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Fora de Plano #80 | Cinemateca Boa é Cinemateca em Chamas!

por Luiz Santiago
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Gente, um galpão de arquivos da Cinemateca está pegando fogo agora!“. Foi assim que um amigo meu cortou a conversa que estávamos tendo em grupo, na noite do dia 29 de julho de 2021. Para um grupo de amigos e colegas cinéfilos, dois deles sendo críticos de cinema, uma frase como essa é capaz de estraçalhar qualquer bom humor — e foi exatamente o que aconteceu. Em pouco tempo, outros colegas e amigos entraram em contato para compartilhar comigo a tristeza e o ódio diante do ocorrido, pedindo para que eu, através do Plano Crítico, manifestasse uma opinião a respeito. E minha resposta imediata foi essa aqui: “não vou escrever nada. Estou com muito ódio para isso“. Passados dois dias do acontecido, já consigo pensar algumas coisas para além de palavras de maldição nada bonitas a todos os que foram repetidamente avisados dos riscos que a Cinemateca, seus arquivos, galpões e depósitos corriam… e simplesmente ignoraram tudo isso. Lá no dia 29, porém, eu cheguei publicar uma pequena nota em nosso Twitter:

Minha relação com a cinemateca começou no início da minha vida adulta. Ali eu já vi filmes (dentro e fora da Mostra SP), já fiz pequenos cursos, já vi palestras, já participeis de feiras, rodas de conversa e jornadas, já dei uns pegas em muita gente, já cochilei, já fiz pesquisa e já usei como ponto de encontro e passagem rápida por diversas vezes ao longo dos anos. Inclusive a primeira entrevista que eu realizei para o Plano Crítico, ainda em sua perturbadíssima primeira versão (extinta em abril de 2013), foi para um evento ligado à Cinemateca: Entrevista | Adilson Mendes – Curador da VI Jornada Brasileira de Cinema Silencioso! Daí receber a notícia de que um dos prédios de arquivos da Cinemateca estava pegando fogo não foi algo que eu recebi com um “simples desalento” no peito. A grande fúria que me veio não tinha apenas a ver com a minha relação pessoal com a instituição e com o seu valor cultural e histórico para o audiovisual no Brasil. Mas também com o fato de que a tragédia era anunciada aos quatro ventos já há muito tempo. Os riscos existiam e foram repetidamente reportados. Todavia, as autoridades responsáveis pela instituição não deram a mínima.

A tristeza em relação à destruição dos arquivos da Cinemateca, infelizmente, não vem de hoje. Muita coisa se perdeu de seu precioso arquivo no incêndio de 1957 (num prédio da Rua 7 de Abril, Centro de São Paulo); muita coisa se perdeu no incêndio de 1969 (no portão 9 do Parque Ibirapuera); muito se perdeu no incêndio de 1982 (no depósito nº4, também no Ibirapuera); muito se perdeu no incêndio de 2016 e no alagamento de 2020. O único período de paz que a Cinemateca teve, de fato, foi entre 2008 e meados de 2013, quando então começou uma nova fase de seu pesadelo administrativo, com a demissão do diretor Carlos Magalhães. Em 2019, quando foi encerrado o período de contrato com a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), o que já estava jogado ao léu virou apenas entulho e peso, gerando o colapso financeiro que deixou dezenas de funcionários sem salário no ano seguinte, em plena pandemia. Diversas campanhas foram feitas ao longo de 2020, chamando a atenção do governo federal para a situação caótica. Abaixo, um dos vídeos lançados pelo movimento Cinemateca Brasileira – Trabalhadores em Emergência, em 17 de junho de 2020.

Enquanto o governo brincava de dar cargo que nunca chegou a existir, para Regina Duarte, as necessidades dos prédios da Cinemateca (para quem não sabe, são várias unidades, com diferentes funções) e dos funcionários que ali trabalhavam, urgiam. De olho nesse histórico, o incêndio do dia 29 de julho é a ocorrência de algo já previsto, parte de uma realidade que não pertence unicamente a esse governo, mas que foi por ele potencializada: o desprezo criminoso à cultura brasileira. Preservar a memória do que se produziu de artes e ciências em um país deve estar entre as prioridades dos que administram as instituições onde esse material está guardado, a fim de que não tenhamos acontecimentos trágicos e igualmente enraivecedores como o que aconteceu no Museu da Língua Portuguesa (São Paulo, dezembro de 2015), no Museu Nacional (Rio de Janeiro, setembro de 2018) e agora — de novo! — em uma das unidades da Cinemateca.

No fogo, nossa memória cultural perdeu documentos da antiga Embrafilme, do Concine (Conselho Nacional de Cinema), do Instituto Nacional de Cinema e da Força Expedicionária Brasileira. Perdeu algumas das primeiras câmeras trazidas para o Brasil e outros equipamentos cinematográficos. Perdeu negativos da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP), roteiros de filmes e documentos de registro de obras. Perdeu cópias de cinejornais brasileiros do início do século passado, perdeu arquivos da TV Tupi e do Canal 100. Perdeu parte do acervo da Pandora filmes, parte do acervo Glauber Rocha e parte do acervo em vídeo do jornalista Goulart de Andrade. Perdeu rolos de filmes e cópias de obras clássicas e recentes que a Cinemateca detém para distribuição/exibição de filmes brasileiros em festivais, mostras, eventos cinematográficos e para museus e pesquisadores em território nacional e ao redor do mundo.

Me causa uma imensa tristeza ver tanto material histórico perder-se nas chamas, nas águas de uma enchente ou consumido por marcas do tempo, problemas que só são possíveis quando não existem profissionais para cuidar desse material, fazer vistoria constante nos prédios e arquivos armazenados, empregando meios para prevenir e diminuir impactos de tragédias como essas. E este é um desprezo histórico, que acabou encontrando solo fértil para florescer enormemente sob a podridão “administrativa” que é o atual governo federal, responsável pela Cinemateca. Diz a lenda que a Polícia Federal investigará a tragédia. Que o faça! ‘Inês é morta‘ para tudo o que se perdeu da Cinemateca até hoje. Mas como sociedade, precisamos cobrar que se criem meios para preservar o que sobrou. Porque se depender de certas personalidades políticas (e inclusive de certos artistas, que derrubaram o domo da Terra Plana para gritar pelo Borba Gato incendiado, mas não deram um único pio sobre a Cinemateca), a memória e até mesmo a produção cultural vão continuar em seu processo de sucateamento e destruição. Para essa gente, Cinemateca boa, é Cinemateca em chamas. Pelo menos assim “não gera custos inúteis“.

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