicada por Daphne du Maurier retratava uma espécie de raiva que tomou de assalto algumas aves no começo do século XX.

Harrison Ford é “o homem errado” em Busca Frenética e Sharon Stone faz a mulher fatal em Instinto Selvagem, versão turbinada das perigosas de Hitchcock!

Animais também estiveram no protagonismo da transmissão do HIV e as aves idílicas transmitiram a gripe aviárias, epidemias que se tornaram “vingança da natureza”, palavras do próprio cineasta na campanha de divulgação do filme, além de afirmar que tais animais transformaram-se em “plantas carnívoras”. Informações que constam no depoimento de Hitchcock para Truffaut, presente no famoso livro de entrevistas. O medo do outro e as desconfianças do pós-guerra estão em tantos filmes, mas em Cortina Rasgada ganha uma abordagem bem delineada do que se convencionou chamar de “cortina de ferro”, expressão utilizada para explicar a divisão do continente europeu em duas partes, no decorrer da Guerra Fria, isto é, blocos econômicos e políticos alinhados aos estadunidenses em contraponto ao bloco contraste, conectado com os soviéticos.

As incertezas e os medos, juntamente com os embates culturais e a espionagem estavam presentes no desenvolvimento do filme, condição que permeia a contemporaneidade depois das ameaças de guerra biológica e dos horrores sociais do 11/9, debatidos em diversos filmes de suspense, ação e drama depois de setembro de 2001. A vida monitorada e a sexualidade voyeurística, presentes em Janela Indiscreta e Psicose, encontram eco nas redes sociais Instagram, Facebook, no reality-show e na televisão. Estamos todos envolvidos numa teia de observação do outro pelo buraco da fechadura, tal como Norman Bates fez antes de ceifar a vida de Marion Crane na famosa e eternizada cena do chuveiro. Um legado extenso. Pleno. E que merece ser conhecido por todos aqueles que se dizem admiradores do cinema.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.