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Fora de Plano #73 | Daft Punk: O Fim da revolução dos robôs

por Handerson Ornelas
753 views (a partir de agosto de 2020)

Se o punk lá na década de 70 foi cunhado com base na clássica ideia do “faça você mesmo”, definitivamente não há nada que represente tão bem o movimento quanto o Daft Punk. A carreira da dupla francesa foi, durante seus 28 anos, sinônimo de autenticidade, questionando ao máximo o jeito de fazer e divulgar música. Diante do gigantesco legado deixado por Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, é impossível para qualquer amante de música pop não ficar arrasado com a notícia dessa segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021: depois de anos sem qualquer sinal na mídia, os robôs informam, através de um vídeo, o encerramento do duo.

As contribuições para a indústria musical são inúmeras. Chega a ser curioso imaginar um cenário da música atual sem Daft Punk. A começar por todo apelo estético, algo que influenciou uma série de artistas a reinventarem suas imagens, apresentando uma atitude que virou referência inigualável. E o anonimato também é parte importante disso, um fator que serviu pra amplificar a aura mística por trás da dupla, provavelmente o ápice do quão cool uma celebridade poderia ser. Dentro desse mesmo universo estético, o Daft Punk elevou o meio audiovisual a outros patamares através de videoclipes e filmes que configuram entre os mais emblemáticos que a indústria da música já viu. Isso sem falar em suas apresentações ao vivo (quem não gostaria de ter visto o famoso show do Coachella?), que moldaram uma indústria inteira de shows e definiu a explosão da EDM nos anos 2000 e 2010.

Mas vamos falar agora de música em si, sons, vibrações. Em apenas quatro álbuns de estúdio (e mais uma trilha sonora), o duo francês moldou uma geração musical inteira. Desde seu disco de estreia em 1997, Homework, o duo fez direitinho a lição de casa (perdoe meu trocadilho infame) e ajudou na difusão do house pelos anos 90 através do extraordinário hit Around The World. Já em 2001, lançaram um verdadeiro clássico: Discovery é uma daquelas obras divisoras de água para o mercado da música pop. A música eletrônica foi elevada a um novo status no mainstream, sendo assimilada por completo pelo pop na medida que funcionalizou o autotune – ferramenta tão polêmica naquela época – ao utilizar de forma criativa e visionária a famosa “voz robótica”. Nomes como Kanye West, Bon Iver, Lady Gaga ou Drake não seriam nada sem esse disco.

É interessante notar que até os dois álbuns mais “divisivos” apresentaram um impacto notório na música dos anos seguintes. Humans After All veio em 2003 para influenciar uma geração inteira de bandas de rock que passaram a inserir forte apelo eletrônico em suas músicas, o LCD Soundsystem sendo o maior exemplo disso. 10 anos depois, Random Access Memories chega como um anúncio bombástico de retorno. E me lembro ainda da surpresa de muitos pela abordagem retrô, melancólica e orgânica do álbum, se afastando do house que popularizou tanto a dupla. RAM foi o maior sucesso comercial do Daft Punk, chegando a levar 5 prêmios Grammy em 2014, inclusive de álbum do ano. Trata-se de um dos discos definitivos da última década: a EDM – bastante em alta naquela época – perdeu força e precisou se reformular nos anos seguintes, enquanto dentro do pop iniciou-se um apelo exponencial por sonoridades mais orgânicas das décadas de 70 e 80.

Eu jamais esquecerei a expectativa absurda que criei para Random Access Memories. Naquela sexta-feira que o álbum foi lançado, lembro de acordar pulando da cama indo direto ouvir, quase como se minha vida dependesse daquilo. A experiência que tive ao ouvir pela primeira vez aquele álbum é uma das memórias musicais mais inesquecíveis da minha vida. E sim, é muito triste saber que isso nunca mais se repetirá. A revolução dos robôs chegou ao fim, mas foi um reinado soberano. É difícil imaginar outros artistas que demonstraram tamanho controle e domínio sobre suas carreiras, influenciando absurdamente com uma discografia tão curta. Não poderiam ser humanos mesmo. Por fim, ficam registradas as últimas palavras de Touch, a belíssima canção do Random Access Memories que embala o vídeo de despedida da dupla.

Toque, doce toque

Você me deu muito para sentir

Doce toque
Você quase me convenceu que sou real

Eu preciso de algo mais

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6 comentários

JC 27 de fevereiro de 2021 - 11:58

Nossa, totalmente inesperado esse fim. Que baque da porra.
RAM foi um dos primeiros álbuns que comprei, paguei só pra ouvir logo. Nunca esqueço.
Não lembro se foi o álbum todo ou só a primeira faixa.
Curiosamente comprei o cd de coletâneas deles ontem. Ouvi ontem no talo no carro hihihihii

Something é uma faixa que SEMPRE me faz chorar.

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Andressa Gomes 26 de fevereiro de 2021 - 20:54

Amei esse texto ❤
Da um misto de dever feito_ eles contribuíram demais, diferente de uma certa ondas de pessoas querendo desmerecer ou comparar_ e um gostinho de quero mais. Não vou mentir, esperava ao menos um álbum de despedida no mínimo.
Conheci eles através da influência do meu irmão mais velho que gostava de colocar na rádio. Tinham aqueles cds eletrohits lá pelos anos 2000, e ficava sempre maravilhada com o visual dos dois. O RAM é a coisa mais inspiradora, legal e única que ouvi. Pareceu ter sido feito num capricho tão grande.

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Cahê Gündel 🇦🇹 26 de fevereiro de 2021 - 11:39

Me emocionei aqui, Daft Punk fez parte da minha vida. Discovery está seguramente no top 10 de discos que mais ouvi na vida.

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Vítor Rocha 26 de fevereiro de 2021 - 11:38

São meus ídolos, os conheci vendo os vídeo clipes em
animação do álbum Discovery, nos intervalos do Cartoon Network . Ali
surgiu, ainda criança, minha admiração a essa dupla e minha iniciação à
música eletrônica. Farão muita falta, são gênios… músicas como One
More Time, Something about us, Digital Love e Touch, serão sempre lembradas. Fica um gosto amargo com essa despedida, como se uma parte da minha infância e uma fase de inocência tenham também se aposentado.

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Flavio Batista Dos Santos 26 de fevereiro de 2021 - 20:54

Os descobri na MTV. Vi os 3 primeiros clips de Discovery e pirei.
Acabei comprando o dvd e aí foi piracao.

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Handerson Ornelas. 27 de fevereiro de 2021 - 00:28

É impressionante como os clipes do Discovery marcaram né? Eu lembro direitinho a primeira vez que vi o clipe de Harder Better Faster Stronger na Mtv, que também foi meu primeiro contato com o Daft Punk. Minha cabeça explodiu e precisei procurar urgente saber sobre aqueles caras.

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