Esta lista NÃO é apenas de leituras de obras lançadas em 2025, seja no Brasil, seja no exterior. Claro que podem aparecer obras lançadas neste ano, mas a proposta é apenas ranquear as melhores leituras ou releituras de janeiro a dezembro, independente de quando o volume em questão chegou ao mercado. Clique nos links dos títulos para ler as críticas! Já deixo também o convite para vocês compartilharem nos comentários as suas listinhas de 10 melhores leituras de livros em 2025! E caso queiram ver as nossas outras listas sobre o tema, clique aqui!
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Este foi um ano que eu achei que conseguiria ler bem mais do que consegui. E fora as correrias malucas da vida, não teve nada exatamente que tenha me impedido de cumprir a meta de 50 leituras de nossa corrida literária (eu fechei em 44), por exemplo. Preguiça e falta de planejamento já são condições com as quais conto todos os anos, então não foram novidades em 2025. Talvez a demora em emendar os livros, entre os hiatos de falta de tempo, tenha pesado mais do que imaginava… vocês sabem, aqueles intervalos que se estendem, que vão se acumulando até percebermos que já se passou um mês desde a última página lida. A sensação de estar sempre recomeçando, de nunca conseguir mergulhar de verdade numa sequência consistente de leituras, foi recorrente, principalmente no segundo semestre. Está bem longe de uma ressaca literária, mas…
Ainda assim, creio que foi um ano muito interessante, com muita literatura brasileira em destaque e muitos livros acadêmicos também, outra surpresa para mim, que venho lendo mais ficção do que ensaios e produções acadêmicas desde que saí da faculdade. Foi como se este ano tivesse me devolvido, de certa forma, um pouco daquele fôlego analítico mais voraz que eu cultivava nos tempos universitários. Ver a quantidade de títulos nacionais que cruzaram meu caminho me deixou especialmente satisfeito; é sempre bom lembrar que há um Brasil literário forte e meio abandonado, que merece nossa atenção. Abaixo, deixo os meus 10 destaques de leitura deste ano. Bora lá, então?
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10º – O Tigre de Sharpe (As Aventuras de Sharpe #1)
Bernard Cornwell | Reino Unido | 1997

O Tigre de Sharpe cumpre o que se propõe, deixando no ar um convite para explorar o que vem a seguir na trajetória do protagonista, mas também perguntas que ressoam mais fundo: o que significa, afinal, a humanidade em meio ao horror da guerra? O que é permitido num conflito armado? O que é válido fazer, numa disputa de poder? Cornwell cerca essas questões com personagens cativantes, batalhas, interações formais, relações amorosas, políticas, corruptas e desenvolvimento de amizades e inimizades que deixam o livro instigante, atiçando a curiosidade do público. Entre os escorregões na transição entre cenas intensas e momentos de real desenvolvimento da história, Cornwell reflete sobre o custo da sobrevivência, o preço da lealdade e a estranha beleza de um mundo onde o heroísmo nasce do suor, do sangue e da lama. É um começo promissor, imperfeito, mas carregado de vida, que nos faz olhar para a próxima etapa não apenas com curiosidade, mas com a certeza de que ainda há muito ódio, muitas vitórias, derrotas, mortes e embates de ego e vingança pela frente. Para quem não tem grande apreço, como eu, por enredos envolvendo essencialmente militares, esta série é uma inesperada boa pedida.
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9º – Bartleby, o Escrivão
Herman Melville | Estados Unidos | 1853

