Lista | Better Call Saul – 5ª Temporada: Os Episódios Ranqueados

Temporada

O que não falta é oferta de séries sensacionais na televisão mundial e, para destacar-se em meio a elas, é preciso algo realmente especial. Better Call Saul, o spin-off prelúdio da aclamada Breaking Bad e focada na “origem” do advogado de bandido Saul Goodman a quem somos apresentados na 2ª temporada da série original é inegavelmente uma obra que consegue ficar um ou mais degraus acima da grande maioria do que se tem por aí. E, se isso já não tinha ficado claro antes, a 5ª e penúltima temporada da série vem para colocar uma pá de cal nessa discussão.

Nela, vemos a transformação final de Jimmy em Saul, a ascensão de Lalo Salamanca, um dos mais cativantes vilões desse universo, o retorno de Mike para debaixo da asa de um vingativo Gus Fring e, como uma muito bem dada rasteira em praticamente todo mundo, a revelação de que a série é tanto sobre Kim Wexler como sobre Jimmy McGee. E tudo isso sem perder a impecável fotografia, os roteiros praticamente perfeitos e o elenco mais uma vez dando show.

Jimmy finalmente entende o alto custo de ser advogado de criminosos pesados, mantendo-se constantemente na dúvida sobre se o que está fazendo faz sentido para sua vida e os showrunners Vince Gilligan e Peter Gould mantêm sua mira focada nessa construção, somos pegos de surpresa pela consolidação de Kim não como uma personagem coadjuvante, mas sim como uma co-protagonista cuja história ficou sempre em segundo plano, mas que desabrocha completamente aqui. Sempre incomodada em representar seu cliente Mesa Verde e em ser sócia de um escritório de alto gabarito que lhe impedia de focar no trabalho pro bono que realmente era sua vocação e, mais do que isso, volta e meia revelando que ela sente prazer em dar pequenos golpes com Jimmy como uma forma de desvio de caráter, digamos… benigno, Kim sempre teve sua narrativa à sombra da de Jimmy e de suas diversas personas, seja Jimmy Sabonete, Jimmy McGill, Saul Goodman ou Gene Takavic. Ou pelo menos era isso que fomos levados a concluir, inclusive com a dedução “óbvia” de que ela simplesmente tinha que morrer, já que seu personagem “não existe” em Breaking Bad.

No entanto, a 5ª temporada dá uma magnífica rasteira no espectador e revela que a história de Kim é tão importante quanto a de Jimmy e que o futuro da personagem definitivamente não está decidido. Claro, ela sem dúvida ainda poderá morrer, mas tenho para mim que esse momento passou e sua consolidação foi de tal maneira que creio que os showrunners imaginam outro futuro para ela. Teorias à parte, o que realmente interessa é o sensacional trabalho dramático de Rhea Seehorn. Sem dúvida a atriz sempre foi um destaque, mas, aqui, sua personagem teve grande destaque e Seehorn simplesmente explodiu nas telas, por vezes até sombreando o também sempre sensacional Bob Odenkirk (parece que o jogo virou, não é mesmo?). E o mais interessante é que tudo fez perfeito sentido se pensarmos, em retrospecto, na forma como a personagem foi trabalhada em “fogo baixo”.

Por outro lado, Eduardo “Lalo” Salamanca, introduzido apenas no final da temporada anterior sem maiores promessas, mostrou-se quase que instantaneamente como ouro televisivo. Se Michael Mando vive seu Nacho de maneira série, sofrida, quieta e discreta, Tony Dalton é, na falta de um adjetivo mais polido, uma “figuraça”, um sujeito que passa ameaça em cada gesto que faz, em cada palavra que diz, mesmo quando está relaxado ou somente fazendo piadas. Talvez seja exagerado dizer, mas Lalo é um dos mais fascinantes gangsteres da televisão, capaz de cativar na mesma medida em que assusta tremendamente.

Em suma, Gilligan e Gould acertaram em cheio mais uma vez, mostrando o que é realmente televisão de qualidade e preparando o terreno para o que promete ser uma derradeira temporada (tomara que ainda em 2021!) impecável. Difícil será lutar contra a abstinência de Saul, Kim, Lalo, Mike, Nacho e Gus (e até Howard)…

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Como sempre fazemos no caso de séries que criticamos por capítulo, preparamos o ranking dos episódios para compararmos figurinhas com nossos leitores. No entanto, a 5ª temporada de Better Call Saul é tão uniformemente incrível que foi impossível fazer essa lista (eu dei apenas uma avaliação 4 estrelas, com três 4,5 e nada menos do que seis 5 estrelas!!!). Foram várias versões até chegar na abaixo que ainda não me deixou completamente satisfeito. A vontade que deu foi colocar tudo em 1ª lugar e fugir paras colinas, mas o Luiz Santiago (ele é tipo o Lalo, só que mais, hummm, arredondado e sem o bigode…) iria soltar os cachorros em cima de mim. Assim, fui obrigado – com dor no coração e depois de tomar um Louis XIII – a ranquear tudo.

