Entenda Melhor | O Natal das Séries

Um dos segmentos mais comuns nas séries televisivas é o especial com datas comemorativas. Nas séries estadunidenses, mais volumosas que as produções de outros polos de produção, é quase certo termos episódios de Halloween, Dia dos Namorados e Natal. Os especiais natalinos é que fazem parte do recorte temático desta reflexão que pretende expor, por meio de um texto panorâmico e com recorte, como as questões dramáticas e visuais específicas do festejo estão dispostas em dez episódios, cada um de uma série diferente, todos oriundos de programas conhecidos e bem estabelecidos diante do público e de parte da crítica especializada. É uma imersão em espaços cenográficos repletos de neve, pinheiros, pisca-pisca, alguns com Papai Noel, outros não, presentes, guirlandas, ceias e bolas coloridas, em especial, vermelhas, douradas e prateadas, haja vista os seus respectivos simbolismos para o período.

Quando se trata do Dia dos Namorados, as questões gravitam em torno do companheiro que esqueceu de presentear, da pessoa que não valoriza datas comemorativas, pois as considera comerciais, dentre outros tópicos para o desenvolvimento dramático. No Halloween, as pessoas geralmente aproveitam a oportunidade de liberar as suas fantasias e se entregar aos desejos mais profundos, pois é uma festa que salvaguardadas as devidas proporções, é o equivalente ao nosso carnaval, a festa da carne, período de liberação do que é instintivo e está em território restrito. No caso do Natal, mais dramático que os festejos citados, temos os dilemas das tensões entre familiares, amigos e casais. É a filha ou filha que casou e abandonou determinadas tradições, ou então, um personagem que deseja abandonar o cristianismo e se converter ao judaísmo. Tem também o membro familiar cansado de hipocrisia e que decide, no momento da ceia natalina, versar sobre algumas verdades sobre o “real” sentido do Natal.

Vamos, então, conhecer alguns episódios natalinos das séries selecionadas, extenso feixe de situações dramáticas repleta de momentos cômicos.

O Natal é uma festa de reencontros, mas não para Don Draper, mergulhado na solidão neste episódio devastador de Mad Men. Até mesmo o retorno ao passado para rememoração de suas histórias é sabotado pelo personagem que não deseja nenhuma conexão com memorialística. 

Mad Men é uma das séries mais marcantes o período que costumamos chamar de contemporâneo. Mergulhada numa travessia entre as décadas do meio do século XX, a série apresentou ao público, ao longo de sete temporadas, um dos melhores panoramas de personagens na história da dramaturgia televisiva estadunidense, haja vista a complexidade de cada ser que atravessava os corredores das agências publicitárias ou lares corrompidos por questões que as aparências não mais conseguiam enganar em suas estruturas fragilizadas pelas mudanças sociais, políticas e comportamentais. Criada por Matthew Weiner, também responsável pelo roteiro de O Natal Chega Uma Vez Por Ano, 2º episódio da Quarta Temporada, acompanhamos a solidão do protagonista Don Draper (John Hamm) no decorrer dos 48 minutos de episódio, homem atormentado por seu passado pantanoso e melancólico disfarçado diante do distanciamento dos filhos por conta do divórcio oriundo da crise em seu complicado casamento.

Com design de produção assinado por Dan Bishop, somos espectadores de um texto impecável, escrito com cautela por Weiner, para ser dirigido por Michael Uppendahl. A presença natalina não se faz apenas pela decoração dos ambientes, mas também pelas abordagens temáticas, principalmente quando a palavra-chave memória toma o protagonista de assalto, conceito que ele prefere que não seja parte de seu vocabulário diário, afinal, como sabemos, ele guarda um segredo absurdo que pode abalar as estruturas de sua vida atual. A empresa reluta em fazer uma festa de natal para um poderoso cliente, mas no final das contas, cede e recebe até mesmo a “visita” de um Papai Noel, representado por um dos sócios da agência, responsável por distribuir presentes e agradar aos clientes e funcionários. O desfecho é um dos momentos mais primorosos: a direção de fotografia capricha na profundidade de campo ao acompanhar Draper a atravessar um corredor sozinho, diante do escritório vazio, alegoria da sua situação solitária.