O que Melville mostra e, deliberadamente, omite, acaba criando uma tensão entre tudo o que é real, ordinário e esperado em “uma história de Wall Street” (os detalhes do escritório, as personalidades dos funcionários) e o enigmático (os silêncios sobre o passado de Bartleby, as motivações reais de sua recusa, mesmo depois da narração de um boato). O estilo seco serve perfeitamente ao tom de registro burocrático que o narrador-patrão mantém ao longo da novela, mesmo quando a situação escapa completamente ao seu controle, gosto e compreensão. Se algumas escolhas do autor frustram, numa primeira leitura — como a indicação do trabalho no setor de cartas mortas do Correio; a transição abrupta no comportamento do protagonista e a falta de motivações claras –, é possível que sejam também um reforço aos questionamentos melvellianos, pois o autor parece menos interessado em explicar Bartleby do que em mostrar o efeito de sua presença (e depois ausência) naquele microcosmo de trabalho. A novela oscila entre momentos de precisão cirúrgica e outros que parecem apressados ou incompletos, mas seu núcleo é sólido e ótimo: a história de um homem que, ao recusar-se a continuar funcionando dentro da máquina, mostra a crueldade (quase sempre silenciosa) e a desumanização que o sistema impõe a todos os envolvidos, até que não reste mais nada além de um espaço vazio e mais outros iguaizinhos a ele apareçam.
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8º – A Batalha do Apocalipse
Eduardo Spohr | Brasil | 2010

Instigante em sua capacidade de entrelaçar história, mitologias e filosofia, A Batalha do Apocalipse é um verdadeiro marco literário na fantasia brasileira, cheio de ousadia em reimaginar o fim dos tempos como um palco para escolhas humanas e celestiais totalmente fora das expectativas. A jornada de Ablon, culminando em sua resistência final na Sala dos Portais, não somente redefine o conceito de heroísmo, mas propõe uma meditação sobre o que significa ser livre em um cosmos regido por forças além da compreensão e com agendas nem sempre benevolentes. A decisão do protagonista em lançar o Livro da Vida ao mar, simbolizando a rejeição de um destino pré-escrito, é um convite a abraçar a incerteza como força criativa e parte da existência aqui na Terra. O livro, como uma ótima exploração da fragilidade e da potência do livre-arbítrio (inúmeras vezes questionado aqui), desafia a cada um de nós imaginar um universo onde o fim é apenas o prelúdio de um novo começo. Como sempre foi. E para sempre será, pelo visto…
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7º – Romances de Cordel
Ferreira Gullar | Brasil | 2009

Cotidiano e revolução (ou a necessidade desta) se fundem nas histórias de Romances de Cordel, em contextos que mostram os motivos que as massas têm para lutar, as armas que podem utilizar e como podem vencer seus algozes, que estão em número bem menor. É o retrato de um lado do Brasil que encontramos até os dias de hoje, o que faz esses chamados poéticos terem importância didática a longo prazo: versos-arma que não serão esquecidos. A poesia de Gullar é um grito às ruas, à união com outros indivíduos na mesma situação, à irmandade militante e empática que, mesmo cheia de contradições, une forças para lutar contra desigualdades. Entre rimas que encantam e palavras que revoltam, o poeta deixa claro que literatura boa é aquela que não vira as costas para as dores (e às vezes às esperanças) do povo, trazendo o fogo e a forma de controlá-lo, quando for preciso.
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6º – A Falência
Júlia Lopes de Almeida | Brasil | 1901

A autora rejeita as soluções fáceis e mantém os destinos trágicos, o abandono, as brigas ético-morais e os desalentos que atingem praticamente todos os personagens, em níveis diferentes. Embora passagens como digressões sobre amenidades do dia, pensamentos soltos e visitas inúteis de personagens pareçam supérfluas ante a força do conjunto, o leitor compreende que A Falência trata de maneira muito inteligente sobre o ciclo das coisas no âmbito íntimo e em sociedade, falando de economia, ética, relações familiares, especulação, política, furto, golpes, conflitos de geração e corrupção. Mais do que um reflexo do passado, o romance é um alerta de que, sem tratar os problemas das nossas relações no âmbito público e privado, continuaremos edificando sobre uma base terrivelmente instável. E o resultado sempre será as falências que pessoas, ideologias, famílias e Estados enfrentam periodicamente.
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5º – Macunaíma
Mário de Andrade | Brasil | 1928

