Entenda Melhor | Os Mutantes – Discografia

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Entre 1967 e 1969, as artes no Brasil conheceram um movimento chamado Tropicália (também referido como Tropicalismo ou Movimento Tropicalista). Mescla de Movimento Antropofágico, Pop Art e Concretismo, a Tropicália tinha por objetivo criar mudanças nas artes do país, então sob uma Ditadura Militar, após o golpe de 1964. Embora tenha tido impacto nas artes plásticas, com Hélio Oiticica; no teatro, com Zé Celso; e na Sétima Arte, com o Cinema Novo; foi mesmo na música que o Tropicalismo criou raízes. Entre o 2º e principalmente o 3º Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record (1966 e 1967), músicas, álbuns, performances e declarações de artistas abriram as portas para um novo momento da nossa música, onde se destacaram Torquato Neto, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Tom Zé e… Os Mutantes.

A banda, que desde muito cedo impressionava pela qualidade — e, ao longo do tempo, traria para o Brasil um lado bastante particular do rock psicodélico, tropicalismo e rock progressivo –, foi formada em 1966, com Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias vindos de outros projetos ou formações musicais. A composição clássica do Mutantes (com integrantes aparecendo entre 1966 e 1969) foi a seguinte:

  • Arnaldo Baptista — teclado, baixo e voz (1966 – 1973 / 2006 – 2007)
  • Rita Lee — voz e percussão (1966 – 1972)
  • Sérgio Dias — guitarra, voz (1966 – 1978 / 2006 – )
  • Dinho Leme — bateria (1969 – 1973 / 2006 – 2013)
  • Liminha — baixo (1969 – 1974)

De 1973 em diante a banda passou por diversas mudanças. Em 78, chegou ao fim, mas foi revivida em 2006, mantendo apresentações com distintos músicos e cantores. A discografia dos Mutantes conta com 10 álbuns de estúdio. Ao vivo, existem dois: Mutantes Ao Vivo (1976), gravado no MAM do Rio de Janeiro, e Mutantes Ao Vivo – Barbican Theatre, Londres 2006. Em 1968, o conjunto participou do excelente e histórico álbum coletivo Tropicália: ou Panis et Circencis. E para finalizar os números, ainda temos 4 EPs lançados entre 1968 e 1976; 10 compactos, lançados entre 1966 e 1972; e 9 compilações, lançadas entre 1986 e 2006.

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1. Os Mutantes (1968)

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Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar

São ocupadas em nascer e morrer

MPB + rock psicodélico + tropicália. Lançado em junho de 1968, pela Polydor, Os Mutantes, álbum de estreia da banda de mesmo nome, chegou ao mercado causando furor. Produzido por Manoel Barenbein e com arranjos de Rogério Duprat, o álbum é — com razão — considerado um dos mais importantes da música brasileira, com experimentos e inovações que abriram as portas para outras bandas e cantores usarem esses recursos em estúdio, no futuro. A influência dos Beatles aqui também é sentida na concepção geral do álbum, que não se contenta com pouco. Mudanças de ritmo no decorrer das músicas, distorção do som das guitarras, ruídos de sons comuns de ambientes + uso de sonoplastia para marcar o passo, a transição ou parte de algumas canções, são percebidas ao longo das faixas, que além do rock, traz samba, baião e ritmos do candomblé.

Rita Lee disse que Caetano e Gil compuseram Panis et Circenses, a faixa de abertura do disco, “em apenas 15 minutos“. A musicalidade circense, a letra, que pode ser interpretada pelo lado da crítica à tortura e ações dos militares durante aqueles anos iniciais da ditadura; ou como as contradições entre a inocência da tenra idade (ou do espírito livre) versus a “vida adulta e cheia de agenda para cumprir” foi uma excelente escolha para dar início à jornada. A Minha Menina, de Jorge Ben Jor (que começa falando para todo mundo tossir), tem um tem uma textura rica, com um riff distorcido na guitarra de Sérgio Dias. O Relógio, segundo Rita Lee, é uma “homenagem ao seu próprio relógio“, calma no primeiro bloco, como se as imagens líricas que invoca não fossem agressivas, assim como a passagem do tempo — aqui interrompidas, falando da relatividade e das muitas formas de entendermos a passagem dos anos. Adeus Maria Fulô, de Humberto Teixeira e Sivuca, é uma versão interessantíssima de uma gravação de 1951. Mesmo vindo de um baião e mesmo tendo a ideia de “modernizar” a faixa, Os Mutantes não usaram nem guitarra e nem sanfona. O xilofone e a percussão (com o tempo do baião), além de sons adicionais, fazem o trabalho atmosférico e experimental da faixa. A tocante e simples Baby, de Caetano, vai crescendo progressivamente, com os arpejos de guitarra por Sérgio Dias imitando o papel corrente do violão bem marcado nesse tipo de composição, numa leitura mais pop, mais MPB.