Choque de tradições, infelicidade, memórias indesejáveis e outras celeumas são o marco deste episódio da segunda temporada de Grey’s Anatomy.  

E o espírito natalino em Grey’s Anatomy? Divisora de opiniões no campo da crítica, a série médica criada por Shonda Rhimes é sucesso de público e conseguiu ultrapassar Plantão Médico no quesito número de temporadas. Narrada por Meredith Grey (Ellen Pompeo), a série dramática aborda com humor, a rotina de um grupo de residentes em Seattle, inicialmente a colocando como ponto central, afinal, ela é a narradora, mas dividindo o protagonismo com outros personagens que ganham maior e menor importância a depender da abordagem dos episódios em cada temporada. Repleta de temas relevantes para discussões de cunho social, Grey’s Anatomy já teve algumas abordagens natalinas, mas nenhuma delas foi mais interessante que A Avó Foi Atropelada Por Uma Rena, 12º capítulo da Segunda Temporada.

Ao longo de seus 42 minutos, o episódio dirigido por Peter Horton flerta com um texto que dialoga com questionamentos do tipo “O Que é Uma Família?”, material dramático escrito por Krista Vernoff.  Para os personagens da série, o termo não é exatamente a obrigatória ligação sanguínea que obriga muitas pessoas a segurar fardos neste período, haja vista a impregnação de tradições que as mesmas precisam descolonizar de suas existências. Enquanto uma das melhores médicas, Christina Yang (Sandra Oh) é questionada sobre sua predileção pela ciência em detrimento da fé, um jovem digladia com a mãe sobre o novo transplante de coração que está prestes a receber. Há também o problemático caso acompanhado por Izzie (Katherine Heighl), atendimento de um homem que sofre um acidente ao cair do telhado enquanto pendurava as luzes natalinas em sua residência. Com design de produção de Brandee Dell’ Aringa, o hospital não capricha em elementos natalinos, mas a árvore de natal na casa dos residentes é espetacular e serve de refúgio alguns personagens no final do episódio.

O Natal em Sex and The City chega em julho, quando uma das personagens decide pela conversão ao judaísmo. No episódio, ela expõe a sua última árvore de natal, haja vista a mudança de tradição. 

O Natal chegou em algumas ocasiões para as quatro personagens centrais de Sex and The City, série criada por Darren Star, inspirado no romance homônimo de Candace Bushnell. O programa acompanhou, ao longo de seis temporadas, os relacionamentos amorosos, as frustrações, as relações de poder entre homens e mulheres, dentre outras celeumas, tendo como foco as experiencias de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), a narradora personagem, uma mulher novaiorquina relativamente empoderada, colunista de um jornal onde desenvolve suas reflexões sobre sexo e temas afins. Samantha Jones (Kim Catrall) é a representação da mulher que se considera pós-moderna, livre de rótulos e classificações. Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) é a advogada bem-sucedida profissionalmente, mas que encontra dificuldades em se relacionar, pois não encontra homens de seu nível e se considera uma mulher que precisa pagar um alto preço por ter alcançado o sucesso que não seria tabu se ela fosse um homem.