Transformada em quadrinhos por Rodrigo Rosa, em 2008, Macunaíma é uma obra que já passeou por vários meios artísticos. A cantora Lara Rennó, no mesmo ano do lançamento da HQ, produziu e divulgou o álbum Macunaíma Ópera Tupi, numa demonstração da relevância da trajetória do malandro para o entendimento de nossas questões sociais mais profundas. O cineasta Joaquim Pedro de Andrade foi um caso de sucesso no que diz respeito às traduções intersemióticas do livro. Em 1969, o filme homônimo foi lançado e tornou-se um dos símbolos da coesão das propostas do Cinema Novo brasileiro. Colorido e bastante vivo, uniu elementos eruditos e populares sem perder uma fatia sequer do rigor crítico.
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4º – 1984
George Orwell | Reino Unido | 1949

Reler um clássico é sempre uma experiência curiosa. Os detalhes que você acaba percebendo, o tipo de sensação que aparece, as questões políticas e ideológicas mais evidentes, a construção poderosa dos personagens, tudo fica ainda mais forte, mais desafiador e melhora ainda mais o livro. Li esse aqui há muitos anos e voltei porque queria lembrar mais vividamente da obra. Não me arrependi nem um pouco. O livro ficou ainda melhor do que eu me lembrava! A atmosfera sufocante, a paranoia constante, a manipulação da linguagem e da memória… tudo parece tão real e tão atual que chega a dar medo! É impressionante como Orwell conseguiu antecipar tantos mecanismos de controle que hoje parecem quase bobos, de tão corriqueiros. A cada página, a sensação de estar diante de algo que vai além de seu tempo se renova, e isso é o que separa os “verdadeiros clássicos” dos livros “apenas bem escritos”.
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3º – Luiz Gama Contra o Império
Bruno Rodrigues de Lima | Brasil | 2024

Ler Luiz Gama Contra o Império é reabrir a janela para um Brasil que foi e ainda é racista, violento e afeito a castas intelectuais e econômicas. Bruno Rodrigues de Lima não apenas resgata um herói nacional negligenciado. Ele nos entrega um rico documento onde podemos analisar as dores e as possibilidades de um país em eterno embate de domínio e poder de classe e cor. Em sua exposição analítica, a obra transita entre o manifesto (não exatamente pela abordagem do autor, mas pelo tema e pela persona retratada) e a homenagem crítica, mostrando que a história de Gama não foi sepultada, como muitos queriam, mas floresce. Se o direito, nas mãos do abolicionista, virou gazua para abrir cadeados de injustiça, este livro é o equivalente a um mapa que nos ajuda a identificar os agentes históricos e o espaço onde essa guerra aconteceu e perdura. Um caminho de conhecimento para podermos dar os nomes corretos aos escravocratas adaptados ao nosso tempo, tanto nos três poderes, quanto na camada social que os financia. O livro se encerra com um sopro de otimismo que é um alento, falando da liberdade e da luta por direitos civis como uma base sólida sobre a qual podemos continuar a construir uma sociedade mais justa. Esse tom de esperança não apaga as dificuldades, mas reforça a resiliência que a história de Gama inspira. Um olhar ligado ao Brasil atual e que faz um chamado para o enfrentamento das injustiças, munidos das lições de um herói que nunca deixou de lutar.
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2º – Contos Tradicionais do Brasil
Luís da Câmara Cascudo | Brasil | 1946

Câmara Cascudo convida o leitor a mergulhar no imaginário e na tradição oral da nossa terra, nas vozes dos anônimos que, às vezes mudando detalhes da narrativa, expressaram a essência de um país repleto de olhares, experiências e criatividade. Não se trata apenas de um registro de contações transmitidas de geração em geração, mas de um convite para que cada leitor se envolva ativamente, reinventando as aventuras, ao repassá-las, e perpetuando-as em novos contextos. Com um ótimo método de organização do material coletado, Cascudo combina rigor acadêmico com uma genuína paixão pela cultura popular, transformando Contos Tradicionais do Brasil num dos mais importantes documentos da tradição oral brasileira; um inestimável registro da nossa arte de contar… e recontar histórias.
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1º – A Geração Ansiosa
Jonathan Haidt | Estados Unidos | 2024

