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Entenda Melhor | Trilhas Sobrenaturais: A Música da Franquia Invocação do Mal

por Leonardo Campos
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Uma boa condução musical, em simbiose com um espetacular trabalho imagético, permite que o cinema seja essa arte tão envolvente que já nos acompanha desde os últimos anos do século XIX. Marcantes, algumas as trilhas sonoras são conhecidas por terem se tornado uma afetiva parte da memória coletiva de nossa sociedade apaixonada pelo audiovisual. O Exorcista, Tubarão, A Profecia, Halloween, Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Hellraiser, dentre tantas outras: como esquecer o impacto e o legado de composições tão marcantes, assinadas por Mike Oldfield, John Williams, Jerry Goldsmith, John Carpenter, Harry Manfredini, Charles Bernstein e Christopher Young? Músicos responsáveis por criarem um lugar confortável para se sentar na história da música para cinema, estes nomes deixaram as suas respectivas marcas e foram inspirações para gerações vindouras, como os artistas que assinam as trilhas da franquia Invocação do Mal, universo cinematográfico com narrativas que tem no sobrenatural o seu ponto de articulação para o desenvolvimento de histórias aterrorizantes que envolvem exorcismos, possessões, habitações assombradas e outros elementos numinosos que fazem os espectadores tremerem de medo em suas poltronas. Tendo em vista o lançamento do terceiro Invocação do Mal, decidi estudar, analisar e compartilhar com vocês, caros leitores, um panorama das composições musicais que tornam esta franquia uma das mais bem-sucedidas do terror contemporâneo. Leiam o texto, ouçam as músicas e não deixem de comentar, combinado?

Galeria de Malditos: Os Músicos da Franquia Invocação do Mal

Joseph Bishara

Metais, cordas e sopros proeminentes. Intensidade é uma das possíveis definições para as trilhas sonoras da franquia Invocação do Mal. Joseph Bishara é um dos músicos responsáveis por esse aterrorizante espetáculo de sonoridades. Com trajetória voltada ao campo em questão também desde jovem, o artista começou a sua carreira de compositor para cinema por volta dos anos finais da década de 1990. No geral, deu os primeiros passos com a banda de rock Prong, além de assinar algumas contribuições para Marilyn Manson e Christian Death. Da textura percussiva para o drama bíblico em 1998 às parcerias com o cineasta e produtor James Wan na franquia Invocação do Mal, Bishara demonstrou competência enquanto músico, mesmo que o seu feixe de produção esteja limitado aos filmes de terror atualmente, num conjunto de produções que possuem os seus diferenciais, mas parecem dialogar muito entre si, situação que num prazo maior, pode tornar o seu trabalho “mais do mesmo”. Design de som em Fantasmas de Marte, de John Carpenter, o músico também deu contribuições para projetos de Joseph Zito, cineasta mais conhecido por sua orquestração do horror no slasher Sexta-Feira 13 Parte 4: Capítulo Final.

Benjamin Wallfisch

Quem mais colaborou com a franquia foi Joseph Bishara, mas em dois momentos distintos, tivemos a possibilidade de ver Benjamin Wallfisch e Abel Korzeniowski, dois músicos conceituados na atual indústria cinematográfica. O primeiro, experiente produtor e maestro, produziu a textura percussiva de Annabelle 2 – A Criação do Mal. Já Korzeniowski, mais conhecido por suas trilhas em narrativas de romance e drama, assumiu a condução musical em A Freira, sonoridade mais coesa e tensa da franquia, mesmo que o filme em si não chegue aos pés da sua qualidade auditiva. Compositor britânico que recentemente, assinou fortes trabalhos em O Homem Invisível, A Cura e It- A Coisa, Wallfisch é um artista com conexões genéticas no campo da música. Filho de violinista e de uma violoncelista, ele é também neto de uma conceituada pianista, integrante da Orquestra Sinfônica de Auschwitz. Desde jovem, teve educação musical e unificou diletantismo com os seus interesses profissionais em seu exercício atual como músico.