Senhor F tem nuances de Martha My Dear e Being for the Benefit of Mr. Kite! dos Beatles, e carrega um arranjo similar ao jazz, falando sobre sonhos inalcançáveis através da mídia de massa e das relações de trabalho. Bat Macumba (santa batida, Batman!) é o flerte do grupo com o candomblé, trazendo uma excelente linha de baixo. Le Premier Bonheur du Jour brinca um pouco com a versão original gravada por Françoise Hardy, com um solo de flauta e acompanhamento de uma bomba de inseticida para marcar o tempo do chimbal, algo que quase sufocou todo mundo no estúdio. Trem Fantasma é uma divertidíssima “visita ao parque de diversões“, com referências a Zé do Caixão e tudo! Tempo no Tempo é a excelente versão dos Mutantes para Once Was a Time I Thought, de John Phillips para o The Mamas & The Papas, com belo uso dos sopros e da percussão com estar de dedos. E encerrando o disco Ave Gengis Khan, a instrumental + vocalise + distorção de voz (de César Baptista, pai de dois dos integrantes da banda), uma espécie de mantra de guerra ou de despedida, após a grande viagem psicodélica que tivemos com o disco.

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2. Mutantes (1969)

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Eu quase posso palpar, a minha vida que grita
Emprenha e se reproduz, na velocidade da luz
A cor do céu me compõe, o mar azul me dissolve
A equação me propõe, computador me resolve

O tamanho da coragem, do deboche, da criatividade e do claro divertimento ao fazer música que os Mutantes colocaram nesse seu segundo disco de estúdio é algo quase imensurável. Produzido por Manoel Barenbein e lançado em 24 de fevereiro de 1969 (com gravações nos Estúdios Scatena, em São Paulo, em dezembro de 1968), Mutantes é um divisor interessante de opiniões. Há quem diga que o álbum “abusa e exagera nos experimentos“. Já outros, como eu, não têm reservas em relação ao tom anárquico que o conjunto adotou aqui. Tenho especialmente uma contrariedade fervorosa na acusação mais comum feita a este projeto: a de que Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias fizeram um disco só pensando nos experimentos deles e se esqueceram que tinham ouvintes do outro lado. Esta é a mais pura bobagem. A anarquia do disco tem razão de ser, e todas as brincadeiras musicais dialogam com diferentes tipos de ouvintes e grupos.

Dom Quixote abre o disco com uma parte instrumental (arranjo para uma ária da ópera Aida, de Verdi), com sonoplastia de multidão e toada épica, caindo em uma canção tão louca (e pitadas de crítica à censura no período militar) quanto o personagem-título. Não Vá se Perder Por Aí, de Raphael Vilardi e Roberto Loyola começa de maneira engraçada (inhaiiii-i-i-i) e pode ser lida como um aviso à juventude, dado pelos mais velhos; ou uma ironia a esse tipo de conselho. Dia 36 é um mar genial de distorções, rotação diferente da fita de gravação, um macabro efeito com o pedal wah-wah na guitarra e uma mensagem que, para mim, é a de um viajante daquele Brasil de 69 por diferentes tempos e situações, seja em sonho, seja na realidade. 2001 — uma verdadeira viagem psicodélica pelo espaço-tempo, via pensamento de um astronauta — é uma parceria de Tom Zé com o grupo, vindo do poema Astronautas da Liberdade / Astronauta Libertado, que Rita Lee renomeou para 2001, por motivos kubrickianos, e que começa com dois convidados, Zé do Rancho & Mariazinha, na viola caipira e sanfona, respectivamente (além da voz, claro), tendo ainda uso de theremin e blocos de rock. Um verdadeiro deboche no melhor sentindo “música é pra se divertir mesmo!“. Algo Mais foi inicialmente composta como jingle para a Shell (Os Mutantes foram grupo-propaganda da empresa), ganhando, ao contrário do que dizem, uma ótima versão no álbum.

Fuga Nº II teve inspiração em She’s Leaving Home, dos Beatles e dialoga, em temática, com a canção da banda britânica, acompanhando, por outro viés, o ponto de vista dessa garota que sai de casa em busca de aventuras. Banho de Lua (Tintarella di Luna) — que todos nós conhecemos na versão de Celly Campello –, recebe uma soberba versão experimental da banda, uma das mais interessantes e improváveis versões de uma canção como esta. Rita Lee é outra brincadeira da banda com algo dos Beatles, dessa vez com Martha My Dear, em uma faixa musicalmente inventiva sobre “a vida, os sonhos e as ações”  da artista-título. Mágica, que termina com alusões a Satisfaction, dos Rolling Stones, faz jus ao título, mas de maneira liricamente ampla (a mágica do amor, a simplicidade e dificuldades do amor na “vida normal”) e musicalmente riquíssima, cheia de experimentos na guitarra e até uma cítara, por falta de novidade. Qualquer Bobagem, outra parceria com Tom Zé, acabou sendo, para gerações futuras, mais conhecida pela versão do Pato Fu, mas a original interpretação dos Mutantes é imbatível, com Arnaldo gaguejando a letra, de maneira angustiante. E fechando o disco, a genial Caminhante Noturno, que é uma canção que traz de tudo, desde os gritos de “Bicha! Bicha! Bicha!” do Festival Internacional da Canção de 1968, até o Robô B9, de Perdidos no Espaço gritando “Danger, Danger! Danger!“.

