Fora de Plano #52 | Luz, Câmera e Mulheres na Direção!

A história que envolve a hierarquia no processo de assinatura de um filme é extensa e complexa, mas uma coisa é certa: atualmente, a cadeira da Direção de Cinema é sempre citada quando fazemos referência a um filme, mesmo que por detrás da produção haja uma numerosa lista de outros profissionais responsáveis pelo sucesso de uma obra. Tubarão, de Steven Spielberg, salvo por Verna Fields na mesa de edição. Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter, constantemente orientado por Debra Hill, colaboradora, produtora e roteirista. Psicose, de Alfred Hitchcock, cineasta que escutou, dentre tantas opiniões, a de sua esposa Alma Reville, incisiva ao garantir que sem a famosa trilha de Bernard Hermann para a cena do chuveiro, a adaptação do romance homônimo de Robert Bloch não surtiria o efeito desejado.

Figura central e que, a depender da produção, precisa duelar com os produtores em prol de seu ponto de vista, a assinatura da Direção de Cinema “outorga” as escolhas de um processo coletivo, de liderança, responsável por transformar a história em papel, isto é, o roteiro em imagens. Ao gerenciar os diversos departamentos, colhe informações, anota sugestões, analisa e interpreta o roteiro, estuda os storyboards, supervisiona os preparativos, dirige os atores e pode até acompanhar a confecção do trailer e das estratégias de marketing para promoção da produção.

Os inevitáveis e indiscutíveis clássicos da Direção de Cinema

Em 2016, o Sindicato de Diretores dos Estados Unidos elegeu as 80 produções mais bem dirigidas da história do cinema hollywoodiano. Era ocasião para comemoração, haja vista as oito décadas de existência do órgão regulador para os realizadores estadunidenses. Os nomes já esperados estavam na lista divulgada: Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e Stanley Kubrick, presenças célebres e justas, pois independente dos possíveis maus momentos em suas respectivas carreiras, precisamos concordar que são mestres da realização cinematográfica. O Poderoso Chefão, Tubarão, Laranja Mecânica, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, dentre outros, são obras clássicas e de referência, indiscutíveis no que tange ao merecido posto hierárquico no panteão da excelência na “direção de cinema”.

Há ainda Akira Kurosawa e Rashomon, Alfred Hitchcock e Psicose, Frank Darabont e Um Sonho de Liberdade, Mike Nichols e A Primeira Noite de Um Homem, Roman Polanski e Chinatown, Orson Welles e Cidadão Kane, David Lean e Lawrence da Arábia, Martin Scorsese e Os Bons Companheiros, Federico Fellini e 8 ½, John Ford e Rastros de Ódio, etc. A lista, seleção canônica baseada num determinado conjunto de votantes não determina a opinião mais geral sobre direção de cinema, mas é uma bússola para acompanharmos o que há de melhor em termos de produções estadunidenses que no processo de globalização/mundialização da cultura, ganhou ressonâncias ao redor do planeta e influenciou várias gerações de cineastas. Alguns que os tomam como referência absoluta, outros que partem das influências para subverter fórmulas e empregar novos significados.

Mas, afinal, quais as demandas da Direção de Cinema?

A função é atualmente o maior posto hierárquico nos bastidores. Geralmente bem reconhecidos quando os resultados de um filme/série/videoclipe são positivos, o profissional que assume a direção tem como apoio uma extensa equipe que envolve o design de produção (direção de arte e cenografia), trilha e som (mixagem e edição), maquiagem, figurino, direção de fotografia, edição/montagem, efeitos visuais e especiais, dentre outros departamentos, a depender do orçamento da produção. Num feixe de comparações simplificadoras, propositalmente didáticas, o diretor age como o gerente de uma loja que organiza, orienta e fiscaliza as ações de seus funcionários, em prol das vendas, ou então, um gestor escolar que lidera a equipe de coordenadores e professores, que por sua vez, atua com os estudantes em prol das metas desejáveis para o sucesso educacional.

