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Lista | Fargo – 4ª Temporada: Os Episódios Ranqueados

por Ritter Fan
2065 views (a partir de agosto de 2020)

Avaliação da temporada:
(não é uma média)

Foi uma espera de mais de três anos, mas Fargo retornou com uma temporada passada em Kansas City, em 1950, lidando com a rivalidade entre duas facções criminosas locais, um braço da Cosa Nostra comandada por Josto Fadda (Jason Schwartzman), chefão recente que precisa se firmar e uma gangue local de afro-americanos comandada por Loy Cannon (Chris Rock). Para manter a paz, os dois trocam de filho um com o outro, mantendo-os reféns, mas nunca conseguem o resultado almejado, com os conflitos se intensificando na estrutura de comédia de erros que sempre notabilizou a série.

Curiosamente, porém, em termos de narrativa, esta é a temporada mais linear e, por assim dizer, comum de todas até agora, mas ao mesmo tempo é mais diferente em termos visuais, com uma lindíssima fotografia esfumaçada e a que apresentou a maior quantidade de personagens bizarros memoráveis, da enfermeira homicida Oraetta Mayflower (Jessie Buckley) e do policial acometido de TOC em razão de estresse pós-traumático Odis Weff (Jack Huston), passando pelo delegado federal mórmon Dick “Deafy” Wickware (Timothy Olyphant) e chegando ao violento psicopata Gaetano Fadda (Salvatore Esposito). É um desfile de grandes atuações em uma história carregada de importantes questões sócio-políticas, com foco, claro, no preconceito racial no Sul das Leis Jim Crow.

Foram 11 episódios cuidadosamente elaborados que apresentaram uma grande variedade de personagens, uma pitada de elemento sobrenatural, além de histórias paralelas à principal que por vezes se descolavam do todo, mas que foram exemplarmente amarradas por Noah Hawley no capítulo de encerramento. Sem dúvida, mais uma temporada memorável em uma das melhores séries em formato de antologia.

Como fazemos quando acabamos a cobertura de uma temporada por episódio, preparamos nosso tradicional ranking de episódios, lembrando que os comentários entre aspas abaixo são apenas citações extraídas diretamente das críticas completas que podem ser lidas clicando nos respectivos títulos. Confirma e digam se concordam ou discordam, enviando seu próprio ranking!

11º Lugar: The Land of Taking and Killing

4X02

Não sei se foi o tempo longo demais que passou, não sei se foi a alteração radical do tipo de atmosfera que se espera da série, ou talvez uma narrativa dispersa demais, sem estabelecer um norte mais engajante do que a boa e velha briga de gangues por território e negócios (é sem dúvida interessante ver Loy e Doctor vendendo a ideia do cartão de crédito aos bancos, com todas as críticas ao sistema bancário e ao consumismo que decorrem daí) com personagens-satélite curiosos, ameaçadores e, no caso de Etherilda, doces. Seja o que for, faltou a chama que cada uma das temporadas anteriores teve desde seu início, algo que sem dúvida pode significar problemas para o desenvolvimento da história.

10º Lugar: Welcome to the Alternate Economy

4X01

A escolha da FX em lançar os dois primeiros episódios simultaneamente, ambos escritos e dirigidos por Hawley, vale salientar, foi acertada tanto para entregar um efetivo começo de história para quem aguardava ansiosamente o retorno da série, como para estabelecer um arco de introdução dos personagens que, aparentemente, popularão a temporada. Depois de um interessantíssimo preâmbulo em que a adolescente Ethelrida Pearl Smutney (E’myri Crutchfield) conta a história das gangues de sua cidade desde o começo do século XX, com uma tradicional “troca de filhos” dos chefões para garantir a paz que nunca é duradoura, a narrativa continua mantendo a jovem como uma espécie de narradora ou, talvez melhor dizendo, contextualizadora, já que o objetivo é, principalmente, o de abordar o preconceito racial, aqui devendo ser entendido de maneira mais ampla, não só contra os negros, mas também contra os italianos.