Abel Korzeniowski

Abel Korzeniowski, artista que conheci na ocasião do lançamento de WE: O Romance do Século, primeiro filme dirigido por Madonna, demonstra aptidão para se portar como alguém versátil no campo de produção musical, haja vista o seu ótimo desempenho na cinebiografia de Valak. Compositor polonês, premiado por diversos trabalhos, em especial, a trilha da série Penny Dreadful, Korzeniowski também teve contato com a música desde muito jovem. A sua mãe toca violoncelo e com toda essa inspiração, ele estudou e se dedicou ao campo em questão: garantiu a sua formação na Academia de Música de Cracóvia, além de se especializar no mesmo instrumento de sua referência maternal, complementado com estudos em composição. Antes de conhecer o seu projeto para o terror A Freira, Korzeniowski me chamou bastante à atenção em Animais Noturnos, trilha soturna e densa, conectada com atmosfera do filme de Tom Ford.

O Desempenho de Joseph Bishara em Invocação do Mal

Bishara é um dos mestres musicais do horror. Pianos enferrujados, sons eletrônicos e experimentais, cordas arranhadas agressivamente e metais pesados em associação ao potencial extraído dos metais. Assim é a sua composição para Invocação do Mal, conjunto de 25 faixas ancoradas no tema principal, The Conjuring, a inquietante abertura da franquia que acompanha tematicamente as demais composições do álbum que apresenta um feixe de músicas eficientes, tanto para a sessão do filme quanto para a sua audição dissociada do material audiovisual. Dentre os destaques, temos Sleepwalker, inicialmente amena e levada aos extremos em seu desfecho, tal como os habituais jumspcares dos filmes deste universo; You Looke Very Pretty lembra passagens de O Iluminado, trilha para o filme de Stanley Kubrick que será uma constante não apenas no primeiro Invocação do Mal, mas nas demais composições de Joseph Bishara subsequentes. Em The Soaring, o tema principal retorna, Doll Box amplia a atmosfera de horror e Witch Come Trough se apresenta como a segunda melhor faixa do material, construída com instrumentos pesados, coro denso e gritos mesclado aos sons de súplica que angustiam. É, no geral, uma eficiente e bem elaborada trilha sonora, composta por Joseph Bishara em um momento de muita inspiração, álbum que transforma a experiência sensorial do filme num competente espetáculo de tensão e horror. Ao lado do ótimo trabalho de Abel Korzeniowski em A Freira, a trilha ocupa um lugar privilegiado na condução musical de toda a franquia.

A Trajetória Musical de Annabelle

Com o sucesso da participação especial da boneca Annabelle em Invocação do Mal, não demorou para que o spin-off ser produzido e lançado. Decepcionante, haja vista a elevação que o filme de exorcismo e possessão dirigido por James Wan tinha dado ao profícuo campo dos filmes de terror, Annabelle é apenas uma narrativa mediana. A sua trajetória narrativa melhoraria substancialmente nos dois episódios seguintes, sendo este ensaio preambular equivocado, insosso, em suma, pouco expressivo. Não podemos dizer o mesmo da boa trilha de Joseph Bishara, coesa e densa, mais interessante que o filme em si. Na composição, o músico aposta nos elementos já esperados: cordas, metais, sopro e vocais cavernosos. Annabelle Opening unifica estes instrumentos e adiciona sons semelhantes ao que é emitido por um móbile de berço, associação que ironiza o tom infantil com traços sonoros macabros. Nos destaques, percebemos inspiração em It´s The One, faixa com muitos traços das obras utilizadas pela equipe de Stanley Kubrick em O Iluminado; Not My Blood mixa demasiadamente os metais e as cordas, numa busca por inquietação que também está e Broken Needle, Demon Doll Rises e Annabelle Closing. Curiosamente, o ostinato do tema clássico de John Williams para Tubarão surge brevemente em Her Soul, referência que pode ou não ser proposital na composição desta trilha genial. Para Annabelle 2: A Criação do Mal, Benjamin Wallfisch investe numa atmosfera macabra, tal como o trabalho de Joseph Bishara para o filme anterior. É uma trilha sonora muito eficiente, mas não chega a ser necessariamente um diferencial, tanto para a franquia quanto para o que se produz no campo do terror. Neste quesito, Abel Korzeniowski é quem entra no esquema e consegue manter-se dentro da proposta, com diferenciais que não atrapalham o andamento musical do universo em questão, ao contrário, enobrecem a musicalidade deste feixe de histórias macabras. Isso, no entanto, não depõe contra o trabalho competente de Wallfisch. É apenas uma observação.