Vamos lá? É do menos excelente ao mais excelente!

10º Lugar
(ou “a única colocação que tenho certeza”):
Namaste

5X04

Essa impressão de fragmentação, na verdade, é superficial e não resiste a uma análise um pouco mais cuidadosa. Namaste, em primeiro lugar, observa como quatro de seus personagens lidam com a frustração. Howard, responsável pelo título do episodio e que vimos muito brevemente em 50% Off, parece ter encontrado no budismo sua válvula de escapa para lidar com tudo o que aconteceu com ele e por causa dele nas temporadas anteriores. Sua postura zen e seu improvável convite para que Jimmy volte a trabalhar em seu escritório revelam que ele tem tentado mudar, ainda que não o suficiente, na visão de Jimmy, para justificar qualquer consideração. Muito ao contrário, algumas bolas de boliche bem colocadas mostram muito bem a posição do protagonista sobre essa pseudo-redenção de Howard.

9º Lugar: Magic Man

5X01

Tenho para mim que, por mais que o elenco nesse lado da história seja quase que igualmente arrasador, com a fotografia abraçando todas as oportunidades possíveis para trabalhar Giancarlo Esposito da maneira mais ameaçadora possível, como um Darth Vader das drogas (e do frango), a narrativa se beneficiaria muito de uma aproximação maior com a história de Saul, nem que seja na base do aprofundamento da relação de Mike com ele. Do jeito que está, Better Call Saul parece ainda trabalhar duas linhas narrativas paralelas que apenas muito raramente tangenciam.

plano crítico Crítica _ Better Call Saul – 5X01 Magic Man

8º Lugar: The Guy for This

5X03

Sei muito bem que esse foi o tão aguardado episódio de Better Call Saul em que mais dois queridos personagens de Breaking Bad foram reintroduzidos, mas a grande verdade é que a volta de Hank Schrader (Dean Norris) e Steven Gomez (Steven Michael Quezada), por mais divertida e nostálgica que possa ter sido, foi apenas os confeitos em cima de um bolo já muito saboroso. Em outras palavras, é legal e tal ter os dois ampliando a conexão com a série original, mas eles são apenas detalhes em The Guy for This.

7º Lugar: Wexler v. Goodman

5X06

E como resultado desse sensacional conflito, ganhamos sequências memoráveis como a da produção dos anúncios, a da espalhafatosa e hilária apresentação de Saul para Kevin e seus advogados e, lógico, o do sensacional diálogo entre Kim e Jimmy ao final de tudo, que mais uma vez serve de palco para que Rhea Seehorn e Bob Odenkirk deem um show de atuação. Tudo funciona muito bem e, apesar da variedade de assuntos sendo tratados, a montagem mantém o fluxo narrativo tinindo, com a fotografia mais uma vez despontando com o cuidado com cada tomada.

6º Lugar
(ou “em que cenário um episódio
como esse ficaria só em 6º lugar???):
50% Off

5X02

A sequência de eventos é magistral, uma verdadeira aula de roteiro. Do lado “das drogas” vemos Nacho ser ameaçado por Gus que exige que ele estabeleça uma relação de confiança com Lalo e a oportunidade vem durante uma batida policial em um dos pontos de venda de droga dos Salamancas, com Nacho arriscando ser preso para mostrar a Lalo que tem valor. E tudo isso vem fortemente contextualizado e, diria, deflagrado, pelos dois marginais que se sentem impunes depois que “ganham” os tais 50% de desconto do título sobre os honorários de Saul, precisamente o que Kim dissera que aconteceria se seu parceiro oferecesse isso a seus clientes. A fluência dos acontecimentos no roteiro de Alison Tatlock é, sem papas na língua, absolutamente irretocável, com a direção de Norberto Barba materializando o texto com excelentes momentos de tensão, todos eles curiosamente tendo o interior de automóveis como elemento central.

plano crítico Better Call Saul – 5X02 50% Off

5º Lugar
(e ainda estamos só na metade!):
Dedicado a Max

5X05

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

4º Lugar: JMM

5X07

Sei que me adiantei nos comentários, começando pelo final, mas é que ver o descontrole de Jimmy foi chocante, um momento realmente forte e que, em retrospecto, podemos ver que estava em banho maria já há muito tempo, quase passando do ponto. Se rebobinarmos para os momentos anteriores do próprio episódio, com Lalo e depois Mike exigindo que Jimmy soltasse o bandido com pagamento de caução, por mais improvável que isso fosse sob o ponto de vista jurídico, com a transformação da sigla JMM de James Morgan McGill (que nunca foi) para Justice Matters Most (“Justiça é o Que Mais Importa”) para, finalmente, Just Make Money (“Apenas Fazer Dinheiro”) e os olhares de Jimmy para a família da vítima de Lalo, entendo a magnitude do que estava fazendo, entenderemos o dilema e a certa facilidade com que Jimmy varre o que ainda tinha de moralidade para debaixo do tapete e encara o trabalho que o tornaria famoso de braços abertos, sem, aparentemente, mais reservas.

