Fora de Plano #53 | Religião e Homossexualidade no Cinema

O debate religião X homossexualidade envolve bastante polêmica e sempre causa alvoroço na mídia. A cada notícia veiculada, percebemos que é uma discussão que está longe de encontrar um desfecho, e que muito pelo contrário, a cada novo tópico, carrega o rótulo de extremamente inflamável: de um lado, aqueles que contestam a homossexualidade no cerne religioso, condenando os ditos “desviados” e usando a Bíblia como referência para explicar os motivos da demonização. Do outro, os indivíduos que lutam por uma melhor interpretação da Bíblia e que pregam o respeito e a liberdade dos homossexuais, alegando que discriminação não faz parte da proposta de amor pregada pelo mesmo livro que os homens usam como referência para os ensinamentos de Deus: a Bíblia Sagrada.

No meio disso tudo, há aqueles que apenas observam o debate, mas não emitem uma opinião sobre o assunto. Como diriam os principais expoentes da Análise do Discurso, não há discurso neutro, no entanto, apesar de se posicionar, a reflexão em questão faz a travessia expondo, sem grandes julgamentos, ambos os lados da discussão e deixa para você, caro leitor, as considerações finais do debate proposto. A discussão da homossexualidade no bojo dos ditames religiosos trafega por duas mãos bem distintas. Há a possibilidade de condená-la, alegando ser um pecado digno de morte, como é o caso de algumas religiões de cunho oriental. Outras religiões, não tão rigorosas, condenam a prática, mas não sugerem penas capitais.  Porém, há também aqueles que mesmo imbuídos do discurso religioso, pregam o amor ao próximo e fazem uma interpretação mais contemporânea dos estudos bíblicos, ao alocar tais interpretações no contexto em que a Bíblia foi escrita, importando-as para os tempos atuais e dando-lhes uma nova roupagem.

A homossexualidade e discurso religioso

O tema é polêmico e data de tempos remotos na história das civilizações: além de instituído na Babilônia e Canaã, na Grécia antiga, era muito comum o amor entre homens. Os exércitos de Tebas e Esparta, por exemplo, faziam sacrifícios para Eros, deus do amor, e posteriormente se relacionavam, antes de adentrar nos sanguinolentos combates. No que tange às relações entre homossexualidade e religião, explanaremos através dos seguintes segmentos: cristianismo (catolicismo, espiritismo e protestantismo) budismo, judaísmo e islamismo.

Para os judeus, a homossexualidade é um pecado e em tempos remotos, foi punida com pena capital (morte). O livro de referência é o Torá, que segundo os seguidores, previa a penalização dos homossexuais, que durante muito tempo, foram perseguidos, principalmente na expansão do cristianismo. Em Orações Para Bobby, numa das cenas iniciais do filme, durante o aniversário da avó de protagonista, enquanto um dos filhos de Mary (Sigourney Weaver) brinca com uma bolsa e simula postura afetada, a avó alega que “as bichas deveriam ser enfileiradas e fuziladas”. O preconceito não parte apenas da mãe do personagem Bobby, mas de quase todos os membros da família. Curiosamente, o pai, que de acordo com os padrões normativos da sociedade, representa o elemento machista da relação, parece ser o mais tranquilo, buscando compreender melhor a situação de Bobby.

(cenas de Orações para Bobby e Boy Erased – Uma Verdade Anulada)

No seguimento cristão, o catolicismo reprova a homossexualidade e utiliza os livros bíblicos Gênesis, Levítico e as Cartas de São Paulo como respaldo para tal reprovação. O Protestantismo, apesar da não aprovação por alguns representantes, em comparação aos católicos de alguns lugares, são mais maleáveis. A Dinamarca, país com alto índice de população protestante, foi um dos primeiros locais a reconhecer os direitos da união homossexual. Para o Espiritismo, o espírito não tem sexo e um mesmo espírito pode, em diferentes encarnações, habitar um corpo de um homem ou mulher.

O Islamismo considera a homossexualidade um desvio de conduta, e em países como Irã e Arábia Saudita, os homossexuais eram punidos com a morte. Outras nações, como o Paquistão e a Argélia, condenam a homossexualidade com prisão, multas ou punição corporal. Religiões neopagãs como a Wicca não se posicionam contra a conduta homossexual. No caso do budismo, não há grande problematização do assunto: a religião prega apenas o distanciamento de práticas mundanas.

No geral, as religiões debatem o mito fundador da natureza, momento em que Deus criou o homem e a mulher, um para o outro, com intuito de procriar. Observem a passagem do Gênesis 2:24: “Por isso, um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles dois tornam-se uma só carne”. O primeiro livro bíblico já autentica a normatividade das relações, encaixando o ideal de perfeição na relação entre um homem e uma mulher. No mesmo livro, temos outra passagem que diz: “… sejam fecundos e multipliquem-se…”.

