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Lista | Lovecraft Country – 1ª Temporada: Os Episódios Ranqueados

por Ritter Fan
2730 views (a partir de agosto de 2020)

Avaliação da temporada:
(não é uma média)

Existem duas séries de TV intituladas Lovecraft Country. A primeira delas e a melhor tem nove episódios surpreendentes em um formato inédito de semi-antologia de horror com cada um laureando um sub-gênero como casa mal-assombrada, horror corporal, horror cósmico etc. tendo como pano de fundo os EUA dos anos 50 com as Leis Jim Crow de segregação racial a pleno vapor. Não é uma série discreta em suas lições históricas e nem na forma como expõe seus mistérios, mas o elenco e os roteiros são realmente de se tirar o chapéu, com personagens inesquecíveis. Essa série, encerrada em Rewind 1921, sem dúvida deixa um monte de perguntas sem respostas, mas que poderiam ser trabalhadas e desenvolvidas em um segundo ano.

A outra série tem os mesmos nove episódios que formam um belo conjunto harmônico, mas de final aberto, e mais um, o 10º, batizao de Full Circle que não é terrível de forma alguma, mas que trai muito do que veio antes, subutilizando personagens como Ji-Ah e Hippolyta, correndo enlouquecidamente “fechar o círculo” do título, entregando respostas apressadas para basicamente tudo, mas, no processo, esfacelando o que fazia da outra série – a de nove episódios – o que ela era. Essa segunda série continua sendo boa, pois o final não apaga o que foi alcançado antes, mas a adição desse suposto último episódio deixou um gosto amargo, realmente decepcionando e reduzindo a qualidade do conjunto.

Infelizmente, porém, não posso escolher que série avaliar. Objetivamente, a 1ª temporada de Lovecraft Country, série que tinha potencial para ser A SÉRIE nova de 2020, precisa ser encarada em seu conjunto, doa a quem doer. Pensei muito e Full Circle funcionou como uma âncora enorme sendo arremessada de um iate lindo e rápido, prestes a alcançar mar aberto depois de navegar pela baía. Faltavam mais uma ou duas milhas náuticas para ele entrar em velocidade constante de cruzeiro e seus passageiros poderem relaxar no convés de popa ensolarado. Mas eis que a própria capitã soltou a âncora na hora errada e o iate parou bruscamente, arremessando os passageiros violentamente contra a cabine. O que era para ser um passeio inesquecível foi rebaixado a um passeio que muitos só lembrarão mais pelo ferimento causado quando bateram com a cabeça na amurada. Mesmo assim, valeu a viagem. É torcer para que a próxima – se houver – seja ainda melhor.

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Como toda temporada que acompanhamos por episódio, fizemos nosso tradicional ranking de capítulos, com o último lugar sendo óbvio e os três primeiros competindo bravamente pela pole position. Concordam? Discordam? Mandem seus comentários e suas próprias listas para discutirmos sobre a série!

10º Lugar: Full Circle

1X10

Se o plano ancestral todo em vermelho para aonde vão Tic e Leti no momento em que eles quebram o encantamento para abrir o Livro dos Nomes é uma ideia excelente e muito bem executada que permite que o casal faça as conexões históricas necessárias para dar volume e contexto à narrativa, tornando-a mais ampla do que parecia e com direito a vermos Hanna (Joaquina Kalukango), Hattie (Regina Taylor) e Dora (Erica Tazel) com mais vagar e se o encantamento que traz Titus Braithwhite (Michael Rose) de volta é uma sequência excepcional, que imediatamente me lembrou a possessão de Tic no porão de Leti, todo o restante foi, para ser simpático, apenas burocrático e, diria, desapontador. Aliás, minto. Quase todo o restante, pois os sete cantando “Sh-Boom” dos The Chords resultaram em alguns belíssimos segundos de união familiar antes da tragédia.

