Home ColunasLista | Melhores Leituras em 2025: Quadrinhos – Luiz Santiago

Lista | Melhores Leituras em 2025: Quadrinhos – Luiz Santiago

Arrepios, críticas e estrelas.

por Luiz Santiago
38 views

Esta lista NÃO é apenas de leituras de obras lançadas em 2025, seja no Brasil, seja no exterior. Claro que podem aparecer algumas lançadas neste ano, mas a proposta é apenas ranquear as melhores leituras ou releituras de janeiro a dezembro, independente de quando o volume em questão chegou ao mercado. Clique nos links dos títulos para ler as críticas! Já deixo também o convite para vocês compartilharem nos comentários as suas listinhas de 10 melhores leituras de QUADRINHOS em 2025! E caso queiram ver as nossas outras listas sobre o tema, clique aqui!

***

No escopo da diminuição das minhas leituras de quadrinhos — especialmente os de super-heróis — ao longo dos anos, creio que 2025 foi o mais marcante. Tanto que, no fim do ano, precisei correr para ler mais algumas coisas e evitar que a lista ficasse desfalcada. As mesmas observações que citei na lista de livros se aplicam aqui: não houve nada fora do normal, tampouco uma ressaca literária (ou quadrinística, neste caso), mas simplesmente não consegui incluir mais edições na grade de leitura ao longo do ano. De qualquer forma, consegui cumprir a meta da nossa corrida, então menos mal. Abaixo segue a minha lista com as 10 melhores leituras de HQs do ano passado. Conhecem essas obras? O que acha delas? Deixe seu comentário!

.

10º – Mickey – All Stars

Diversos | França | 2019

É claro que a conexão não é de um nível tão alto como se estivéssemos lendo uma aventura de narrativa comum, com começo, meio e fim. Mesmo que o motivo visual se repita a cada página (saída e entrada por diferentes portas) os eventos são tão díspares que, por melhores, mais engraçados e visualmente belos que sejam, possuem duração curta. É como se tivéssemos uma injeção de felicidade e esplendor estético que durasse apenas alguns segundos e já partíssemos para a próxima injeção; e então para a próxima, e para a próxima… É uma armadilha incontornável, recorrente em projetos assim. Entretanto, isso não estraga o quadrinho: é apenas uma constatação direta a respeito desse tipo de abordagem que, mesmo fragmentando bastante o contato com o protagonista, tem um nível tão grande de qualidade e encantamento que se mantém num alto posto de qualidade geral — e se torna o proverbial “chover no molhado” quando falamos dos lançamentos do projeto Disney BD.

.

9º – A Morte Invisível – Júlia Kendall Vol. 28

Giancarlo Berardi, Maurizio Mantero, Enio | Itália | 2001

Em Morte Invisível, os autores entregam uma experiência que diverte, traz ansiedade e provoca reflexões sutis sobre problemas e conspirações laboratoriais (se é verdade, a gente ainda tem que continuar chamando de “conspirações”?) sobre ações do Estado que saem errado e podem colocar a vida de pessoas inocentes em risco. A jornada de Júlia, além de uma corrida contra um vírus perigoso, é uma visita às contradições de um mundo em crise (pessoas precisando de dinheiro e que fazem qualquer coisa para pagar suas dívidas e dar uma vida digna para suas famílias), onde a luta pela sobrevivência ainda parece uma selva. Apesar de tropeços no ritmo das últimas páginas, Morte Invisível é um exemplo de como a ficção pode entreter enquanto cutuca feridas sociais, deixando o leitor com a sensação de que já aprendeu a viver em meio a tantas ameaças e mortes invisíveis.

.