Quem completa o círculo é Charlotte York (Kristin Davis), a “certinha” do grupo, mulher que segue à risca algumas tradições e tem como sonho casar e ter filhos. Ela é o foco natalino do episódio, intitulado O Presente Perfeito, 3ª incursão da Sexta Temporada (a última). Dirigido por David Frankel, em seus 28 minutos, o episódio escrito por Jenny Bicks aborda Samantha em novo relacionamento, mais próximo do namoro que os habituais encontros puramente sexuais, Miranda, em crise de ciúmes, percebe que Steve aparentemente já a superou, pois apareceu com namorada nova. Carrie e Berger decolam num namoro com tensões, mas que promete ser um bom investimento, mas Charlotte é quem passa pela maior provação, pois nesta fase de recomeços, ela precisa se desviar do cristianismo para conhecer a fé judaica, requisito para ser a esposa de Harry, homem que só pode casar com uma mulher do segmento. O episódio, por sinal, se passa no mês de julho, quando a personagem encerra o seu curso preparatório para a conversão e decide enfeitar o que considera a sua última árvore de natal, produzida pelo setor de design de produção, oriundo do trabalho eficiente assinado por Jeremy Conway.

O Natal também chegou antecipado neste episódio de Queer as Folk, marco pela morte de um personagem importante bem no mês de fevereiro. O seu desejo, expresso numa carta, era festejar o natal pela última vez. 

Queer As Folk – Os Assumidos foi uma das séries mais corajosas de seu tempo, ao abordar temas homossexuais de maneira ousada e oportuna, com altas doses de nudez e erotismo, sem deixar de lado, em momento algum, discussões pertinentes ao universo, tais como os debates sobre preconceito, homofobia, uso de preservativos, carimbadores (pessoas que transmitem HIV de maneira proposital), relacionamentos amorosos conturbados, crises entre pais e filhos, mães e filhos, famílias em tensão, dentre outras questões. O foco central da série ao longo de suas cinco temporadas foi Michael (Hal Sparks), Brian (Gale Harold), Emmet (Peter Paige), Ted (Scott Lowell) e Justin (Randy Harrison). Criada por Ron Cowen e Daniel Lipman, a série traz, tal como Sex And The City, a antecipação do período natalino, abordado de maneira simbólica para o luto de Debbie (Sharon Gless), mãe de Michael, a coadjuvante mais importante do programa. No decorrer do episodio Merry Christmas, 7ª incursão da Quarta Temporada, acompanhamos todo o seu disfarce diante do luto e da dor pela perda de seu irmão, Tio Vic (Jack Wetherall).

O que torna tudo mais dramático é o afastamento de ambos, brigados depois de alguns conflitos. Deprimido, Vic morre após abandonar a medicação para o tratamento de pessoas acometidas por HIV, o que acaba por torna-lo alvo de doenças oportunistas. A queda diante da realidade se dá depois que Debbie surta temporariamente e decide atender ao pedido de Vic, deixado numa carta, uma celebração natalina, o seu período de predileção. Os personagens acompanham tudo apreensivos, preocupados com a condição psicológica da matriarca que sempre protegeu a todos do grupo. Diante da belíssima árvore e da decoração cheia de detalhes da sua sala de estar, adornada pela equipe do design de produção de Ingrid Jurek, algo inesperado acontece: o enfeite selecionado para o topo da árvore despenca e se espatifa no chão, situação que coloca a realidade diante de Debbie, uma mulher que usa de todos os subterfúgios para pular a importante etapa do luto para a aceitação dos fatos.

Desperate Housewives e o Natal: época de perdoar e esquecer?

Desperate Housewives foi um grande sucesso de público ao longo de suas oito temporadas. Criada por Marc Cherry, a série funcionou como uma espécie de novo programa sobre quatro amigas e suas aventuras diante dos dilemas familiares na criação dos filhos e na manutenção dos casamentos. Não foi uma substituta pra Sex And The City, mas uma espécie de novo marco sobre mulheres e relações de sororidade e afins. O fio condutor da série é a narração de uma das amigas de um grupo que inicialmente era composto por cinco mulheres, mas que após o suicídio inexplicado de uma delas, torna-se menor, com o “espírito” da falecida a narrar para os espectadores as celeumas dramáticas e os desdobramentos dos acontecimentos ao longo das temporadas. Há vários coadjuvantes, mas o foco central da série é Lynette (Felicity Huffman), Susan (Teri Hatcher), Bree (Marcia Cross) e Gabrielle (Eva Longoria).

