Entenda Melhor | Decadência Slasher

Os filmes do subgênero slasher são guiados por estruturas dramáticas bem específicas. Um de seus princípios básicos é a presença de um assassino em série que utiliza armas brancas afiadas para eliminar as suas vítimas. Como traje para esconder a sua identidade, revelada apenas no desfecho da trama, tal ceifador de vidas usa uma máscara macabra e adentra numa zona de perseguição com os protagonistas na reta final. Após o sucesso de Halloween – A Noite do Terror, em 1978, as regras básicas se estruturaram da seguinte maneira: eliminar jovens atraentes e delinquentes, geralmente usuários de drogas ilícitas e bebidas, pessoas sem preocupação com instituições como o casamento e a religião.

Na maioria das produções, os pais ou responsáveis, figuras que representam a delimitação da ordem, estão afastados. A morte, como ato punitivo, busca alegoricamente estabelecer a ordem dentro do caos. A maioria dos filmes deste segmento traz mulheres virgens como protagonistas. A virgindade, neste tipo de narrativa, foi um talismã por eras. Gays e negros? Algumas mudanças ocorreram com a visibilidade promovida com os movimentos sociais dos últimos anos, mas no geral, são personagens geralmente estereotipados ou dizimados entre os primeiros da lista do antagonista que estiver em ação. A dupla responsável por reformular tais mecanismos narrativos entregou ao público três excelentes episódios na trilogia Pânico, entre 1996 e 2000.

Panorama Slasher Decadente I: cartazes originais de alguns filmes da Era Pós-Pânico

Depois disso, foram imitados diversas vezes, em produções que podemos considerar aceitáveis. Kevin Williamson escreveu Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, deu gás para que Michael Myers retornassem em boa forma no frenético Halloween H20 – Vinte Anos Depois, além de ter permitido que filmes como Lenda Urbana e Prova Final ganhassem o interesse merecido do público, haja vista a dinamicidade de suas histórias. O problema é que as coisas foram longe demais e uma enxurrada de imitações vulgares multiplicaram-se no mercado, algumas com lançamento no circuito cinematográfico, outras foram diretamente para o mercado de vídeo. Desta safra, destaco os citados anteriormente e o mediano Medo em Cherry Falls, espécie de suspiro final do slasher, exibido próximo ao desfecho da trilogia de Wes Craven em Pânico 3.

Qual a necessidade, por exemplo, de um terceiro momento para as franquias Lenda Urbana e Eu Sei? O desfecho de Eu Ainda Sei O Que Vocês no Verão Passado deixou espaço para uma desnecessária continuação. O próprio filme já era uma turbinada e irritante sequência, por qual motivo resgatar a história para lança-la diretamente em mercado de vídeo? No filme, Ben Willis é uma espécie de espectro, algo sobrenatural que ceifa a vida de outros jovens que sequer fazem parte do esquema de sua vingança nos filmes anteriores. O mesmo ocorre com Lenda Urbana 3, sequência sem conexão com as produções slashers anteriores. Desta vez, os elementos de terror seguem uma linha mais sobrenatural e mesmo que o desfecho do segundo filme também tenha deixado espaço para a possibilidade de uma desnecessária sequência decadente, o primeiro filme em si já fora mais que suficiente, sem a necessidade de um segundo, quanto mais terceiro capítulo.

Panorama Slasher Decadente II: cartazes originais de alguns filmes da Era Pós-Pânico