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3. A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)

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Ando meio desligado
Eu nem sinto meus pés no chão

Produzido por Arnaldo Saccomani e lançado em março de 1970 (com gravações em outubro do ano anterior), A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado só pode ser definido como um produto genial da cabeça de três jovens músicos geniais. Desde a capa, que é uma reprodução do trio para uma ilustração de Gustav Doré ao representar o famoso livro de Dante Alighieri, até a quebra com a Tropicália — aqui, a banda segue com a mesma veia experimental do disco anterior, mas com uma presença muito maior de momentos pop — e imenso mergulho no rock internacional. O disco traz como convidados Liminha, no baixo de algumas faixas; Dinho Leme na bateria; Raphael Villardi no violão e voz em Ave, Lúcifer (e só violão em Chão de Estrelas) e Naná Vasconcelos na percussão de Desculpe, Babe e na abertura do disco, Ando Meio Desligado, uma das faixas mais populares da nossa música e que pode ser interpretada como uma viagem de ácido. Psicodelia, críticas sociais, experimentação musical e simbolismos religiosos são o cerne desse disco inesquecível.

Quem Tem Medo de Brincar de Amor, segunda faixa do trabalho, é uma conversa de um jovem com sua namorada, um convite ao sexo com uma ótimo trabalho de sonoplastia e engenharia de som, com teclado hammond, apitos e trechos de Parabéns a Você. A macabra e sensacional Ave, Lúcifer tem uma enorme coleção de interpretações, sendo as mais famosas a narração do episódio bíblico da expulsão do Anjo de Luz (Lúcifer) do Paraíso e também sobre… sexo. A temática mais romântica e totalmente pop vem com Desculpe, Babe. E quase como uma provocação para mostrar algo absolutamente diferente, vem a mais longa faixa do álbum (6’23) e cheia de gloriosos momentos instrumentais e vocais (o trompete final, à la western spaghetti é soberbo), a enlouquecedora Meu Refrigerador Não Funciona. Na sequência, Hey Boy, uma parceria de Arnaldo com Élcio Decário (coautor de Ave, Lúcifer, junto com a banda) é uma “alfinetada havaiana, meio jazz, meio rock” aos playboyzinhos da época. Alguns até acreditam que seja para Roberto Carlos, mas eu acho difícil, porque justo a faixa seguinte, Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo, é uma canção dele com Erasmo, que os Mutantes transformam em algo muito gostoso de ouvir. Mas vai saber…

Na sequência, uma clássica seresta de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas chamada Chão de Estrelas, transformada aqui em uma galhofa engraçadíssima e musicalmente excelente, com vocais impagáveis de Arnaldo, que obviamente tirou toda uma geração do sério quando ouviu a interpretação de um eu-lírico canastrão e choramingando. Para mim, é uma das coisas mais legais do disco. Jogo de Calçada tem uma progressão musical que parece pertencer a outra canção, dando-nos uma sensação diferente ao acompanhar mais esse namorico da banda. E na reta final temos a angelical Haleluia, aos poucos tomada pela sua versão “mundana” e psicodélica e Oh! Mulher Infiel, que começa com uma ótima sessão de percussão e ruídos diversos e tem um rock que toma de assalto, seguindo de maneira instrumental, em uma bem pensada despedida para um disco tão cheio de novidades, humor e ainda mais experimentações.

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4. Jardim Elétrico (1971)

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Eu vou sabotar
Você vai se azarar
O que eu não ganho eu leso
Ninguém vai me gozar, não, jamais!

E então Os Mutantes aderiram, “finalmente”, ao rock! Depois de três discos experimentais, a banda começou o seu caminho de mudança para o rock progressivo, neste disco, que tem produção de Arnaldo Baptista. Aqui também temos o início de uma nova formação, com a adição de Liminha e Dinho Leme ao grupo, além de manter os arranjos orquestrais de Rogério Duprat. Outro elemento aqui, além da mudança musical, foi a preocupação com o mercado estrangeiro, o que geraria um álbum (Tecnicolor), com uso de diversas canções desse disco cantadas em inglês.

