Home Colunas Fora de Plano #69 | Lady Sayat Nova: Gaga e A Cor da Romã

Fora de Plano #69 | Lady Sayat Nova: Gaga e A Cor da Romã

por Luiz Santiago
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Lançado em maio de 2020, após um processo de gravação que vinha desde 2018 e atravessou diversos momentos de dificuldades emocionais para Lady Gaga, Chromatica deu muito o que falar. Sexto álbum de estúdio da cantora, lançado quatro anos depois de Joanne, havia ali uma série de ingredientes que conhecíamos há muito do trabalho da artista, que utilizou de uma atmosfera à la anos 90 para trabalhar, ao seu modo incomum, gêneros e subgêneros como disco, house e deep house; pop, electro, dance e synth-pop. Uma nostalgia temática que mais uma vez marcou uma mudança no trabalho da cantora, reafirmando a sua versatilidade e capacidade de reconstrução em seu próprio trabalho.

Chama-se 911 a faixa que vem logo após a marcação do segundo segmento do disco (Chromatica II) — nota aqui para a soberba transição de uma para outra — e desde o título já sabemos que se trata de um pedido de socorro. Mas 911 é também de uma confissão, uma forma de a cantora falar sobre sua relação com a Olanzapina. Em conversa com Zane Lowe, para a Apple Music, ela foi diretamente ao ponto: “É sobre um antipsicótico que eu tomo. E é porque eu não posso controlar o que o meu cérebro faz a todo momento. Eu sei disso. E eu preciso tomar medicação para cessar esse processo.“. Ao longo da carreira, Gaga falou sobre os mais diversos problemas pessoais, algo que ela mesma já disse ser uma espécie de terapia, uma forma de se colocar no mundo, mostrar para os outros as suas imperfeições e reveses da vida, lançando também alguma nota de esperança e companheirismo para os que passam pelos mesmos problemas.

É por esse contexto de composição e pelo significado da obra que muito se perguntou sobre como a artista representaria visualmente os problemas ali relatados, se de fato fosse gravar um clipe para a faixa. E a resposta a esta pergunta veio em 18 de setembro de 2020, com o lançamento oficial do clipe, que vocês podem assistir logo abaixo.

Apesar de eu não ser exatamente o maior fã da canção, penso que a história do clipe é absolutamente incrível, trabalhando em duas realidades, relacionando-se de maneira temporal e simbólica com uma das obras-primas do diretor armênio Sergei Paradjanov, o inesquecível e poético A Cor da Romã. A produção também reportou referências visuais na arte de Frida Kahlo e no filme , de Federico Fellini (a propósito, há também uma piscadela visual para Areias Brancas, de 1992), mas é justamente na cinebiografia do poeta georgiano Sayat-Nova que o clipe foi construído.

O enredo está dividido em dois conceitos centrais, ambos explicados pela própria Lady Gaga em nota oficial de agradecimento aos colaboradores e fãs, no mesmo dia em que o clipe foi ao ar. O primeiro bloco é baseado em sua experiência com a saúde mental, e metaforicamente alude ao desligamento, ao mundo das fantasias, das alucinações e dos pensamentos que a dor pode trazer. Já o segundo, mais curto, mostra “como a realidade e os sonhos podem se interconectar para formar heróis dentro de nós e ao nosso redor“. E é justamente isso que vemos no plot twist ao fim do clipe, mostrando os espelhos simbólicos desses heróis da realidade versus os algozes, companheiros ou observadores da alucinação causada pela dor.

E é claro que não poderia faltar um grande fã de Paradjanov na condução de todo esse projeto. Quem dirige 911 é o cineasta indiano Tarsem Singh, conhecido por filmes como A Cela (2000), Dublê de Anjo (2006) e Espelho, Espelho Meu (2012). Por maiores que sejam as críticas que eu faça a Singh pela forma como utiliza o cinema de Paradjanov em suas produções mais estilizadas, reconheço que o seu trabalho em 911 é digno de nota. Por se tratar de uma clara homenagem — e inclusive referenciar isso através de uma placa indicando um FESTIVAL DE CINEMA ARMÊNIO –, a visão e recepção para o uso do estilo de outro diretor só ganha pontos positivos aqui, por ser bem empregada e fazer sentido à proposta da obra.

É muito bom ver que num ambiente artístico e mundialmente interconectado, onde frequentemente vemos discussões a respeito de “apropriação cultural“, ainda é possível encontrar produções de massa como 911. O trabalho que esse clipe fez foi de imenso valor para trazer o nome e a obra de Paradjanov ao conhecimento de milhares de pessoas, às mídias, aos olhos e ouvidos de inúmeros fãs que, de outro modo, jamais teriam interesse de “assistir a um filme tão louco e estranho como este“. E sim, esse tipo de postura é totalmente criticável, mas aqui estamos falando de impulso, de geração de vontade, de reconhecimento de uma obra de uma artista… através de outro artista.

E tudo isso feito com grande respeito ao original. Vocês sabem muito bem a quantidade de grandes estrelas da música que se inspiram e se baseiam em produções antigas, pouco conhecidas, e mas jamais dizem de que fonte beberam. A meu ver, perdem a oportunidade de colocar ainda mais riqueza em suas criações. Inspirações visuais e até a imitação de algum estilo, quando existe um propósito claro para isso e um enredo que consegue abraçar esse espelho, ao mesmo tempo que sinalizada para algo novo, algo próprio daquele que homenageia ou imita, é uma das coisas mais honestas que podemos ver nas artes, uma maneira direta e verdadeira de marcar a Reprodutibilidade Técnica. Não à toa, a equipe de comunicação do governo da Armênia fez um agradecimento a Lady Gaga pelo trabalho inspirado na cultura, língua e temas daquele país.

Se você ficou curioso e gostaria de conhecer mais sobre a vida do diretor Sergei Paradjanov, indico fortemente que assistam a um longa de 2013 intitulado… adivinhem só… Paradjanov! A obra é dirigida por Serge Avedikian e Olena Fetisova, e faz um belíssimo trabalho em colocar na grande tela a vida e a obra desse gênio quase místico do cinema euro-asiático. E se querem dicas de mais filmes do diretor onde ele trabalha e refina esse estilo muitíssimo peculiar visto em A Cor da Romã, ficam aqui outras três grandes dicas: Os Cavalos de Fogo ou Sombra dos Ancestrais Esquecidos (1965), A Lenda da Fortaleza Suram (1985) e O Trovador Kerib (1988).

Pois é, senhoras e senhores, chegamos à geração que irá conhecer um excelente aperitivo de um cinema totalmente fora dos grandes polos (Hollywood e alguns centros europeus), através de um clipe de uma diva pop. Quem diria, não é mesmo?

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