Fora de Plano #61 | Os Oito Odiados em 70mm (versão Roadshow)

Hoje, existem três versões oficiais de Os Oito Odiados:

  • Versão Multiplex: Conversão digital da versão em película original e comercial do filme, com 167 minutos de duração. É essa que foi distribuída mundialmente nos cinemas e a que, na data de hoje, encontra-se disponível no Brasil no Netflix.
  • Versão Roadshow: Versão “preferida” e limitada do filme em 70mm, com 187 minutos de duração, incluindo 3’48” de abertura e 12 min. de intervalo. Há algumas cenas novas e outras que foram substituídas por takes diferentes.
  • Versão Estendida: Versão lançada em  em 25 de abril de 2019 no Netflix americano (e o de alguns outros países, mas não do Brasil) com o filme dividido em quatro episódios formando uma minissérie de 210 min. no total (50 min., 51 min., 53 min. e 56 min.), sem abertura e intervalo. Há diversas cenas novas.

A primeira versão foi analisada aqui e é a segunda versão apenas – que na verdade foi tecnicamente lançada antes da primeira nos EUA – que pretendo abordar neste artigo, pois tive oportunidade de assisti-la no Eye Filmmuseum, de Amsterdã, na Holanda. Vamos lá?

O que é Roadshow?

O livreto do Roadshow de Os Oitos Odiados.

O lançamento cinematográfico Roadshow (ou, em inglês, Roadshow Theatrical Release), que também era conhecido como “compromisso com assento reservado”, era uma expressão razoavelmente comum na distribuição cinematográfica de filmes até meados dos anos 70. Trocando em miúdos, tratava-se de algo que ainda existe hoje em dia, ainda que mais raramente: o lançamento limitado de filmes.

Escolhia-se cidades-chave nos EUA e também no mundo para que elas fossem palco de pré-lançamentos de filmes importantes, com uma roupagem de “evento”, muitas vezes com direito a livreto, intervalo lá pela metade do filme, nenhum trailer ou curta-metragem antes da projeção e ingressos mais caros, com lugar marcado (comum hoje em dia, mas não até os anos 70). Além disso, as sessões eram limitadas a uma ou duas por dia ao longo de mais ou menos uma semana antes do lançamento amplo do filme, o que emprestava um ar de exclusividade.

O termo roadshow, ou, literalmente, “show de estrada” vem dos artistas que viajavam de cidade em cidade em carroças fazendo apresentações, já que, muitas vezes, especialmente nas primeiras décadas do século XX, as cópias dos filmes que ganhavam esse tipo de pré-lançamento efetivamente “viajavam” de cidade em cidade. O lançamento Roadshow de Os Oitos Odiados foi a segunda vez que Tarantino resgatou abordagens e lançamentos cinematográficos do passado, com a primeira sendo quando ele dirigiu À Prova de Morte e o lançou junto com Planeta Terror, de Robert Rodriguez, no “formato” Grindhouse, ou seja, em homenagens às sessões duplas de cinema trash dos anos 70 nos EUA.

Tarantino e o fetiche fílmico

O sensacional diretor de fotografia Robert Richardson e a “pequena” câmera Panavision.

Quentin Tarantino tem duas taras conhecidas: (1) pés femininos e (2) cinema. Sua podolatria dispensa comentários, pois ela pode ser vista em praticamente todos os seus filmes e episódios de séries de TV, inclusive aqueles que dirigiu parcialmente ou que apenas escreveu o roteiro. Sua cinefilia, porém, é bem mais “grave” e profunda. Para começar, o que o cineasta faz são, quase que literalmente, filmes sobre filmes. Seja a costura de referências cinematográficas em um novo filme com sua marca registrada, como é o caso de Cães de Aluguel, Pulp Fiction e os dois Kill Bill, sejam os literais filmes sobre filmes, como Bastardos Inglórios, Tarantino nunca perde de vista o Cinema, esse aí com letra maiúscula mesmo, muitas vezes atraindo detratores que se resumem a chamá-lo de plagiador, algo que ele só é se quem o chama assim não tiver ideia o que significa o termo.

Mas sua cinefilia vai além das homenagens e resgates da História do Cinema que ele faz. Nesse aspecto, acho que todo mundo sabe que Tarantino é um dos poucos diretores hoje em atividade – estão com ele Martin Scorsese e Christopher Nolan, só para citar os nomes de maior destaque – que somente usa película, ou seja, que se recusa a usar câmeras digitais para sua fotografia. Isso cria muito mais problemas do que soluções, pois, na prática, não só o filme é bem mais custoso, como ele tem limitações técnicas inerentes, como haver um tempo máximo para cada plano-sequência sem corte e as câmeras que os rodam serem bem maiores e “trambolhentas” (vide a imagem acima) do que as pequeninas e ágeis câmeras digitais. E isso sem contar com o fato de que a película degrada rapidamente e que quase nenhum cinema do mundo moderno tem projetores capazes de lidar com projeção em filme. Menos gente sabe que, além disso, Tarantino não só contribuiu para um fundo que tem como objetivo manter a película viva e que ele comprou um cinema em Los Angeles – o New Beverly – em que ele só projeta filmes em película (até 35mm, pois nem lá ele tem o aparato necessário para 70mm), normalmente de sua enorme coleção pessoal de raridades (já estive por lá e vocês podem conferir uma de minhas experiências aqui)

Os Oitos Odiados, porém, é o filme que mostra que a tara de Tarantino por película é muito maior do que imaginávamos.

