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Fora de Plano #70 | Michael Myers, Quentin Tarantino e a Maldição de Halloween 666

por Leonardo Campos
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Há filmes amaldiçoados desde os seus primeiros esboços dramáticos, quando ainda é uma breve ideia no papel. Esse é o caso de Halloween 6: A Última Vingança. Conhecido por ter duas versões, a lançada nos cinemas e o corte do produtor, realizado algum tempo depois e veiculado no suporte blu-ray recentemente, o sexto episódio da longeva franquia de Michael Myers em Haddonfield é um fiasco, comprometida pelo destino condenável dado ao personagem criado por John Carpenter e Debra Hill em 1978, o inimigo sem rosto enigmático, o mal em seu estado mais puro, sem um desenvolvimento biográfico tão bitolado como o apresentado neste desastroso ponto da saga assassina do mascarado. Tudo começou na noite do Dia das Bruxas em que Laurie Strode, personagem de Jamie Lee Curtis, é surpreendida pelo maníaco que aniquila os seus amigos e a persegue vertiginosamente. Amparada pelo Dr. Loomis (Donald Pleasence), a final girl consegue escapar e ressurge em 1981, no razoável Halloween 2 – O Pesadelo Continua.

É quando o roteiro nos informa que há traços de familiaridade entre Myers e Strode, perseguida no hospital para onde foi se recuperar depois do embate do primeiro filme. A unidade é incendiada, Laurie consegue escapar e o psicopata é dado como desaparecido. O terceiro filme anula a relação com os personagens e flerta com a possibilidade de se tornar uma franquia antológica, agora com outra abordagem para o Dia das Bruxas. Não deu certo e os produtores retornaram em 1988, com o interessante e genérico Halloween 4 – O Retorno de Michael Myers, uma narrativa slasher padrão, com o retorno de Myers agora a perseguir Jamie (Danielle Harris), a filha de Laurie Strode, personagem que supostamente morreu e deixou a garota para trás, perseguida pelo seu tio focado em eliminar o que restou de sua família. Como era de se esperar, a trilha de corpos não acaba por aí e a sobrinha reencontra o tio, agora conectado mentalmente com a garota, em Halloween 5 – A Vingança de Michael Myers. Escuro, editado com pouco empenho e sem conflitos dramáticos suficientes que justifiquem a sua existência, o quinto episódio da franquia naufragou na crítica e nas bilheterias.

Material de divulgação de Halloween 6: Versão do Cinema e Corte do Produtor

Além disso, inseriu personagens aleatórios que de acordo com envolvidos na produção subsequente, foram colocados de qualquer jeito na história, sem uma organização dramatúrgica que fizessem até mesmo os realizadores compreenderem os rumos que estavam desenhando para os personagens da franquia. O que era aquele Homem de Preto? Michael Myers numa cela de prisão? E o sequestro do monstro enigmático no final? Quem ou o que sequestrou Myers? Ao passo que a impossibilidade de atrair o público para o mais do mesmo slasher se estabeleceu neste filme de 1989, vários projetos em torno de um novo filme foram realizados. Lidos. Descartados. Retomados. Reajustados. Um caótico processo de produção que só permitiu o retorno do mascarado em 1995, numa inicial opção para os cinemas, tosca e confusa, reeditada, como mencionado, na versão do produtor. Quando assistimos aos dois filmes, em especial, em minha corajosa sessão dupla com uma versão seguida da outra, percebemos que não havia escapatória para o sexto capítulo da sanha sanguinária do psicopata. Michael Myers só teve um retorno digno em Halloween H20 – Vinte Anos Depois, narrativa que tal como sabemos, abandona todos os filmes após o segundo e recomeça a história de Laurie Strode.

Diante do exposto, vamos entender o que o cineasta Quentin Tarantino tem a ver com o destino de Michael Myers. E claro, compreender como a versão do produtor se desenvolveu, numa abordagem que aponta as suas semelhanças e diferenças com a cópia lançada comercialmente nos circuitos de cinema, analisada no texto Halloween 6 – A Última Vingança.

Mas, Afinal, O Que Quentin Tarantino Tem a Ver com Tudo Isso?