Top Top (que anos mais tarde ganharia uma versão maravilhosa de Cássia Eller) abre o disco com as famosas distorções da banda, além de palmas como parte da percussão e um fantástico trabalho do baixo. Benvinda é uma faixa ridícula e deliciosamente brega, que tem a letra mais “bêbado em bar, de madrugada” possível, com um arranjo impressionante, que faz tudo ficar muito bom, seja pelos backing vocals, pela criativa mudança de acordes, uso do teclado, dos trompetes, versos em tempo lento — contrastando com o refrão e as pontes… –, uma colagem brega e imprevisivelmente boa. Tecnicolor e a levada psicodélica, bem hippie, mostra como a banda gostava de misturar coisas, especialmente com blocos de ritmo e instrumentalização diferentes. A chacota espanhola de El Justiciero (propositalmente cantada em um engraçado ítalo-portunhol), traz castanhola, violão flamenco e metais de música mexicana… uma das muitas brincadeiras da banda com outros gêneros. It’s Very Nice pra Xuxu é um flerte com algumas canções americanas (uma faixa com “paixão de diva” nos vocais) e excelente uso do teclado hammond e trabalho de Dinho Leme na bateria. Portugal de Navio, com sua intenção cômica, é outra interessante mistura, agora com rock, jazz, country e baladas brasileiras dos anos 40.

Virgínia é uma faixa com uma toada emotiva, novamente, com uma boa concepção musical, mas o refrão parece banal demais para o tocante lirismo do restante da faixa. Jardim Elétrico é Black Sabbath no liquidificador do rock progressivo com muito (muito!) barulho, muita corda, muita batida, muito tudo. É pra balançar a cabeça e dançar até ficar tonto! Lady Lady, fortemente marcada por piano e voz (com ótimo solo de guitarra no miolo da faixa, uma delícia de ponte entre as estrofes!) e que muita gente considera a mais fraca do disco. Eu, ao contrário adoro, sendo esta, inclusive, a minha favorita do álbum. Saravá é mais um rock psicodélico, utilizando a expressão bastante conhecida no Brasil, ligada a religiões afro, com uma mensagem de paz. E finalizando o disco, Baby, versão jazz-bossa-nova em inglês, da famosa canção de Caetano que a própria banda tinha gravado (em português) no disco de estreia.

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5. Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972)

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Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz.

Aqui começa a “história do fim dos Mutantes”. O título desse álbum é uma brincadeira com o nome da banda americana Bill Haley & His Comets e o “bauret” aqui é uma palavra criada por Tim Maia para designar cigarro de maconha. Embora traga diversos elementos criativos que evocam o que a banda fora nos discos anteriores, vemos aqui as portas fechadas para a linha experimental e abertas para o rock progressivo e psicodélico, gerando um disco vivo e dançante, notadamente importante para o rock brasileiro, mas não tão inspirado quanto os outros projetos do grupo. Já estava em andamento aqui o divórcio de Arnaldo Baptista e Rita Lee, que culminaria com a expulsão da Rainha do Rock Brasileiro dos Mutantes, embora as questões pessoais não tenham sido colocadas como o motivo da expulsão, mas sim, “diferenças criativas”.

A abertura de Baurets vem com uma concepção comercial, muito divertida e vibrante, Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde que Eu Tenha o Rock and Roll. Na sequência, a quase chapliniana Vida de Cachorro, uma balada que na parte final nos faz rir, porque subverte a impressão inicial que tínhamos dela, dando uma outra interpretação, e tudo termina com uivos do melhor amigo do homem. Dune Buggy vem arrasando com uma linha de baixo estonteante e crescendo até o excelente solo no final. Cantor de Mambo é uma variação (que não gosto nem um pouco) da zuerinha feita em El Justiciero, mas dessa vez, com uma repetição absurda que não faz bem em nada à faixa — salva-se, obviamente, a parte instrumental, que dialoga com o estilo de arranjos de Santana, com destaque para bateria, percussão de mambo e a guitarra. Já Beijo Exagerado / Todo Mundo Pastou mostra mais uma vez o lado comercial da banda. Infelizmente, a faixa tem 1 minuto a mais do que deveria, com uma pequena palhaçada final que quebra o tom do que foi entregue antes. Se o produtor não fosse Arnaldo Baptista, certamente isso teria sido guilhotinado na versão final, e com razão.

A sétima faixa não é só a melhor do projeto, como uma das melhores da nossa música. Balada do Louco (que ganhou uma versão igualmente bela e famosa na voz de Ney Matogrosso) é uma balada à la Beatles, exceto durante os refrões, com o braço experimental da faixa, cheio de distorções instrumentais e sons feitos com a boca, uma forma de ressaltar a loucura dos Mutantes, do ouvinte e do mundo. Na sequência, A Hora e a Vez do Cabelo Nascer, um baita hard rock inspirado num famoso conto de Sagarana (A Hora e a Vez de Augusto Matraga), do glorioso  João Guimarães Rosa. Rua Augusta, de Hervé Cordovil, já tinha sido gravada, em 1964, por Ronnie Cord, no melhor estilo Jovem Guarda. Esta canção tem a fama de ser o “primeiro rock nacional a ter problemas com a censura“, por conta dos versos: “Comigo não tem mais esse negócio de farda/ não paro o meu carro nem se for na esquina/ tirei a 130 a maior fina do guarda…“. Na versão dos Mutantes, é possível encontrar de quase tudo no arranjo, de beatbox a pequenos solos de diferentes influências e cadências rítmicas. Embora eu goste muito da regravação de Raul Seixas, essa aqui é um xodó pessoal. Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets é a maior faixa do disco, com 9 minutos. É uma viagem musical arrebatadora, com uma repetição de um trecho de Tempo no Tempo que não é necessária, mas não atrapalha. No fechamento, a inútil Todo Mundo Pastou II, fechamento ruim para um álbum diferente, não tão genial, mas muito interessante dos Mutantes.

