Entenda Melhor | Tubarões, Efeitos Visuais e Animatrônicos no Cinema

Os filmes de monstros não se tornaram uma exclusividade do cinema hollywoodiano após o sucesso de Tubarão, em 1975, clássico horror ecológico dirigido por Spielberg ainda em começo de carreira. A aventura do tubarão-branco assassino, no entanto, ainda é referência quando o esquema narrativo é o contato entre seres humanos e criaturas tão fascinantes e assustadoras. Na época de seu lançamento, o cineasta não dispunha dos efeitos visuais que na contemporaneidade já se tornou lugar comum, haja vista as deslumbrantes imagens de séries como Game of Thrones e até mesmo o antagonista de Águas Rasas, melhor exemplar de tubarões assassinos depois da produção que nos anos 1970, fez escola para muitos outros jovens cineastas.

Os efeitos visuais evoluíram juntamente com os avanços tecnológicos dos programas de computadores, aplicativos e demais elementos que formam o tecido da cibercultura. Muitos filmes de ação, terror e aventura se beneficiaram destas inovações. Nem tudo é realizado pela equipe responsável por tais efeitos. A chuva, os ventos fortes, o impacto das ondas, enfim, há ainda muitas coisas que são desenvolvidas pelos responsáveis na seara dos efeitos especiais. Noutros casos, para ampliar o potencial da história, os produtores de filmes de tubarões investem em efeitos visuais, oriundos de programas de computadores avançados e capacitados em tornar os tubarões as bestas assassinas que causam tantos danos aos personagens diante de perigo tão mortal.

Os tubarões mecânicos de Spielberg (primeira linha) e as feras assassinas das continuações: prévias dos efeitos visuais computadorizados do cinema contemporâneo

Junto aos efeitos computadorizados, os tubarões são representados por meio de animatrônicos, tecnologia que remonta aos anos 1960, quando Walt Disney, interessado em personagens em tamanho real para dialogar com o seu público, encomendou alguns para o parque de diversões mais famoso do mundo. Os seus movimentos aproximam-se dos tubarões de verdade, pois mesmo que haja absurdos narrativos no desenvolvimento da trama, geralmente especialistas são convidados para dar consultoria na seara biológica, no que tange aos aspectos da estrutura da espécie de tubarão selecionada para o filme em questão. Em sua escala evolutiva, alguns são guiados por controle remoto, outros por mecanismos mais elaborados, elementos que na era dos efeitos visuais, ainda são recorrentes em produções contemporâneas.

Depois de Tubarão, nenhuma outra produção com tais criaturas marinhas teve o mesmo impacto que Do Fundo do Mar, realizado no último ano da década de 1990. Houve as continuações do clássico de Spielberg, uma pior que a outra. Tubarão 3 enfatiza a criatura com efeitos que lembram uma apresentação vulgar de Power Point. O quarto filme, nos poucos momentos em que aparece, o tubarão telepático vingativo é mais horrível que a sua própria história. Os italianos deitaram e rolaram com as suas releituras paródicas com tubarões, todas visualmente aterrorizantes, não do ponto de vista do medo e da catarse, mas no que concerne aos enredos e efeitos bizarros.

Os animatrônicos nos bastidores do frenético Do Fundo do Mar

De volta ao empolgante Do Fundo do Mar, na trama, pesquisadores desenvolve um estudo com uma enzima localizada no cérebro dos tubarões. A pesquisa, alocada em meio ao oceano, caminha bem até que dois problemas entram em confluência: os tubarões estão mais furiosos que o normal, sagazes por conta das contraindicações científicas que pedem maior segurança e cuidado dos idealizadores do projeto, haja vista a importância da não soltura desses animais na natureza. Outro problema grave é a tempestade que ao se aproximar, devasta as barreiras de segurança e coloca todos os envolvidos em perigo. A equipe de efeitos visuais faz a festa diante dos exageros de algumas cenas, tal como a bizarra morte do personagem de Samuel L. Jackson, mas para uma produção realizada há duas décadas, o resultado visual é satisfatório.

Entre Do Fundo do Mar e Águas Rasas, isto é, 1999 a 2016, os tubarões apareceram em filmes medianos. Dentre os destaques, podemos selecionar Terror na Água 3D e Isca, de 2011 e 2012, respectivamente. Para o desenvolvimento dos tubarões de Terror na água 3D, a equipe contou com os efeitos visuais que funcionam bem, diferente da história, vazia, sem emoção, estéril em todos os seus elementos dramáticos, do personagem ao mote da trama. Além dos efeitos visuais, há também a presença de animatrônicos, devidamente orientados por biólogos, tendo em vista evitar equívocos na apresentação das espécies que fazem a festa com os jovens incautos, dizimados por tubarões famintos num espetáculo em terceira dimensão para os espectadores.