A ideia deste panorama não é esgotar as narrativas decadentes posteriores ao sucesso de Ghostface. O interesse aqui é oferecer um recorte crítico, baseado na análise totalizante das narrativas destacadas. Alguns casos conseguem um resultado mais interessantes e não merecem ser chamadas de decadentes. Deste breve painel, podemos selecionar os primeiros filmes das franquias Terror no Pântano e Presos no Gelo. Não há nada de muito especial em ambas as produções, mas o ritmo e o desenvolvimento do esquema narrativo são mais precisos que outros filmes do mesmo período. O mesmo não podemos dizer de Noite do Terror, Por Trás da Máscara – O Retorno de Leslie Vernon, Lago da Morte, Grito de Pavor, L.A Slasher, O Massacre do Moinho, Slasher.com, dentre outras aberrações. São todos tão ruins quanto os demais, radiografados no panorama que será exposto logo em seguida. O que faz destes filmes tão aberrantes? Elenco aqui alguns detalhes: desempenhos dramáticos fracos, direção sem inspiração, roteiros inspirados em histórias boas, mas com desenvolvimento capenga, mortes exageradas destinadas a chocar, vide a falta de qualquer impacto dramático, motivações ainda mais esdruxulas que os slashers convencionais e de sucesso, além do acúmulo de bizarrices que tal como as suas mortes, pretendem deixar o público chocado diante de tanta “anormalidade”. Em alguns dos casos, não há sequer uma tentativa de choque, ao contrário, a história óbvia consegue nos deixar irritados com tanto tédio exposto em cada frame da narrativa, tal como O Massacre do Moinho, um dos mais sonolentos slashers dos últimos anos, óbvio, insosso, chato, pueril, vulgar, sem qualquer elemento interessante.

Panorama Slasher Decadente III: alguns fracassos e poucas ressalvas para Presos No Gelo e Terror no Pântano (Falsas Intenções: não é slasher, mas por qual motivo foi vendido como Eu Sei O Que Vocês…?)

Em 1997, Jack Bender dirigiu o abominável O Terror Ronda a Escola, suspense escrito por Michael Angeli e Kathleen Rowell, material inspirado numa história da romancista Lois Duncan, pompa que eles imaginavam ser chamariz para sucesso, haja vista o resultado de Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, obra literária da escritora, transformada num filme bem-sucedido. A trama nem de longe é um slasher, mas não deixa de ser oportunista e indicar alguma relação com os horrores do persecutório homem do gancho. Na produção, um jovem valentão arma um esquema para assustar o arrogante professor de Inglês. O problema é que as coisas dão errado e as coisas saem do programado, o que resulta em um jogo de mortes e persuasão. Insosso e frágil, o filme é tão oportunista quanto Falsas Intenções, também vendido como “novo olhar” dos produtores de “Eu Sei”, bobagem que não chega nem perto do filme que pretende se “vender ser”. Já em 2003, saturados de tantos filmes com temática slasher, fomos apresentados ao subgênero longe das florestas: a ideia de Esquiando Para a Morte era o horror em pleno gelo. Na trama, conectada com elementos de famílias assassinas e canibais, temos um grupo de universitários dedicados ao final de semana com práticas de snowboard. O problema é que nesta reunião numa cabana com pista para esquiar, alguém está fazendo os corpos caírem tal como a neve. O sangue jorrado no gelo torna o visual aterrorizante, mas a direção de Greg Muson, baseada em seu próprio roteiro, escrito com Craig Donald Carlson é um festival de obviedades, tal como os antecedentes criminais do slasher apontam em seus registros.

Jovens encontram a morte em Você Quer Saber um Segredo? e Esquiando Para a Morte

O que veio depois foi um conjunto de bagaceiras oportunistas. Em 2001, por exemplo, tivemos um ano trágico não apenas para a política externa, mas também para os lançamentos slasher. Jogando Com a Morte, dirigido por David DeCoteau, baseado no roteiro que ele mesmo colaborou, juntamente com Ryan Carrassi e Matthew Jason Walsh, trouxe a velha estrutura dramática sobre um grupo de jovens convidados para um jogo chamado “assassinato misterioso”. Tudo é muito divertido, afinal, as mortes dão susto, mas as armas são de borracha. Os problemas começam quando o primeiro cadáver aparece para comprovar que alguém ali não está de brincadeira. Com a reversão, a missão agora não é vencer, mas sobreviver. Descartável e sem tensão alguma, a produção é tão vaga quanto Você Quer Saber um Segredo?, filme de terror de quinta categoria dirigido por Thomas Bradford, cineasta guiado pelo roteiro de Del Tenney e Kermith Christman. Na trama, alguém disposto a esconder a sua homossexualidade deixa um rastro de sangue em Bayhead, na Flórida, espaço cênico para os seis jovens que decidem se reunir para um idílico final de semana, sem imaginar a carnificina programada. O resultado é deprimente, pois nem a história nem as mortes convencem, tampouco o antagonista e seu traje irônico.

