Fora de Plano #62 | Terror em Dose Dupla

Jason Voorhees e Freddy Krueger. Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo. Antagonistas e franquias, respectivamente, partes integrantes da indústria cultural que dispensam apresentações, afinal, você pode até mesmo nunca ter assistido aos filmes, mas provavelmente não passou incólume por tais personagens, citados, copiadas e parodiados desde a primeira vez que apareceram para aterrorizar jovens incautos em Crystal Lake e Elm Street. Em 1991, no auge da popularidade televisiva destas franquias, exibidas em canais abertos numa era prévia ao boom do DVD, da tv por assinatura e muito antes dos serviços de streaming, Multi Editora resolveu lançar no país um álbum de figurinhas com imagens, breves textos e outros processos metalinguísticos que envolviam estes dois monstros representantes da Era de Ouro do Horror nos anos 1980.

Cabe ressaltar que as gerações atuais, mergulhadas nas possibilidades das redes sociais, dos serviços que disponibilizam tais filmes online, bem como a venda de cartazes originais por canais como Mercado Livre, por exemplo, não tiveram a oportunidade de contemplar a febre que era levar um pedacinho do cinema para dentro de nossas casas, em especial, nossos quartos, afinal, ao adquirirmos o álbum, era possível escolher entre um dos posters: Jason ou Freddy. Em tamanho de cartaz oficial de cinema. A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13 demarcaram uma época em que jovens brincavam na rua depois das atividades escolares e nos dias de exibição, ficavam antenados nas vinhetas dos programas televisivos que os exibiam.

Nas malhas da memória: a abertura e o encerramento do livro ilustrado/álbum Terror em Dose Dupla!

Ao anúncio da última cena da terceira novela exibida no turno noturno, era hora de recolher a bola, o elástico, os dados ou qualquer outra forma de entretenimento, tendo em vista ir para casa assistir ao festival de horror apresentado por tais antagonistas. No dia seguinte, a cinefilia era garantida nos intervalos das aulas, com todos a comentar as melhores cenas, caçoar quem não conseguiu driblar os pais para assistir ou teve qualquer outro contratempo que o tivesse impedido de assistir ao filme. Ter o álbum, então, era parte de um culto. A troca de figurinhas, a descoberta de um espaço vazio preenchido no álbum do outro colega, a ansiedade por encontrar um envelope que apresente algo que não seja repetido. São emoções que talvez não possam ganhar dimensão na transmissão escrita, mas quem viveu essa fase sabe bem do que se trata.

Locar VHS era uma das possibilidades de ver e rever tais filmes, pausar ou repetir as melhores cenas, algo esbanjado na era do You Tube, ofertado largamente por vários links. A tal dificuldade em ter acesso era o que garantia uma busca saudosa por conquistar o mínimo, sem se perder na vasta oferta que muitas vezes nos blinda e impede de enxergar peculiaridades. Quando Terror em Dose Dupla foi lançado, Jason já havia “morrido” nos esgotos de Nova Iorque em na oitava parte da franquia. Freddy, também dado como morto, teve seu destino selado na sexta parte, episódio com subtítulo “A Morte de Freddy”. Assim, as imagens do álbum referenciam 14 filmes, isto é, as seis inserções nos pesadelos de Freddy e os oito passeios macabros pela trilha de corpos de Jason.

 A estrutura do álbum Terror em Dose Dupla

Considerado como livro ilustrado pelo editorial, Terror em Dose Dupla foi uma publicação de 32 páginas, diagramadas pela equipe de Sônia Maria B. Cântara, parte integrante do grupo comandado por Arthur Gaglione e Francisco Pellegrini Jr. Cada quadro para colagem das figurinhas trazia um ícone representativo da franquia. Freddy, representado por sua luva com garras e Jason, por sua famosa máscara de hóquei. É um material que reforça a dupla como os segmentos de maior sucesso do slasher, mesmo sendo Michael Myers, digamos, em seu primeiro filme, um antagonista mais luxuoso esteticamente. Jason e Freddy, de fato, sempre foram mais populares.

Os layouts das seções de Freddy e Jason: o horror entre a máscara e a luva com lâminas…

O álbum abre com um breve texto de apresentação, seguido de duas imagens, uma para cada “monstro”. Logo em seguida, Freddy ganha a sua galeria, dividida pelas seguintes seções: Lâmina em Ação, Pesadelos e Outros Truques Sujos, Galeria do Freddy, Quando Me Irrito, Às Vezes Eu Estou Bem, Eu e as Mulheres e Freddy Chic. Todas as imagens possuem legendas irônicas, ora a retratar o personagem em ação, isto é, atacando as suas vítimas incautas, ora sozinho, com num autorretrato. Entre as páginas 17 e 19, ambos são apresentados por meio de artes que se aproximam da charge, diferentes apenas por seu teor de cores e brilho. Mais intensas e laminadas, as imagens flertam com os dois em suas respectivas infâncias, supostamente homicidas.

