Fora de Plano #56 | Nicole Kidman: Uma Análise Dramatúrgica

Ela já fez a versão da Penélope de Homero no épico de guerra Cold Mountain. Estudiosa, dedicou-se a compreender o cotidiano das interpretes da ONU para o seu papel de Silvia Broome no suspense político A Intérprete, de Sidney Pollack. Como Atlanna, mãe de Aquaman, traçou em sua carreira um personagem cinematográfico semelhante aos conflitos entre deuses e humanos na Grécia Antiga. Ao adentrar no ciclo dos tipos humanos do romance The Paperboy, de Pete Dexter, a atriz tornou visual a vulgar Charlotte Bless, personagem que lhe obrigou a formular uma constrangedora e corajosa cena de masturbação, desafiadora abordagem de um ato íntimo que não fora filmado em isolamento, mas diante de outros personagens da produção.

Por esses e outros motivos que serão abordados adiante, podemos apontar Nicole Kidman como uma das melhores atrizes de sua geração, bem como de toda a história da sétima arte. Talentosa nos palcos de teatro, a grande dama do cinema também é influente no meio televisivo. Capaz de transformar peças publicitárias em “arte”, segmento audiovisual tratado como algo puramente comercial por alguns especialistas, a atriz também domina tranquilamente a música e já fez dueto em videoclipe, somas que adicionam qualidade ao seu currículo cheio de experiências versáteis. Resumindo: uma atriz completa.

A Intérprete, Aquaman e Cold Mountain: personagens versáteis, desempenhos idem

Midiaticamente, tudo começou em Terror a Bordo. O suspense trouxe uma mãe em luto depois de um acidente de carro que ceifou a vida de seu único filho. Deprimida por conta do acontecimento, ela topa viajar com o marido, interpretado por Sam Neil. Ao velejar mar afora, o casal encontra o horror ao salvar um naufrago com segundas intenções. O filme fez sucesso, foi reprisado na televisão aberta numerosas vezes e colocou a atriz no radar, em especial, nas atenções de Tom Cruise, ator mediano de muita influência no meio hollywoodiano, homem que se tornou seu marido e a levou para atuar em Um Sonho Distante e Dias de Trovão, produções dirigidas por Tonny Scott e Ron Howard, cineastas respeitados no âmbito cinematográfico.

Algumas vezes, atrizes que já alcançaram um posto confortável no cinema precisam aprender a arte de dominar o ego e as certezas absolutas. Aceitar papeis como coadjuvante, trabalhar com orçamentos mais modestos e se permitir ser camaleônica em relação aos personagens que interpreta também é algo muito importante. Veja o caso de Sandra Bullock. A atriz passou eras fazendo praticamente o mesmo papel, isto é, interpretando a garota gente boa e meiga, algo que a deixou amargar papeis ruins durante bastante tempo. Nicole Kidman, por sua vez, elaborou estratégias de permanência na indústria que a permitiram equilibrar grandes incursões e participações mais medianas. Foi uma série de escolhas que faz toda diferença.

Por falar em Sandra Bullock, ambas interpretaram duas irmãs bruxas em Da Magia à Sedução, produção terapêutica para as atrizes que em 1998, passavam por situações igualmente complicadas. Bullock se recuperava do fracasso de Velocidade Máxima 2, promessa que não se firmou e quase afundou a sua carreira. Kidman, por sua vez, havia adentrado numa experiência onírica com Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados, um excelente filme para sua carreira, mas algo bastante profundo e cansativo, haja vista o longo período de filmagens, os famosos takes repetidos exaustivamente, pois na busca pela excelência, o cineasta conhecido por seu perfeccionismo repetia a mesma cena mais de 90 vezes, até chegar no ponto que queria, etc.

