Fora de Plano #49 | A Melancolia da Vida Segundo Frank Ocean

Um artista pra ser considerado um gênio tem que saber fazer muito com pouco. Esse é meu argumento principal pra chamar Frank Ocean de um dos gênios dessa geração musical. Fazendo uso de uma sonoridade geralmente muito minimalista e simples, as músicas do cantor/produtor/rapper parecem encharcadas de emoção e complexidade dentro de estruturas muito simples. Acima de tudo, Frank conversa bem com uma geração obcecada por sentimentos nostálgicos, que precisa lidar com a solidão constantemente – mesmo que o mundo das redes sociais passem uma ideia oposta a isso – e enfrenta os problemas ordinários do cotidiano.

Sempre recomendo Frank Ocean para meus amigos. É aquele artista que todos deveriam aclamar enquanto estamos presenciando seu brilho. Afinal, existe um fascínio do público por valorizar a obra-prima muito depois de seu alvorecer. Para isso, cheguei até a criar uma playlist pra introduzir Frank a amigos meus, a qual segue com o orgulhoso título just be frank.

E é difícil definir o que Frank é. Um poeta moderno? Um filósofo musical? Existe uma certa lente ordinária e mundana nos versos e arranjos de Frank que impossibilita qualquer ideia de um ser atípico e reforça seu lado humano. O cantor aborda o cotidiano com uma fluidez e honestidade invejáveis. Escutar álbuns como Blonde é como navegar pelas memórias do compositor através de rotinas solitárias, vida noturna por Los Angeles, momentos com amigos e romances mal acabados. Acima de tudo: experiências. Tudo com beats e versos repletos de personalidade que garantem a mesma sensação que temos quando recordamos memórias: carente de detalhes e misterioso, com muito mais ênfase nas emoções que aquilo representa.

A forma como Frank acessa suas memórias é tocante. Sempre abordando a nostalgia com um tom melancólico, conseguindo um balanço preciso entre ser vago e ser descritivo: seja pedalando uma bicicleta pelo bairro (Biking), o apertar play de um velho videogame (Start), um breve romance em um festival de música (Novacane), a monotonia do dia a dia e das noites em busca de satisfação (Nights). Qualquer canção do cantor recorre a lembranças e possui um sabor agridoce: tudo é descrito de forma imprecisa e vaga, muito como os “borrões” que carregamos de lembranças distantes. Veja, por exemplo, as descrições de Sweet Life, que pintam imagens que conversam sobre um passado impossível de retomar, ao mesmo tempo que a produção sonora da canção faz questão de inserir elementos – um piano nostálgico e uma produção retrô tipicamente radiofônica – que garantam isso.

Embora Frank faça músicas voltadas para experiências próprias, não discursa sobre nenhum tipo de assunto de forma exclusiva. Frank consegue universalizar suas experiências como negro e homossexual. É perceptível que nem mesmo quando as músicas parecem abordar temas de uma classe específica deixam de ser relacionáveis. Se a brilhante Chanel é considerada uma música sobre bissexualidade, isso se restringe a apenas um tipo de interpretação. “I see both sides like Chanel”, acima de tudo, é sobre ver os dois lados de uma mesma pessoa amada: suas forças e suas fragilidades. No entanto, é fato que rumores de Coco Chanel ser bissexual levam para a primeira interpretação, bem como o logo da empresa: dois Cs visando lados opostos.

Elogiar ainda mais os versos de Frank é chover no molhado. Vale deixar registrado aqui, porém, que poucos fazem um jogo de palavras e fonética como o mesmo. Veja na própria Chanel, citada no parágrafo anterior: perceba que “See on both sides like chanel” tbm soa como “Sea on both sides like chanel“, algo como “Oceano nos dois lados do canal“). Assim como a magnífica faixa Solo, de Blonde, que discursa sobre uma rotina solitária (“Solo”, solitário) enquanto também comenta sobre o uso e dependência de drogas (“So low” em oposição a “high“, ao uso de drogas).

Acima de tudo, Frank é um poeta que discursa sobre o ordinário. Bem mais em Blonde e Endless, menos em Channel Orange e Nostalgia, Ultra. Dialoga sobre seus problemas de relacionamento, sobre a solidão do mundo moderno e a fuga que cada um escolhe: seja ela nas drogas, em um companheiro(a) amoroso ou até mesmo na cultura (Frank é um grande cinéfilo, com diversas referências por suas músicas). E tudo em um clima relacionável, sem máscaras ou discursos típicos de celebridades; e o fato de Frank fugir de capas de revistas, holofotes ou redes sociais ajuda muito nessa mensagem mais humana.

Se ainda não conhece a carreira do artista em questão, fica aqui esse apelo. Se conhece, mas não por completo, procure até mesmo suas obras menos conhecidas e que não estão no Spotify (a ótima mixtape Nostalgia, Ultra e o espetacular visual album Endless). Por duas vezes Frank Ocean mudou a forma de se fazer música nessa década, uma vez com Channel Orange e outra com Blonde. Uma moldando o que seria do R&B/soul para os anos seguintes, a outra elevando e fundindo o gênero a influências como dream pop e experimentando produções minimalistas.

Uma vez que um artista consegue transmitir, através de sua música, todos os sentimentos e memórias conflitantes que o cercam, ele já consegue um feito gigantesco perante a arte. Fazer isso de forma que soe honesto e humano, representando uma geração e seus embates sociológicos, assim como a efemeridade da vida nesse mundo moderno, é conquista que apenas gênios conseguem. E esse é o caso de Frank e seu oceano de vibrações, palavras e memórias.

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.