A meta da realização cinematográfica é o filme, o produto final do processo de produção. Desta maneira, na direção, o profissional responsável elabora a sequência de planos com base no roteiro, orienta os atores de acordo com as suas marcações, precisa seguir o planejamento para dar conta do calendário e do orçamento, em suma, como apontado em Direção de Cinema – Técnicas e Estéticas, de Jameson Goldner, é o responsável por administrar as orientações técnicas, formar a equipe de trabalho e fiscalizar os boletins de produção.

Escrito em meio às anotações, rascunhos e informações realizadas em suas palestras na Escola de Cinema da Universidade de Columbia, Sobre Direção de Cinema, de David Mamet, é um livro interessante para refletir o processo de direção, dentro de um esquema industrial especifico, mas que ao ser lido, interpretado e adaptado para o contexto de seus realizadores, traz questões aplicáveis a qualquer espaço de bastidores. O autor aponta que nos primórdios, os diretores filmavam, montavam e até atuavam em suas realizações, situação que em alguns casos, tais como alguns filmes de Woody Allen e Spike Lee, mudou pouco, salvaguardando as devidas proporções de seus respectivos períodos históricos.

D. W. Griffith é apontado como um dos primeiros grandes nomes da produção estadunidense, numa época em que os renomados diretores atuavam no circuito europeu. Nos esquemas de realização posteriores, ainda comuns na contemporaneidade, quando uma produção possui orçamento suficiente, o profissional que ocupa a cadeira da direção possui dois assistentes, sendo o primeiro assistente o seu braço direito, passível até de substituição momentânea num instante de necessidade de cumprimento de outra tarefa por parte da direção, e o segundo assistente, geralmente continuísta, acompanha os detalhes para auxiliar na coesão e coerência narrativa, atento aos objetos, figurinos, etc. Há casos de um terceiro assistente, mas isso varia muito, pois envolve a magnitude financeira do projeto.

A Direção de Cinema e a Questão Feminina: Mulheres no Comando?

Apesar da atual onda conservadora e problemática que tomou de assalto as relações sociais, políticas e intelectuais do mundo ocidental nos últimos anos, muita luta empreendida por grupos alijados de determinados processos por longos períodos foram pontuais para o estabelecimento de novos rumos para o campo da direção de cinema, em especial, a discussão sobre o papel da mulher nestes espaços. O engajamento do mestre do suspense Alfred Hitchcock é um exemplo de determinação na seara da realização cinematográfica, mas biografias, pesquisas e interpretações mais recentes demonstraram que Alma Reville, esposa do cineasta e profissional envolvida em bastidores de produção desde o período europeu do casal, sempre esteve próxima e foi responsável por muitas escolhas que tornaram os filmes do cineasta inesquecíveis.

Ao longo do século XX, diversas mulheres assumiram postos na direção de cinema. Não há como deixar de adentrar na polêmica e não citar a alemã Leni Riefenstahl, cineasta que era elogiada por conta da estética apurada de suas produções, sendo O Triunfo da Vontade a sua obra mais conhecida, um documentário lançado em 1934 que retrata o abominável 6° Congresso do Partido Nazista, realizado em Nuremberg no ano, evento que contou com a presença de mais de 30 mil simpatizantes do Nazismo. Depois da Segunda Guerra, Riefenstahl bifurcou-se pelo merecido ostracismo e tornou-se fotógrafa e mergulhadora, afinal, para quem interessava produções que faziam propagandas de algo tão hediondo quanto o nazismo?

Contribuições bem mais relevantes vieram de cineastas como Agnès Varda, belga radicada na França, mulher sempre preocupada com as críticas sociais e abordagens ao movimento feminista. Cléo das 5 às 7 e As Duas Faces da Felicidade são apenas duas demonstrações da sua capacidade de desfazer os fios narrativos tradicionais e contar histórias que saiam dos padrões já estabelecidos por uma indústria viciada. Danièle Huillet, cineasta que ao lado de Jean-Marie, produziu filmes irreverentes, tais como Das Nuvens à Resistência e Sicília, obras geralmente adornadas por temas políticos extremos e rigor estético. Antes, no entanto, Alice Guy-Blaché surpreendeu a indústria pelo uso do cronofone, em busca da sincronização sonora nos filmes, além de elenco inter-racial e outras polêmicas.