Com Sandra Bullock nos bastidores da comédia romântica Da Magia à Sedução | Aos beijos com om Cruise no profundo e onírico De Olhos Bem Fechados | Na peça teatral Blue Room 

Kidman ainda tinha em sua agenda os palcos do teatro com a famosa e bem sucedida peça The Blue Room e a midiática separação com Tom Cruise, algo superado “artisticamente” com a chegada do que considero a sua Trilogia da Era de Ouro: Moulin Rouge – Amor em Vermelho, Os Outros e As Horas. No primeiro caso, o musical era a produção que fechava a Trilogia das Cortinas Vermelhas, iniciada em Vem Dançar Comigo (1991) e Romeu e Julieta (1996). Baz Lurhmann, ao conceber histórias que mesclavam dança, cinema e teatro, trouxe em Moulin Rouge o resgate dos musicais, gênero que estava estacionada na zona do obscurantismo cinematográfico, algo que reaqueceu a indústria e encorajou a produção e sucesso do premiado e magnífico Chicago, aula de montagem, coreografia e crítica social dentro de uma produção voltada ao entretenimento. Com Satine, a atriz emulou Marlene Dietrich, Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Madonna e a personagem de A Dama das Camélias, peça de Alexandre Dumas Filho que inevitavelmente nos conecta com Lucíola, musa do romance romântico urbano de José de Alencar.

O musical foi uma febre na época de seu lançamento, sucesso de crítica e público. Com mixagem de música clássica com elementos da cultura pop, Moulin Rouge ainda ousou por apresentar um design de produção que concatenou traços de estilos artísticos diferentes num só produto. A genialidade é tão grande que numa única cena, os realizadores unem barroco, arte gótica, concretismo, arcadismo, vanguardas modernas, etc. Logo depois, a atriz entrou profundamente noutro projeto magnífico: a cinebiografia de Virginia Wolf. Em As Horas, diferente do que muitos esnobes apontaram sobre Hollywood adorar transformações físicas por meio de maquiagem, há um profundo estudo de personagem, entonação, respiração, olhar, gestos, dentre outros detalhes que a fizeram merecedora do Oscar de Melhor Atriz, entregue na cerimônia de 2002.

I Era de Ouro de Nicole Kidman: Os Outros, Moulin Rouge e As Horas

Acompanhada pela trilha sonora minimalista de Phillip Glass e dirigida pelo competente Stephen Daldry, Nicole Kidman atuou juntamente com Julianne Moore e Meryl Streep, todas igualmente fabulosas em seus personagens. Contemporâneo ao lançamento de Moulin Rouge, um pouco antes de As Horas, a atriz se entregou ao arrebatador Os Outros, suspense que vai muito além de seu plot twist que em si não é e nem busca ser original, mas é um mecanismo orgânico na produção, bastante convincente e conectado com o “todo” narrativo, algo que não soa forçado e muleta da narrativa, mecanismo que se tornou símbolo nos filmes de M. Night Shyamalan.

Dirigida pelo também competente Alejandro Amenábar, o filme discutiu espiritualidade, laços familiares e luto, tudo isso, adornado por um design de produção repleto de elementos góticos clássicos e direção de fotografia que capricha no estabelecimento de uma atmosfera sombria, haja vista a neblina, a iluminação de compensação e os movimentos de câmera que deixam sempre algo latente a ser revelado. Desta forma, retorno ao que já foi afirmado: trabalhar com cineastas de “ponta” é algo muito importante dentro de um sistema que trata a arte como produto.

Mas, não é apenas por isso que Nicole Kidman se tornou uma das melhores atrizes da contemporaneidade. Talentosa, a australiana que ganhou o mundo por meio de filmes versáteis e experiências desejáveis para quem atua no setor dramático é um marco na luta das mulheres maduras por espaço descente em filmes de grande porte, séries televisivas de relevância, dentre outras investidas que reforçam a sua busca por conquista de espaço e manutenção do seu posto de grande dama do cinema atual.

Ah, antes de dar continuidade, torna-se importante ressaltar a sua participação em Dogville, de Lars Von Trier, polemico cineasta que geralmente trabalha com temas indigestos e é um dos representantes do movimento artístico Dogma 95, proposta que tinha como algumas de suas regras, a utilização de som exclusivamente realista, deslocamentos temporais e uso de qualquer elemento cenográfico. Pode não ter sido a melhor experiência da atriz, mas ajudou no mapeamento de estilos cinematográficos presentes no panorama de sua extensa carreira.