Quentin Tarantino nunca escreveu o destino do personagem. Que fique claro, isso é um dos rumores que alguns sites de notícias e supostas críticas adoram reforçar para dar mais energia ao universo de Michael Myers. O que se tem de informação é a troca de contatos e conversas não oficializadas sobre as opiniões do diretor e roteirista antes da versão final que conhecemos para a história do assassino em Halloween 6 – A Última Vingança. Vivendo como um morador de rua, houve até uma proposta de road-movie para o antagonista, figura que atravessaria algumas estradas do país com o tal Homem de Preto, aniquilando pessoas e vivendo uma trajetória menos sobrenatural que o proposto nos dois primeiros filmes da franquia. Essa era uma proposta ousada e que só poderia ter se originado de uma mente tão autêntica como a de Tarantino. Depois dos resultados decepcionantes do quinto filme, Moustapha Akkad, produtor que literalmente retalhou a franquia, decidiu criar uma conexão direta com Halloween – A Noite do Terror, isto é, ir para o filme de 1978 e criar um laço que nos fizesse esquecer a bagunça das sequências.

Na época, Tarantino gozava dos privilégios críticos de sua assinatura em Amor à Queima-Roupa e Assassinos por Natureza, de 1993 e 1994, respectivamente, textos conhecidos por suas abordagens astutas e polêmicas da violência física e psicológica inerentes aos seres humanos, tema tangencial com o design de personagem fornecido por Carpenter e Hill para Michael Myers, estrutura banalizada nas continuações. Com o seu vigor, o cineasta foi considerado como opção para dar continuidade ao legado do psicopata de Haddonfield. Ele teria resolvido o problema com a inclusão do Homem de Preto misterioso, dando um rumo totalmente novo aos personagens. Isso, no entanto, não aconteceu no papel. Foi apenas uma das várias tempestades de ideias das negociações que ficaram apenas na troca de mensagens, reuniões e encontros pessoais entre profissionais envolvidos nos bastidores de produção da Miramax e da Dimension. O produtor Richard Gladstein foi um dos responsáveis por levar e trazer possibilidades em seus acertos não oficializados com o diretor de Pulp Fiction – Tempo de Violência.

Na verdade, ele nem seria o orquestrador da matança, pois talvez assinasse a colaboração no roteiro ou entraria como produtor, tendo total liberdade para dar pitacos e decidir o rumo de Michael Myers. Com os direitos da franquia vendidos, o projeto ficou cada vez mais turvo e a “participação” de Tarantino se desfaz antes mesmo de qualquer documento a registrar suas ideias para o maníaco. Confesso que mesmo sendo bizarro, seria bem interessante ver o destino de Myers como assassino slasher numa trajetória pelas estradas. Curioso, não é mesmo?

Michael Myers, Sem Tarantino: Primeiros Rabiscos Dramáticos de Uma Maldição

Antes da versão conhecida para o sexto episódio, um projeto chamado Halloween 666 – The Origin of Michael Myers foi concebido por volta de abril de 1994. Na proposta, uma mulher tem pesadelos constantemente, movidos pela figura do assassino que aterrorizou a noite do Dia das Bruxas de 1978. A personagem, chamada Dana, é uma repórter de Chicago que recebe de seu editor, a missão de cobrir a celebração do próximo Halloween em Haddonfield, cidade que desde os fatídicos acontecimentos de 1989, não comemora mais a festa anual. O filme corta para Tommy Doyle, papel que ficou com Paul Rudd, ator em começo de carreira. Ele é o garoto que testemunhou a fúria de Myers contra Laurie Strode, sua babá na noite em que o mal chegou à cidade, depois de anos trancafiado no sanatório sem dar uma palavra sequer. Obcecado pelo maníaco, Doyle possui recortes por todos os lados e acredita que o monstro da sua infância ainda continua vivo e pronto para retornar. O Dr. Sam Loomis, agora internado e com graves problemas cardíacos, é procurado pelo jovem, mas não quer mais saber de Myers, um mal que ele acredita ser parte de um projeto “maior que a vida”.

