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Crítica | Kick-Ass: Volume 2

por Ritter Fan
231 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 2,5

Mark Millar e John Romita Jr. demoraram tanto para acabar o primeiro arco de histórias de Kick-Ass, herói adolescente nerd sem poderes que criaram para chocar o mundo dos quadrinhos, que uma adaptação cinematográfica foi lançada quase que imediatamente após seu final. Diferente do sucesso da HQ, porém, o filme amargou um relativo fracasso de bilheteria, ainda que ele eventualmente viesse a ganhar uma continuação.

Mas, aproveitando que toda a então recém-criada mitologia de Kick-Ass e especialmente de Hit-Girl estava quente na mente dos fãs sedentos por mais pancadaria e sangue, a dupla de autores entregaram justamente o que muitos queriam pouco meses depois do fim da primeira história dos vigilantes mascarados. O problema de Millar e Romitinha, porém, é o mesmo tipo de problema que continuações hollywoodianas costumam ter: o excesso.

O que era radical no primeiro arco tornou-se banal no segundo. Os autores não podiam simplesmente repetir a dose e, no lugar de criar uma história diferente justamente para não se repetirem, publicaram algo que só eleva o grau de sanguinolência e de violência sem realmente trazer nada de novo e verdadeiramente criativo.

Sim, eles começam a narrativa com o próximo passo lógico a partir do primeiro Kick-Ass: a formação de uma “Liga da Justiça” maltrapilha, batizada de Justiça Eterna, comandada pelo novo cristão e ex-capanga da máfia, Coronel Estrelas e sua cadela mascarada Sofia. No entanto, como para cada ação há uma reação – ainda que, no caso da história de Millar, a reação seja completamente desproporcional – Red Mist volta rebatizado de Motherfucker com sua própria liga de vilões, incluindo a assassina Mãe Rússia, ex-guarda costas de Vladimir Putin (sim, dele mesmo!).

Para quem não se lembra, Red Mist era o melhor amigo de Kick-Ass no primeiro arco e filho do mafioso John Genovese, morto por Hit-Girl na base de cuteladas. Assim, o antigo amigo agora se torna um “super” vilão e sai cometendo as maiores atrocidades para se vingar da dupla. Essas atrocidades incluem estourar a cabeça de criancinhas com metralhadoras, estuprar diversas vezes a menina por quem Kick-Ass é apaixonado e coisas do gênero.

É o choque pelo choque. O que era interessante e desafiador no primeiro arco torna-se exagerado e sem sentido no segundo. Até mesmo a forma de retratar Kick-Ass e a Justiça Eterna é equivocada, já que Millar efetivamente os transforma em super-heróis invencíveis. Se, na primeira história, esse papel ficava adstrito à Hit-Girl, o autor contamina os demais personagens com essa característica ao retirar a menina desse meio (ela promete ao pai adotivo ser obediente e não mais se “transformar” em Hit-Girl) somente para fazê-la voltar triunfalmente quando o caldo já está completamente derramado.

Como deixei claro na crítica de Kick-Ass – Quebrando Tudo, não sou puritano, longe disso. Apenas acho que a violência em qualquer meio deve cumprir sua função. No primeiro volume, ela era razoavelmente contida ao meio vilanesco, não derramando para civis. No segundo, a vingança absurda de Motherfucker perde impacto logo de início e todos os quadros que seguem por 150 páginas é só para adolescente sem medida achar que está vendo algo verdadeiramente transgressor e diferente.

Não tem nada mais longe da verdade, porém.

De toda forma, no final das contas, quando o derradeiro embate acontece no Times Square, a forma como Millar retrata a ação policial, não diferenciando heróis de vilões – como eles poderiam, não é mesmo? – dá um vislumbre de como deveria ter sido essa continuação. Pena que o roteirista se viu infectado pelo vírus hollywoodiano do “o que é maior é necessariamente melhor”.

A arte de John Romita Jr. continua funcionando para transformar o que vemos em uma fábula, mas Millar, com toda sua violência, acaba não ajudando muito e a arte fica esvaziada. E há determinados momentos, como quando Hit-Girl finalmente reaparece, que Romitinha falha nos detalhes, parecendo até que outro artista entrou em seu lugar. Será que ele estava com pressa para terminar o trabalho ou tinha certeza que as pessoas leriam de qualquer jeito em vista do hype entorno do primeiro arco?

Kick-Ass 2 é, infelizmente, uma oportunidade perdida. Um banho de sangue que mais parece uma ducha de água fria.