Contemporânea às ações de Guy-Blaché tivemos Germaine Dulac, intelectual que antes de adentrar na seara do Cinema, dedicou-se ao Jornalismo. Dirigiu bastante, mas é reconhecida atualmente pelo surrealista A sorridente Senhora Beudet. Rumo aos Estados Unidos, Ida Lupino esteve no posto de direção, mas também assumiu as tarefas de produtora e roteirista. Ficou conhecida por ser a atriz que abocanhava os papeis que Bette Davis não podia ou não queria fazer. Numa postura mais independente, fundou uma pequena produtora e foi criar narrativas para entrar na ampla história do cinema feminino. E o Mundo é Culpado, O Bígamo e Quem Ama Não Teme são seus filmes de relevância crítica.

Outra cineasta importante foi Vera Chytilová, considerada a Primeira Dama do cinema na República Tcheca. As Margaridas, O Jogo da Maçã e Calamidade são algumas de suas obras satíricas e construídas num tom rebelde impactante. A neozelandesa Jane Campion, constantemente financiada pelo governo australiano, é um nome que não pode ficar de fora, em especial, por conta dos renomados O Retrato de Uma Mulher e O Piano. A realizadora argentina Lucrecia Martel já havia produzido antes da notoriedade de La Niña Santa, um nome de peso para a história do cinema latino-americano. Em 2015, Chantal Akerman lançou o documentário Não É um Filme Caseiro, última produção antes de seu falecimento. Responsável por contribuir para as reflexões de cunho feminista, a cineasta belga ganhou destaque em 1965, ao lançar Jeanne Dielman, 23, Quai Du Commerce, 1080 Bruxelles, produção de quase quatro horas de duração.

Na cerimônia do Oscar 2010, os tabloides vazios e despreocupados com as discussões sérias que gravitam em torno do cinema apontavam um duelo entre o megalomaníaco James Cameron e a sua concorrente na premiação, Kathryn Bigelow. Com um histórico de casamento, os divorciados estavam na mesma posição durante o evento. A cineasta, por sua vez, saiu vitoriosa ao ganhar os troféus de Melhor Diretora e Melhor Filme, os principais prêmios da noite, numa vitória histórica no que diz respeito ao papel da mulher renegado no processo de gerenciamento de produções cinematográficas. Barbra Streisand já havia investido na posição, mas nunca teve o reconhecimento merecido. O que dizer de Madonna? A artista não conseguiu se estabelecer como atriz, haja vista a falta de magnetismo no desempenho dramático para cinema, mas conseguiu dirigir e entregou uma versão da história de amor entre o Rei Eduardo VIII e a divorciada Wallis Simpson em W E – O Romance do Século, produção infinitamente melhor que frágil e bobo O Discurso do Rei, ambos focados no mesmo momento histórico.

O cinema brasileiro, por sinal, está repleto de excelentes trabalhos de direção assinadas por mulheres competentes, talvez grandiosas como os cineastas de renome se tivessem em mãos os orçamentos necessários para realizar os seus filmes. Leandra Leal faz um belíssimo trabalho em Divinas Divas, documentário sobre a primeira geração de travestis artistas no Brasil, no auge dos cinemas e teatros da Cinelândia. Em Elena, Petra Costa dirige um enredo de forte carga dramática sobre uma mulher que decide rever a irmã após duas décadas sem contato, afastadas depois que ela decide seguir a carreira de atriz nos Estados Unidos.