 

9º Lugar: Happy

4X10

Mas o episódio não teve apenas problemas. Como tudo que Noah Hawley faz na televisão, mesmo quando ele é menos do que perfeito, o showrunner ainda consegue encantar e espantar. Em Happy, o espanto ficou por conta da maneira como ele lidou com a relação entre Josto e Gaetano, agora consolidados como irmãos inseparáveis e com Odis, tentando retomar controle sobre sua vida depois que percebeu o assassinato de Deafy como seu fundo do poço pessoal. Para começar a expiar seus pecados, ele lidera a invasão ao quartel-general dos Faddas, levando-os para a prisão, mas, claro, por pouquíssimo tempo, só o suficiente para que Josto resolva eliminar o policial de vez em uma sequência magistral em que, de um lado, Odis morre ao perceber que seu TOC em razão de trauma de guerra o impediria de sequer tentar fugir, resignando-se, feliz, com a lembrança do amor de sua vida e, de outro, Gaetano, com a missão cumprida, simplesmente tropeça e estoura seus próprios miolos. A vida é assim, não é mesmo?

8º Lugar: The Nadir

4X08

Mas, como eu disse, essa é a “versão Fargo” da famosa cena de De Palma, já que Sylvain White, na verdade, brinca com a forma como a tensão é construída por meio de sons, inclusive choro de bebê e o que parece ser um carrinho, somente para fazer o contrário do filme de 1987 e estabelecer uma elipse que nos apresenta ao desfecho do confronto, com Odis, chegando atrasando e nos fazendo ver o massacre de civis e policiais em uma cornucópia de cores representando o macabro. Além disso, no lugar de lidar com o inesperado, o roteiro de Noah Hawley, Enzo Mileti e Scott Wilson faz exatamente o que se espera do momento, incluindo o assassinato de Deafy e de Swanee por Odis e a fuga de Zelmare para que, claro, ela possa vingar-se mais para a frente.

7º Lugar: Camp Elegance

4X06

A forma como o roteiro transita entre as famílias mafiosas é exemplar, mesmo que o episódio quase que literalmente introduza um novo personagem nominado – Antoon Dumini, vivido por Sean Fortunato – somente para servir de bucha de canhão (e eu sei que ele já apareceu nos episódios anteriores, mas meu ponto é que ele não era mais do que um extra e, de repente, ganha destaque só para morrer). É perfeitamente possível, porém, passar por cima desse problema já que não só a cena com ele e Satchel nos leva a um campo de concentração em solo americano para prisioneiros de guerra (existiram mais de mil deles), algo realmente diferente, como a direção de Dana Gonzales extrai o máximo de tensão possível da cena, mesmo que o espectador, lá no fundo, duvide da morte do garoto desde o primeiro segundo. Mas, assim como os ambientes esfumaçados, o que importa é a atmosfera. Dumini leva o garoto para ser morto no lugar onde ele mesmo renasceu, somente para ser morto por Rabbi, ironicamente no momento em que ele desiste de cometer o assassinato. Será interessante ver como essa situação será desdobrada, pois, se Rabbi não entrar em contato com Loy, o efeito prático do estratagema para Josto será potencialmente o mesmo.

6º Lugar: Raddoppiarlo

4X03

Mais até, Raddopiarlo finca a “bandeira de Fargo” em definitivo na série ao já permitir que enxerguemos pelo menos o contorno básico da comédia de erros a partir de uma guerra entre facções mafiosas que provavelmente começará pelas razões mais erradas e desconectadas possíveis, de um lado Gaetano fazendo o que quer no vácuo de poder de seu pai e aproveitando-se da fraqueza de Josto para promover um atentado a Lemuel Cannon (Matthew Elam) e, de outro, Zelmare e Swanee assaltando a casa de apostas de Loy Cannon depois que Swanee devora a torta envenenada de Oraetta, coincidentemente fazendo parecer ataques concertados. Típico Fargo, sem dúvida alguma, o que já me permite respirar mais aliviado depois de os dois episódios iniciais terem rateado um pouco.

5º Lugar: Lay Away

4X07

Em Lay Away, assim como em Camp Elegance, o objetivo é fazer a narrativa andar a passos largos, mas sem parecer que está acontecendo muita coisa. A grande jogada do episódio é a conversa de Josto e Violante com Loy, em uma tentativa, por parte de Violante apenas, de apaziguar a situação com uma oferta puramente de negócios. Mas Josto tem sua própria carta na manga e, mesmo que Nova York tenha decretado que Gaetano não deve ser morto, ele aproxima o irmão do precipício ao anunicar para Loy que Satchel fora assassinado. Sem saber exatamente o destino do garoto para além de Rabbi tê-lo salvado no ex-campo de concentração, Josto joga verde para eliminar a maior ameaça à sua consolidação de poder, jogando Calamita como brinde nessa “troca”.

