Entenda Melhor | Storyboards: A Arte do Planejamento Narrativo

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Os envolvidos numa produção cinematográfica compreendem que organização e planejamento são questões básicas para que as coisas aconteçam da melhor maneira possível. Apesar de menos comentado, os storyboards [1] são considerados como um dos principais aliados dos realizadores no momento da pré-produção, dando conta da necessidade de se projetar soluções que contemplem as etapas de uma produção.

Com características das histórias em quadrinhos, os storyboards são elementos exclusivos de bastidores e surgem como guia para diretores, roteiristas, atores, diretores de fotografia, montadores e demais envolvidos no esquema de bastidores de um filme, videoclipe, série, dentre outros produtos audiovisuais. Arte coletiva, o cinema ganha com os storyboards um mapeamento que direciona todos e promover a melhor condução da narrativa.

Em The Art of The Storyboard: storyboarding for film, TV and animation, o especialista J. Hart aponta a tarefa básica do responsável pelo storyboard: “colocar toda a história numa sequência narrativa lógica”, ferramenta capaz de dar ao criador a programação organizada de seu plano de filmagem, “frame a frame”, com “ações e passagens traduzidas”. Os desenhos podem acompanhar também descrições sobre ação, movimento, detalhes sonoros ou qualquer outra informação julgada relevante numa produção.

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Tubarão (Steven Spielberg, 1975 — desenhos de Joe Alves) e Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976 — desenhos de Martin Scorsese).

Desenhar uma série de quadros para contar histórias é uma prática que acompanha a humanidade desde o antigo Egito. Na produção cultural, em 1914, imagens em movimento do Gato Felix deram indícios das estruturas básicas do storyboard, mas foi nos meandros dos estúdios da Disney que a prática se tornou elemento industrial. Etapa responsável por intermediar o roteiro e a realização, atribui-se ao desenhista Webb Smith à autoria e fundação da técnica do storyboarding [2], tendo em vista a forma atual como a conhecemos.

Tudo começou com Os Três Porquinhos, de 1933, esquema que ganhou ressonâncias para as produções live action. Antes disso, George Méliès já utilizava a técnica e compreendia a sua importância, tal como os realizadores de …E o Vento Levou [3]. Hitchcock, esteta por excelência, tornou a prática uma parte fundamental dos bastidores de produção, pois compreendia que complementa possíveis lacunas estabelecidas pelo roteiro. Federico Fellini, Pier Paolo Pasolini, Jean-Luc Godard, Roman Polanski, Stanley Kubrick, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e Ridley Scott são alguns dos nomes que acham a prática obrigatória para a condução de seus projetos. Na seara musical, a cantora Madonna sempre optou pelos storyboards para aprovação das imagens de seus videoclipes, requisito que tornou as suas produções um marco na história do gênero audiovisual responsável por manter a sua carreira relevante por quase quatro décadas.

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Madadayo (Akira Kurosawa, 1993 — pintura de Akira Kurosawa) e Oito e Meio (Federico Fellini, 1963 — desenho de Federico Fellini).

Nos bastidores de animações, em especial, da Pixar, há em média quinze (mínimo cinco) profissionais responsáveis pelos storyboards. Em suma: quando colocadas em sequência, tais imagens refletem como a ação deve ser desenvolvida e podem indicar procedimentos para utilização de elementos como as cores, a volumetria, a ambientação, além de possibilitar a leitura dos personagens e a melhor organização financeira de um filme. Com bons diretores, filmes como Tubarão (1975), A Noviça Rebelde (1965), Spartacus (1960), Taxi Driver (1976), Apocalypse Now (1979) e Jurassic Park [4] (1993) são alguns exemplos de bastidores com storyboards bem delineados.

Alguns casos famosos no mostram que é possível realizar storyboards sem o roteiro previamente escrito. Isso aconteceu com Mad Max – Estrada da Fúria, dirigido por George Miller. Admirador da versão dos anos 1970, Brendon McCarthy realizou uma série de desenhos prévios para uma possível refilmagem da produção, vasto material que serviu de inspiração para o material dramatúrgico escrito por Nico Lathouris. Esse é um caso isolado, mas significativo, pois nos mostra que não devemos pensar as etapas de realização cinematográfica em esquemas muito estanques.

plano critico e o vento levou psicose

E o Vento Levou (Victor Fleming, etc, 1939 — desenhos de William Cameron Menzies) e Psicose (Hitchcock, 1960 — desenhos da Saul Bass).

Em entrevista para os extras que acompanham a edição de colecionador de Resident Evil – O Hóspede Maldito, o cineasta Paul W. S. Anderson afirma que o material serve para situar o que está sendo feito, principalmente quando se trabalha com efeitos especiais. Os escritores e diretores Eric Gress e J. Mackye Gruber, responsáveis pelo roteiro e realização do irreverente Efeito Borboleta, ao falar sobre os storyboards, afirmam a importância dos desenhos para esquematizar o filme, dando-lhe maiores subsídios. Outro relato, dentre tantos relevantes, está no depoimento do diretor de fotografia Bruno Delbonnel, responsável por ajudar o cineasta Jean-Pierre Jeneut na condução das imagens de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, revela no making of do filme que os cuidados com storyboards foram muito frequentes, algo que permitiu aos envolvidos a sensação de maior preparo para as etapas de produção e pós-produção.

O especialista P. M. Teixeira traçou alguns pontos para compreensão da importância do storyboard na arte do planejamento de uma narrativa. Segundo suas observações, os desenhos ajudam no estudo dos personagens e nas suas dinâmicas no enquadramento e ação; planifica os cenários e ambientes; promove a avaliação individual de cada personagem, formas de expressão e perfis; possibilita a pré-visualização da produção; colabora na organização dos aspectos de iluminação, sombra e cor; avalia a logística e os seus elementos técnicos; contabiliza cenas e planos; estimula a criatividade e potencializa a experimentação e os testes; testa o potencial do filme numa visão global; além de construir uma linguagem comum para toda a equipe, um dos seus pontos de maior importância.

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A Noviça Rebelde (Robert Wise, 1965 — desenhos de Maurice Zuberano). Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979 — desenhos de Dean Tavoularis). Homem-Aranha 2 (Sam Raimi, 2004 — desenhos de Chris Buchinsky). Meu Amigo Totoro (Hayao Miyazaki, 1988 — desenhos de Hayao Miyazaki).

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Saiba mais:

FILLMANN, Maria Carolina Frohlich. Storyboard: uso estratégico da ferramenta no planejamento de revistas, p. 1090-1100. In: Anais do 11º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design [= Blucher Design Proceedings, v. 1, n. 4]. São Paulo: Blucher, 2014.

TEIXEIRA, P.M. Storyboard: o ensaio de uma narrativa planificada. Disponível aqui. Acesso em 25 de fevereiro de 2018.

[1] Também conhecido continuity sketches.

[2] Storyboarding (da Toon Boom) e Storyboard software (PowerProduction) são os softwares mais conhecidos para a realização dos storyboards.

[3] Storyboards de William Cameron Menzies.

[4] Tom Cranham, Maurice Zuberano, Saul Bass, Martin Scorsese, Dean Tavoularis e David Lowery, respectivamente, desenhistas das produções.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.