3º Lugar
(como assim 3º lugar???):
Bad Choice Road

5X09

O retorno de Lalo para extrair a verdade de Saul é, inicialmente, uma das grandes sequências de Tony Dalton na série, com o ator trabalhando à perfeição uma postura indefinível que equilibra cafajestagem, inteligência, humor, intensidade e ameaça em um conjunto definitivamente impressionante que, como disse no parágrafo de abertura, o coloca lá em cima no panteão dos personagens inesquecíveis da série, quiçá de todo o Universo Breaking Bad. Mas, a cada vez que Saul repetia sua história entregando cada vez mais detalhes com Mike de sniper no prédio em frente, mais era possível notar a ansiedade e a força no olhar de Kim. Sem falar quase nada, Rhea Seehorn começa, ainda sentada no sofá, a roubar o momento tanto de Dalton quanto de Bob Odenkirk. E, quando todos estão de pé com Saul na defensiva, a pistola de Lalo destacada, a mira de Mike no peito do traficante e Kim, que estava levemente atrás, dá um passo para a frente e começa a falar em defesa do marido, todos os sons desapareceram por completo da minha sala e somente o som da voz de Seehorn podia ser ouvida em uma sequência tão absurdamente tensa em que ela manda o bandido “por ordem na casa dele” que, confesso, tive que assistir outras três vezes para ter certeza de que não tinha perdido nada. Alguém precisa mandar entregar um caminhão de prêmios para Seehorn já e pelo menos uma meia dúzia só para Schnauz por ter orquestrado algo tão incrível nesses brevíssimos segundos.

2º Lugar
(já nem sei direito o que estou fazendo…):
Bagman

5X08

E, como Moisés e Jesus Cristo, o restante de Jimmy vai ao deserto e volta modificado profundamente, deixando mais ainda de sua persona antiga pela areia cheia de sangue de uma facção que tenta roubar o dinheiro. Mike – e seu indefectível rastreador na tampa do tanque de gasolina – salva o dia em uma excelente, ainda que levemente clichê sequência de tiroteio que tem como função principal mostrar para Jimmy que essa é a vida que o espera ao abraçar o cartel. O advogado com roupa espalhafatosa confortavelmente andamento pelos corredores do tribunal, mesmo que como parte das estratégias jurídicas ele tenha que fazer muita armação, é apenas uma de suas funções. Sua peregrinação ao deserto mostra-lhe o que o espera, estripando toda e qualquer esperança de que Jimmy possa sobreviver ao périplo sem deixar Saul tomar o controle total.

1º Lugar
(coloquei aqui e fugi para o deserto!!!):
Something Unforgivable

5X10

É como se o espectador estivesse ganhando dois pelo preço de um. A promessa inicial era revelar como Jimmy seria transformado em Saul, mas quer parecer que isso só não é suficiente e, mesmo que andando de forma descompassada e, de certa maneira, comendo pelas beiradas, a série é também sobre a transformação de Kim em sua contrapartida golpista Giselle. Quando digo “de forma descompassada”, quero dizer também de forma dissimulada, pois as diversas vezes que Kim mostrou-se como menos do que a advogada certinha e ética ao longo das temporadas da série foram encaradas como, na pior das hipóteses, um leve e momentâneo desvio de caráter, ou seja, algo para enriquecer a personalidade da personagem, tornando-a talvez mais próxima de Jimmy, mas nada muito mais complexo do que isso. Mas se Kim sempre teve esse tipo de comportamento e que só foi amplificado pelo seu relacionamento com Jimmy ou se ela passou a gostar desse mundo a que Jimmy a apresentou, talvez nunca descubramos, mas fica cada vez mais evidente que a conexão dela com ele é muito maior do que o amor que um sente pelo outro. São as famosas alma gêmeas e Kim parece estar muito bem assim, especialmente pela forma bem tranquila como ela aceita quando a verdade sobre as desventuras no deserto de Jimmy são reveladas. Sim, Kim está no jogo. No mesmíssimo jogo de Saul (repararam que não escrevi Jimmy, certo?).

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Agora é hora de VOCÊS sofrerem!!! Mandem para cá seus rankings para conversarmos!!!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.