O assassino, quando apresentado, dorme em um beco nas ruas e para reforçar que ainda continua apto na arte de matar, aniquila um grupo de jovens que resolve maltratá-lo só por causa de sua condição mendiga. Depois de derramar algum sangue, Myers segue para um abrigo, mas não fica lá por muito tempo, pois a reportagem de Dana o desperta para matar novamente, afinal, se a celebração do Halloween retornará para a cidade, nada melhor que uma nova trilha de corpos, concordam? Pois é assim que maníaco “pensa”. O túmulo de Judith Myers é profanado, a cartilha slasher se estabelece com uma contagem de corpos e a figura da bota misteriosa que é enquadrada no desfecho do quinto filme, o tal Homem de Preto, se apresenta para começar a tornar o roteiro um festival bitolado de ideias. Ficamos sabendo que um ancestral de Myers assassinou um sacerdote druida para escapar de seu destino como sacrifício e por isso, uma linhagem de maldições tomou conta da família, culminando no surgimento do monstro mascarado das noites de 31 de outubro. O clímax, acredite, ocorria num cemitério, com Michael Myers e a repórter na função de final girl, num embate que pretendeu mandar o psicopata para o inferno.

Paul Rudd como Tommy Doyle em Halloween 6 – A Última Vingança

Sim, isso mesmo, uma ideia que não há como ler e deixar de associar ao suposto desfecho de Jason Voorhees em na “Última Sexta-Feira 13”. Tal como a piada infame de Freddy puxando a máscara de Jason no desfecho, gancho para o tão esperado crossover, uma gargalhada toma a tela, Dana e Tommy exaustos após o embate com resultados aparentemente positivos, até a próxima sequência, claro, afinal, estamos falando de um filme slasher ainda rentável em seu nicho. Assinada por Phil Roseberg, esse mote foi descartado, mas não em sua totalidade. Alguns traços de seu conteúdo foram aproveitados para a condenável versão final deste projeto amaldiçoado. Moustapha Akkad rejeitou e o processo de apagamento e reescrita continuou incessantemente, tendo em vista alcançar uma proposta que atendesse ao que os produtores achavam que seria digno de ser filmado. Num dos tratamentos, Michael Myers era julgado e condenado, com o Dr. Sam Loomis no tribunal a afirmar que nada resolveria a trajetória do seu ex-paciente, um monstro sem precedentes que está além da ajuda psiquiátrica, uma besta que só tinha a morte como destino adequado. Tal como todas as propostas apresentadas, encontrar Myers num tribunal também não deixa de ser estranho. Trágico destino de uma franquia…

Vamos tentar conter a crise? Halloween 6, A Versão do Produtor

Depois de tantas idas e vindas, temos a versão dos cinemas, lançada em 1995 e analisada no texto Halloween 6 – A Última Vingança. A sua estrutura se diferencia da versão do produtor por partes da abertura e do desfecho bastante diferenciado. Na cena em que Kara Strode (Marianne Hagan) se joga da janela para fugir do Culto de Thorn, a alternativa do produtor foi criar uma opção tão estapafúrdia quanto o material de cinema. Há explicações demais, a narrativa se arrasta, Tommy Doyle tenta conter Michael Myers ao utilizar os mecanismos do culto em questão e o Dr. Sam Loomis não morre. O filme começa seis anos após a perseguição na delegacia onde Myers está detido. Uma vã aparece, carrega o personagem e o tal Homem de Preto aparece. Somos levados aos confins de uma ala misteriosa do hospital psiquiátrico nas imediações de Haddonfield. Lá se encontram, agora, Jamie Strode e seu tio, aprisionados. Ela está grávida. O projeto parece interessado em transferir a maldição para o novo bebê, a ser sacrificado. Ao mesmo tempo, Tommy escuta um programa de rádio sobre Michael Myers e o Dr. Loomis, de sua casa, na tranquilidade, acompanha tudo. Assim que se bebê nasce, Jamie consegue fugir com a ajuda de uma enfermeira. Será o recém-nascido, filho de Myers? Incesto? O que está havendo?