Processo criativo de VFX em Terror na Água 3D

Quem faz um trabalho com desenvolvimento narrativo melhor é a equipe de Isca, produção australiana com menor potencial na seara dos efeitos visuais, mas com enredo melhor estruturado. Nós, de alguma forma, nos importamos com os personagens. Os tubarões, ferozes e famintos, apresentam ao público o festival de sangue esperado numa produção do tipo. Aqui, algo curioso é reforçado para os amantes da euforia visual em detrimento da sugestão e de uma boa história. Os efeitos especiais fazem a trama funcionar melhor que os momentos em CGI. As cenas com a barbatana, tal como sabemos desde Spielberg, às vezes funcionam melhor que a apresentação pouco convincente de tubarões computadorizados.

Se não contarmos as aberrações da linha Sharknado, franquia de nicho realizada exclusivamente para apreciadores de cultura trash, Águas Rasas é o exemplar que cronologicamente, demarca a retomada dos filmes de tubarões no circuito acima da média. Desenvolvido por Jaume Collet-Serra, tendo como base o roteiro escrito por Anthony Jaswinski, a aventura aborda um dia terrível na vida de uma surfista que precisa redobrar as suas forças para conseguir escapar de um tubarão-branco antes que a maré suba e cubra a formação rochosa que lhe serve de proteção. Para aumentar a sensação de pavor devidamente calculada pelo roteiro, o filme possui bom investimento na seara dos efeitos visuais, com um tubarão convincente: assustador, grandioso e impactante.

Processo criativo de VFX em Águas Rasas

Após o lançamento de Águas Rasas, o cineasta Johannes Roberts assumiu Medo Profundo, filme previsto para o mercado de vídeo, mas que diante de seu potencial, os produtores apostaram na veiculação em salas de cinema. E deu certo. O filme é empolgante, possui uma história convincente e amarrada, as personagens protagonistas são cativantes, a trilha sonora não é irritante e excessiva, tampouco funciona como muleta narrativa para uma narrativa vazia. E o principal neste caso: realistas e impactantes, os tubarões criados pela equipe de efeitos visuais são fantásticos, sem passar a sensação bizarra de produções de CGI barato.

Em Megatubarão, a gigantesca equipe de efeitos visuais teve como desafio, dar vida ao lendário tubarão pré-histórico, atividade que não apresenta defeitos, mas que poderia ter sido mais trabalhada em cena, pois ao contrário do filme de Spielberg, a trajetória dos personagens não é muito atraente, os diálogos são mecânicos e a aventura economiza demais nos ataques do animal, tendo em vista dar espaço para reflexões científicas pouco empolgantes. Quando aparece, surpreende, mas o roteiro inspirado na novela homônima de Steve Alten fica devendo mais emoção e necessidades dramáticas ao seu público.

Processo criativo de VFX em Megatubarão

No desenvolvimento de Medo Profundo: O Segundo Ataque, a equipe de Johannes Roberts ganhou um desafio maior que o antecessor. Qual a justificativa para uma sequência, mesmo que desconectada totalmente do filme anterior? Acredita-se que um enredo mais amarrado, personagens esféricos com histórias suficientes para o estabelecimento da catarse, bem como tubarões surpreendentes, não é mesmo? Pois não deu certo. Os tubarões-brancos albinos aparecem pouco, os ataques dependem exclusivamente do uso de jumpscare e quando as cenas do desfecho contemplam melhor as espécies, o filme já não nos interessa mais.

Ademais, o que todos nós sabemos, realizadores e espectadores, é que um filme de tubarão não depende exclusivamente dos efeitos visuais para criar uma relação com o seu público. A base de tudo ainda está no roteiro. Os animatrônicos bem elaborados também ajudam na condução das cenas antes da aplicação de determinados efeitos visuais. Claro que diante de tramas deste segmento, desejamos contemplar as espécies que, a depender do grupo de realizadores, apresentam-se impactantes nas imagens captadas pela direção de fotografia, bem como por suas expressões sonoras, caso tenha uma boa condução musical e uma equipe de design de som que saiba trabalhar as peculiaridades da história a ser contada.

Um exemplo interessante é o já citado Medo Profundo. Mesmo com orçamento menor que produções pomposas como Megatubarão, o filme consegue causar maior adesão do espectador no que diz respeito ao realismo. E a motivação disso tudo não é apenas uma história menos mirabolante. O roteiro, como apontado, continua sendo importante para a nossa adesão aos personagens e seus destinos, mas tubarões menos espalhafatosos às vezes nos envolvem muito mais. Os efeitos visuais, aliados do desenvolvimento da linguagem audiovisual, devem subsidiar narrativas. No entanto, o seu uso precisa ser guiado por profissionais com bom-senso e moderação, afinal, menos, às vezes, é muito mais, não é mesmo?

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.