*Publicado originalmente em 16 de outubro de 2013.

Kick-Ass: Volume 2 (Kick-Ass 2, EUA – 2010/12)
Contendo:
Kick-Ass 2 #1 a 7
Roteiro: Mark Millar
Arte: John Romita, Jr.
Cores: Dean White
Editora original: Marvel Comics (selo Icon)
Data original de publicação:
 dezembro de 2010 a maio de 2012
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de 2013
Páginas: 212 (encadernado brasileiro)

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40 comentários

Maze 11 de setembro de 2017 - 14:11

Eu evitei ver a adaptação por muito tempo, porque achei a narrativa muito fraca. Um dos raros casos aonde o filme é melhor que a obra original.

Responder
planocritico 11 de setembro de 2017 - 15:20

No caso de Kick-Ass 2 eu concordo. O filme é bem melhor. Já no caso do primeiro filme, eu prefiro de longe a HQ.

Abs,
Ritter.

Responder
Cristiano de Andrade 29 de agosto de 2016 - 22:16

Realmente Kick Ass 2 é muito inferior ao original. O maior defeito é que a historia se leva a “sério” demais perdendo aquele tom de deboche da primeira série. O exagero na violência também estraga a historia. O que era impressionante no primeiro volume se torna banal aqui.

Os filmes são bons? nunca assisti.

Responder
planocritico 30 de agosto de 2016 - 15:37

@cristianodeandrade:disqus , verdade. A pegada mais série acaba não funcionando.

Sobre os filmes, tenho grandes problemas com o primeiro por mudarem algo que em minha opinião altera o conceito do trabalho de Millar. Mas eu gosto do segundo. Acho que funcionou muito bem.

Abs,
Ritter.

Responder
Cristiano de Andrade 31 de agosto de 2016 - 16:56

O que mudaram no primeiro que te incomodou?

Responder
planocritico 31 de agosto de 2016 - 17:13

@cristianodeandrade:disqus , sem dar spoilers, o problema que vi no primeiro é que, conceitualmente, como você sabe, Kick-Ass é um jovem qualquer que faz cosplay de super-herói sem qualquer habilidade especial ou mesmo equipamento especial. É um cara que não quer na verdade matar ninguém, apenas fazer justiça (diferente de Hit-Girl, claro). No filme, a pegada vai mais para o lado de “super-herói”, especialmente no final bem apoteótico e hollywoodiano que faz com que o garoto nerd seja muito mais do que ele jamais foi nos quadrinhos, o que perverte seu âmago e a filosofia da história de Millar.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 31 de agosto de 2016 - 17:13

@cristianodeandrade:disqus , sem dar spoilers, o problema que vi no primeiro é que, conceitualmente, como você sabe, Kick-Ass é um jovem qualquer que faz cosplay de super-herói sem qualquer habilidade especial ou mesmo equipamento especial. É um cara que não quer na verdade matar ninguém, apenas fazer justiça (diferente de Hit-Girl, claro). No filme, a pegada vai mais para o lado de “super-herói”, especialmente no final bem apoteótico e hollywoodiano que faz com que o garoto nerd seja muito mais do que ele jamais foi nos quadrinhos, o que perverte seu âmago e a filosofia da história de Millar.

Abs,
Ritter.

Responder
Cristiano de Andrade 31 de agosto de 2016 - 17:16

Acho que eu sei o que você tá falando

SPOILERS SPOILERS

Ví uma cena dele usando um jetpack e me falaram que no final ele fica com a garota que ele gosta né?

planocritico 31 de agosto de 2016 - 17:59

Isso. A sequência com o SPOILER SPOILER jetpack… E tudo que vem em seguida…

Abs,
Ritter.

planocritico 31 de agosto de 2016 - 17:59

Isso. A sequência com o SPOILER SPOILER jetpack… E tudo que vem em seguida…

Abs,
Ritter.

Cristiano de Andrade 31 de agosto de 2016 - 22:39

ah sim. Isso realmente é bem zoado.

Já leu Kick Ass 3? Eu to lendo e por enquanto tô gostando, já é melhor que o 2.

planocritico 1 de setembro de 2016 - 01:40

Ainda não, @cristianodeandrade:disqus ! Mas está na lista para ler e criticar!

Abs,
Ritter.

planocritico 1 de setembro de 2016 - 01:40

Ainda não, @cristianodeandrade:disqus ! Mas está na lista para ler e criticar!