No tema de abertura, Annabelle Creation, o artista não sobe o tom demasiadamente, mas mantém o clima de angústia e aviso aos navegantes: um festival de horror está prestes a se estabelecer. Em muitos pontos, a faixa em questão e até mesmo as demais que completam o álbum soam dramáticas, menos urgentes, quando comparadas ao anterior e ao sucessor da trajetória de Annabelle. Cordas rangem, sons que emulam uivos, simbiose com metal e sopro compõem as ótimas The Police, Demonquake e The Possession, sendo as duas últimas, também tributárias do clássico O Iluminado. Percebemos aqui que Joseph Bishara não é o único familiarizado com a trilha do clássico, junção de obras de vários compositores, dentre eles, Bartók, Berlioz, Ligeti e Penderecki, um trunfo musical ressonante na franquia Invocação do Mal. Em Annabelle: De Volta Para Casa, o compositor mais proeminente em termos de presenciais faz o mesmo que a boneca receptáculo das forças malignas: retorna ao seu ambiente de trabalho. No desenvolvimento da composição e condução, Bishara reutiliza algumas estratégias de Annabelle e cria uma atmosfera mais elaborada, dando volume e sofisticação ao que antes já era suficiente. Doll Opening faz a sua abertura e nos situa na atmosfera macabra já habitual. Sabemos que ao longo de todo o percurso da trilha, alguns momentos dramáticos serão golpeados pela tensão dos instrumentos de corda, sopro e metal, orquestrados em prol da sensação de arrepio pretendida com o eficiente terceiro capítulo da saga desta boneca maldita. Dentre os destaques, Is The Doll reforça a presença dos metais, Doll Slumber anunciam que alto de muito errado está prestes a acontecer e Witch Totem mescla a sonoridade inquietante das cordas nervosas com um coro bastante inspirado em tornar a expressão vocal num expressivo conjunto de sons guturais assustadores. É o terceiro melhor trabalho do compositor dentro do universo, depois dos filmes estruturais, isto é, “Invocação” Parte 1 e Parte 2.

A Perturbadora Textura Percussiva de Invocação do Mal 2

No desenvolvimento de seu trabalho, Joseph Bishara diz que costuma traduzir mentalmente as impressões diante dos filmes para que a musicalidade das trilhas surja diante da sua mescla de sons eletrônicos com instrumentos acústicos. Quando lançado, Invocação do Mal 2 mostrou que a franquia ainda tinha muito potencial a ser explorado, mesmo que spin-off Annabelle tenha nos deixado um pouco com poucas esperanças. Perturbadora, a composição de Bishara para a nova empreitada de Lorraine e Ed Warren é outro inspirado trabalho musical para este universo cheio de histórias sobrenaturais. Aqui, o coro é um dos elementos mais potencializadores da inquietação e sensação de angústia transmitidas pela trilha, material que ainda contam com forte presença dos instrumentos de corda, acompanhados pela participação especial de metais e sopros para amplificação da tensão. Em The Conjuring 2, a equipe de Bishara capricha no dedilhar das cordas, além do excelente conduzir das vozes guturais que deixam qualquer um arrepiado.

É a antecipação para A Close To Hell, faixa levemente tensa, iniciada com um tom mais ameno e encerrada com muitos metais e sopros ensurdecedores, tradução da angústia da cena que acompanha. Interessante observar que a faixa de abertura aparecerá em algumas menções na composição de Abel Korzeniowski na mencionada ótima trilha de A Freira. It Isn’t Real traz uma falsa calmaria e tom idílico que logo abrirá espaço para os horrores de Asserted Presence e Jarred Awake. Ademais, destaque para Nu Paiting, aterrorizante faixa com um coro gutural, associado aos fortes metais arranhados; Old Man Bill, soturna e com ecos de O Iluminado, clássica trilha também ressonante em Not a Heaven Man. Tendo ainda o irônico som de cantigas presentes em Crooked Man Rhyme, faixa que começa humorada, mas sabemos, vai se transformar num som de puro horror posteriormente, o álbum de Joseph Bishara é uma excelente material para o trabalho igualmente eficiente de James Wan nesta firme continuação do ótimo primeiro filme da franquia.