É uma espécie de intervalo entre as abordagens de Freddy, bastante coloridas e com tons quentes, tendo o amarelo e o vermelho como tons predominantes. Diferente das ironias mais rebuscadas do monstro dos pesadelos, Jason é apresentado por uma galeria cheia de onomatopeias. As cores são bem mais frias, entre o roxo e o cinza, às vezes o verde escuro. Depois de sua galeria, as imagens de Jason são dividas pelas seguintes seções: Cada Cabeça uma Sentença, Meus Posters, Sangue, Fogo e Destruição, Bem-vindos ao Cristal Lake, Meus Caros Inimigos e De Cara Limpa. Dentro de um padrão semelhante ao adotado por Freddy, o que diferencia os dois é a abordagem de Jason sem máscara em sua última seção, bem como a galeria de cartazes de seus oito filmes, algo que não é adotado no setor de Krueger.

Imaginação livre! A infância de dois monstros do cinema!

Ainda sobre os trechos de Jason, percebe a falta de qualquer menção além do cartaz, para o filme Sexta-Feira 13 Parte 4 – O Capítulo Final. Não há, também, referencia alguma à sua mãe, homicida responsável pelos crimes do primeiro filme. Lembre-se: Jason aparece apenas em Sexta-Feira 13 Parte 2, certo? No desfecho, há mais duas imagens, uma para cada antagonista, com uma arte gráfica de despedida, numa espécie de irônica antecipação dos embates de Freddy Vs. Jason, realizado mais de uma década depois. À guisa de curiosidade, as figurinhas mais difíceis de encontrar eram as de número 62,63,92,93,133,134,166,187,195 e 196.

O Que o Colecionismo Tem a nos Dizer?

A prática de guardar, organizar, selecionar, trocar e expor itens por categoria, guiado por interesses de ordem pessoal, é algo denominado colecionismo. Por meio dessa prática, especialistas acreditam que as pessoas consigam desenvolver senso de classificação, organização, interação e socialização, além do necessário poder de negociação nas dinâmicas interacionais de nosso cotidiano permeado por transações de toda ordem, principalmente as simbólicas.

Aqui no Brasil, a juventude focada em colecionar as figurinhas do álbum talvez não estivesse atenta aos detalhes que costuravam nosso tecido social, mas de alguma forma, seja na escola ou na dinâmica dentro de nossas casas, éramos atingidos por nosso subtexto marcado por um país que vivia o boom de sua cultura verde, bem como atravessava uma era de redemocratização. Todo esse processo tinha as celeumas da Ditadura Militar como algo ligeiramente longínquo, mas uma memória que ninguém gostaria de repetir em seu cotidiano. É uma fase tida como a era da reconstrução de nossos laços de solidariedade.

O visual mais clean e humorado de Freddy Krueger

Período prévio ao advento da popularização da internet, 1991, cinematograficamente representou uma era de obscurantismo no cinema brasileiro. Há discordâncias entre realizadores e críticos de cinema, mas uma coisa é fato. Nessa época, além das produções hollywoodianas, nossa realização havia adentrado uma fase decadente e o que se tinha como representação eram as aberrações de Xuxa, Sérgio Malandro e Os Trapalhões. O cinema estrangeiro, em especial, o estadunidense, mantinha raízes fincadas com profundidade no Brasil. Os filmes de terror, então, ganhavam bastante popularidade com a maior aderência ao videocassete.

As pessoas não dependiam exclusivamente da exibição televisiva, mas tínhamos também as fitas para locar e trazer para casa, os mitos do Olimpo hollywoodiano, bem como os antagonistas perigosos do horror. Os filmes slashers, no entanto, tinha caído em popularidade, sendo resgatado por curiosos, cinéfilos e amantes do subgênero. Jason reapareceria em 1993, no questionável Jason Vai Para o Inferno – A Última Sexta-Feira. Freddy, por sua vez, ganharia novo fôlego com o excelente O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger. Ademais, Candyman oxigenou o campo, mas não o suficiente para produção num ritmo fluente como na safra de 1981, por exemplo.

O envelope surpresa que envolvia as figurinhas, os dois cartazes para escolha no ato da compra do álbum e, por fim, o verso do material, com algumas ilustrações de imagens internas.

