Home Colunas Fora de Plano #78 | O Estripador de Gainesville, Ghostface e o Serial Killer Como Herói Pós-Moderno

Fora de Plano #78 | O Estripador de Gainesville, Ghostface e o Serial Killer Como Herói Pós-Moderno

por Leonardo Campos
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Numa das pesquisas para o encerramento do livro Palavra de Crítico: O Cinema de Wes Craven, deparei-me com o documentário A Sangue Frio – O Estripador de Gainesville, produção televisiva sobre o assassino em série Danny Rolling, suposta inspiração para Kevin Williamson desenvolver alguns elementos do texto de Pânico, filme lançado em 1996, dirigido por Wes Craven e transformado num fenômeno cultural de extenso legado. Ao longo de seus breves 40 minutos, o material sensacionalista segue os padrões deste tipo de programa com mescla de investigação criminal, dramatizações e panorama biográfico de figuras psicóticas que aterrorizaram a história, em especial, dos Estados Unidos, ponto de partida para quase todos os documentários do estilo em questão. Com depoimentos de atores justapostos aos trechos de noticiários do período, somos apresentados aos crimes de Danny Rolling e ao passo que os dados eram apresentados, uma indagação me tomou de assalto: por que as pessoas são tão fascinadas por assassinos em série? Aqui, a reflexão não busca respostas exatas para o questionamento, mas pensar como algo tão aberrante também pode ser inspiração para histórias inesquecíveis do cinema, como a franquia de Ghostface, por exemplo. Preparados?

Danny Rolling, O Estripador de Gainesville  

“Eu andava pedindo que as paredes falassem”, diz um depoente. “Eu só queria saber que minha filha não sofreu”, reforça outro. É com excertos impactantes assim que o documentário televisivo A Sangue Frio – O Estripador de Gainesville abre a sua narrativa. A sua menção aqui é só um elemento de ponto de partida, pois o conteúdo em si é bastante genérico e nada muito memorável. Sob a direção de Marcus Valentin, texto escrito por Robert Eaton, produzido com base na pesquisa de Nicolina Lanni e Malcolm Davidson, acompanhamento musical soturno de Walter Rathie e narração sensacionalista de Alfonso Guerra, o programa nos apresenta de maneira panorâmica, a trajetória de Danny Rolling, um assassino que aterrorizou Gainesville, um local anteriormente tranquilo e ameno, tal como Woodsboro antes dos crimes de Billy e Stu em Pânico. Com uma força tarefa de 150 investigadores, policiais e demais especialistas, uma busca incansável se estabeleceu para saber quem estaria por detrás dos crimes com vítimas posicionadas, amarradas com fitas adesivas, sempre com cabelos pretos e ceifadas por meio de facadas impiedosas. Depois de muito pesquisar, a polícia prendeu o responsável numa situação que não tinha nada a ver com a investigação do crime. Após ser apanhado, o maníaco alegou que pretendia ser conhecido tal como Ted Bundy. Julgado, foi sentenciado à morte por injeção letal e aniquilado em 2006 na Flórida.

O assassino inspirador para traços de Ghostface em Pânico foi pego por acaso numa parada policial após um assalto. Entre idas e vindas de uma época ainda sem tantos avanços na análise de provas e DNA, o infame Danny Rolling foi preso e sentenciado após um longo processo. Filho de um veterano de guerra que agredia a esposa, o garoto cresceu sendo maltratado em casa. Apanhava por ter dificuldades para engatinhar e por ser fruto de uma gravidez indesejada, era tido como uma maldição para a família. A sua mãe, outra desajustada, tentou se matar com cortes profundos no pulso, um de tantos atentados que cometeu contra si mesma até sumir da vida do pequeno Danny. Envolto numa redoma de drogas e bebidas, quando rapaz, tentou a música como meio de redenção, mas as coisas não deram certo. Buscou apoio na vida militar, mas foi expulso após ser flagrado com drogas ilícitas. Em sua trajetória macabra antes de manchar de sangue a história de Gainesville, Rolling matou o ex-chefe, juntamente com a filha e a sobrinha do homem com quem teve uma desavença. Atirou duas vezes no pai, aniquilou um dos olhos e uma orelha no ataque, mas não conseguiu mata-lo. Com isso, teve que fugir.