Produtora da Blossom Films, Kidman atualmente escolhe melhor os seus papéis, dedica-se aos bons personagens e permite-se experimentações, indo do segmento cinematográfico ao televisivo sem perder a qualidade artística dos papéis desempenhados. Dona de uma bela voz, Kidman não encantou o público apenas como a cortesã parisiense e seus números musicais, mas também arriscou um dueto do clássico Somethin’ Stupid, juntamente com Robbin Willians. Sensual, carismática e ao estilo anos 1950, a dupla também investiu num videoclipe e a canção fez parte da trilha sonora de A Isca Perfeita, um dos primeiros filmes de sua fase irregular.

A Pele, Invasores e Nine: filmes que dividiram bastante as opiniões da crítica e do público!

A atriz também demonstrou excelente desempenho em Nine, produção inspirada numa peça teatral que emula elementos biográficos do cineasta Federico Fellini. A montagem nos palcos é uma das mais ovacionadas da história, mas o filme não agradou como o esperado, tornando-se um dos seus fracassos na carreira. Mas, afinal, como é possível irregularidade sendo tão talentosa? Ser talentosa não significa que haja apenas felicidade e bons filmes em seu caminho.

Diferente de muitas atrizes que não conseguiram dar a volta por cima e se reconfigurar, Nicole Kidman retomou o rumo brilhante de sua carreira e comprovou que a sua trajetória não iria adentrar no obscurantismo típico ao movimento mundial em todas as profissões, tendencioso no que concerne aos processos de amadurecimento das mulheres, tratadas como descartáveis depois que seus corpos não representam mais o padrão para protagonizar cenas de ação ou momentos de erotismo.

Lembro-me de uma discussão antiga, levantada durante uma palestra sobre a História dos Musicais no Cinema, evento realizado em 2012 na Universidade Federal da Bahia. Como ministrante do evento em questão, abri precedentes para os ouvintes e um ponto de vista relevante foi a notável decadência de uma atriz talentosa e competente. Nicole Kidman estava no centro das atenções, haja vista a inclusão de Moulin Rouge – Amor em Vermelho e Nine durante a curadoria dos filmes que seriam exibidos.

Na conversa que permitiu inserção de outros comentários, houve divertidos e bobos comentários sobre uma tal maldição que acometia as atrizes ganhadoras do Oscar, relegadas ao ostracismo depois da premiação. Confesso que considero o pensamento uma bobagem, apesar de sua pertinência se observarmos algumas atrizes talentosas que amargaram filmes deprimentes depois de receber o cobiçado prêmio da indústria hollywoodiana. A preocupação era se havia alguma chance de recuperação, pois a quantidade de filmes ruins formava uma extensa lista.

Em A Bússola de Ouro, a presença enquanto uma antagonista é insatisfatória. O filme não fez sucesso e a história é pura sonolência. Sou apaixonado por Austrália, mas Baz Luhrmann não conseguiu repetir o tom brilhante de seu musical de 2001. Longo demais, o filme possui belas mensagens, mas arrasta os personagens e o público para um épico que aparenta não terminar nunca. Ao lado de Nicolas Cage no suspense de ação Reféns, a atriz fez o papel de esposa de uma família acuada por criminosos violentos, num festival de violência gratuita, direção ruim e roteiro com péssimo desenvolvimento.

Invasores é um pouco anterior, considerado também como um dos inferiores de sua trajetória, mas confesso que gosto e não acho que seja possível compará-lo aos citados anteriormente. Versão anos 2000 para o romance Invasores de Corpos, de Jack Finney, a produção marcou outra parceria sua com o galã Daniel Craig. Tal como os anteriores, as críticas sociais e políticas estavam lá, em meio aos momentos de suspense e perseguição. A discussão sobre guerra biológica também é bem delineada, mas faltou melhor confiança nos espectadores, pois o filme o tempo inteiro deixa a ideia de que precisamos de explicação para cada passo, em suma, uma postura de esmiuçar que torna tudo muito óbvio, mesmo que bom enquanto entretenimento.