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“5B”. Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (1972)

cd-rita-lee-hoje-e-o-primeiro-dia-do-resto-da-sua-vida-rita lee os mutantes PLANO CRITICO

Estou sozinha aqui
Na superfície do planeta
A esperar o ano
Em que eu irei ver
Eu verei descer
Num disco prateado, a voz de Deus.

Ah, mas este não é um álbum dos Mutantes, é da Rita Lee!“. Se você é desses, com certeza não ouviu o disco e só está lendo o nome na capa e passando vergonha. Vá ouvir o disco! A questão aqui é a seguinte: os Mutantes quiseram aproveitar a inauguração do Estúdio Eldorado (16 canais, o único do Brasil, naquele momento) e gravaram este trabalho, mas como já tinham lançado Baurets naquele mesmo ano, a gravadora não permitiu que colocassem outro produto no mercado (o contrato era de no máximo um por ano). Contudo, a banda queria lançar o álbum de qualquer jeito. Então creditaram o disco a Rita Lee, apenas. Este é, historicamente falando, o segundo álbum solo na discografia da cantora (o primeiro foi Build Up, de 1970). Mas não é um disco dela, é dos Mutantes, burlando uma regra da gravadora. Considerando isso, temos aqui o verdadeiro último disco com a formação clássica do conjunto, já que Rita Lee seria expulsa em pouco tempo — e a banda, em si, também estava para acabar. O álbum parece o resultado de crianças brincando com um novo (e caro) brinquedo. É experimental nesse sentido, apenas. De exploração de todas as possibilidades de o Estúdio Eldorado oferecia. E sim, é um bom disco, mas existem exageros em muitas canções, além de horrores como Teimosia (da qual só salvamos a parte instrumental) que fazem a obra cair na avaliação final. É um disco muito técnico, mas um pouco desprezado nas letras e em algumas melodias (de Arnaldo Baptista).

Vamos Tratar da Saúde faz a abertura com um bom riff, seguindo com uma linha de baixo fantástica (vale dizer que Liminha está ótimo o disco todo!). Segue-se Beija-Me, Amor, que flerta com as canções clássicas do início do século XX no Brasil, e tem um final épico. Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida pisca para The Doors, o que confere à faixa um incrível conceito musical, mas uma letra que realmente não ajuda. Frique Comigo traz improváveis blocos de piano no final dos refrões, além de uma resolução harmônica que nos faz querer ouvir uma segunda e terceira vez para ver se pegamos tudo. Amor Branco e Preto é uma declaração de amor em sambinha-chacota para o Corinthians. Tiroleite (que brinca com música caipira) é a banda fazendo aquilo que fazia de melhor: tirar sarro das coisas, criticar e expor situações em duplo sentido. Tapupukitipa, a faixa mais longa, é uma saga musical que flerta com poesia concreta e cenário musical indígena. De Novo Aqui Meu Bom José é uma piada interna de metalinguagem. Em seu primeiro disco solo, Rita havia gravado uma versão de Nara Leão para a música Joseph, de Georges Moustaki. Aqui, Os Mutantes brincam com isso. E por fim, Superfície do Planeta, fechamento forte e psicodélico, uma viagem sci-fi que nos faz lembrar alguns momentos do disco de 69, mas em uma linha quase operística, com o baixo de Liminha derrubando montanhas e um trabalho de engenharia de som aplaudível.

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6. Tudo Foi Feito Pelo Sol (1974)

Tudo Foi Feito pelo Sol plano critico

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar
Meu passaporte é espacial, sou cidadão da Terra
E a minha vida é toda verdade e eu não tenho mais idade
E o meu passado é o meu futuro,
E o meu tempo é o infinito.

Com produção assinada pela própria banda, Tudo Foi Feito Pelo Sol foi lançado em 1974, pela Som Livre, e foi o último álbum dos Mutantes, antes do revival da banda, em 2006. Da formação inicial restou apenas Sérgio Dias, que se juntou aos músicos Túlio Mourão (piano, órgão Hammond, sintetizador Minimoog e vocais), Antônio Pedro de Medeiros (baixo e vocais) e Rui Motta (bateria, percussão e vocais) para formar a última versão dos Mutantes, aquela realmente progressiva, que Sérgio e Arnaldo haviam pensado em adotar como identidade. Com as brigas entre os dois irmãos e também da saída de Liminha e Dinho Leme, Dias ainda tentou fazer com que a banda prosseguisse. O bom de tudo ter acabado aqui, é que mesmo em uma fase, intenção e abordagem musical completamente diferentes, a coisa foi feita em um disco excelente, que ainda carrega a lenda de que foi gravado em um take só. Em 2006, a Som Livre relançou o disco, somando ao todo as três faixas (Cavaleiros Negros, Tudo Bem e Balada do Amigo) que formaram um EP da banda lançado em 1976. Particularmente não gostei da iniciativa, porque quebrou a concepção original de Tudo Foi Feito, que termina de maneira bela, arrebatadora e cíclica, com a música que dá título ao álbum.

