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Lista | John Hughes – Os Filmes Ranqueados (Direção)

por Iann Jeliel
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John Hughes

Expoente do cinema de comédia colegial adolescente dominante dos anos 90, além de um dos principais percursores da comédia familiar oitenteista, John Hughes foi o rei da “Sessão da Tarde”, com uma coletânea de histórias divertidas que moldaram gerações mais livres ao darem espaço em tela para a compreensão dos seus estereótipos e o sonho de viver a juventude, mesmo, sendo adultos. Por incrivel que pareça, sua fama veio com uma filmografia de apenas de oito longas-metragens. Sua carreira foi muito maior nos roteiros e inclusive, vários de seus filmes mais famosos não foi ele que dirigiu tais como Férias Frustradas, A Garota de Rosa Shocking, a franquia Esqueceram de Mim, dentre outros. Mesmo assim, são filmes diretamente entrelaçados ao seu nome, por carregarem seu espírito jovial característico. No entanto, foram nesses oito longas, que digamos, esse espírito conversou de modo mais particular.

Depois de falarmos individualmente de cada um ao longo das últimas semanas, é hora do nosso tradicional ranking de filmografia, elencando os longas dirigidos por Hughes do pior ao melhor. Vale ressaltar, que a lista representa a opinião exclusiva do colunista que vos fala, o responsável por criticar quase todos esses filmes, com exceção de Clube dos Cinco que ficou no encargo do nosso saudoso colunista, Handerson Ornelas. Para cada posição, você encontrará link para cada um dos textos, além de uns breves trechos retirados deles, que resumem o porquê da sua colocação na lista. Não deixem de colocar nos comentários, se concordam ou discordam da lista, elaborando a sua ordem – caso tenha visto os oito –, ou no mínimo seu Top 3 de favoritos do diretor.
.  John Hughes John Hughes John Hughes

08° Lugar: Ela Vai Ter um Bebê

Parece um filme contraditório, mas na verdade é só mal-desenvolvido nas duas frentes que aborda. A limitação de ter somente o ponto de vista de Jake é um problema, porque dentro da errática que ele pensa de sua condição, sua esposa Kristy (Elizabeth McGovern) é de algum modo vilanizada com o rótulo de “fresca” e manipuladora. Se tivesse o seu ponto de vista síncrono, por exemplo, em todo molde do drama envolvendo a gravidez – que apesar do título indicar, somente ganha destaque da metade para o final do filme – sua atitude de parar de tomar anticoncepcional de uma hora para outra, sem sequer conversar com Jake sobre o assunto, seria compreendida no momento certo. Da forma como foi posicionada, ainda no clima pessimista e crítico das obrigações adultas, fica a impressão de que Kristy era a vilã e que estava fazendo de tudo para continuar a prender Jake no senso de comprometimento, até mesmo enganar no prazer, quando começa a tomar a atitude na vida sexual somente pelo suposto interesse de ter um filho.

Ela Vai Ter um Bebê.

07° Lugar: Gatinhas e Gatões

A cultura do estupro, portanto, é normatizada quando o galã só deseja Samantha porque ela é “pura”, “virgem”, e não corre atrás dele como tantas outras mulheres, destacadas pelo próprio personagem como descartáveis, tais como a própria namorada (patricinha) que ele nem considera como tal, tanto que a entrega bêbada para que o nerd possa abusar dela, implicitamente. O nerd, inclusive, momentos antes, tenta conquistar Samantha beijando-a à força, e quando não consegue, suborna a personagem em ajudá-la a conseguir falar com o galã em troca de sua parte de baixo que ele precisa mostrar para o seu grupo social o achar o máximo, um macho alfa. Quando está com a patricinha, a mesma coisa, ele precisa tirar foto com a personagem no carro para provar que a conseguiu, independentemente dos meios.

Gatinhas e Gatões.

 

06° Lugar: A Malandrinha

Dura muito pouco, por exemplo, a premissa de Bill e Curly serem vigaristas aplicando golpes para conseguirem sobreviver, porque o dilema posterior de Bill ser acusado de usá-la em benefício próprio é a verdadeira pauta inicial da sinopse. Não à toa, o golpe que leva a reunião dos personagens é conduzida na comédia como uma consequência imediata. O recurso do humor é usado aqui somente para possibilitar a coexistência dos personagens em um mesmo espaço sem parecer absurdo, porque, oras, nada é, numa comédia. O filme precisa ser rápido para se dispensar dela parcialmente e conseguir estabelecer o drama circular entre os três que seria o sustentáculo inicial a mover a história. De modo bem hábil, o diretor fornece a transição sem deixar de utilizar bem a comicidade primária como fonte base do tom narrativo. Tanto que, quando a comédia é resgatada posteriormente, ela já é uma solução dos conflitos naturalmente gerados pelo drama da condição social que parecia ser somente uma barreira da comédia existir.

