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Lista | Expresso do Amanhã – 2ª Temporada: Os Episódios Ranqueados

por Ritter Fan
3931 views (a partir de agosto de 2020)

Avaliação da temporada:
(não é uma média)

Expresso do Amanhã teve uma primeira temporada que começou claudicante, mas que, contra todas as probabilidades, acabou de maneira muito sólida, abrindo espaço para um segundo ano que simplesmente não esmoreceu em momento algum, seguindo em um excelente crescendo ao continuar a partir do cliffhanger estabelecido e somar um segundo trem à narrativa, Big Alice, comandada pelo mítico, mas despótico e psicopático Mr. Wilford, vivido por Sean Bean, em um daqueles papeis vilanescos que dá gosto de ver. Além disso, em um movimento corajoso, Melanie é retirada quase que completamente da série a partir do quarto episódio, o que não só permite a expansão desse universo com a esperança de o mundo passar a ser habitável em algum momento futuro, como também abre espaço para diversos personagens coadjuvantes como Ruth e Miss Audrey.

Até mesmo Layton se beneficia da ausência de Melanie ao se tornar o efetivo líder do Snowpiercer, mesmo que, no caos do plano maquiavélico de Wilford de tomar o trem, ele demore a mostrar a que veio, um problema crônico do personagem, aliás. Mas até isso a temporada corrige, pois o Layton perdido de sempre ganha mais propósito e um comando de seus atos que vai aos poucos se firmando, ainda que seja ingrato seu embate com Wilford. Com direito a um episódio passado integralmente fora do trem, o único da série até agora, a temporada consegue manter um belo equilíbrio de forças e de personagens que ganham constantemente mais espaço como Bess Till, que se torna a detetive do trem investigando um atentado e, depois, uma série de assassinatos, além de um belo desenvolvimento de Alex, a filha que Melanie achava que havia morrido e que fora adotada por Wilford.

E, se a temporada inaugural já soube encerrar com um belo cliffhanger que serviu de catalisador da segunda, o mesmo acontece agora, com um final ainda mais explosivo que deixa Layton e alguns poucos gatos pingados sendo como Rebeldes prestes a lutar contra o Império em um mundo em que Melanie está em tese morta, tendo deixado como legado a prova científica de que, de fato, o mundo está esquentando mais uma vez. Em outras palavras, Expresso do Amanhã amadureceu rapidamente e muito bem, demonstrando todo seu potencial narrativo já em seu segundo ano e abrindo as portas para o que promete ser um pelo menos tão bom quanto terceiro ano.

Como fazemos em séries que acompanhamos semanalmente, é chegada a vez de nosso tradicional ranking de episódios, valendo salientar que, a qualidade alta quase que da temporada toda tornou as escolhas muito difíceis, com a certeza absoluta apenas dos último e primeiro lugares. Confiram e digam quais foram seus episódios preferidos!

10º Lugar:
Smolder to Life

2X02

E o Sr. Wilford não precisava disso, isso é que é pior. Sua postura “o estado sou eu” já havia ficado clara em The Time of Two Engines e o ator já mostrou que sabe viver um personagem na fronteira da loucura com seu Boromir em A Sociedade do Anel. Além disso, há que destacar que toda a sequência da reunião/jantar a que Wilford e sua entourage são convidados por Layton já era o quase que literal tapete vermelho para que o personagem desfilasse sua demagogia de político com grande destaque e, novamente, abrindo espaço para Sean Bean fazer o que saber fazer melhor, com a direção de Christoph Schrewe espertamente tirando todo o proveito possível disso. Eu tenho diversos outros problemas com essa ocasião em si e que tratarei abaixo, mas nenhum deles tem relação com o espaço para Wilford mostrar sua sutil loucura.

9º Lugar:
The Time of Two Engines

2X01

O episódio inaugural da 2ª temporada é todo ele construído ao redor da apresentação de Wilford (Sean Bean) e de seu microuniverso bem particular com um trem aparentemente bem mais poderoso em termos de tamanho de vagão e motor, mas substancialmente menor do que o original em número de vagões, com apenas 40 versus os 994 do Snowpiercer. Com a lista de demandas estapafúrdias que Alex (Rowan Blanchard) largada na mão de Ruth, o roteiro de Manson estabelece de imediato tudo o que precisamos saber sobre o grande criador do trem salvador do mundo sem que seja sequer necessário que ele dê as caras. Se o sistema de classes do Snowpiercer – não muito diferente do mundo ao nosso redor – já demonstrava toda sua injustiça dentro de sua imutabilidade quase absoluta, fica evidente que Wilford vive em uma monarquia em que ele, claro, é o rei.

