Fora da Plano #64 | José Mojica Marins (Zé do Caixão)

plano crítico josé mojica marins zé do caixão cinema terror brasil

José Mojica Marins é um daqueles artistas que são muito mais conhecidos do grande público por um personagem que criaram/interpretaram do que pelo seu próprio nome. Ele nasceu na capital paulista, em 13 de março de 1936, e morreu nesta mesma cidade, em 19 de fevereiro de 2020. Ao longo dos seus 66 anos de carreira, tendo trabalhado como cineasta, ator e roteirista, houve um personagem que marcou não só a sua própria figura (e ele a incorporou intensamente, por muitos anos), mas também o seu trabalho no cinema e a cara do gênero terror no cinema brasileiro: o Zé do Caixão (Josafel Zanatas).

Meu primeiro contato com o Zé do Caixão se deu quando eu ainda era criança. Acredite os xófencinhos ou não, mas era transmitido à tarde, na Band, um programa chamado Cine Trash, que tinha o Zé como apresentador das vinhetas. Eu morria de medo dos terrores que passavam no programa, mas sempre que conseguia tapear minha mãe, assistia a um dos filmes.

Demorou mais de uma década desse meu contato infantil com o Zé do Caixão para que eu fosse encontrar novamente o seu criador, não como Zé, mas como o profeta messiânico de Finis Hominis. Mais um tempo ainda transcorreria até que eu visse por completo os filmes que conhecia apenas por alguns pedaços, e foi aí que apareceram aqui no Plano Crítico as análises das três principais produções de Marins: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) e O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968).

Marins cresceu em um ambiente ligado à arte. A paixão pelo cinema surgiu na infância e sua primeira tentativa séria de fazer um filme aconteceu em 1956. A obra se chamava Sentença de Deus e era um faroeste, mas não conseguiu ter as filmagens completadas. Ele, porém, não desistiria e permaneceria no gênero quando assinou a sua verdadeira primeira produção, A Sina do Aventureiro, também em 1956. Após o drama Meu Destino em Tuas Mãos (1963), o diretor já tinha confiança o bastante para embarcar em projetos mais ousados, mas ele nunca imaginaria que esse novo momento seria completamente definido por um sonho que ele teve no final daquele ano. O diretor chegou a contar a criação do Zé do Caixão em entrevista:

Certa noite, ao chegar em casa bem cansado, fui jantar. Em seguida, estava meio sonolento, entre dormindo e acordado, e foi aí que tudo aconteceu: vi num sonho um vulto me arrastando para um cemitério. Logo ele me deixou em frente a uma lápide, lá havia duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte. As pessoas em casa ficaram bastante assustadas, chamaram até um pai-de-santo por achar que eu estava com o diabo no corpo. Acordei aos berros, e naquele momento decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado. Estava nascendo naquele momento a personagem que se tornaria uma lenda: Zé do Caixão. A personagem começava a tomar forma na minha mente e na minha vida. O cemitério me deu o nome; completavam a indumentária do Zé a capa preta da macumba e a cartola, que era o símbolo de uma marca de cigarros clássicos. Ele seria um agente funerário.

No ano seguinte seria lançado À Meia Noite Levarei Sua Alma e daí para frente a vida do diretor mudaria por completo e ganhava forma a cara do terror nacional. Depois de Finis Hominis (1971), Marins voltaria a encontrar dificuldades ainda maiores daquelas a que já estava acostumado, o que fez com que ele embarcasse nas pornochanchadas, embora mantivesse a sua abordagem macabra para o gênero. Seu período de decadência culminou em um longo intervalo onde não dirigiria nenhuma obra formal para o cinema: de 1988 a 2007. Vale dizer porém, que ele assinou dois vídeos durante esse período: A Guilhotina do Terror (1997) e Necrophagia: Nightmare Scenarios (2004).

A passagem do cineasta nos anos 1990 teve um bom reflexo na televisão e no rádio, mas nos anos 2000 seu reconhecimento esteve apenas aliado a grupos de criação artística de terror, seja na música, nos quadrinhos, na literatura ou na televisão; e a Mostras e Festivais que compilavam ou faziam exibições especiais de suas obras. Seu retorno à cadeira de direção (após aparece em alguns papéis como ator) aconteceria em 2008, com Encarnação do Demônio.

Daí para frente o diretor teve a oportunidade de assinar mais alguns trabalhos: A Praga (2011), o segmento Viral, do filme coletivo The Profane Exhibit (2013), o segmento O Saci, do filme coletivo As Fábulas Negras (2015), o curta-metragem Coffin Joe Born Again (2015) e o seu último, o segmento Autofilmagem, do filme coletivo Memórias da Boca (2015). Como ator, seu maior trabalho nesses últimos anos foi em Entrando Numa Roubada (2015).

O diretor nos deixa após quase um mês internado para tratar de uma broncopneumonia. Um artista que trabalhou e criou num Brasil onde era ainda mais difícil fazer filmes do que é hoje, ainda mais o tipo de filme que ele queria fazer. Fica, pois, a sua marca em um capítulo assustador (na verdade, uma coluna inteira) do nosso cinema. Que descanse em paz.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.