9º Lugar: A History of Violence

1X04

A History of Violence não é o típico episódio de série de TV, mas também não é o típico episódio de Lovecraft Country, ainda que eu não esteja ainda muito certo sobre o que seja um episódio típico da série. Há um aspecto funcional importante nele que tenta dar algum tipo de sentido e dimensão à loucura que vimos antes, mas isso cobra um pouco seu preço ao domar a ação e retirar um pouco do que a série mostrou ser capaz de fazer de maneira tão eficiente e refrescante. Mas não se enganem: ainda é televisão de primeira, apenas talvez tenha que ter sacrificado o que tornava a série completamente diferente de tudo o que já foi feito para estabelecer um norte.

8º Lugar: Sundown

1X01

Quando o clímax do episódio chega em meio a uma floresta em Devon County, o espectador está já combalido por tudo o que veio antes, começando pela viagem de ônibus de volta de Atticus Freeman (Jonathan Majors), veterano da Guerra da Coréia, para Chicago, em que um problema mecânico o deixa a pé carregando as mala dele e de uma senhora igualmente negra, já que o transporte alternativo não os aceita pela cor da pele, passando por seu tio George (Courtney B. Vance) cuja profissão é escrever uma versão do Livro Verde – ou Green Book – guia de viagem para negros na América das Leis Jim Crow de segregação racial cuja existência muitos só descobriram com o filme homônimo e culminando com uma road trip que os dois e mais Letitia “Leti” Lewis (Jurnee Smollett), uma ativista e amiga de infância de Atticus, empreendem por razões diferentes.

7º Lugar: Rewind 1921

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Para fazer isso, a primeira coisa que o episódio faz é não utilizar Ji-Ah na história. Não há nem traço de uma personagem que ganhou um episódio inteiro para contar seu passado e sua conexão com Tic e que apareceu novamente por alguns segundos completamente deslocados em Jig-a-Bobo. Isso é absolutamente irritante, pois tudo leva a crer que ela somente aparecerá novamente ou  para salvar todo mundo no último segundo, ou para formar uma espécie de Liga da Justiça Sombria para lutar contra Christina e quem mais ela arregimente para seu lado (Ruby talvez?). Ou seja, será um personagem no mínimo subutilizado, mas muito provavelmente desperdiçada mesmo. Pronto, falei mesmo.

6º Lugar: Jig-a-Bobo

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A escolha de Misha Green – que dirige pela primeira vez em sua carreira – em focar na visão de fora para dentro é brilhante e cria um impacto imediato na narrativa como um todo, afetando cada personagem de maneira diferente, com especial foco em Dee que luta com sua dor fugindo pelas ruas até ser abordada brutalmente pelo capitão de polícia que está atrás do planetário e coloca um maldição na jovem que passa a ser perseguida por duas versões assustadoramente malignas de Topsy, a menina escrava de A Cabana do Pai Tomás, obra anti-escravagista seminal que contribuiu muito para a abolição nos EUA, mas que, com adaptações posteriores, acabou ganhando uma injusta aura ruim e depreciativa dos negros.

5º Lugar: Whitey’s On the Moon

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E, mesmo que essa exigência não agrade a todos, devo dizer que ela é inegavelmente refrescante e divertida. Afinal, somente pela quantidade gigantesca de momentos nível hard de WTF – extração de fígado para servir de entrada em jantar do culto, alucinações individuais e reveladoras para nossos heróis, mágica sendo tratada como coisa trivial, o parto de um shoggothinho fofo que Christina faz tirando-o de uma vaca e depois acariciando-se como se fosse a coisa mais preciosa do mundo, tio George sensacionalmente usando as regras do clube dos homens brancos malucos contra eles mesmos – o episódio já merece ser prestigiado, especialmente considerando que o texto de Green não perde a crítica social em momento algum (“nem todos nós brancos queremos acabar com vocês”) e ainda consegue acrescentar uma camada estranha e desconcertante de humor, talvez pela surrealidade de tudo que vemos acontecer aqui.