O perdão é o tema do melhor episódio natalino da série Desperate Housewives, intitulado Boom Crunch, décima incursão da Sexta Temporada. Dirigido por David Grossmann, o episódio escrito por John Pardee e Joey Murphy flerta, ao longo de seus 45 minutos, com os embates entre Lynette e Gabrielle, amigas em crise depois que uma delas processa o marido da outra. O episódio tem a história da birra entre as personagens entrecortada com um pedido de casamento a ser realizado por um casal que está bastante longe do tal espírito natalino. O resultado é um desfecho trágico: o avião que deveria passar com uma faixa no céu de Wisteria Lane se despedaça em meio aos festejos do local, algo que quase ceifou a vida de uma faz filhas de Gabrielle, salva convenientemente por Lynette, numa das artimanhas do roteiro para reuni-las novamente. O design de produção caprichado de P. Eril Carlson permite a imersão dos espectadores, haja vista o uso intenso do vermelho, além dos adereços e objetos tipicamente natalino, tais como pinheiros, bolas, sinos, guirlandas, dentre outros.

O perdão também esteve em How I Met Your Mother, episódio natalino com divertida discussão sobre a família ser o espaço do caos no Natal.

Dizem que o Natal é o período perfeito para exercermos o perdão. Em How I Met Your Mother, série criada por Carter Bays e Craig Thomas, os personagens levam a questão ao pé da letra. A sitcom estadunidense segue o padrão Friends e retrata o protagonista Ted (Josh Radnor) em 2030, a narrar para os seus filhos como conheceu a mãe deles. No 11º episódio da Segunda Temporada, intitulado Como Lily Roubou o Natal, os espectadores estão diante da crise estabelecida por Lily (Alyson Hannigan) e Marshall (Jason Segel), ambos em crise no relacionamento. A coisa engrossa quando a moça escuta, por acidente, uma mensagem telefônica onde Ted fazia algumas considerações críticas sobre a sua condução no relacionamento com Marshall. A amizade fica abalada e será estabelecida somente depois que outros personagens trabalham em torno da reconciliação, palavra-chave no hall da hipocrisia do período natalino. Dirigido por Pamela Fryman, guiada pelo roteiro de Brena Hsueh, o episódio teve design de produção assinado por Steve Olson, gerenciador do setor que capricha na neve, nos figurinos vermelhos, em contraste com as outras cores natalinas, além das luzes representativas dos festejos dessa época. A cena em que Ted abandona a família “chata” em plena ceia, tendo em vista ficar com os amigos, a sua nova “família”, pode parecer só humor, mas é bastante representativa, pois fala sobre laços e sentimentos de pertença.

A ceia de natal como momento para lavagem de roupa suja e exposição de “verdades” em Dawson’s Creek…

Outro sucesso de público que durou seis temporadas foi o drama juvenil Dawsons Creek, série criada por Kevin Williamson. Na trama, acompanhamos o florescimento das questões sexuais, bem como os dilemas da adolescência e a transição para as responsabilidades da fase adulta de um feixe relativamente pequeno de personagens: Dawson (James Van Der Beek), Joey (Katie Holmes), Jen (Michelle Williams), Pacey (Joshua Jackson) e os coadjuvantes que gravitam em torno desse eixo principal. Tensões e dúvidas mexem com os episódios de 45 minutos da série, responsável por inserir novos protagonistas do meio para o final. Audrey (Busy Phillips) é uma delas, a mentora da confusão em Merry Mayhem, 10º episódio da Sexta Temporada, dirigido por David Petrarca, com base no roteiro de Tom Kapinos.