4º Lugar: The Birthplace of Civilization

4X05

Pode-se falar o que quiser de The Birthplace of Civilization – que é lento, repetitivo, mais uma forma de atrasar a inevitável guerra de gangues e por aí vai – mas o episódio é absolutamente magistral em sua aparência. Cada fotograma é cuidadosamente colocado no lugar pela decupagem precisa de Gonzales que sempre mantém a mira na fotografia, usando raios de luz filtrados por venezianas, contra-luz, plongées, atmosfera esfumaçada e granularizada, além da manutenção detalhada de uma paleta de cores rígida que gravita ao redor do marrom. É, simplesmente, um deleite visual daqueles capazes de fazer o espectador até mesmo esquecer a trama que, de fato, desenrola-se sem pressa alguma.

3º Lugar: Storia Americana

4X11

Aliás, as mortes são o mote do episódio como um todo, já que as anteriores são também “homenageadas” no primeiro minuto em uma bela – mas também aterradora – montagem que revela o banho de sangue que foi a temporada. Da mesma forma, o espectador é brindado com a lembrança do baita elenco que Hawley reuniu aqui mais uma vez, com inesquecíveis papeis vividos por Glynn Turman, Jack Huston, Salvatore Esposito, Ben Whishaw e Timothy Olyphant. Por outro lado, há uma celebração da vida, já que a realização de Loy Cannon sobre ele ainda ter o que lhe é mais valioso é um excelente momento que tem esse objetivo, mas que também serve para passar a tocha para Satchel, futuro Mike, em uma continuidade de sua história. Da mesma forma, E’myri Crutchfield e sua adorável Ethelrida serve como a prova final de que há futuro que não seja a morte prematura ou a queda para a bandidagem, com seu futuro, ainda que incerto, sendo indicado como algo ainda a se ver, mas com um viés muito claramente positivo, especialmente levando em consideração a clareza da jovem sobre seu passado, sobre a história que conta sob seu ponto de vista – o ponto de vista do oprimido, do que sempre perdeu a guerra, do que sempre teva a história contada pelos ganhadores – tudo o que acompanhamos desde o começo da temporada. Ela, afinal de contas, é a narradora!

2º Lugar: East/West

4X09

Mergulhando na história por meio de uma página de um livro despedaçado que faz referência a um crime verdadeiro que é falso – o que cria um literal quadro dentro de quadro, já que o que é Fargo que não histórias de crimes verdadeiros que são falsos? – vemos Omie parar seu carro ao lado de uma placa homenageando Clyde Tombaugh, que descobriu Plutão e oferecendo um cigarro para um soldado da família Fadda que está em seu porta-malas e que lhe conta que Calamita teria saído para matar alguém em Liberal, no Kansas, o que imediatamente leva o espectador a corretamente imaginar que ele está falando de Rabbi e Satchel. Sem pressa, a direção de Michael Uppendahl leva Omie a parar no posto de gasolina mais próximo para usar o local como armadilha para emboscar Calamita, com o momento climático sendo cortado para levar a história para o passado recente, mais precisamente o dia anterior, quando Rabbi e Satchel passaram pelo mesmo local.

1º Lugar: The Pretend War

4X04

Chris Rock tem, pela primeira vez, o destaque que precisa para tirar seu personagem das margens sem brilho à que estava relegado. O ator ainda tem que comer muito feijão com arroz para conseguir ter o mesmo tipo de presença de Glynn Turman como Doctor Senator, Salvatore Esposito como Gaetano Fadda e até mesmo Jason Schwartzman como Josto Fadda, mas, aqui, ele mostra seu potencial primeiro no diálogo que tem com Rabbi no meio da rua e, depois, na conversa com Thurman ao final. Sua aura ameaçadora surge e é bem estabelecida, com Rock conseguindo convencer em seu papel. Ainda é pouco, mas são duas sequências fortes e dignas do líder de uma família mafiosa que parecem indicar que veremos mais de seu Loy Cannon no fronte, deixando de ser sombreado pelos demais personagens ao seu redor.

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