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Fora de Plano #113 | As Chinelas Comunistas!

Nem todo mundo usa mais. Quase todo mundo odeia.

por Kevin Rick
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Faça as pessoas discutirem o que não faz diferença nenhuma, e elas nunca perceberão o que realmente está acontecendo.
– George Orwell, em “1984”

Nos últimos dias, a polêmica em torno de um comercial das Havaianas revelou muito menos sobre a propaganda em si e muito mais sobre o estado atual do debate público. A frase dita pela Fernanda Torres de “começar o ano com os dois pés, não apenas com o pé direito” foi rapidamente capturada, distorcida e transformada em suposto comentário político, como se cada palavra dita em espaço público precisasse, obrigatoriamente, carregar uma agenda ideológica oculta. O episódio não é curioso; é sintomático. Ele expõe o grau de radicalização e empobrecimento simbólico que domina parte significativa da discussão política contemporânea, em que qualquer ruído vira sinal, qualquer metáfora vira ataque, qualquer nuance vira ameaça.

É difícil levar a sério a ideia de que uma empresa multinacional, em pleno período comercial estratégico, estaria deliberadamente “cutucando” a direita ou a extrema direita com uma frase tão genérica quanto essa, até porque, há alguns anos, a mesma empresa fez um comercial com o Romário sobre a superstição do “pé direito”, em que o baixinho manda a chinela do pé esquerdo para o Maradona, como sinal de azar (já dá pra ter um gostinho da hipocrisia dessa galera, né?). A leitura conspiratória diz muito mais sobre quem a faz do que sobre quem produziu o conteúdo. Trata-se de uma paranoia política que se alimenta de si mesma, em que tudo precisa ser enquadrado como guerra cultural permanente. O problema é que, enquanto se discute o suposto subtexto ideológico de um comercial de sandálias, debates realmente urgentes são empurrados para segundo plano.

Vale lembrar aqui de George Orwell, que já descrevia esse mecanismo com precisão cirúrgica em 1984: a criação constante de inimigos simbólicos, cortinas de fumaça e batalhas semânticas serve para manter a população ocupada emocionalmente, desviando sua atenção das estruturas reais de poder. Quando tudo vira política, nada é política de verdade. A histeria não mobiliza pensamento crítico; ela o dissolve. O sujeito indignado com o “pé esquerdo” raramente está interessado em discutir economia, democracia ou direitos civis. Ele está apenas reagindo, em modo automático, a um gatilho previamente programado de extremismo.

Essa lógica de reação constante também revela algo ainda mais preocupante: a dificuldade crescente de lidar com ambiguidade, ironia e linguagem simbólica. Mesmo que, por hipótese, o comercial tivesse alguma intenção irônica, crítica ou provocativa, a resposta pública demonstra uma incapacidade quase total de absorver humor, subtexto ou distanciamento estético. Tudo precisa ser literal, imediato, tribal. A arte, a comunicação e até a publicidade passam a ser julgadas não pelo que são, mas pelo que supostamente “representam” dentro de um mapa ideológico simplificado e infantilizado.

E aqui entramos em um terreno que vai muito além das Havaianas. Esse tipo de reação não é exclusivo de um espectro político, nem restrito ao Brasil. Ele se repete globalmente, em diferentes matizes, sempre que uma obra artística ousa tocar em símbolos sensíveis de religião, política, identidade, moral. O histórico recente está repleto de exemplos: especiais de humor cancelados, filmes atacados antes da estreia, séries reduzidas a slogans por públicos que sequer se dispõem a interpretá-las. No Brasil, o Porta dos Fundos talvez seja um exemplo recente emblemático com seus especiais “religiosos”, tendo sido alvo de reações violentas e irracionais por exercícios explícitos de sátira, algo que sempre foi parte essencial da tradição artística.

Como contraponto recente, tivemos a reação de parte da esquerda ao anúncio de jeans (genes) protagonizado por Sydney Sweeney, em que uma parcela do público enxergou subtextos e mensagens eugenistas ou supremacistas em um jogo de palavras e em escolhas estéticas que, no mínimo, exigiriam uma leitura muito mais cuidadosa e contextualizada para sustentar acusações tão graves. Aqui, a situação é de fato mais delicada, não porque o anúncio necessariamente carregue tais intenções, mas porque envolve temas históricos e simbólicos sensíveis, que merecem discussão responsável. Ainda assim, o que se viu foi novamente um curto-circuito interpretativo: uma reação instantânea, maximalista, que saltou diretamente da análise estética para o linchamento moral, sem espaço para ambiguidade, ironia ou mesmo para a possibilidade de erro de leitura.

O padrão se repete: diante de qualquer obra, seja um comercial, um filme, uma piada ou uma imagem publicitária, a mediação crítica é substituída por impulsos de tribunal, onde tudo precisa ser imediatamente classificado como ofensivo, ideológico ou perigoso. No fim das contas, muda o lado que grita, mas permanece o mesmo empobrecimento do debate, a mesma incapacidade de lidar com símbolos de forma madura e a mesma urgência em transformar arte, publicidade ou entretenimento em campos de batalha morais permanentes.

O que se perde nesse processo não é apenas o bom humor ou a capacidade de rir de si mesmo, mas algo mais fundamental: a habilidade de diálogo com o contraditório. A arte, mesmo a mais simples, mesmo um comercial, sempre operou no campo do simbólico. Ela provoca, exagera, ironiza, tensiona. Reagir a isso como se fosse um ataque direto e literal é um sinal claro de empobrecimento da leitura cultural. É como se o público estivesse permanentemente armado, incapaz de distinguir entre crítica, sátira e agressão real.

Há também uma contradição evidente no centro dessa polêmica. A ideia de que uma empresa capitalista, cujo objetivo primário é vender um produto para o maior número possível de pessoas, escolheria deliberadamente alienar “metade do país” por militância ideológica beira o absurdo. Mesmo quando marcas fazem posicionamentos políticos claros, o que não parece ser o caso aqui, isso geralmente se dá dentro de estratégias calculadas, simbólicas e muito mais brandas do que os críticos gostam de admitir. Projetar intenções revolucionárias em um slogan publicitário é atribuir profundidade aonde não há, ou, pior, criar um inimigo imaginário para justificar a própria indignação de uma radicalização cada vez mais ridícula e perigosa no Brasil.

No fundo, o que essa reação escancara é uma crise de leitura do mundo. Uma sociedade que já não consegue lidar com ironia, metáfora e interpretação está condenada a interpretar tudo como ameaça. E quando tudo é ameaça, qualquer possibilidade de reflexão se torna impossível. O comercial das Havaianas não é o problema; ele é apenas mais um espelho. Um reflexo desconfortável de um tempo em que a discussão pública se tornou ruidosa, histérica e intelectualmente preguiçosa.

Talvez o gesto mais radical hoje não seja “tomar partido” em cada microevento cultural, mas recuperar algo que parece cada vez mais raro: a capacidade de interpretação, de humor, de pensamento crítico. Começar o ano com os dois pés no chão, e não apenas com o pé direito ou esquerdo, talvez seja, ironicamente, um conselho melhor do que muitos gostariam de admitir, e não falo aqui apenas da superstição.

Mas no final de tudo, deixo esse pensamento:

Quem não odeia quando a sua chinela tem posicionamento político diverso do seu?
– Kevin Rick, em “Plano Crítico”

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