2001: ano da decadência slasher em Ripper – Mensageiro do Inferno e Jogando Com a Morte

Neste mesmo ano, somos apresentados ao retorno de Jack – O Estripador. Cabe ressaltar que não estou falando do intrigante Do Inferno, mas do abaixo da média Ripper – Mensageiro do Inferno, produção sobre pessoas obcecadas pelo legado dos assassinatos cometidos no século XIX. Dirigido por John Eyres, guiado pelo roteiro escrito por John Curtis, Evan Tylor e Pat Bermel, o slasher em questão traz a jovem Molly Keller como a única sobrevivente de um massacre ocorrido em seu aniversário de 16 anos, enquanto comemorava com amigos numa ilha. O trauma se tornou potência e a garota começou a desenvolver uma pesquisa sobre o comportamento de assassinos em série na Universidade de Berkeley. Os conflitos recomeçam quando alguém parece interessado em repetir os crimes do passado. Em 2004, o filme ganhou uma continuação ainda menos intrigante, dirigida por Jonas Quastel, realizador que teve como base o roteiro de John Sheppard e Pat Bermel. Intitulada de Ripper 2, a trama nos apresenta Molly Keller novamente, desta vez, internada numa clínica psiquiátrica, local onde todos desconhecem seu passado. Constantemente em pesadelos noturnos, a jovem aceita participar de uma pesquisa experimental, mas as coisas dão errado e novas mortes forma uma trilha de sangue.

Assassinatos macabros em Pânico em Lover’s Lane e Colinas de Sangue

Pânico em Lover’s Lane é outra bobagem lançada na mesma época, por volta do ano 2000. No filme, divulgado aqui no Brasil com um cartaz que emulava a máscara de Ghostface e trazia como destaque o gancho do antagonista, um casal é assassinado por um maníaco logo na cena de abertura, preâmbulo para o seu retorno 13 anos depois, após fugir do sanatório em busca de mais sangue para deixar seu rastro. Pueril e com um enredo frouxo, a produção é descartável e menos interessante que Colinas de Sangue, slasher que mescla elementos de O Massacre da Serra Elétrica, Pânico na Floresta, Pouco Antes do Amanhecer, Quadrilha de Sádicos e a metalinguagem de Pânico e Lenda Urbana 2. Dirigido por Dave Parker, a trama apresenta um cinéfilo obcecado por um misterioso filme de terror que se tornou lenda depois de seu desaparecimento. O roteiro de John Dambrown e John Carchietta se dedica aos perfis estereotipados de seus personagens, para assim inclui-los numa busca por mais conhecimento sobre esta produção que não possui uma cópia sequer. Para isso, o curioso desloca-se juntamente com sua equipe para o mesmo local onde o filme supostamente foi realizado. Ao chegar, descobre que ele e os demais acompanhantes são parte de uma nova filmagem: um filme de terror onde eles são as próximas vítimas. Decadente? Sim, mas com uma fagulha leve de intriga e suspense. Talvez o menos pior dos radiografados.

Setenta e Cinco e O Massacre: plágios dos figurinos e maquiagem de Lenda Urbana e Sexta-Feira 13?