Horror Para Ninar? A Música em A Maldição da Chorona

Quando lançado, A Maldição da Chorona mostrou que a franquia Invocação do Mal apresenta irregularidades em suas narrativas gravitacionais, haja vista a espinha dorsal permanecer nas estruturas dos filmes voltados aos casos de Ed e Lorraine Warren. Os resultados de sua trilha sonora expressam a situação é a mesma. Essa talvez seja a condução musical menos sólida do universo em questão, conjunto de 36 faixas que completam um álbum produzido para repetir os bons momentos dos demais filmes do projeto, sem o mesmo fôlego da parte de Joseph Bishara, compositor que aqui entrega o que se convencionou a chamar de “trabalho burocrático”. Inicialmente idílica, o tema principal, La Llorona, aposta nas cordas leves para investir nos instrumentos de sopro em seu desfecho, indo da calmaria a histeria em poucos segundos. É uma subida de tom que não cria uma atmosfera sombria, como o esperado vindo de uma textura escrita e conduzida por Bishara, um artista coeso e competente. Como o tom da narrativa é mais dramático, a música reflete os mesmos padrões, destacando-se rapidamente no desenvolvimento de Corner Weeping, genérica, mas interessante; Weeping Glimpses também sobe o tom, diferenciando-se das subsequentes, tensão que ganha novo fôlego em Held From Breath e na intensa To Be Drowned, faixa com musicalidade que nos faz lembrar trechos da trilha do primeiro Evil Dead, A Morte do Demônio, de Sam Raimi, clássico do terror de 1981.

A Freira: A Trilha Mais Obscura da Franquia

Já mencionei: a trilha sonora de Abel Korzeniowski para o spin-off A Freira é o melhor trabalho musical de toda a franquia, mesmo que Joseph Bishara tenha também sido sensacional em suas composições para as três invocações com Ed e Lorraine Warren, personagens cuidadosamente desempenhados pelos ótimos Patrick Wilson e Vera Farmiga. Aqui, o músico faz do coro um dos elementos essenciais para transformar a história num épico do horror. Os resultados do filme em si são questionáveis, mas a sua textura é firme, sombria, eficiente e adequada para acompanhar uma história tão macabra, filmada na Meca do Horror, a Romênia, território que se apresenta aos nossos olhos como um elemento colaborador na construção da atmosfera ideal para uma produção do tipo. God Ends é a faixa de abertura, densa e espetacular, aterrorizante em seu jogo de cordas que anunciam o fim de qualquer presença divina em prol da disseminação do mal acerca da figura de Valak, a entidade que utiliza a indumentária de uma freira para se fazer presente e estabelecer o seu reino de façanhas demoníacas. O coro e as demais vozes aqui são potencializados como em nenhum outro momento da franquia. Esse tom de abertura continua em Sacrifice, faixa que se inicia mais lenta, mas revela-se ensurdecedora em seu desfecho. Perpetual Adoration flerta com um instrumento de sopro que lembra vagamente o ostinato de John Williams no tema de Tubarão e Handmaid of God volta ao assustador clima da abertura, numa integração de frequências agudas, sons estridentes e dinâmicas diabolicamente repetitivas, composição que nos faz mergulhar densamente no clima macabro que o desenvolvimento narrativo do filme ineficaz não permite. Abel Korzeniowski, competente e triunfante, entrega um trabalho coeso e diferenciado, mesmo que o terror não seja a sua área de maior afinidade.

E Invocação do Mal 3?

Por fim, chegamos ao terceiro episódio da estrutura principal da franquia, Invocação do Mal 3 – A Ordem do Demônio, produção pecaminosa em sua direção menos firme, desta vez, sob o gerenciamento de Michael Chaves, isto é, sem o virtuosismo de James Wan, diretor que faz toda a diferença para os filmes deste universo. Com os elementos já convencionais de sua participação nos demais momentos da saga de horror mais bem-sucedida do cinema contemporâneo, Joseph Bishara se destaca em Ease Into Night, faixa acima da média, clean e dramática, sonoridade que é ampliada pela simbiose de corda, metal e sopro nas angustiantes Wilds of The Devil e Cut Close. Diferente nã06o apenas do álbum, mas da franquia de maneira geral, Morgue Visit investe em flautas para amenizar algo que posteriormente se torna mais intenso, tal como o tema de abertura, Devil Opening, ressonante ao longo da textura percussiva do filme que investiga uma das mais peculiares experiências do casal Ed e Lorraine Warren no campo da demonologia. Joseph Bishara, mais uma vez, entrega um trabalho coeso, mesmo que repetitivo em comparação ao todo de sua contribuição para este universo cinematográfico macabro. Se está bom, não temos porque reclamar por não ouvir novidades, não é mesmo? O desagradável é quando há mudança do tom para algo inferior. Ao se manter nivelado, o músico e os produtores evitam problemas. Basta agora aguardar o próximo filme da franquia. Até lá.

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