Essas são algumas das tantas perguntas sem fim que aparecem na versão. O que a tatuagem significa? Ok, é uma relação com o alfabeto mitológico de Thorn, uma referência aos antepassados de Michael Myers. O Homem de Preto é uma figura destinada a resolver a sanha do psicopata. Aqui, Jamie passa por uma longa perseguição e não morre quando esfaqueada pelo tio. Ela é levada para uma ala do hospital depois que consegue deixar o seu bebê na rodoviária e ligar para o programa de rádio acompanhado por Tommy e Dr. Loomis, se identificando e alertando a todos da presença do psicopata. Na versão para os cinemas, ela morre na máquina agrícola de uma fazenda abandonada, depois de salvar o destino do filho. Imprensada, seu destino é traçado com a morte. Na versão para o produtor, ela morre pelas mãos do Homem de Preto, enquanto internada no hospital, depois de ser atacada pelo tio que acha que a matou e ainda deixou a sua marca no local. Após esse festival de bizarrices, a narrativa corta para o núcleo de Haddonfield, com a matança aleatória de Michael Myers, aniquilador tanto de inocentes quanto daqueles que supostamente merecem uma punição.

O pequeno Danny, próximo Michael Myers? O símbolo de Thorn e a manipulação da “Forma”

Deste ponto, as duas versões são praticamente as mesmas. As pessoas esperam ansiosas pelo Halloween, os habitantes da casa em que Michael viveu sua infância estão em perigo e são mortos um a um, Kara Strode é a final girl e seu filho ouve vozes de um homem misterioso de preto que diz constantemente “mate por ele”. Um visitante da mídia inescrupuloso morre nas mãos do psicopata, punição slasher para os maus-comportados, castigo que chega também para o pai de Kara, um misógino que agride a todos dentro de casa e é delineado pelo roteiro para justificar a sua morte violenta. Perdido pelas ruas, Myers mata ali e aqui sem critério, o culto de Thorn chega até a casa de Tommy e acossa o jovem, o Dr. Loomis, Kara e seu filho, além de carregar o bebê para sacrificar. Kara também é levada. Eles querem o isolamento genético de Myers e transferir a maldição para o pequeno Danny, talvez o novo psicopata da área. É um novo ciclo de sangue que não se faz depois dos embates. Tommy invoca o poder das runas, imobiliza Michael, foge com Kara, Danny e o bebê e deixa o Dr. Loomis, interessado em saber o que de fato ficou para trás. Na versão dos cinemas, o psiquiatra do assassino não aparece, mas gritos em off indicam a sua morte. A máscara de Michael aparece jogada no chão e o filme se encerra.

Aqui, o indicado é que Michael vestiu os trajes do Homem de Preto, seguiu um rumo desconhecido, provavelmente pensado para a continuação que nunca existiu. Tudo isso foi concebido com os 70 minutos de material sobressalente, abandonados quando a versão para os cinemas foi editada. São conteúdos assinados pela mesma equipe do material veiculado nos cinemas: a direção de fotografia de Billy Dickson, o design de produção de Bryan Ryman, a música de Alan Howarth e o desempenho dramático de George P. Wilbur como Myers. O resultado, igualmente catastrófico, enterrou de vez qualquer possibilidade de sequenciamento deste ponto, numa narrativa que consegue a proeza de ser ainda pior que o indigesto e desnecessário Halloween – Ressurreição, último suspiro da franquia na era da Decadência Slasher. Há relatos de outras propostas inclusas e depois extraídas desta versão. Numa delas, Jamie não estava morta e voltaria para enfrentar o tio no desfecho do cemitério. Quando o filme passou por refilmagens após a sua rejeição parcial, o ator Donald Pleasence tinha morrido, situação que pediu a inserção de um dublê para algumas passagens. E por fim, Kevin Williamson chegou a pensar num roteiro para o sétimo filme, texto que consideraria as partes 4, 5 e 6 da franquia, mas felizmente, não levou o projeto adiante.

Um horror, não é mesmo, caro leitor? O que você acha? Halloween 6 foi um filme destinado a ser amaldiçoado desde os seus primeiros tratamentos. Coitado do Michael Myers!

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