Depois de 2012 as coisas começaram a melhor um pouco. Novas indicações aos prêmios da indústria indicavam que as coisas estavam entrando nos eixos. Reencontrando a Felicidade, uma das tantas histórias sobre luto e família trouxe um desempenho inspirador da atriz, indicada ao Oscar pelo filme, adaptação de uma famosa peça teatral assumida no teatro por Cynthia Nixon, de Sex and The City. No suspense Antes de Dormir, produção com temática do suposto marido psicopata/ciumento/cheio de segredos, algo já bastante explorado na literatura e no cinema, a atriz mostrou que as coisas estavam se ajustando, mas ainda era preciso se esforçar mais.

É um ponto, inclusive, crucial para analisarmos os rumos da produção cinematográfica relativamente independente da época. Realizado por sua produtora, o drama ganhou o público e a crítica e teve orçamento baixo se comparado aos demais exemplares com elencos repletos de celebridades caras. Nicole afirmou em entrevistas que abriu mão de trailers e outros luxos para que o filme fosse veiculado sem tanta burocracia, algo comum aos estúdios e seus investidores que pagam caro, mas cobram bastante em nível de exigência, inclusive quando decidem picotar trechos de produções que consideram desinteressantes financeiramente.

A cinebiografia televisiva de Ernest Hemingway, produzida pela HBO, realizada em parceria com Clive Owen, promoveu outra indicação da atriz aos prêmios anuais para televisão, merecido diante de uma performance arrebatadora. Antes de continuar na década de 2010, período demarcado por uma participação em filme de super-herói, isto é, Aquaman, Nicole já havia experimentado outro personagem dentro deste universo de mocinhos e bandidos. Batman Eternamente, lançado em 1995, pode até ser considerado uma bobagem, mas reforçam o talento da atriz em saber ser uma coadjuvante de peso. Outro papel mediano, mas que a colocou como conhecedora de um subgênero explorado exaustivamente no cinema é a sua “garota má” do suspense Malícia, trabalho que a coloca na lista de mulheres diabólicas do cinema.

2019: séries atuais e cena do trailer do drama O Pintassilgo

Ao lado de Russel Crowe, a atriz esbanjou o seu talento ao compor Nancy Eamons em Boy Erased – Uma Verdade Anulada, drama sobre cura gay que ganhou bastante projeção internacional e tornou-se ponto de debate do ódio e dos extremismos da Era Trump. A indicação do Globo de Ouro por O Peso do Passado nos deixou à espera do Oscar, mas os membros da academia não agraciaram a atriz com a honraria, algo merecido por seu desempenho. É da mesma época O Sacrifício do Cervo Sagrado (do cineasta grego Yorgo Lanthimos), drama com toques sutis de “horror”; Neil Burger a dirigiu na versão estadunidense de Os Intocáveis, produção queridinha dos “franceses” e já contada numa adaptação argentina; o trailer de O Pintassilgo saiu recentemente e uma transformação no visual, tal como Lion – Uma Jornada Para Casa, dentre outras tantas que a atriz já fez, demarcam uma presença coadjuvante de ouro para o drama.

Aos 51 anos (2019), Nicole Kidman é um exemplo de artista que comanda as escolhas de sua carreira e combate constantemente o ageísmo, algo similar ao que Madonna faz no terreno musical. O preconceito com idade afeta a sociabilidade de profissionais talentosos, pessoas forçadas a ceder, principalmente na indústria cinematográfica e televisiva. Kidman pode sim ter os seus privilégios enquanto mulher branca, católica e heterossexual, mas isso não impede de a considerarmos um exemplo de empoderamento feminino que deve ser seguido.

Filha de um bioquímico e uma enfermeira, Nicole Kidman cresceu em meio à simplicidade e conquistou o seu espaço por meio de lutas insistentes e maturação das suas estratégias de atuação que a tornaram, atualmente, uma das melhores representes do drama. Ela é um exemplo de luta numa arena de complicada manutenção, afinal, a indústria cultural é um espaço de glamour, mas também âmbito de muita opressão. Que outras atrizes possam ter a oportunidade de demonstrar o seu talento e se tornar parte integrante da História do Cinema, da Televisão e do Teatro. Vida longa, Kidman!

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.