8º Lugar:
The Show Must Go On

2X09

De certa maneira, eu queria que a tomada de poder de Mr. Wilford fosse mais lenta, mais cuidadosa. Não falo da execução de seu plano maquiavélico para recuperar o Snowpiercer que lhe fora roubado, pois esse foi descortinado com calma ao longo de quase toda a temporada, mas sim da solidificação de seu poder lá dentro, que é justamente o objeto de The Show Must Go On. Queria ter visto a coisa toda andar a passos mais vagarosos e detalhados de maneira a evitar que a correria desordenada da pós-revolução encabeçada por Layton se repetisse. Por outro lado, compreendi perfeitamente a necessidade da velocidade, uma de viés psicológica e outra de viés prático, sendo o segundo tanto dentro quanto fora da narrativa.

7º Lugar:
A Great Odyssey

2X03

Mas antes de abordar as correções de rumo que o episódio trouxe, talvez seja mais relevante falar da personagem que vem constantemente em um crescendo desde o início da 1ª temporada. Se outros personagens demoraram a encontrar sua direção, Melanie nasceu firme e forte e continua sua excelente trajetória na série sem grandes obstáculos narrativos, algo que foi amplificado pela introdução “surpresa” de Alex ao final de 994 Cars Long. Nesse aspecto, vale notar que grande parte de A Great Odyssey é dedicado à conexão de mãe e filha, algo que poderia ser tratado de maneira piegas, mas que o roteiro de Zak Schwartz trabalha de maneira lúcida, com a direção de David Frazee tendo boa parte do mérito por extrair ótimas atuações de Jennifer Connely e Rowan Blanchard.

6º Lugar:
A Single Trade

2X04

Essa intimidade se dá primordialmente pela relação pregressa de Miss Audrey com Wilford, quando ela comandava festas semelhantes em trens do magnata ao redor do mundo, ao mesmo tempo que era sua “acompanhante” exclusiva, em uma relação claramente doentia e abusiva que a marcou psicológica e fisicamente. Sua dança que abre e fecha o episódio é dor e catarse puras, com um terrível flashback para outro banho de banheira em que descobrimos que Wilford a induzira a cortar os pulsos, o que finalmente explica a bizarra cena em Smolder to Life que, sem esse contexto aqui parecia um ritual extremado de um vilão completamente enlouquecido. Claro que o silêncio profundo da relação de Audrey com Wilford na temporada anterior ou mesmo nos episódios anteriores desta temporada – ou se isso foi mencionado, foi muito rapidamente e confesso que não me lembro – cansam um pouco e demonstram o tal problema que a série tem com seus coadjuvantes, mas a abordagem adulta que o roteiro traz para o relacionamento abusivo entre eles e os trabalhos de interpretação de Lena Hall e Sean Bean merecem aplausos, assim como a direção de David Frazee que mantém uma enervante ambiguidade – que fica sem resolução – sobre quem está controlando quem até o final, bastando ver que, mesmo com Audrey tranquilizando Layton, a câmera faz questão de mostrar o monograma de Wilford acima da cantora e dançarina, que parece se curvar ao poder do criador desse mundo onde os humanos sobreviventes ainda vivem.

5º Lugar:
Keep Home Alive

2X05

Mais interessante ainda do que isso é a fina ironia da coisa toda. Layton, o revolucionário, o homem do povo, o protetor dos fracos e oprimidos precisou, na qualidade de líder, valer-se do mesmo tipo de expediente que Melanie usou por sete anos, deixando a indagação no ar sobre em quanto mais tempo ele precisará usar o mesmo tipo de “métodos de persuasão” da engenheira-chefe? Note que não só a ideia de mentir partiu imediatamente de Layton, como ele não titubeou em assim sugerir, algo que contribui tremendamente para afastá-lo daquela figura heroica – e, sinceramente, perdida – que ele tentava construir. E, mais ainda, sua ordem para Pike eliminar Terence quando ele percebe a ameaça que ele representa, já é um sinal muito forte de que o personagem está realmente disposto a fazer o que for necessário para manter um semblante de paz e de esperança em seu trem.