Deixe Entrar um Pouco d’Água no Quintal abre o disco com uma vibrante influência do Yes (algo entre Close to the Edge e Tales From Topographic Oceans) em um rock com base vocal nos corais gospel americanos, uma lindeza só. Depois temos a excelente instrumental Pitágoras, uma obra-prima de Túlio Mourão, seguida de Desanuviar, que talvez seja a única faixa aqui a dialogar com elementos caros ao passado, inclusive com momentos que aludem ao estilo de composição de Arnaldo, com sintetizadores e a Sitar dando a alma psicodélica e delicada da faixa. E então, de propósito, vem o blues em Eu Só Penso em te Ajudar, que não demora a abraçar o rock. É uma faixa que dá vontade de pegar uma guitarra e tocar a canção inteira, fazendo os improvisos mais malucos; ou só dançar loucamente mesmo. Cidadão da Terra evoca novamente o Yes e é A faixa progressiva por excelência do álbum, com a toada quase mística dos hippies. Dá facilmente para imaginá-la tocando em Hair, aquele musical hipongo excelente dos anos 60. O Contrário de Nada É Nada é uma música bacana, com brincadeira de escalinha descendente nas vozes ao fim dos versos, um charme absurdo, daqueles clichês musicais que sempre gostosos de ouvir, quando bem feitos. Todavia, se comparada às outras porradas do disco, fica entre as mais… “pobres mortais“. E finalizando o trabalho e uma Era inteira, Tudo Foi Feito pelo Sol, uma viagem contemplativa, simples e tocante que termina um momento importante da música brasileira com com chave de ouro.

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Fim e Retorno dos Mutantes

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Os Mutantes encerraram suas atividades em 1978.

Em 1992 e 2000, foram lançados dois discos da banda, gravados nos anos 70. Em 2006, eles foram homenageados na mostra Tropicália – A Revolution in Brazilian Culture, que aconteceu no Barbican Hall, em Londres. Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Dinho Leme aceitaram o convite para tocarem juntos mais uma vez e, diante da recusa de Rita Lee (que alegou outros compromissos), Zélia Duncan foi convidada para integrar o grupo nesta apresentação, que acabou gerando uma longa turnê pelos Estados Unidos e um show no Museu do Ipiranga, em São Paulo, em janeiro de 2007 (eu estava lá! Foi um show  com um início excelente e um final… estranho, muito estranho… em muitos sentidos. E meu Deus do céu, como tinha gente naquele lugar!!!). A banda seguiu com uma turnê pelo Brasil e, em setembro daquele mesmo ano, Zélia e Arnaldo anunciaram suas saídas. Sério Dias continuou o projeto, com outras formações, e acabou gravando novos discos.

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7. O A e o Z (1992, mas gravado em 1973)

o a e o z plano critico os mutantes

Eu sou o começo
Sou o Fim
Sou o A e o Z

A concepção e as “consequências” de O A e o Z são polêmicas em tudo. Primeiro, a banda assumiu de uma vez por todas a vertente progressiva, claramente inspirada na banda Yes. O disco foi gravado pouco tempo depois da demissão de Rita Lee e, na verdade, foi o último a ter a formação “clássica” dos Mutantes, com Arnaldo Baptista no mellotron, órgão Hammond, clavinete Hohner, violoncelo e voz; Sérgio Dias nas guitarras Régvlvs e Fender Stratocaster, violão 12 cordas, cítara e voz; Liminha nos baixos Rickenbacker e Régvlvs, violão e voz; e Dinho Leme na bateria, tabla e voz. Das histórias em torno do disco, afirma-se que foi composto, gravado e mixado sob efeito de LSD. O fato é que a gravadora Polydor detestou o resultado e não lançou o material, acabando por demitir a banda. O projeto só veria a luz do Sol dezenove anos depois de gravado. Em 2015, foi feita uma reedição dele, pelo selo Polysom, que apresentou as faixas colocadas em lugares diferentes da original. [Que mania ridícula, essa de mudarem a concepção original de um trabalho!]