A Malandrinha

 

05° Lugar: Quem Vê Cara Não Vê Coração

A piada de Buck ser um “empata foda”, é daquelas que podem aparecer várias vezes durante o longa que continua engraçada. Mas por trás dela há essa leitura bastante madura do diretor, principalmente em subverter a imagem de seu retrospecto ligado a cultura sexista, como foi em Gatinhas em Gatões. De lá para cá, sua filmografia reitera o comportamento masculino com uma lente mais crítica, embora não menos descompromissada com a comédia. John Candy é o tipo de rosto ideal para fornecer isso sem cair numa figura – que o Hughes nunca também concordou – paterna controladora da liberdade da filha só porque é mulher. O caráter superprotetor de Buck é levado tão a sério, quanto a revanche de Tia em prejudicá-lo com a namorada. É uma disputa de “poder” de muito senso cômico, embora, seja a ponte para que os dois personagens se ressignifiquem durante a trama, convergindo, naquele final de coração quente, que o diretor tão bem sabe entregar.

Quem Vê Cara Não Vê Coração.

04° Lugar: Mulher Nota 1000

Não só todo sketch de comédia do filme com relação às possibilidades de se brincar com essa premissa de mulher perfeita está vinculado diretamente a esse duplo sentido, como também toda a estrutura dramática, porque diferentemente dos outros filmes de Hughes, aqui a jornada para viver o sonho jovial é específica para os nerds. É o sonho do nerd adolescente em ser descoberto no colegial ainda sendo ele próprio, ou seja, ingênuo sem precisar das malícias para conseguir mudar de status social. A jornada da dupla até se inicia com essa vontade de querer mudar a personalidade forçadamente, como demonstra toda a sequência do bar adulto. Ali eles fingem ser adultos, ficam bêbados para tentarem uma comunicação que acaba não levando a nada, ou pelo menos, não traz nenhum efeito benéfico ao futuro dos personagens. Aquela sequência se estende ao resto do caminho, que traz outras tentativas falhas da dupla em tentar se comunicar se passando por alguém que não são. A “Mulher Nota 1000” do título, portanto, acaba sendo uma mentora inconsciente para eles conseguirem do jeito deles realizar a comunicação que tanto desejam.

 

03° Lugar: Antes Só do que Mal Acompanhado

O filme começa rindo muito de seu protagonista, Neal, mas ao mesmo tempo também transfere ao público sua posição de desconforto, que aos poucos se tornará a ponte para que seu caráter egocêntrico possa ser revertido de forma empática, tal como seu parceiro, Del, que de alívio cômico passa através da dinâmica a ser um personagem com mais camadas, que vão não só mudando essa perspectiva de Neal da situação como simultaneamente transformam a personalidade alegre de Del em ares melancólicos. A justaposição de contrastes entre os dois, portanto, não é só um aparato cômico extremamente divertido de se acompanhar nas ótimas e absurdas situações (nem vou numerar as cenas memoráveis para quem não viu ainda) em que Hughes os coloca e vai a fundo – até o limite da paciência de Neal e o limite da ingenuidade de Del – para aproveitar ao máximo o que a química dos personagens pode contribuir para tornar os esquetes mais engraçados; também constrói em pano de fundo uma dramaturgia humana de altíssimo nível entregue pelos seus intérpretes.

Antes-Só-Do-Que-Mal-Acompanhado

 

02° Lugar: O Clube dos Cinco

O grande marco do longa é o excelente desenvolvimento dos personagens, todos muito bem trabalhados e equilibrados. Essa é a grande cartada, onde o telespectador consegue ver carisma em todos aqueles jovens e simpatizar até mesmo com o encrenqueiro John Bender, que rouba a cena em diversos momentos com a interpretação caricata de Judd Nelson. O filme passa um clima incrivelmente despretencioso, simples e divertido. Tal simplicidade talvez venha do fato que Hughes escreveu o roteiro em apenas dois dias e uma das melhores cenas foi um completo improviso entre atores (a sequência de diálogos no chão da biblioteca). O excelente roteiro reveza muito bem de tom, colocando doses de drama que em seguida são preenchidas com inúmeras piadas. As boas tiradas de humor e os diálogos descontraídos enriquecem a obra e comprovam que o diretor John Hughes sabe trabalhar com esse tipo de gênero e público.

 

01° Lugar: Curtindo a Vida Adoidado

Hughes sempre acreditou na importância da “curtição” no processo de amadurecimento jovial e moldagem de sua personalidade para o resto da vida, mas ele irá subverter na aventura a conceituação distorcida do que os adultos acreditam ser o ideal para os jovens de curtição, justamente para provar o seu ponto de que não existe tal “geração perdida”. Seja nos elementos mais sutis, o fato de em nenhum momento álcool ou drogas estarem envolvidos, até os mais explícitos como na fantástica cena do desfile ao som de Twist and Shout, dos Beatles, que transforma aquele evento protocolar de adultos em um carnaval enérgico que parecia precisar de um espírito jovem ideal para cumprir sua primordial função como festividade, Hughes busca reforçar a jovialidade de curtição como uma dádiva e não como algo condenatório porque essencialmente é ela que traz a vontade do conhecimento e também do senso de responsabilidade.

Curtindo a Vida Adoidado

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