4º Lugar:
Into the White

2X10

Into the White é ação física do começo ao fim, algo raro na série e, claro muito bem vindo, especialmente porque tudo é bastante balanceado, sem que aconteça aquilo que eu achava que acabaria acontecendo, ou seja, a reversão total da retomada de Wilford, o que seria terrível em termos narrativos e dramáticos. Fiquei feliz em perceber, muito lentamente, que o encaminhamento do episódio era o da criação de um pequeno grupo de “rebeldes” para lidar com o malvado Imperador e isso tudo dentro da modesta estrutura tubular de um trem, com direito a fuga de Layton e Ruth, a infeliz morte de Javi e, claro, a descoberta de que Melanie “morreu” para deixar sua pesquisa aquecida e salvável, pesquisa essa que, claro, mostra que o mundo está esquentando novamente.

3º Lugar:
Many Miles from Snowpiercer

2X06

Outro aspecto importante para o episódio funcionar, claro, é o trabalho dramático de Jennifer Connely, novamente mostrando que a atriz é mesmo a alma da série, mesmo considerando os atos perpetrados por sua personagem para manter um semblante de ordem na arca férrea levando os últimos sobreviventes da humanidade. A essa altura do campeonato, é inevitável concluir que há um equilíbrio e um propósito em tudo o que ela fez e faz pelo trem e que, sem ela ser tão durona nos momentos em que precisava ser, aquela coletividade teria facilmente ruído sob o peso de ambições, incivilidades e todos os vícios que marcam nossa espécie. E, aqui, em Many Miles from Snowpiercer, essas qualidades de Melanie ganham quase que toda a prova necessária de que ela é mesmo a última esperança para que o mundo seja um dia repovoado. Sua calma, sua frieza, sua capacidade de fazer absolutamente o que for necessário para cumprir sua missão (não tenham dúvida que ela chegaria ao canibalismo se os apetitosos ratos não fossem achados), assim como suas escorregadelas pela “loucura” com as alucinações encapsulam o que é a personagem, algo que Connely constrói com muita verossimilhança, auxiliada pela câmera tensa, mas benevolente da diretora que mostrar ter plena consciência da importância da personagem para fazer essa aventura fora do trem dar certo.

2º Lugar:
Our Answer for Everything

2X07

Obviamente que eu não poderia encerrar a crítica sem falar dos eventos doentios em Big Alice. Aquele ritual assustador de Wilford na banheira com Kevin em Smolder to Life cuja aparente aleatoriedade eu reclamei em minha crítica e que ganhou contexto potente em A Single Trade, tem sua linha narrativa continuada, com a revelação não só de que Kevin está vivo, mas que seu “sacrifício” parece ter sido muito mais do que apenas vaidade de Wilford. Afinal, ele parece ter sido usado muito friamente como instrumento para converter Miss Audrey de vez para o lado do déspota enlouquecido, com ela usando suas habilidades de manipulação psicológica para convencer o pobre Kevin que o que Wilford fez foi um lindo ato de amor. De sua forma arrepiante, todas as sequências – Audrey na sala com Kevin e, depois, reapresentando o homem basicamente como escravo de Wilford – foram maravilhosamente bem executadas por Rodriguez que as usa para quebrar a correria dos acontecimentos no Snowpiercer, mas deixando ainda um pouco de ambiguidade em relação ao que Audrey está fazendo. Estaria ela de volta de vez para seu “mestre” ou seria isso parte de seu plano para derrubá-lo? Miss Audrey pode ser tanto o fiel da balança para tornar possível a derrocada de Wilford quando um instrumento valioso para a consolidação do poder dele.

1º Lugar:
The Eternal Engineer

2X08

Mesmo considerando a violência que, de certa forma, foi até pouca (olha eu querendo mais sangue e tripas…), há uma inegável elegância na forma como Wilford conduziu seu plano de diversas fases e o jogo político causado por sua figura messiânica inadvertidamente mantida viva pela própria Melanie por sete anos não só funciona muito bem, como o radicalismo do tipo “se você é a favor de fulano, então você é contra cicrano” encontra eco em nosso mundo cada vez mais binário e polarizado. Nesse microcosmo fascinante, Wilford é rei, especialmente na ausência da única pessoa que teria capacidade de fazer frente a ele, que, claro, é Melanie. Aliás, palmas para Manson ao fazer sua engenharia narrativa para tornar a ausência da ex-antagonista muito mais relevante do que apenas uma missão vital para o futuro da Humanidade, algo difuso e que prepara algo muito lá para frente, ainda não exatamente palpável. A retirada dela da série lá atrás, a partir de A Single Trade, não só serviu para criar uma missão paralela, como para desenvolver personagens coadjuvantes, ajudar a dar alguma relevância maior a Layton e, claro, permitir o que Wilford acabou de fazer aqui em The Eternal Engineer.

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