Abrimos com A e o Z, faixa de oito minutos que não só serve de preparação para o conceito do disco, como também dialoga, em diferentes níveis, com as outras cinco faixas. É um verdadeiro mar de improvisos, riffs, ritmos e sessões musicais extremamente criativas. Rolling Stones teve o título corrigido erroneamente. Era para ser Rolling Stone mesmo, já que era uma homenagem ao editor desta revista. Você Sabe é a segunda faixa mais escrupulosa do disco, com arranjos e concepção de progressões melódicas e harmônicas que nos fazem viajar, lembrando o material da Mahavishnu Orchestra. Hey Joe é a faixa mais longa do disco, com 12 minutos, e que ganha o título de mais escrupulosa, com três blocos musicais grandes, sendo que cada uma dessas suítes brincam com diferentes gêneros e influências musicais da banda, embora a cara de Yes aqui apareça em cada grande performance que os músicos entregam. Uma Pessoa Só é delicada, melancólica, sentimental, com um ótimo trabalho instrumental. Particularmente não gosto nada da interpretação de Arnaldo nos vocais aqui, mas não consigo desgostar da faixa. E o encerramento vem com Ainda Vou Transar com Você, a faixa mais comercial do disco, apesar do início incomum para uma faixa comercial.

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8. Tecnicolor (2000, mas gravado em 1970)

plano critico Tecnicolor os mutantes

You know I feel a little spaced out
I can’t hardly see my feet on the ground
I hear voices from the outside

Gravado no Des Dames Studio, em Paris, no final de 1970, Tecnicolor veio em um período em que Os Mutantes estavam em alta. Mas este não é um disco de inéditas. Trata-se de regravações em inglês, francês, espanhol ou mesmo versões em português de canções que apareceram nos registros anteriores da banda. Mas a roupagem aqui, para todas as faixas, é simplesmente imbatível e a qualidade do disco, assim como de sua produção, faz com que a coletânea seja um show à parte, uma baita “apresentação rápida” para quem não conhece Mutantes. As faixas recriadas para o disco são: Panis et CircensesBat MacumbaVirginiaShe’s My Shoo Shoo (A Minha Menina)I Feel a Little Spaced Out (Ando Meio Desligado), BabyTecnicolorEl JusticieroI’m Sorry Baby (Desculpe, Babe)Adeus Maria FulôLe Premier Bonheur du JourSaravahPanis et Circenses (Reprise).

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9. Haih or Amortecedor (2009)

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Somos siempre los grandes pelotudos
La pelota pilota el pais…

Produzido por Sérgio Dias e lançado em 8 de setembro de 2009, pela gravadora americana ANTI-, Haih or Amortecedor é um trabalho inédito dos Mutantes desde 1974! Foi um risco e tanto de Dias, recompensado pela interessante concepção sonora e fusão de marcas progressistas com a pegada tropicalista da banda em suas origens — não é à toa que Tom Zé está em parceria de composição em 6 faixas do disco! Aqui, juntaram-se ao mutante original, Dinho Leme (bateria), Henrique Peters (teclados), Vitor Trida (teclados, guitarras, flauta, viola caipira, violino), Vinicius Junqueira (baixo), Simone Soul (percussão), Fábio Recco (vocais) e Bia Mendes (vocais). Um bom time, para um trabalho interessante, porém (infelizmente), com duas versões de mercado que me irritaram bastante. Como sempre faço, vou considerar a versão original do disco, quando lançado apenas nos EUA em 2009. Ocorre que, da versão americana para a brasileira (que saiu só em 2011!), o produtor resolveu mudar a ordem de algumas canções, tirar uma e acrescentar outras. Eu ouvi as duas versões e… sim, a brasileira é melhor (4 estrelas) do que a americana (3,5 estrelas).

Para nós, o disco ficou com 15 faixas, diferente das 13, na versão original. A nossa versão está sem Nada Mudou, música de Vitor Trida que não é ruim, mas não tem o sabor das outras boas canções, então foi bom ter saído. E também saiu Gopala Krishna Om, que é uma boa faixa, um bom mantra de Sérgio Dias. Deveria ter ficado, porque combina com o Haih (“corvo“, em língua shoshone, uma ave pela qual o músico tem fascínio e que está tanto no título quanto na capa do disco). E aí entraram 4 inéditas, todas boas, em níveis diferentes: Amortecedor (Sérgio Dias e Tom Zé), Zheng He (Henrique Peters e Sérgio Dias), a excelente Call Me, minha favorita dentre essas novas — (Fábio Recco) e Singing the Blues (Bia Mendes e Erasmo Carlos). Permaneceram os estranhos — de aparência conceitual e com interessantes marcas políticas no álbum, mas nada relevante — hinos nacionais soviéticos, junto com a voz de Pútin, mais o hino brasileiro e o americano em uma mescla de lugares e teores político-econômicos que mostram as caras em Querida Querida (uma cutucada em Dilma Rousseff?) e no divertido e bem espírito de “Mutantes raiz”, Samba do Fidel.