Mais adiante, em 2007, Setenta e Cinco foi lançado como uma suposta oxigenação slasher. Quem acreditou? Confesso que fui um dos enganados pelo filme de Brian Hooks, escrito por ele mesmo, em parceria com Deon Taylor e Vashon Nutt. Com visual semelhante ao representante da morte em Lenda Urbana, nesta produção, um grupo de jovens reúne-se numa casa no Colorado para uma noite de diversões e trotes. A ideia é manter alguém na linha por 75 segundos, para logo depois, anunciar a brincadeira. Um dos enganados, por sua vez, não gosta nada do ocorrido e parte para o local munido de um afiado machado. O que deveria ser uma noite de diversão torna-se um festival de mortes sangrentas. Alguns anos antes, em 2000, Ralph Portillo, inspirado pelo roteiro de John Stevenson, produziu O Massacre, slasher sobre o traumatizado Trevor Moorehouse, jovem que morreu no passado depois de ter sido deixado de lado pelos monitores de um acampamento e com isso, afogou-se. De volta do mundo dos mortos, munido de machados e motosserras, ele busca vingança nos arredores do lago onde morreu, trajado, por sinal, com uma máscara de hóquei. A produção ganhou uma continuação em 2003, intitulada O Massacre 2: De Volta ao Acampamento, história sobre a irmã de um dos sobreviventes que decide reabrir o local. Nem é preciso dizer que o filme é um festival de asneiras, com mortes insossas e personagens sem o mínimo de empatia, não é mesmo? Decadência em seu mais alto grau.

Palhaços Assassinos dos anos 2000: Drive-Thru da Morte e O Palhaço Assassino

Os palhaços assassinos constantemente foram alvo do fetiche slasher. Alguns renderam bons filmes, mas em O Palhaço Assassino e Drive-Thru da Morte, os resultados são desastrosos.  No primeiro caso, lançado em 1999, somos apresentados ao drama de Kate, jovem que retorna ao teatro onde sua mãe foi assassinada há 15 anos. Sem muitas explicações, o texto de Kenneth J. Hall, dirigido por Jean Pellerin, nos mostra os tormentos da jovem, indignada com a morte da mãe pelas mãos de alguém que se dizia o grande amor de sua vida. Agora, de volta ao mesmo local, os seus acompanhantes são mortos um a um, tal como manda a cartilha slasher. Você, leitor, quer saber o segredo por detrás dessas mortes? Faça como eu e tenha paciência para acompanhar um desfile de personagens fajutos e diálogos decadentes, tão bizarros quanto Drive-Thru: Fast-Food da Morte, terror escrito e dirigido por Brendan Cawles e Shane Kuhn. Na trama, a jovem Mackenzie Carpenter precisa fugir do local que estava programado para ser espaço de diversão. A figura mascote, um tenebroso palhaço, torna-se real e com suas armas afiadas, começa a transformar os medos de todos em realidade. Sangue e tripas não faltam no desenvolvimento da narrativa.

Ao leitor, reforço que a reflexão aqui empreendida não buscou esgotar o acervo slasher decadente posterior ao advento de Pânico em 1996, bem como da sua bem-sucedida trilogia que teve retorno comemorativo de luxo em 2011. Dentre tantas produções catastróficas, alguns filmes conseguem desenvolver o mínimo do nosso interesse, mas são as grandes franquias que de fato conseguem alcançar resultados acima da média, tal como o triunfante retorno de Michael Myers em 2018, personagem que por sua vez, amargou no irritante Halloween: Ressurreição em 2002, bem no centro da era do chamado Slasher Decadente. Depois do ápice de plágios e homenagens ao mascarado criado por Wes Craven e Kevin Williamson em meados dos anos 1990, o slasher entrou em decadência, dando espaço para as refilmagens de filmes orientais e retomada de outros subgêneros do terror. Como tudo no esquema capitalista, tais temas também entraram em decadência por conta dos excessos e os grandes sucessos do passado foram resgatados na chamada Era das Refilmagens, iniciada em 2003 com O Massacre da Serra Elétrica e levada à exaustão até as releituras de Dia dos Namorados Macabro e Sexta-Feira 13. Isso, no entanto, é assunto para outra reflexão, tudo bem, caro leitor?

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.