Entenda Melhor | Realismo Poético Francês

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Uma corrente cinematográfica veio à luz nos anos 1930, na França: o Realismo Poético (às vezes também chamado de Fantasia Social). Diferente das manifestações de vanguarda naquele país até a I Guerra Mundial, o Realismo Poético não tinha como base nenhum manifesto político, social ou mesmo estético, o que traz o primeiro “grande problema” desse movimento, a demarcação de início e fim + a dificuldade de estabelecer precisas fronteiras visuais e narrativas. Não chega a ser um movimento tão cheio de meandros quanto o cinema noir americano (que o Realismo Poético influenciou), mas tem lá a sua dose de problemas ao ser abordado.

Historicamente falando, esse período cinematográfico começou a ser plantado com o fim da 1ª Guerra, com experimentações e temas constantemente reais ganhando espaço no cinema francês, inclusive em grandes estúdios nacionais da época, como Pathé e Gaumont. Esse período viu fermentar-se os sentimentos de amargura, decepção, desilusão e nostalgia em um número cada vez maior de roteiros, encontrando, por fim, o melhor terreno para brotar, como “regra”, a partir de 1929. A Grande Crise nos Estados Unidos acabou atingindo a França no começo dos anos 1930 e grandes produtoras de filmes chegaram a falir ou tiveram considerável diminuição em sua grade, ao mesmo tempo que películas de produtoras menores puderam ser feitas e apreciadas pelo tipo de proposta que colocavam na tela.

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O Atalante, A Regra do Jogo, Cais das Sombras e O Demônio da Argélia.

Apareceria, pouco a pouco, uma onda de filmes com histórias pessimistas, protagonizadas por um personagem simples (vale dizer que o homem é o foco principal dos filmes desse movimento), marcado por um destino trágico ou diante do qual não pode lutar, por diversos motivos. O cunho literário (Émile Zola, claro) e as indicações sociais também são pontos de destaque do movimento, refletindo bem o espírito de sua época e mesclando-se a ingredientes da cultura francesa, indo da música à política. Como fundamento estético e também de conteúdo, vê-se ecos do Expressionismo Alemão e do estilo Kammerspielfilm (exploração do silêncio e grande sentimento/intimidade dos personagens), com os franceses filmando a ação em planos-sequência e escrupuloso uso de profundidade de campo. Ainda podemos notar recorrência ao emprego do chiaroscuro (vale dizer que o período noturno é o favorito desses filmes), além de luz natural. Obras como Lírio Partido (1919) e Rua das Lágrimas (1925) são conhecidas e assumidas influências para alguns diretores do Realismo Poético.

Destaques gerais do Realismo Poético: diálogos contundentes e pessimistas (o roteiro era a peça mais importante aqui); filmagens em estúdio; contexto social e/ou popular, devido aos personagens à margem da sociedade — de trabalhadores a bandidos; [melo] drama fatalista; imagens inspiradas no cinema alemão dos anos 1920 e intenso uso de atmosfera melancólica (com destaque para cenas de bruma e chuva, uso de sirenes de barcos e planos mostrando paralelepípedos reluzentes). Os principais diretores do movimento foram Pierre Chenal, Jean Vigo, Julien Duvivier, Marcel Carné e Jean Renoir e os principais atores e atrizes do movimento foram Jean Gabin, Michel Simon, Simone Signoret e Michèle Morgan.

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Bas Fonds, A Besta Humana, Trágico Amanhecer O Boulevard do Crime.

Filmografia

Como eu comentei no início deste Entenda Melhor, a definição de fronteiras para o Realismo Poético não é exatamente algo fácil ou unânime. Em termos de fonte, eu fui o menos exigente possível, consultando apenas dois dos livros mais fáceis que encontrei à mão na hora de explorar elementos desse estilo. O primeiro e mais completo é o Mists of Regret: Culture and Sensibility in Classic French Film, de Dudley Andrew (há um soberbo livro dele publicado aqui no Brasil e que recomendo fervorosamente: As Principais Teorias do Cinema: Uma Introdução) e o Atlas de Cinema, de Labarrère. Mesclando as informações desses autores, minha posição diante das obras desse período e algumas indicações em listas de críticos americanos, colocarei A Pequena Lise (1930), A Cadela (1931), Cour de Lilas (1931), Boudu, Salvo das Águas (1932), A Noite da Encruzilhada (1932), Daïnah la Métisse (1932), Zero de Comportamento (1933) e A Cabeça de um Homem (1933) como os precursores legítimos do Realismo Poético. E vou jogar com a maioria apontando O Atalante (1934), como o seu filme de estreia.

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A Grande Ilusão, Quermesse Heroica e O Crime

REALISMO POÉTICO E NOIR FRANCÊS: dependendo da leitura do crítico ou espectador, alguns filmes da fase final do Realismo Poético Francês podem ser vistos como um híbrido, sendo tanto um representante desse movimento quanto do Polar. Embora tenham suas diferenças, esses movimentos não se excluem, e um certamente pode ser visto como sucessor temático do outro, de modo que não há incoerência temática em se fazer esse tipo de interação diante de algumas obras, desde que haja um princípio claro para isso.

O Atalante

L’Atalante | Jean Vigo | 1934

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A Grande Ilusão

La Grande Illusion | Jean Renoir | 1937

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Quermesse Heroica (1935), Toni (1935), O Crime de Monsieur Lange (1936), Bas Fonds (1936), O Demônio da Argélia (1937), Trágico Amanhecer (1939), A Regra do Jogo (1939), A Última Cartada (1934), La Rue Sans Nom (1934), Pensão Mimosas (1935), Crime e Castigo (1935), A Bandeira (1935), Jenny (1936), Camaradas (1936), Gula de Amor (1937), O Homem que Vivia Duas Vidas (1938), Pecadoras de Tunis (1938), La Fin du Jour (1939), Águas Tempestuosas (1941), Luz de Verão (1943) e Portas da Noite (1946) — provavelmente o encerramento tardio do estilo, embora este posto às vezes seja atribuído a O Boulevard do Crime.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.