Obviamente, quem sai desse padrão é abominável e pecador. Essa é uma das interpretações possíveis, segundo alguns teólogos. Em Orações para Bobby, é no Levítico que Mary inicialmente busca as ditas verdades religiosas para acusar Bobby. Se analisarmos mais extensamente, perceberemos que a homossexualidade é um aspecto normal no mundo natural. Há estudos de casos de homossexualidade em animais. A antropologia cultural, por exemplo, mostra que as sociedades, ao longo do tempo, compreendem a homossexualidade de diferentes maneiras. Esses caminhos percorridos pelas ciências questionam a expressão dogmática dos discursos religiosos.

De acordo com a pesquisadora Regina Soares Jurkewicz, também professora da disciplina Fenômeno religioso no Instituto Superior da Diocese de Santo André, em São Paulo, boa parte da discussão acerca da homossexualidade no discurso religioso coloca os seus esforços em averiguar o que a Bíblia tem a dizer sobre o tema. É o que a personagem Mary, do filme Orações para Bobby, faz boa parte do tempo. Ela busca, tanto antes, como depois da trágica morte do filho, respaldo nos ditos da Bíblia para sanar as dúvidas que vão surgindo ao longo da trama.

Na Idade Média, o cristianismo, através das reflexões de São Tomás de Aquino, incluía a homossexualidade no rol dos pecados contra a natureza, juntamente com a masturbação e a zoofilia. Em Devassos no Paraíso, João Silvério Trevisan informa que nos idos da nossa colonização, a sodomia estava em segundo lugar no ranking das práticas indevidas, segundo a Inquisição religiosa, perdendo apenas para a blasfêmia. Mais recentemente, os debates sobre união homossexual e adoção provocaram intensos debates na mídia. A cura gay é outro tópico inflamável, interligado aos meandros do pensamento religioso.

Segundo Luís Correa Lima, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a Igreja Católica já divulgou que as uniões homossexuais seriam nocivas para o reto progresso da sociedade e inserir crianças em uniões deste tipo através da adoção significa uma prática de violência contra as mesmas, pois se aproveita seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu desenvolvimento humano.

Na seara dos teólogos que defendem a homossexualidade, temos o anglicano Norman Pittenger, homem que discursa sobre a dignidade da honra do homossexual, similar a qualquer heterossexual. Ao afirmar o caráter não pecaminoso da homossexualidade, Pittenger segue o mesmo pensamento de cunho espírita, religião que no Brasil, encontra em Chico Xavier um nome bem representativo. Conforme o posicionamento reflexivo neste segmento, o que é observado perante Deus é a conduta moral de cada um, independente se a sua relação é homossexual ou heterossexual. Curiosamente, o pensamento do teólogo católico John McNeill coaduna com o expressado por Pittenger, principalmente ao dizer que as regras morais valem para as pessoas de conduta homo ou hetero, pois o que apenas importa é que as pessoas tenham relações com responsabilidade, respeito e ternura.

Filmes que trabalham a relação entre homossexualidade e religião geralmente abordam, junto com a negação ou o desejo de sair do armário, os conflitos familiares. Latter Days, comédia romântica de 2003, consegue captar bem tais problemas. No filme, Christian (Wes Ramsey) se apaixona perdidamente pelo Mórmon Aaron (Steve Sandvess). Ambos vivem algo bastante especial, mas depois que Aaron é denunciado e julgado por seu grupo de missionários, as coisas mudam e as tensões crescem vertiginosamente. Em O Padre, Greg (Linus Roache) é designado a trabalhar numa paróquia de Liverpool. No local, encontra-se diante de dois dilemas: guardar a confissão de uma garota abusada cotidianamente pelo pai e enfrentar a própria homossexualidade, aflorada diante da paixão que o consome e o faz questionar o celibato.

No drama Fair Haven, um jovem retorna da terapia de conversão e tenta manter um bom relacionamento na fazenda dos pais, mas precisa apagar, também, as memórias de um antigo amor que ficou para trás durante a sua obscura jornada de anulação. O documentário Assim Diz a Bíblia, repleto de imagens de arquivo e relatos feitos especificamente para a produção, alguns familiares de pessoas homossexuais condenam as práticas de seus filhos, outros mostram o processo de aceitação e compreensão, enquanto alguns se arrependem do que fizeram no ato de saída do armário de jovens que infelizmente já não estavam vivos para aceitar as desculpas. Dramático, mostra o potencial da religião diante dos prováveis processos de danificação de laços familiares.

A intenção deste texto não é, em hipótese alguma, esgotar ou exaurir o tema, ao contrário, promover o debate e procurar saber de você, caro leitor, qual o filme sobre religião e homossexualidade mais te marcou. Conhece algum? Compartilhe conosco.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.