Pinhead, de Hellraiser – Renascido do Inferno, parte integrante do slasher tardio, também renovou um pouco o subgênero em 1987, mas ainda assim não vingou tantas continuações quanto Freddy e Jason. Ambas as criações de Clive Baker retornaram com bastante força nos anos 1990, para logo mais, na virada dos anos 2000, tornarem-se franquias decadentes, tendo apenas os primeiros filmes como obras-primas do terror. Por fim, de volta ao colecionismo, torna-se importante abordar, mesmo que de maneira breve, a relação do cinéfilo com o cartaz. Material utilizado para divulgação de um filme, o cartaz é basicamente uma das últimas etapas da produção.

Se você já teve o prazer de assistir A Noite Americana, de François Truffaut, deve lembrar de uma sequencia de sonho em que um personagem rouba um cartaz de cinema de uma sala de rua. Era o desejo da criança em adquirir um “pedaço” do cinema e levar para dentro de seu lar. O cartaz tem esse lugar na cultura cinéfila. Terror em Dose Dupla faz isso, mesmo que de maneira mais ajustada aos propósitos do livro ilustrado, ao adaptar os cartazes de todos os episódios da franquia Sexta-Feira 13 numa galeria. Para o fã, era uma das maneiras de ser agraciado carinhosamente por uma publicação preocupada, obviamente, com seus interesses financeiros, mas dedicada em fidelizar o cinéfilo dentro de sua prática que é nada mais que um culto.

Medalhões do Slasher: Qual o Lugar de Freddy e Jason na Cultura Cinéfila?

Criado por Wes Craven, Freddy Krueger é o assassino de crianças que foi caçado por pais e queimado numa caldeira em Springwood, cidade fictícia de Ohio dentro da dinâmica do filme. Depois de supostamente morto, o personagem retorna das profundezas em busca de vingança. Ele ataca os jovens de Elm Street em seus sonhos e ceifa as suas vidas enquanto dormem. A única maneira de detê-lo é conseguir trazê-lo para a “vida real”. Nascido em 03 de setembro de 1939, Freddy foi interpretado brilhantemente por Robert Englund ao longo da franquia até Freddy Vs. Jason, trocado por Jackie Earle Haley na refilmagem de 2010.

Fruto de um estupro coletivo, ocorrido depois que uma freira é atacada num sanatório em Springwood, Freddy Krueger é um personagem conhecido por suas ironias, trocadilhos e expressões de duplo sentido. Dentre as suas vulnerabilidades, estão o fogo e a água benta. A água é um dos elementos que comprovam as fraquezas de Jason Voorhees, personagem criado por Sean S. Cunningham e Victor Miller, interpretado por Ari Lehman na breve aparição ao final da primeira parte da franquia, retorno garantido no segundo filme, ainda sem sua máscara de hóquei, adquirida apenas em Sexta-Feira 13 Parte 3.

Panorama de posters da franquia até 1988: oito filmes, oito noites de horror em Crystal Lake e adjacências

Diferente de seu “amigo” da luva com lâminas que morreu depois de uma ação punitiva de pais vingativos, Jason morreu afogado quanto criança. Por conta de seu retardo mental, a criança foi para Crystal Lake e se afogou. A sua mãe culpou os monitores que faziam sexo enquanto deveriam cuidar de todas as crianças do acampamento. O resultado foi uma trilha de corpos logo que o planejamento foi reaberto. Decapitada por uma das sobreviventes, a mãe é vingada na produção seguinte, quando Jason retorna para acabar com qualquer forma de vida humana no acampamento. Depois do seu aparecimento, começou a matar por impulso e teve a sua mitologia retrabalhada apenas em 2009, na refilmagem comandada pela produtora de Michael Bay.

Mesmo com todos os seus problemas narrativos, os filmes das duas franquias são marcos do cinema. Freddy Krueger e sua famosa música horripilante, espécie de canção de ninar de horror, bem como o seu chapéu e lâminas, referenciados em diversos outros filmes, games, séries de tv e demais meios de expressão artísticas posteriores ao seu advento em 1984. Jason seguiu o mesmo caminho, ainda mais famoso com a sua máscara de hóquei. As campanhas de divulgação de Acampamento Sinistro 2, por exemplo, apresentaram a assassina do filme com a máscara a sair de sua mochila. A nona temporada de American Horror Story, mesmo ao na posição de revitalizadora dos clichês destes filmes, em especial, o acampamento como espaço cênico.

Seções de Jason e seus inimigos de um lado, seguido de algumas aparições sem máscara: quem encara?

São produções que mantém as franquias como partes integrantes da “persistência da memória” do slasher na contemporaneidade. Temas que tal como os filmes de exorcismo, tubarões e vampiros, parecem ganhar renovação para aderência junto às gerações vindouras. É o retorno triunfante de uma memória única, possível também de ser resgatada para aqueles que ainda detém em seus baús memorialísticos, o exemplar de Terror em Dose Dupla, um talismã para nos guiar neste mergulho profundo pelos paradoxos de nossa memória cinéfila individual e coletiva.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.