Ao mudar de cidade, tornou-se temporariamente Michael Kennedy Jr. As jovens universitárias Sonja Larson e Christina Powell foram as duas primeiras vítimas de uma série de crimes sádicos na pacata Gainesville. Ele as avistou durante uma caminhada e decidiu que iria matar as garotas que dividiam um apartamento e estudavam na mesma região. Sonja foi estuprada. Teve um dos mamilos arrancados antes da ação mais bizarra, ocorrida no dia seguinte, momento de retorno do psicopata ao apartamento, para decapitar Christina e colocar a cabeça como se estivesse olhando contemplativa para o seu corpo. Uma cena considerada lastimável pelos investigadores. Apavoradas, as pessoas começaram a andar em grupos, alguns com tacos de beisebol, impactadas com a violência dos crimes que eram o preâmbulo do horror que ainda continuaria. Danny Rolling não era perfeito em suas investidas, deixava alguns poucos rastros, mas atrapalhava como podia as investigações, com uso de solvente e outras técnicas, coisas que aprendeu em sua breve jornada militar. Tracey Paules e Manuel Taboada foram as vítimas seguintes. Não foram violadas, mas reforçaram o horror nas pessoas da cidade. A polícia só descobriu que ele era o assassino depois que o apanhou num assalto e descobriu em seus pertences, um gravador que servia como diário para descrição das execuções, juntamente com ferramentas para os seus atos espúrios.

Inspirações de Um Roteirista: Kevin Williamson e o Desenvolvimento de Pânico

Ao contrário do que erroneamente é divulgado em algumas matérias sensacionalistas em sites de cinema e nas redes sociais, Pânico não é uma versão dos assassinatos de Gainesville. Kevin Williamson, na ocasião, assistiu um programa telejornalístico na época e ficou tão assustado com o teor macabro dos crimes que se inspirou em traços para a criação da cena de abertura com Drew Barrymore em 1996. O ponto nevrálgico dessa inspiração é a forma como o assassino insulta as suas vítimas, algo que Ghostface e Danny Rolling, salvaguardadas as devidas proporções, fizeram nos filmes e na vida real, respectivamente. Na trama, como sabemos, a fictícia Woodsboro vê os seus cenários idílicos transformados em painéis de sangue espetaculosos, perpetrados por um ou mais criminosos que ceifam as vidas de suas vítimas em passagens metalinguísticas que refletem a história e a linguagem dos filmes de terror. Da realidade tivemos uma ponta de inspiração para a construção do sarcástico Ghostface. E a ficção, neste processo cíclico, pode ressoar na realidade? Parafraseando Hitchcock, o mestre do suspense, quanto melhor o vilão, melhor o filme. Sendo assim, quanto mais violento e abusivo o monstro, mais influenciador ele se tornará?

A Vida Como Ela é Ou O Cinema Pode Ressoa na Realidade?

Esse é o ponto nevrálgico de Pânico 2. Um dos assassinos do filme é obcecado por esse debate sobre a influência que os filmes de terror possuem em crimes ocorridos na realidade. O roteiro, ousado e intenso, debate essa e outras questões e nos leva a questionar o status sofisticado dos assassinos em série como heróis da pós-modernidade. Recentemente, o biográfico filme sobre Ted Bundy foi acusado de tornar glamouroso os crimes cometidos pelo psicopata que aterrorizou os Estados Unidos nos anos 1970. O seu fusca, por exemplo, é objeto de fascínio em um museu. Há relatos de pessoas que já tatuaram a figura psicótica no próprio corpo. Diante desse panorama de aproximação entre espectadores e narrativas ficcionais, me surgiu um questionamento, parte que encerra as reflexões do já mencionado Palavra de Crítico: O Cinema de Wes Craven, publicação de minha autoria para o nosso cenário cultural pós-pandêmico: os filmes de terror inspiram crimes da vida real? Inspiram ou são completamente responsáveis?