Então temos a baladinha folk Teclar, onde se destaca o violão. Mais outra faixa divertida, 2000 e Agarrum, um “rock caipira” misturado com forró que é um flerte com 2001, que a banda gravou em 1969. Bagdad Blues é uma genial brincadeira com atualidades da época e ironias diversas. Não é uma faixa complexa, musicalmente falando, mas tem um sabor musical intoxicante, à la B.B. KingO Careca, samba de Jorge Ben, tem um dos melhores arranjos do disco, mas eu simplesmente detesto o “refrão”, uma das coisas mais tenebrosas colocadas em um projeto dos Mutantes (e olha que não existem muitas, viu!). O Mensageiro parece uma faixa de um disco de Zélia Duncan. Não é ruim, mas para Mutantes, não vale. Anagrama é uma balada cantada por Bia Mendes e Tom Zé, uma boa faixa, com uma brincadeira feita no final das sílabas, que não são completadas. É o tipo de composição que não nega o fato de ser ridícula e por isso mesmo é incrível. Samba do Fidel é o El Justiciero do disco. Vocês já perceberam que eu adoro o escracho nonsense dos Mutantes, não é? Por isso não tenho como não vibrar, rir e dançar o tempo inteiro com essa loucura, uma mistura de bolero, mambo e rock (não tem samba! Hahahahaha), uma das minhas favoritas do disco. E para finalizar, Neurociência do Amor, com um escrupuloso arranjo e mudança interessante de concepção rítmica entre estrofes e refrão; mais as que saíram do disco na versão brasileira, Nada MudouGopala Krishna Om.

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10. Fool Metal Jack (2013)

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Pobre de mim
Pensei que ainda havia o que descobrir

Lançado nos Estados Unidos pela Krian Music Group, em 30 de abril de 2013, Fool Metal Jack (título em homenagem a Nascido Para Matar, de Stanley Kubrick) é uma mostra de que os Mutantes realmente fazem jus ao nome, modificando-se, abraçando novas abordagens, fazendo projetos que condizem com o seu tempo e evolução. A formação aqui é a seguinte: Sérgio Dias (que compõe sozinho 7 das 13 músicas do álbum), Bia Mendes, Vinícius Junqueira, Henrique Peters, Dinho Leme e Vitor Trida, embora as turnês apresentem mudanças em relação aos músicos. Com distorções, rock como principal foco e a guerra como tema permanente, Fool Metal Jack abre com a balada psicodélica confessional The Dream Is Gone, sobre a face oculta do Sonho Americano, uma faixa que começa com uma viagem crítica, reverberando acordeão e cordas, além de uma bela harmonia no coro e mensagem para pensar uma realidade social que não é só americana. Fool Metal Jack (Dias com Vinícius Junqueira) é um pesadelo de morte, de um soldado, com ótimos momentos de letra e música, exceto na bizarra finalização, após os refrões. Na sequência, o ótimo prog-rock chamado Picadilly Willy; o protesto em reggae jamaicano Ganja Man, que lembra algumas coisas de Jimmy Cliff; o flerte com uma parte do passado da banda na ótima Look Out (que lembra um pouco Styx!); e Eu Descobri, de Gilberto Gil, a única faixa do disco cantada em português e por uma voz principal feminina (Bia Mendes), nova roupagem para coisas tropicalistas dos Mutantes, aqui, com violão, flauta, violoncelo, cítara e sintetizador.

Minha faixa favorita do disco, Time and Space, traz um arranjo muito bem pensado para a mensagem de “rock espacial” que flerta com o Yes. To Make It Beautiful é uma bela balada de cadência pop, funcionando bem como momento plácido do projeto. Once Upon a Flight tem uma mistura muito boa de influências, parece até Novos Baianos em alguns momentos. Into Limbo olha aqui e ali para os Beatles, mas tem uma intensidade maior, tanto no ótimo arranjo, quanto na escolha dos instrumentos em destaque para cada bloco, sendo a flauta um guia permanente. Bangladesh é o “lado mantra” do disco, que tinha aparecido em Haih na boa Gopala Krishna Om, mas aqui faz graça com outra canção da banda, Ave, Lúcifer. E encerrando a obra, temos Valse LSD, uma faixa de cítaras que entrega com perfeição o que promete, uma viagem de ácido em uma valsa improvável, fechando o projeto como quem se despede por tempo indeterminado… ou para sempre.

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RANKING

Álbum

Faixa Favorita

11º   Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida Superfície do Planeta
10º   Haih or Amortecedor Bagdad Blues
  Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets Balada do Louco
  Fool Metal Jack Time and Space
  Jardim Elétrico Lady, Lady
  O A e o Z A e o Z
  Tudo Foi Feito Pelo Sol Deixe Entrar um Pouco d’Água…
  Os Mutantes Tempo no Tempo
  Tecnicolor TODAS!
  Mutantes Dia 36
  A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado Meu Refrigerador Não Funciona

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E agora que terminamos é a sua vez de comentar! O que acha dos Mutantes? Qual é o seu ranking pessoal dos discos da banda? Já ouviu todos? Quais as suas canções favoritas do grupo? Que discografias vocês gostariam de ver aqui nessa coluna?

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.