Abs,
Ritter.

Cristiano de Andrade 31 de agosto de 2016 - 22:39

ah sim. Isso realmente é bem zoado.

Já leu Kick Ass 3? Eu to lendo e por enquanto tô gostando, já é melhor que o 2.

Cristiano de Andrade 31 de agosto de 2016 - 16:56

O que mudaram no primeiro que te incomodou?

Responder
Cristiano de Andrade 29 de agosto de 2016 - 22:16

Realmente Kick Ass 2 é muito inferior ao original. O maior defeito é que a historia se leva a “sério” demais perdendo aquele tom de deboche da primeira série. O exagero na violência também estraga a historia. O que era impressionante no primeiro volume se torna banal aqui.

Os filmes são bons? nunca assisti.

Responder
JJL_ aranha superior 9 de junho de 2016 - 23:14

Discordo muito dessa crítica. Acho que boa parte da violência na hq foi justificável já que, como o próprio kick-ass disse, os vilões são só uns babacas que não medem as consequências dos seus atos. E toda a dor que o MF inflige para o dave é nada mais que uma consequência das decisões do dave e da mindy, algo que sempre vem de uma maneira grande demais para aguentar (a morte do pai do dave e o estupro de uma menina que nunca sequer teve algo sério com ele).

Responder
planocritico 10 de junho de 2016 - 00:40

@joao_lucas_ribeiro_lopes:disqus, o problema não é haver ou não haver justificativa para a violência, mas sim como ela se torna banal aqui, perdendo todo e qualquer impacto e relevância. É, como eu disse, a síndrome das continuações hollywoodianas: a parte dois tem que ter mais violência e mais explosões para se justificar e dá nisso, uma história vazia, sem os aspectos bons da primeira parte.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 10 de junho de 2016 - 00:40

@joao_lucas_ribeiro_lopes:disqus, o problema não é haver ou não haver justificativa para a violência, mas sim como ela se torna banal aqui, perdendo todo e qualquer impacto e relevância. É, como eu disse, a síndrome das continuações hollywoodianas: a parte dois tem que ter mais violência e mais explosões para se justificar e dá nisso, uma história vazia, sem os aspectos bons da primeira parte.

Abs,
Ritter.

Responder
JJL_ aranha superior 10 de junho de 2016 - 12:39

Eu já acho que a justificativa compensa o excesso (que eu nem achei tanto, levando em conta o que o millar já foi capaz de fazer). Quanto ao impacto, eu acho bastante relativo porque eu realmente fiquei chocado com algumas cenas, principalmente a morte do pai do dave e o confronto no times square (que eu achei até condizente com a realidade).

Responder
JJL_ aranha superior 10 de junho de 2016 - 12:39

Eu já acho que a justificativa compensa o excesso (que eu nem achei tanto, levando em conta o que o millar já foi capaz de fazer). Quanto ao impacto, eu acho bastante relativo porque eu realmente fiquei chocado com algumas cenas, principalmente a morte do pai do dave e o confronto no times square (que eu achei até condizente com a realidade).

Responder
planocritico 10 de junho de 2016 - 16:01

É, vai de cada um. Particularmente o que vi nessa minissérie foi o “choque pelo choque”, com cada morte ou violência tentando ser mais horrível que a outra. Semelhante ao mal banalizado que Millar fez em Nêmesis e que desgosto profundamente ainda que o conceito da HQ seja também interessante como, aliás, tudo que ele escreve.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 10 de junho de 2016 - 16:01

É, vai de cada um. Particularmente o que vi nessa minissérie foi o “choque pelo choque”, com cada morte ou violência tentando ser mais horrível que a outra. Semelhante ao mal banalizado que Millar fez em Nêmesis e que desgosto profundamente ainda que o conceito da HQ seja também interessante como, aliás, tudo que ele escreve.

Abs,
Ritter.

Responder
JJL_ aranha superior 10 de junho de 2016 - 16:13

Eu tive essa mesma sensação ao ler velho logan, mas na segunda vez que li já parecia melhor.

JJL_ aranha superior 10 de junho de 2016 - 16:13

Eu tive essa mesma sensação ao ler velho logan, mas na segunda vez que li já parecia melhor.

planocritico 10 de junho de 2016 - 16:36

O Velho Logan, pelo menos, brinca com as mortes pregressas de heróis icônicos, o que gera aquela curiosidade mórbida inevitável. E o Logan em si – além do Gavião Arqueiro cego – está bem caracterizado. Mas também não é nenhuma obra-prima (ainda que seja bem melhor que Nêmesis ou Kick-Ass 2 para mim).