Irritada com a condução de alguns acontecimentos em sua vida, Audrey circula pelos cenários dirigidos artisticamente pelo design de produção caprichado de Alan Hook, espaços com tons avermelhados, clima frio, bastante presença de luzes e contrastes entre tons para dar ao espectador uma experiência visual imersiva. Todos os personagens estão reunidos na ceia natalina na casa de Dawson. O álcool ajuda como combustível do comportamento da personagem, que dispara “verdades” e lava roupa suja em plena celebração. Ela expõe as tensões que conduzem a série desde a primeira temporada. Fala sobre a amizade de Dawson e Pacey, constantemente estremecida por conta do interesse de ambos por Joey, moça que opta ficar com Dawson como seu par por alguns momentos, numa relação que infelizmente sempre tem algo a dar errado. Audrey também aponta para o dedo para a hipocrisia dos demais presentes no festejo, pessoas que disfarçam suas questões para mostrar uma satisfação que na verdade está maquiada pelas obrigações que as celebrações natalinas muitas vezes impõem.

O Natal burlesco de Will & Grace

Outro grande sucesso de público e crítica que também teve um feixe significativo de episódios natalinos foi a série Will & Grace, criada por David Kohan e Max Hutchnick, programa que deixou um legado imenso no que diz respeito à representação dos personagens homossexuais na ficção televisiva estadunidense, com alcance mundial, haja vista o processo catalisador da indústria cultura em larga escala. A Noite de Natal teve roteiro escrito por Adam Barr, o 11º episódio da Quinta Temporada, dirigido por James Burrows, apresentou ao longo de seus 22 minutos, as confusões natalinas de Will (Eric McCormack), Grace (Debra Messing), Jack (Sean Hayes) e Karen (Megan Mulally). Will, advogado bem-sucedido, divide apartamento com Grace, sua melhor amiga desde os tempos da escola. Sem saber exatamente onde passar os festejos, Will fica dividido entre as insanidades de Karen, uma das amigas do grupo, geralmente burlesca em suas escolhas de vida, ou então, passar o natal no teatro, diante do espetáculo Quebra-Nozes, juntamente com Grace, que não sabe como lhe dizer que o marido chegou de viagem e o amigo não é mais a primeira opção de acompanhamento no evento social em plena noite de Natal.

Quem cancelou o Natal? A crise familiar estabelecida em Brothers & Sisters

O Natal de Brothers & Sisters selecionado para esta reflexão é uma imersão diante da nossa necessidade de lidar com as mudanças, tema constante durante todos os anos da série. Com caprichado design de produção de Denny Dugally, o episódio traz grandiosas árvores de natal cuidadosamente decoradas, neve, pisca-pisca, personagens vestidos de Papai Noel, trajados com tecidos avermelhados bem brilhantes, tudo para nós adentrarmos no clima natalino. Antes de adentrarmos na análise, é importante, no entanto, conhecermos a estrutura da série. Com média de vinte episódios por temporada, o programa nos permitiu acompanhar a trajetória de Nora Walker (Sally Field), matriarca que é o centro dramático dos filhos que gravitam em torno de sua existência, personagens que caminharam por casamentos, relacionamentos, viagens, dentre outras trilhas da vida, mas que constantemente retornam para dividir, com a mãe ou com a família reunida, os seus problemas pessoais.

A comemoração natalina em Brothers & Sisters foi parte do desenvolvimento dramático de diversos episódios ao longo de suas cinco temporadas, mas o melhor dele acontece no desfecho da série, Turquia Fria, 10ª incursão na Quinta Temporada, escrita por Stephen Tolkin e Geoffrey Nauffts e dirigida por Michael Morris. Ao longo dos 45 minutos, o episódio retrata o estresse da matriarca da família diante da sua primeira ausência nos festejos natalinos. É a hora dos filhos se tornarem mais independentes e saírem em busca de novas versões para o período que numa série deste quilate, pede trapalhadas, tensões e encontros cheios de tradicionalismo. O seu cancelamento causa bastante desconforto e após um terrível pesadelo, Nora decide voltar para casa, ainda em tempo de comemorar junto com os filhos um período que em sua opinião, deve ser obrigatoriamente comemorado em família. Interessante observar como a série trabalha muitas desconstruções, mas neste episódio, mostra como mesmo diante da necessidade de sairmos dos padrões, nós ainda nos comportamos de maneira resistente aos necessários processos de mudança, importantes para transformações em nossas vidas.

