Fora de Plano #57 | O que Toy Story 4 me ensinou…

Ao infinito…

E além.

Tinha acabado de sair da segunda sessão de Toy Story 4 que havia assistido. Enquanto lanchava, minha namorada me perguntava se estava tudo bem. Aparentemente eu seguia calado demais, sem nem perceber. Sim, estava tudo bem. Mas um bom pedaço de arte faz com que você nunca mais seja o mesmo depois dela. E, para esse colunista, Toy Story 4 é um deles.

Costumava considerar a trilogia Toy Story a melhor que já vi (ao lado de O Poderoso Chefão). Perfeita. Assim como inúmeros fãs, recebi com um misto de tristeza e raiva o anúncio de um quarto filme. Mesmo ansioso para rever Woody, Buzz e toda a turma, permanecia receoso e achando desnecessário a sequência. Os produtores seguiam justificando que haviam mais uma – e necessária – história para contar. E eu sou grato a eles.

Toy Story 4 é um dos filmes “pipoca” mais densos que assisti nos últimos anos. Daqueles que instigam a ler textos sobre e debater com amigos. Assim como todas as continuações da franquia, parece andar de mãos dadas com o público que cresceu e envelheceu junto da Pixar. O novo capítulo da saga contempla Woody tentando resgatar o novo “brinquedo” de Bonnie, Garfinho, enquanto esbarra no caminho com Betty, uma velha amiga. Esse é o pano de fundo que a Pixar oferece para abordar temas que vão desde encontrar seu lugar no mundo até existencialismo.

A começar pelo macguffin do filme, o brilhante e carismático Garfinho, já vemos um prato cheio de metáforas. Garfinho representa perfeitamente toda a nova juventude. Imersos em uma sociedade imediatista, globalizada e bastante caótica, o novo jovem busca, em meio a tanta informação, encontrar seu real valor e propósito. Uma geração que encontrou na autodepreciação (“Eu sou lixo!” – insiste Garfinho) uma válvula de escape humorística e consoladora para muitas vezes tentar afastar problemas psicológicos mais profundos.

E a tese incorporada em Garfinho é a semente que reverbera pelos demais personagens, em busca de encontrarem seus propósitos. Em Duke Kaboom vemos como a decepção de terceiros pode levar a questionamentos internos sobre nosso real valor. O mesmo vale para Gabby Gabby, a vilã-não-vilã do filme. O arco da personagem vai ainda além. Contempla a inerente decepção humana: o colapso de Gabby ao perceber que seu grande sonho não aconteceria é o soco de realidade. Uma metáfora para como frustrações são inevitáveis na vida e como o mero acaso muitas vezes pode nos botar no chão e nos deixar lá se nada fizermos. Mas há alguns que nos prestarão auxílio nesse momento. E aqui é que entra o excelente arco de Woody.

O ano passado foi um ano de mudanças para mim. E no meio disso tudo não sobraram questionamentos e crises a respeito do caminho que seguia, qual seria meu futuro, quem eu era ou se havia feito valer meus 25 anos por esse planeta. Eu faço parte de uma geração que foi brindada por lindas promessas e enorme otimismo, apenas para depois se ver desaguando em períodos de crise cercada por desemprego, intolerância e instabilidade psicológica. E aí que encontro minha catarse pessoal com Toy Story 4, uma vez que o protagonista personifica muitos de nós.

Woody, no clímax do longa, desabafa quase involuntariamente que não sabe mais qual seu propósito. Depois de anos de ouro e muitas brincadeiras ao lado de Andy e Bonnie, o cowboy é agora ignorado por sua dona, buscando reencontrar seu valor. O arco do personagem demonstra comparações claras com a entrada na vida adulta, ou de qualquer mudança de fase que uma pessoa precisa se submeter. Nos dias de hoje, o que não faltam são saudosismos e recordações a respeito de “nossos melhores dias”. Não é coincidência que, apenas quando sacrifica sua caixa de falas (ou sua “voz interior”), Woody se reencontra e consegue seguir em frente. Se trata de deixar seu eu do passado e abraçar a nova jornada de seu eu futuro.

Aqui, Betty é justamente o que Woody teme se tornar. Apegado a sua velha vida e suas doces memórias, tem medo de seguir em direção a uma nova fase. Até que é inevitável: chega a constatação de que navegar é preciso. É necessário amadurecer. Cedo ou tarde, uma hora temos de seguir novas jornadas. A despedida de Woody junto a seus velhos amigos é a confirmação do adeus a uma fase. Amizades se vão pelo mero fator efêmero da vida, enquanto novas chegam. Trata-se de uma mensagem de Toy Story 3 que é expandida no novo longa com traços mais maduros, que talvez (eu, pelo menos, tenho certeza que não) não estivéssemos prontos pra receber nove anos atrás.

Isso é o que chamo de arte. Quando o ramo da ficção é capaz de produzir mudanças internas no ser humano. Sim, uma animação, gênero do cinema mais subestimado, foi capaz de abrir questionamentos densos que não se vê todo dia nas telas. Não posso afirmar com veemência de que não estou mais perdido, como Buzz afirma com clareza quanto a Woody. Mas fico feliz que um conto sobre brinquedos tenha me mostrado que estou no caminho certo.

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.