8º – O Mundo Flutuante – Lilith Vol.9

Luca Enoch | Itália | 2012

Outro aspecto que merece destaque é a reintrodução dos cardos, antagonistas que manipulam a flora e agora exibem uma capacidade assustadora de materializar formas humanas. Essa evolução dos vilões traz algo imprevisível à série, que, ao chegar à sua metade, sinaliza um futuro narrativo cheio de possibilidades. A presença desses seres, aliados ao conceito de ucronia, reforça a ideia de que as ações de Lilith têm consequências que reverberam além de sua missão imediata, alterando o tecido da história de maneiras que nem ela mesma pode prever. O autor equilibra essa expansão conceitual ao manter a trama ancorada nas interações humanas e nos dilemas éticos, inserindo uma jornada de vingança familiar que trará muito mais problemas para a protagonista no futuro. A força crescente da narrativa, aliada à nossa incapacidade de antecipar os rumos da série, instiga-nos a imaginar os desdobramentos de um futuro onde o passado foi reescrito e onde as escolhas de uma única pessoa podem redesenhar o curso da história, tudo para impedir a destruição da maior parte dos seres humanos durante um “desabrochar alienígena”. Pelo menos é isso que a gente (e Lilith) ainda acredita. Será que fomos enganados?

.

7º – Miyamoto Musashi

Shotaro Ishinomori | Japão | 1971 – 1972

Como corolário, perde-se muito do Musashi mais velho, já que Ishinomori, a partir de certa altura, descarta a estrutura que vinha usando e passa a narrar os anos finais do espadachim com uma arte mais estática, quase como se tivesse “desistido” de detalhar a vida dele, mas precisando completar a história. Não é um problema sério se o leitor souber o que esperar. Ishinomori dedica o coração de sua obra à pancadaria – mas não descerebrada! -, deixando a filosofia e os anos finais de Musashi como elementos que entremeiam a narrativa principal, mas sempre em segundo plano. O resultado é uma obra que até pode parecer incompleta, mas que, para mim, pareceu saber escolher exatamente o que queria, sem engodos e sem correrias. Não é a biografia definitiva de Myiamoto Musashi em quadrinhos, mas é um trabalho excepcional da Nona Arte que respeita e eleva o biografado ao Panteão que ele merece estar.

.

6º – Cassidy: Omnibus – Vol.2

Pasquale Ruju e outros | Itália | 2010 – 2011

A organização bojuda do volume, com suas 594 páginas divididas em seis longas edições, pode assustar leitores mais preguiçosos, mas isso é compensado pela progressão orgânica da trama, que reitera o destino trágico de Cassidy com uma urgência que cresce a cada página. Artisticamente, a diversidade de estilos visuais combina com as etapas da história (que se passa em diferentes localizações), enquanto as referências históricas e sociológicas — da Guerra do Vietnã ao crime organizado — colocam a narrativa num contexto específico e universal. Na soma de tudo, temos um anti-herói que não quer redenção, mas procura compensar algumas falhas do passado e cumprir compromissos perigosos antes de morrer. Essas edições são mais um passo na construção de uma lenda. O que resta para um homem que já perdeu tudo, exceto o mistério que o define? É essa pergunta que faz de Cassidy não apenas uma saga, mas uma curiosidade reflexiva que nos faz procurar por muito mais.

.

5º – Os Sacrificadores – Vol.1

Rick Remender, Max Fiumara, Dave McCaig | EUA | 2023

Os Sacrificadores propõe uma discussão muito interessante sobre os custos ocultos da prosperidade concentrada, perguntando quem paga pela juventude eterna, pelo luxo e pela perfeição de um lugar, uma família ou um grupo de pessoas. Remender e Fiumara deixam claro que a destruição desordenada do sistema divino não significa libertação automática para todos, apenas substitui uma forma de violência por outra ainda não compreendida, colocando na série uma dinâmica política e histórica que nós conhecemos muito bem. Essa ambiguidade moral separa a obra daquelas distopias simplistas, honrando a complexidade das negociações políticas e sociais reais. A gente chega ao fim da história e fica empolgado para conferir a continuação. Um projeto e tanto, cujas poucas falhas de estrutura não impedem de estar entre as mais interessantes de sua safra.

.