Quem mudou as tradições natalinas? O Natal frenético de Friends…

Friends foi uma das séries mais populares da história recente da televisão estadunidense e estabeleceu as bases para muitas produções vindouras. Os cenários quase teatrais, as risadas sonorizadas como acompanhamento dos desdobramentos de cada trama e a liberdade temática que conectava, mas ao mesmo tempo, dava independência aos acontecimentos e personagens foram algumas de suas marcas registradas, numa das séries com maior legado e legião de fãs mesmo após tantos anos de seu encerramento. Criada por David Crane e Marta Kauffman, a série acompanhou, ao longo de dez temporadas, situações dramáticas, cômicas, amorosas, psicológicas e profissionais de Rachel (Jennifer Aniston), Ross (David Schwimmer), Chandler (Matthew Perry), Monica (Courteney Cox), Phoebe (Lisa Kudrow) e Joey (Matt LeBlanc), bem como de seus coadjuvantes e demais breves participações especiais. Há vários episódios natalinos na série, mas Aquele Com o Tatu de Férias é um dos mais relevantes, presente na 10ª incursão da Sétima Temporada.

Com design de produção de Joe Stewart, o episódio não é tão caprichado em seus aspectos visuais para o natal, tendo como cenografia e direção de arte alguns apetrechos bem simplórios. O que se delineia como parte da discussão empreendida em nosso texto é a reflexão apresentada pelo roteiro de Greg Malins, dirigido por Gary Halvorson, exposição sobre tradições e importância do respeito à cultura alheia, já que Ross pretende mostrar para o pequeno Ben o Hanukkah, isto é, a tradição que não se coloca como o oposto dos festejos natalinos, mas é uma espécie de versão do período para a cultura judaica, evento também conhecido como Festival das Luzes, celebração que perdura em oito dias. Nas confusões propostas pelo episódio, é óbvio que Ross enfrentará muitas dificuldades para lidar com tais ensinamentos, principalmente por conta dos amigos atrapalhados e pela concorrência com as possibilidades materialistas do Papai Noel, em detrimento do festival de espiritualidade da comemoração judaica.

Mas, afinal, o que o Natal das Séries reflete e nos ensina?

Os episódios selecionados nos ensinam que as motivações ditas originais dos festejos natalinos foram transformadas ao longo dos anos. As pessoas dão presentes como forma de se sentir mais próximas uma das outras, consumir se tornou uma obrigação para muitos, ao invés de opção, os ideais de felicidade gravitam em torno de estruturas familiares sólidas e tradicionais, em outros casos, a presença de amigos descolados. Os encontros de final de ano, época de desaceleração de nossas atividades anuais, parada para encontrar familiares e amigos às vezes não é divertido e relaxante como deveria ser, algo que para muita gente é o próprio “inferno na terra”. É a tia chata que critica o curso de graduação que você escolheu, ou a mãe que implica com o noivo ou namorado da filha ou do filho, num jogo de espelhos onde ela tenta refletir o fracasso de sua relação nas escolhas dos outros. Isso não significa que o período seja um desastre total, ao contrário, é uma brecha em nossas agendas diante do acelerado tempo histórico, pausa para se permitir descansar e confraternizar. O ruim mesmo é quando esquecemos disso e buscamos emular a cultura alheia ou forçar a barra com tradições que em nada dialogam com a nossa realidade, um dos tópicos mais comuns nas reflexões contemporâneas sobre a perda de sentidos nas celebrações natalinas.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.