Seu teatro filmado que se passa praticamente em apenas um cenário confinado, ou seja, uma configuração que pede razão de aspecto mais modesta, filme no máximo em 35mm, o cineasta faz sua grande homenagem aos filmes de outrora, em que tudo usado era grandioso, exagerado e hiperbólico como os próprios roadshows abordados mais acima. Entrarei em uma linguagem um pouco mais técnica agora para ilustrar o que estou dizendo, mas tentei ao máximo tratar as informações de maneira menos árida. Em Os Oito Odiados, Quentin Tarantino fez questão de usar:

  • Filme de 65mm usando três câmeras modernas, a Arrifllex 765, a Panavision Panaflex 65mm HR Spinning Mirror Reflex e a Panavision Panaflex System 65 Studio Camera – O filme resultado foi transferido analogicamente para projeção para uma banda anamórfica de 70mm Ultra Panavision 70 e Kodak 3;
  • Lentes anamórficas que sua equipe coletou de câmeras antigas dos anos 50 a 70, em razão de sua escassez nos dias de hoje e por sua vontade de literalmente capturar as imagens com os “mesmos olhos” da época dos grandes épicos;
  • Razão de aspecto 2.76:1, o que é uma espécie de super widescreen, permitindo muito mais “espaço” para ser preenchido do que o normal. E reparem: o filme se passa dentro de um armazém. Mais espaço significa só mais dor de cabeça para as composições cênicas. Ah, vale dizer algo sobre o 2.76:1 que já estabelece o nível de loucura de Tarantino: ele foi usado pouquíssimas vezes nos anos 50 e 60, sendo literalmente revivido pelo cineasta aqui e usado somente mais uma outra vez recentemente, em Rogue One.
  • Não houve intermediário digital. O que é isso? Mais sinais de loucura fílmica, claro. Mesmo cineastas que fotografam suas obras em película costumam transferir o resultado para o tal “intermediário digital” de maneira que torne mais fácil não só a verificação do que foi filmado no dia (os dailies), como também para tornar mais tranquila a montagem da obra. Sem intermediário digital, os dailies tiveram que ser “revelados” à moda antiga e, como se isso não bastasse, a montagem foi manual, quadro-a-quadro, com tesoura e cortadores de negativo.

Perceberam o que ele fez aqui? Em poucas palavras, ele “voltou no tempo”, trabalhando como se estivesse nos anos 50 ou 60 em uma obra que dá uma rasteira no que se convencionou chamar de “escopo épico”.

Mas tem mais!

Tarantino teve que trabalhar nas duas pontas, pois não adiantaria absolutamente ter essa trabalheira toda para produzir Os Oito Odiados assim se não seria possível projetá-lo em filme e em 70mm. O resultado foi que algo como 100 cinemas nos EUA foram especialmente retrofitados com projetores vintage (assim como as lentes, sua equipe literalmente correu atrás de projetores antigos que ainda estivesse funcionando) que permitissem a experiência como pretendida, no maior lançamento em 70mm no mundo desde 1992 (Dunkirk, depois, tomaria esse posto, ainda que de maneira diferente, por assim dizer). Foi daí que veio a ideia do Roadshow, aliás, criando algo realmente especial para os cinéfilos. Portanto, se você acha que você é obcecado com alguma coisa, posso garantir que sua obsessão é fichinha perto da que o Tarantino tem por filme no sentido clássico da palavra.

A experiência

O belíssimo museu do cinema de Amsterdã.

Não é meu objetivo fazer a crítica do filme em si, já que eu o abordei em texto separado. Além disso, os poucos minutos que são acrescentados à duração (de cenas efetivamente novas, descontando takes alternativos, abertura e intervalo) não criam linhas narrativas novas, não desenvolvem personagens, não aprofundam a compreensão sobre nada. São pequeninas pontes visuais que só serão detectadas de verdade em uma análise comparativa lado-a-lado pelos cinéfilos mais inveterados. Portanto, minha “nota” em estrelas para Os Oitos Odiados é a mesma da versão Cineplex, ou seja, 5 estrelas.

Mas não é também sobre esses poucos minutos a mais que pretendo escrever aqui, pois seria uma bobagem e uma perda de tempo. Afinal, a grande razão para se tentar ver o filme da forma como Tarantino o imaginou não é pelo “bônus” irrisório de cenas extras, mas sim pela experiência cinematográfica como um todo. Como já tive oportunidade de abordar aqui, a experiência cinematográfica está morrendo. Cinema virou lugar em que as pessoas vão para mascar pipoca da maneira mais ruidosa possível, colocar os pés na poltrona da frente, falar com a pessoa ao lado durante a projeção e falar e escrever no celular como se a tela brilhante não incomodasse ninguém. E não é só aqui no Brasil. Isso acontece em todos os países do mundo, ainda que em graus diferentes, claro.