Lembro-me de algo bastante peculiar nos anos 1990, em minha adolescência, na semana que o SBT exibiu Brinquedo Assassino 2 no programa Cinema em Casa. Uma reportagem sensacionalista trouxe à tona o ato criminoso de uma criança que assistia ao clássico com uma amiga e que aleatoriamente, desferiu golpes de tesoura na companheira de sessão. Inspirado por Chucky? Será? Ou o menino já era acometido por algum transtorno psicológico? No caso da franquia Pânico, há polêmicas em situações preocupantes nos Estados Unidos e na França. Em janeiro de 1998, Mario Padilla e Samuel Ramirez, ambos de 16 e 14 anos, respectivamente, esfaquearam a mão do primeiro 45 vezes, num crime que ficou conhecido como “Assassinato de Scream”. No julgamento, eles alegaram que a inspiração para o ato foi a sessão dupla com os dois primeiros filmes da franquia. A dupla tinha interesse em juntar dinheiro para comprar duas fantasias e um trocador de voz, tendo em vista cometer mais crimes adiante. A psicóloga especialista em violência infantil declarou que podemos refletir a situação por muitas variantes, mas os filmes, sem alguma dúvida, tinham a sua parcela de responsabilidade.

Em 17 de janeiro de 1999, Ashley Murray, jovem de 13 anos, foi brutalmente ataca com golpes de faca na cabeça por seus dois amigos, Daniel Gills e Robert Fuller, ambos de 14 e 15 anos, respectivamente. Nos pertences dos jovens foram encontrados desenhos da máscara de Ghostface. Nos depoimentos, a polícia conseguiu informações cinematográficas: eles tinham assistido ao filme de 1996 um pouco antes do ataque. Apelidados de “Atacantes de Scream”, os crimes ocorrem antes que o Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado dos Estados Unidos utilizasse a cena de abertura do primeiro exemplar da franquia de Wes Craven como modelo de mídia negativa para a formação psicológica dos jovens. A sociedade debatia os impactos gerados pelo Massacre de Columbine, um momento peculiar para discussões sobre as ressonâncias da violência oriundas dos filmes, games e programas televisivos na realidade. Mais adiante, na França, alguns episódios despertaram a atenção de especialistas. Observem.

Em abril de 2000, em Fontenay-aux-Roses, o jovem Nicolas, de 16 anos, colocou a máscara icônica do filme e esfaqueou o seu pai e a sua madrasta. No ano seguinte, noutra região, cinco jovens utilizaram a máscara de Ghostface para assaltar e estuprar uma jovem de 21 anos. Em Sarcelles, uma comuna francesa, um adolescente foi detido após brigar utilizando o traje do assassino do filme, além de estar munido de uma faca. Em 2002, um estudante de 17 anos tomou para si o mesmo figurino para assassinar Alice, uma de suas colegas do cotidiano, esfaqueada 45 vezes. Ele foi condenado a pegar 25 anos de prisão, num caso que chocou bastante as pessoas por ser oriundo de alguém que ninguém sequer imaginava a possibilidade do desenvolvimento de um transtorno mental que o levasse a esse tipo de atitude intensa. Outros casos relacionados ao filme devem ter acontecido ao redor do planeta, mas não cabem no escopo da nossa reflexão. A pergunta que me diz, caro leitor, transfiro agora para você: acha que narrativas cinematográficas como Pânico são responsáveis por crimes na vida real? Seria Wes Craven, juntamente com John Carpenter, Tobe Hooper e tantos outros, estabelecedores de má influência para os jovens de nossa sociedade?

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