4º – O Monstro – A Casa no Fim da Rua

Fabio Coala | Brasil | 2017

O terror, a fantasia e as questões de socialização se entrelaçam na busca pelo equilíbrio entre amadurecimento e aceitação da tragédia. Fabio Coala constrói uma resolução que caminha para a cura emocional através do enfrentamento gradual da perda familiar de Jô, sugerindo que a superação real exige tanto o reconhecimento da dor quanto a abertura para possibilidades relacionais fora do ambiente digital, sem nunca negar a importância dos vínculos virtuais como ponte para a reconexão com o mundo físico. A narrativa desenvolve esse processo de amadurecimento evitando soluções artificiais que comprometeriam a credibilidade psicológica da trajetória da personagem principal (embora o encaminhamento das últimas cenas mostrem pequenos tropeços de construção, mas nada grave). O trabalho se destaca por conseguir abordar questões urgentes da saúde mental juvenil sem perder o apelo narrativo (e de entretenimento!), oferecendo diversão e um instrumento de reflexão sobre os desafios da juventude em sua busca por identidade e pertencimento social. É uma história que faz o leitor terminar a HQ aos prantos. E querer abraçar todos os seus amigos muito fortemente.

.

3º – Guerra em Gaza

 Joe Sacco | EUA | 2024

Guerra em Gaza é um soco no estômago. A arte de Joe Sacco é impressionante, como sempre, e ele utiliza símbolos e citações morbidamente cômicas para esfregar na cara do leitor dessensibilizado a desumanidade em discussão. Sua referência à “nova letra escarlate“, ao petróleo do Oriente Médio, às terras palestinas cobiçadas e já leiloadas por Israel e o plano estatal de extermínio étnico e dominação territorial que foi se desenhando claramente com os meses, estampam o óbvio e discutem o que a mídia, quase que unanimemente, se recusa a discutir. Em seu encerramento, o quadrinho é abrupto. Penso que caberia uma sequência que encaminhasse melhor o ideal crítico do autor, mas esta é apenas uma chatice contextual. O tema, a abordagem e, principalmente, o peso e a necessidade de se falar sobre essas questões estão aqui, e todos exibidos de forma chocante. Este é o tipo de projeto que, por melhor que seja, traz uma forte pontada de terror e agonia por ser baseado num inferno real que ainda não acabou. E que ainda recebe os aplausos de muita gente por aí.

.

2º – Social Fiction: Wonder City, Shelter e 1996

Chantal Montellier | França | 1976 – 1983

Essas três histórias de Social Fiction antecipam muitas questões que dominam os debates atuais sobre vigilância digital, direitos reprodutivos e manipulação algorítmica. Suas narrativas são quase profecias e partem de uma observação atenta do que já estava acontecendo, misturando intuição com análise social. Com sua arte e seu texto, Chantal Montellier estabeleceu novos padrões para o que a ficção científica e política poderia fazer nos quadrinhos. Esses três arcos nos trazem uma experiência estética poderosa, talvez até mais assustadora do que a autora pensou que seria, uma vez que a realidade não só parece igualar-se aos absurdos que ela registrou aqui, como, em alguns casos, até superá-los. Quem duvidou que capitalismo tardio poderia fazer algo pior que os piores pesadelos das artes?

.

1º – A Turma do Arrepio – Edição Histórica

César Sandoval e outros | Brasil | 1989 – 1993

Criada por César Sandoval em 1989, A Turma do Arrepio é um verdadeiro marco dos quadrinhos infantis brasileiros, retomada, em 2025, em uma Edição Histórica pela Comix Zone, que reúne “as melhores” tramas da turminha fofamente macabra que tanto me divertiu (e tenho certeza que a muitos de vocês também) na infância. Acredito que a escolha dos editores Ferréz e Thiago Ferreira quis garantir ampla circulação do material, alcançando um público numeroso e, consequentemente, boas vendas, o que poderia viabilizar a publicação de novos volumes com a mesma proposta editorial. Particularmente, não gosto desse tipo de recorte fragmentado. Acho que uma organização cronológica seria mais adequada para resgates com essa importância. Todavia, entendo a estratégia editorial e mercadológica da CZ (tentando driblar os riscos) e torço para que a obra venda muito e permita o lançamento de novos volumes.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais