Esta lista NÃO é apenas de leituras de obras lançadas em 2025, seja no Brasil, seja no exterior. Claro que podem aparecer obras lançadas neste ano, mas a proposta é apenas ranquear as melhores leituras ou releituras de janeiro a dezembro, independente de quando o volume em questão chegou ao mercado. Clique nos links dos títulos para ler as críticas! Já deixo também o convite para vocês compartilharem nos comentários as suas listinhas de 10 melhores leituras de livros em 2025! E caso queiram ver as nossas outras listas sobre o tema, clique aqui!
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O ano de 2025 foi, como o de 2024, repleto de leituras das mais variadas matizes, em um processo de intensificação de mergulhos literários que venho conseguindo fazer muito em razão da brincadeira que é a Corrida Literária do site. Deixei as autobiografias um pouco de lado, pois só duas me interessaram, mas acabei lendo apenas uma, ainda que excelente e tentei me organizar para ler obras clássicas que ou precisava reler ou correr atrás do atraso por nunca ter lido. Alguns autores recorrentes se mantiveram em meu radar, como Kazuo Ishiguro, Patricia Highsmith e Kurt Vonnegut, além de eu ter também me preparado para ler obras que seriam adaptadas ao audiovisual. Ainda estou longe de uma organização decente do que ler e da ordem das leituras, mas tenho para mim que jamais conseguirei seguir uma lista com um mínimo de rigidez, pois boa parte do prazer da leitura é o de livremente escolher o que vem pela frente.
Como li muita coisa (foram 69 livros!) em 2025, fiz como na minha lista anterior e incluí 10 obras como Menções Honrosas. Mas, no lugar de apenas listá-las na ordem alfabética de título, resolvi escancarar as portas e colocá-las em ordem de preferência, transformando meu Top 10 em um Top 20. Quem sabe ano que vem não me animo e faço um Top 30? Fiquem com a lista do 20º ao 11º lugares logo abaixo e, em seguida, o Top 10!
20. Neuromancer (William Gibson – EUA, 1984)
19. Caminhando para Aldebaran (Adrian Tchaikovsky – Reino Unido, 2019)
18. Piquenique na Estrada (Arkádi e Boris Strugátski – União Soviética, 1972)
17. O Feiticeiro de Terramar (Ursula K. Le Guin – EUA, 1968)
16. Uma Visão Pálida das Colinas (Kazuo Ishiguro – Reino Unido, 1982)
15. Até que Deu Tudo Certo: Memórias (Anthony Hopkins – EUA, 2025)
14. Vikings: A História Definitiva dos Povos do Norte (Neil Price – Reino Unido, 2020)
13. O Reformatório Nickel (Colson Whitehead – EUA, 2019)
12. O Caçador de Caçadores de Búfalo (Stephen Graham Jones – EUA, 2025)
11. Estado Elétrico (Simon Stålenhag – Suécia, 2018)
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10º – Nihonjin
Oscar Nakasato | Brasil | 2011

Começo essa crítica proclamando minha mais completa surpresa com Nihonjin, primeiro romance do brasileiro de ascendência japonesa Oscar Nakasato que conheci por intermédio de um “clube do livro” de que minha esposa participa e cujo título, que significa japonês em japonês (mas japonês de nacionalidade, pois a língua japonesa é nihongo), pois, pelo seu tamanho diminuto, pela cor rosa clara e pelo desenho “fofo” de uma loja japonesa no Brasil na capa da edição mais recente, imaginei que estaria diante de uma historinha de leitura simples e gostosa sobre um neto falando de seu querido ojiichan (vovô) que chegara ao país na onda migratória do começo do século XX. No entanto, o que Nakasato escreve não só vai muito – mas muito mesmo! – além disso, como seu estilo sóbrio, seu emprego cirúrgico das palavras e sua pesquisa histórica faz de Nihonjin não uma obra descartável, daquelas que desaparecem da mente do leitor assim que a última página é virada, mas sim um excelente apanhado da imigração japonesa para o Brasil que tem como objetivo central refletir sobre temas dilacerantes como o preconceito racial, a misoginia e o nacionalismo radical tanto de japoneses quanto de brasileiros em uma construção que fala de deslocamento, da necessidade de pertencimento e do conceito da própria identidade.
9º – A Longa Marcha
Stephen King | EUA | 1979

A Longa Marcha é um livro de Stephen King, sem dúvida, mas ao mesmo tempo não é e, se o então futuro Mestre do Horror tentou levá-lo à publicação e teve seu manuscrito rejeitado, é perfeitamente possível entender o porquê e esse porquê não tem relação alguma com a qualidade de seu trabalho, muito ao contrário até. Eventuais negativas ao romance também certamente não se deram por ele ser pesado ou sombrio, mas sim por ele ser uma obra eminentemente pessimista, carregada de uma visão de mundo desesperançosa e niilista sem nenhum tipo de alívio ao longo de suas mais de 300 páginas. Trata-se de uma jornada literária em que o leitor precisa estar no estado de espírito correto, preparado para mergulhar em uma estrada em que o fim não pode ser vislumbrado, mas que está em algum lugar lá na frente, implacável, inevitável, ameaçador e assustador, só nos esperando chegar. E não há sequer a escolha de olhar para o lado, de se distrair com outra coisa ou mesmo de parar de ler, pois há uma força atrativa no que King escreve que faz o leitor seguir adiante mesmo quando tudo o que ele quer é pensar em outra coisa, qualquer outra coisa.
8º – Senhor das Moscas
William Golding | Reino Unido | 1954

Senhor das Moscas, portanto, é muito, mas muito mais do que as apropriações populares da premissa dão a entender que é. Não se trata, aqui, da violência pela violência, mas sim de um processo, de uma luta inglória da moralidade contra a corrupção, do caminho mais difícil contra o mais fácil, da vida em sociedade contra o controle da sociedade. A obra de estreia de William Golding é um alerta que, porém, só é abordado comumente por aí em sua superfície, pelo que não espanta absolutamente nada estarmos hoje, em 2025, repetindo mais uma vez os erros históricos que levaram o autor a escrever o que escreveu. O mundo é uma ilha e estamos todos nela tentando ser Ralph ou Jack, nunca Porquinho. Que Saint-Exupéry me perdoe, mas Golding acertou em cheio.
7º – A Viagem do Beagle
Charles Darwin | Reino Unido | 1839

A Viagem do Beagle é um marco literário como obra científica, como impressões de um jovem viajante e até mesmo como um guia turístico de algumas partes do mundo na primeira metade do século XIX sob os olhos de um britânico recém saído da faculdade e ainda perdido no que gostaria de ser. E o livro é, também, um maravilhoso prelúdio de uma das mais importantes obra científicas da História do Homem que revolucionou a forma de vermos e entendermos de onde viemos. Mas isso é uma conversa que Charles Darwin só viria a ter duas décadas no futuro, depois de destilar o conhecimento que acumulou nessa sua viagem e em inúmeras outras pesquisas, além de, claro, construída em cima de ombros de gigantes anteriores e contemporâneos a ele, como é natural.
6º – Os Anos de Arroz e Sal
Kim Stanley Robinson | EUA | 2002

De todas as obras nessa linha que tive oportunidade de ler, Os Anos de Arroz e Sal – minha tradução literal do título em inglês já que ela não foi lançada por aqui quando da publicação da presente crítica -, do autor americano Kim Stanley Robinson, é de longe a mais expansiva e completa dentro da premissa que ele estabelece, premissa essa que é simples, mas ao mesmo tempo absolutamente fascinante e com ramificações imensas. Robinson indaga o que aconteceria se a Peste Bubônica do século XIV que, em nosso mundo, dizimou metade da população da Europa da época, acabasse com 99% dessa população, impedindo toda e qualquer influência dos reinos europeus na história que conhecemos. Estamos falando da quase completa eliminação dos povos europeus da geopolítica mundial antes das chamadas Grandes Navegações, antes do final da Reconquista e muito antes da colonização do continente africano, da Oceania e assim por diante. Robinson, então, inteligentemente preenche o vácuo europeu no mundo com outros povos que teriam sua marca suprimida por séculos, notadamente os árabes, os chineses e os indianos.
5º – Café da Manhã dos Campeões
Kurt Vonnegut | EUA | 1973

Apesar de o melhor caminho entre dois pontos ser normalmente a linha reta, Vonnegut não gosta nem um pouco delas e prefere traçar as jornadas mais tortuosas possíveis, não só oscilando entre os dois personagens completamente ignorantes um do outro, como também adicionando diversos outros que gravitam, de uma forma ou de outra, ao seu redor, isso sem contar com os desvios narrativos que não perdoam nada e ninguém, começando pelo hino dos EUA e seguindo em frente com cáusticos comentários sobre a escravidão e como a situação do século anterior mal mudou depois de todo esse tempo, dentre uma riqueza de outros que pinta um quadro que até pode ser colorido e exótico, mas que é perfeitamente reconhecível mesmo décadas depois do lançamento do livro. Assim como em Matadouro 5, o narrador onisciente em terceira pessoa por vezes interfere na história, tornando-se um personagem, com sua presença tornando-se cada vez mais evidente na medida em que a história é contada e particularmente em seu final em que ele assume uma posição que converte Café da Manha dos Campeões em ficção científica, ainda que o livro não seja nem de longe “só” ficção científica.
4º – Memórias do Subsolo
Fiódor Dostoiévski | Rússia | 1864

Nunca a leitura de “meras” 150 páginas me afetou tanto quanto minha experiência com Memórias do Subsolo, que Fiódor Dostoiévski publicou em revista própria dele e de seu irmão entre janeiro e abril de 1864 e que, ao longo das diversas edições que recebeu no Brasil, ganhou outros títulos como Notas do Subsolo, Diários do Subsolo, Cadernos do Subterrâneo e Notas do Subterrâneo. Sem sequer precisar mergulhar nas considerações filosóficas do personagem sem nome – normalmente conhecido como Homem do Subsolo – que nos fala em um monólogo em primeira pessoa sobre sua vida em dois momentos temporais bem diferentes, o que o autor russo faz é de uma agressividade ímpar, como se cada parágrafo representasse o narrador-protagonista violentamente pegando o leitor pela gola e berrando em sua cara, com direito a sentirmos seu hálito nojento e até mesmo sua saliva pegajosa, com direito até a alguns tapas vez ou outra. Foi não só a mais longa leitura curta que já tive, como a mais estafante e, talvez por isso, mesmo, uma daquelas obras que para sempre ficará marcada em minha mente.
3º – Triste Fim de Policarpo Quaresma
Lima Barreto | Brasil | 1911

É no exagero satírico de Lima Barreto na construção de Policarpo Quaresma que evidencia todo o restante, de Floriano Peixoto às autoridades menores, passando pela guerra como remédio primeiro e único para qualquer coisa. Mas é com o uso da língua portuguesa desprovida de floreios – em comparação com obras da mesma época, evidentemente – que o autor triunfa na sua versão de patriotismo literário, por assim dizer, trazendo sua obra para o português efetivamente falado e não apenas o imaginado, mas sem jamais deixar de evidenciar sua engenhosidade criativa. Ainda que não seja isso de forma absoluta, pois tudo é um processo, ler Triste Fim de Policarpo Quaresma parece uma experiência de ruptura linguística que se distancia de um passado formalista para algo diferente, mais pé no chão, próximo da população como um todo. Mais de 100 anos depois, com as diversas ondas de recrudescimento do patriotismo histérico como caminho e justificativa para a tomada de poder no Brasil e no mundo, o major Quaresma continua tão relevante quanto na época de sua discreta publicação original.
2º – A Mulher das Dunas
Kobo Abe | Japão | 1962

É nessa perpetuidade de movimentos sem perspectivas que Kobo Abe explora a relação do Homem com o Trabalho. O trabalho impulsiona a sociedade, dizem, mas, na visão micro, na lupa colocada por sobre a cabeça de um único individuo em sua labuta diária, que é justamente o que Abe faz, de certa forma espelhando a lupa que Niki usa para observar seus insetos, a rotina transforma-se em um peso e esse peso, com o tempo, transmuta-se na única razão de ser. O buraco cavado constantemente que se enche de mais areia na mesma proporção é o lixo retirado das ruas por garis, é o parafuso apertado por técnicos em fábricas, é a petição escrita por advogados em escritórios. Não que não se possa ter prazer com o trabalho, vejam bem, mas o que o romance aborda é o ponto em que o prazer ficou para trás, tornando-se mero automatismo e a mera perseguição de… o que mesmo? Afinal, Faixa de Möbius que pode ser o trabalho – dê tempo ao tempo, olhe para trás e diga se esse “pode” não é apenas uma forma que eu encontrei de suavizar a questão – impede que se veja o começo e o fim. Apenas o meio importa, o meio imediato, aquele momento em que clicamos no botão que temos que clicar para fazer a máquina funcionar de acordo.
1º – As Vinhas da Ira
John Steinbeck | EUA | 1939

Steinbeck tem o comando absoluto da palavra. Seus inter-capítulos são incrivelmente ritmados a ponto de eu ter me pego algumas vezes lendo-os como se fosse um musical, se é que isso faz sentido (mas eu li no original em inglês, vale dizer), com nenhuma palavra desperdiçada, nada fora do lugar. Ele consegue sair do macro para o micro sem quebra de fluidez e desenvolve seus personagens com extremo cuidado, mas jamais desviando-os do que eles sempre foram. Tom tem plena consciência do crime que cometeu, de que meramente sair de Oklahoma é um crime que viola sua condicional, mas ele não tem opção e precisa acompanhar sua família, até mesmo para ajudar a protegê-la. Tudo o que ele faz a partir do momento em que sobe no carro convertido obedece a uma perfeita lógica interna, com ele e sua mãe funcionando como os alicerces do pequeno grupo humano tentando sobreviver apenas mais um dia, o que, claro, constrói e mantem a atmosfera opressiva e claustrofóbica que os migrantes precisam enfrentar a cada minuto do dia.