Uma ocasião especial destas, portanto, faz exatamente aquilo que Tarantino queria: resgata a “solenidade” de se ver um filme no cinema. Sei que muita gente revirará os olhos para isso e me chamará de velho, de quadrado, de conservador e o diabo a quatro. Bem, para começar, eu sou mesmo tudo isso, mas o fato permanece que assistir um filme em uma tela de celular, no ônibus, com mensagens de WhatsApp e outras entrando a cada 10 segundos não é assistir um filme e sim passar o tempo com imagens em movimento. Há MUITA diferença. Portanto sim, um Roadshow de um filme de mais de 3 horas de duração em 70mm é a volta a um passado que não existe mais, mas que volta e meia eu tento reviver (há alguns cinemas no mundo que respeitam esse “processo”). E eu duvido que mesmo os mais céticos deixarão de apreciar o que é uma sessão como essa.

Para começar, os espectadores que se amontoavam na larga escadaria de acesso à sala de cinema com projetor de película em 70mm (e também 35) do Eye Filmmuseum de Amsterdã era composta de pessoas mais velhas, talvez acima de 30 anos, com alguns gatos pingados mais jovens. Normal. O que é anormal e que já me deixou muito feliz é que, apesar de não haver lugar marcado (meio Neanderthal isso, mas tudo bem), TODO MUNDO, SEM EXCEÇÃO, mantinha um “espaço imaginário” ao seu redor. Pode parece besteira, mas empurra, empurra e ficar se esfregando em desconhecidos é irritante demais. Não houve absolutamente nada disso, nem mesmo quando a porta foi aberta, 10 minutos antes da sessão. Todo mundo subiu os degraus para a sala e, lá dentro, procurou com calma o assento que melhor lhe aprouvesse e pronto. Ato contínuo, eu vi algo que deu vontade de chorar ou de bater palmas ou os dois: mesmo antes da sala ficar escura, todos ao meu redor sacaram seus respectivos celulares e… os desligaram. D-E-S-L-I-G-A-R-A-M. Fiz o mesmo correndo, claro…

Antes da abertura – tela preta com a trilha sonora – um lanterninha veio explicar as regras simplíssimas e óbvias. Silêncio em primeiro lugar. Banheiro ficava do lado de fora, mas era desencorajado durante a sessão. Haverá um intervalo de exatos 12 minutos (novamente tela preta e trilha sonora) que deverá preferencialmente ser usado para banheiro, mas ninguém senta de volta na sala se se atrasar. Resultado: ninguém foi ao banheiro enquanto o filme estava sendo projetado e os 12 minutos de intervalo foram usados com esse objetivo e eu não me lembro de ter visto um lugar vazio sequer quando as luzes se apagaram novamente.

Ah, durante a sessão: silêncio. Mas não é silêncio do tipo “sem conversa”. É silêncio do tipo “ninguém fala, ninguém se mexe, ninguém abre Doritos, ninguém sequer tosse”. Roncos? Inexistiram. O filme foi visto por todos (ou quase todos, não sou onisciente ainda) de cabo a rabo, sem inquietudes adolescentes, sem entra-e–sai, sem “shhhh”, sem nenhum outro som sendo emanado que não fosse diretamente das excelentes caixas de som.

Mas e a projeção em si, vocês podem querer me perguntar, é melhor do que a digital ?

Olha, posso dizer com tranquilidade porque eu sou chato pacas com isso: é melhor. É outra coisa, na verdade. Apesar de desgaste comum do celuloide que por vezes é visível na tela, a qualidade do que é projetado – e aqui vale dizer que o projetor estava regulado como uma Ferrari saindo da fábrica e isso faz toda a diferença – é inigualável em filme. A imagem é mais cristalina, mais detalhada, mais “real”, enquanto que o contraste é mais profundo, com o preto mais preto e com os tons de cinza ou de  marrom, no caso, com mais variações. Isso fica mais evidente ainda quando o branco da neve é sobreposto às demais cores escuras dos figurinos e do Armazém da Minnie.

Comparativamente, diria que a experiência mais próxima em termos de qualidade de imagem é quando um filme feito pensando-se em lançamento em IMAX é visto em uma tela IMAX, mesmo que seja a LieMAX que se tornou o padrão no mundo todo. E não é porque a tela é maior na projeção em 70mm (ela é mais comprida, mas não necessariamente maior), mas sim pela pura qualidade da imagem old school, que significa que ela é carregada também de seus defeitos, inclusive granulações propositais e não propositais.

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Não só preocupado em nos trazer filmes sensacionais, Quentin Tarantino quer nos fazer apreciar o ato de ir ao cinema e mergulhar em uma projeção por duas horas (três, no caso presente caso) sem pensar no mundo exterior. Ao trabalhar Os Oitos Odiados como um projeto de 360º, ou seja, preocupando-se não só com a produção, mas com a forma como o produto chegará ao consumidor, o cineasta mantém viva a arte de se fazer o grande Cinema, arte essa que está chegando ao seu fim, infelizmente, juntamente com a “arte” de se apreciar uma experiência cinematográfica imaculada.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.