Você já leu Hit-Girl e Kick-Ass 3?

Abs,
Ritter.

planocritico 10 de junho de 2016 - 16:36

O Velho Logan, pelo menos, brinca com as mortes pregressas de heróis icônicos, o que gera aquela curiosidade mórbida inevitável. E o Logan em si – além do Gavião Arqueiro cego – está bem caracterizado. Mas também não é nenhuma obra-prima (ainda que seja bem melhor que Nêmesis ou Kick-Ass 2 para mim).

Você já leu Hit-Girl e Kick-Ass 3?

Abs,
Ritter.

JJL_ aranha superior 10 de junho de 2016 - 16:39

Sim, ambos são ótimos, pelo menos pra mim.

JJL_ aranha superior 10 de junho de 2016 - 16:39

Sim, ambos são ótimos, pelo menos pra mim.

planocritico 10 de junho de 2016 - 16:48

Hit-Girl eu gosto bastante (tem crítica aqui no site também, já viu?). Mas não consegui ler Kick-Ass 3 ainda.

Fique com o link da crítica de Hit-Girl, se quiser ler e comentar: https://www.planocritico.com/critica-hit-girl-preludio-para-kick-ass-2/

Abs,
Ritter.

planocritico 10 de junho de 2016 - 16:48

Hit-Girl eu gosto bastante (tem crítica aqui no site também, já viu?). Mas não consegui ler Kick-Ass 3 ainda.

Fique com o link da crítica de Hit-Girl, se quiser ler e comentar: https://www.planocritico.com/critica-hit-girl-preludio-para-kick-ass-2/

Abs,
Ritter.

JJL_ aranha superior 9 de junho de 2016 - 23:14

Discordo muito dessa crítica. Acho que boa parte da violência na hq foi justificável já que, como o próprio kick-ass disse, os vilões são só uns babacas que não medem as consequências dos seus atos. E toda a dor que o MF inflige para o dave é nada mais que uma consequência das decisões do dave e da mindy, algo que sempre vem de uma maneira grande demais para aguentar (a morte do pai do dave e o estupro de uma menina que nunca sequer teve algo sério com ele).

Responder
Diogo Amorim 8 de janeiro de 2016 - 13:39

Achei esse segundo arco uma porcaria. História sem pé nem cabeça, exagerada e sem sentido. O primeiro arco não deixava de ter sua violência e exagero mas sabia dosar, agora esse virou violência barata mesmo, só isso, tudo era desculpa pra violência, perderam a noção de vez. Decepcionante.

Responder
planocritico 8 de janeiro de 2016 - 14:30

Bem fraco mesmo, @disqus_1xfUk6Tw8e:disqus. Uma pena. Mas já leu Hit-Girl? Essa vale a pena!

Abs,
Ritter.

Responder
Diogo Amorim 9 de janeiro de 2016 - 16:22

Ainda não li, depois vou ler, já que você disse que vale a pena então vou ler mesmo

Responder
planocritico 10 de janeiro de 2016 - 13:29

Depois me conte o que achou. Temos a crítica aqui no site.

Abs,
Ritter.

Responder
Mikhael 3 de abril de 2015 - 17:43

Pior mini-série de quadrinhos que já li. Sério, muito decepcionante. Alguém sabe me dizer se vale a pena ler Kick-Ass 3?

Responder
planocritico 4 de abril de 2015 - 18:43

É bem fraca mesmo. Não é a pior, mas entendo seu sentimento!

Não li Kick-Ass 3 ainda, mas Hit-Girl é bem legal.

Abs,
Ritter.

Responder
Pajaraca N 19 de outubro de 2013 - 11:54

Ótima crítica. Tive essa sensação ao ler a revista, e, apesar de não achar obrigatório inovações ou mostrar algo de novo para um trabalho ser bom, o autor perdeu a mão nas mortes e violência… ficou tudo gratuito mesmo. É a revista pra ler no banheiro mesmo, só pra passar o tempo e logo depois esquecer.

Responder
planocritico 19 de outubro de 2013 - 17:29

Obrigado! E bem classificado: leitura de banheiro mesmo. Mas pelo menos Hit-Girl meio que volta às origens e Kick-Ass 2 (o filme) acabou me surpreendendo. – Ritter.

Responder

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