4º Lugar: Strange Case

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Com essa abordagem ousada, transformando uma negra em uma branca, o tema do preconceito racial, que ficou um pouco de lado em A History of Violence, volta com força total, algo que fica muito bem ilustrado pelo que Ruby diz a William: em sua experiência como branca em um bairro negro, ela percebeu o medo dos negros por ela ser branca. Essa afirmação é um tapa na cara – ou melhor, um chute bem dado na boca do estômago – de quem vê o racismo como algo que acontece só com os outros é que é algo pontual. O racismo sistêmico pode ser todo ele resumido no que Ruby experimenta como Hillary, seja nesse começo confuso, com ela ainda desnorteada, seja depois tentando lidar com Tamara (Sibongile Mlambo) e tendo atitudes conflitantes, seja no clímax da vingança contra seu chefe que, antes, tentara estuprar Tamara.

3º Lugar: I Am.

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Quando disse que o episódio é um resumo temático, quis apenas salientar que seu roteiro é uma eficiente maneira de encapsular o coração de Lovecraft Country que, claro é o comentário social sobre o preconceito. Principalmente o racial, mas há diversas pitadas do preconceito de gênero que, aqui, ganham o mesmo tratamento. Se por um lado temos Tic enraivecido pela confirmação de que seu pai é gay e que sua mãe sabia, algo que não esperamos dos “mocinhos” que queremos gostar e, por isso, não gostamos de nos deparar com seus defeitos, por outro Hippolyta, em sua viagem de auto-conhecimento, nos diz, muito claramente, que, em nossa realidade, os negros são apenas e exclusivamente aquilo que os brancos querem que eles sejam. E, mais ainda, as mulheres não passam também de seres que estão a serviço do homem, aqui não interessando a cor da pele.

2º Lugar: Holy Ghost

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O objetivo, portanto, é manter a cinética da série e isso Daniel Sackheim consegue novamente, desta vez com a vantagem da quase que completa auto-contenção do episódio e da estrutura mais, digamos, familiar de mansão mal-assombrada, que torna explicações desnecessárias, abrindo espaço para a ação que é muito – mas muito – bem conduzida, seja na excepcional sequência da cerimônia de exorcismo vudu que se converte em Leti, de mãos dadas com as vítimas que assombram a casa, acabando com o cientista nazista que possuíra Tic, seja na ação paralela em que os vizinhos racistas invadem a casa somente para ganharem merecidos e sanguinolentos fins, daqueles que inevitavelmente extrairão sorrisos do espectador. E isso porque sequer falei da maneira como Sackheim lida com Leti na festa de inauguração, desaguando na sequência de sexo entre ela e Tic, com resultado surpreendente ou da maneira dolorosa como ele retira excelentes atuações de Jurnee Smollett contracenando com Wunmi Mosaku na cena em que Leti revela o que acha ser a origem do dinheiro para Ruby e como ele lida com as sequências de tristeza profunda de Hippolyta (Aunjanue Ellis) pela morte de George e com a depressão de Montrose (Michael Kenneth Williams). Dentro da excelente abordagem sobrenatural, são os momentos humanos que realmente chamam a atenção e, aqui, com o foco intenso em Smollett, a atriz tem espaço para brilhar ainda mais.

1º Lugar: Meet Me in Daegu

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Considerando o que Lovecraft Country apresentou até agora, essa guinada total não é exatamente uma surpresa completa, mas a coragem da showrunner em paralisar a história que finalmente vinha tomando forma para empregar um episódio inteiro em um flashback detalhado sobre Ji-Ah é de se aplaudir, especialmente considerando que, financeiramente, estamos falando de cenários dedicados, direção de arte específica, além de um quase que integralmente novo elenco falando não em inglês, mas em coreano por boa parte do tempo em razão de apenas 60 minutos de projeção. Poucos criadores teriam a coragem de propor isso e poucas produtoras bancariam esse tipo de esbanjamento audiovisual, o que, no final das contas, é mais um aspecto que torna a série algo realmente especial.

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