A jovem Tais AmorDivino, cineasta premiada e ovacionada no último Festival Panorama Coisa de Cinema se inspirou numa leitura de Conceição Evaristo para traçar uma emocionante história sobre a sua mãe, num filme que tem ganhado espaço em festivais de diversas linhas e públicos. Com o orçamento e o apoio certo, cineastas da mesma linha podem ir muito longe em suas respectivas funções. Yasmin Thayná, também focada em questões sobre a identidade da mulher negra, demonstrou talento em KBela, filme sobre uma mulher que decide não seguir as imposições da indústria da beleza, insistente ao ressaltar o que muitas mulheres devem ou não aplicar como produtos capilares. Neste bloco, cabe dar destaque ao emocionante trabalho de Viviane Ferreira em O Dia de Jerusa, relato sobre a solidão da mulher negra.

Ainda na seara do cinema brasileiro, Laís Bodanski fez um excelente trabalho no denso Bicho de Sete Cabeças, tal como Anna Muylaert demonstrou bons desempenhos em Durval Discos, Que Horas Ela Volta? e Mãe Só Há Uma. Lúcia Murat, cineasta que tive a ilustre oportunidade de entrevistar na época do lançamento de Olhar Estrangeiro, documentário sobre os estereótipos de brasilidade no cinema estrangeiro também fez ótimas escolhas em Maré – Nossa História de Amor, Doces Poderes, Quase Dois Irmãos, Que Bom Te Ver Viva, A Memória Que Me Contam, Brava Gente Brasileira, Em Três Atos, Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, dentre outros. Céu de Estrelas, de Tata Amaral também merece ser ressaltado, bem como a administração da tensão em Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas, e a boa condução dramática da veterana Ana Carolina, responsável pelos conceituados Mar de Rosas, Das Tripas Coração, Amélia, A Primeira Missa, etc.

Para comprovar que a mídia constantemente segrega algumas mulheres na seara da direção de cinema, podemos ressaltar as referências ao posto na concepção de Cidade de Deus. Sabemos que Fernando Meirelles é um cineasta excepcional, pois Ensaio Sobre a Cegueira e O Jardineiro Fiel, demandas estrangeiras de um realizador que ganhou reconhecimento mundial, apresentam estruturam ilustrações de exímios trabalhos de direção. Mas cadê o reconhecimento de Kátia Lund, codiretora do filme, profissional que quase nunca é citada na parceria ou quando as pessoas estão debatendo a premiada produção brasileira? No diálogo é quase sempre “Cidade de Deus, de Fernando Meirelles”. Não dá para complementar a autoria?

Independentemente do resultado final, As Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros e Maria Antonieta são três trabalhos que demonstram a segurança de Sofia Coppola na direção. O caso da cineasta é mais privilegiado, haja vista as suas relações com o cinema como algo orgânico no bojo familiar, mas é algo que merece o devido destaque. Lynne Ramsay provocou reações diversas no público com o psicologicamente perturbador Precisamos Falar Sobre Kevin, trama sobre o complicado relacionamento entre uma mãe e seu primogênito que deságua num desfecho trágico. Jodie Foster, uma das melhores atrizes de sua geração, também assinou bons trabalhos como diretora. Em 1999, a cineasta iraniana Samira Makhmalbaf estreou no posto de diretora com A Maçã, drama sobre duas garotas criadas rigidamente, dentro dos princípios do Alcorão, a descobrir o mundo após 11 anos vivendo numa situação considerada de cativeiro.

Nadine Labaki, cineasta libanesa, discutiu o desejo feminino em Caramelo, produção bastante poética sobre as reflexões de mulheres que se encontram constantemente num salão de beleza e debatem temas como amor, sexo e a condição feminina. Ayanda, da cineasta africana Sara Blecher, flerta com as memórias de uma jovem que precisa seguir novos rumos após a morte de seu pai. Trabalho reconhecido no bojo da direção de cinema, o filme é apenas uma das diversas produções de mulheres africanas à frente de produções cinematográficas, tais como Christha Eka Assam, Sala Sorri, Jessie Chisi, Jenna Cato Bass, dentre outras.

São referências para consultar. Filmes para assistir e complementar. Espaços de produção que precisam e já estão sendo compartilhados, ao passo que a nossa sociedade avança dentro de tantas contradições ainda presentes.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.