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Lista | Melhores Leituras em 2025: Quadrinhos – Ritter Fan

De Buenos Aires a Tóquio, passando por Essex, Barcelona e Pyongyang.

por Ritter Fan
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Esta lista NÃO é apenas de leituras de obras lançadas em 2025, seja no Brasil, seja no exterior. Claro que podem aparecer obras lançadas neste ano, mas a proposta é apenas ranquear as melhores leituras ou releituras de janeiro a dezembro, independente de quando o volume em questão chegou ao mercado. Clique nos links dos títulos para ler as críticas! Já deixo também o convite para vocês compartilharem nos comentários as suas listinhas de 10 melhores leituras de quadrinhos em 2025! E caso queiram ver as nossas outras listas sobre o tema, clique aqui!

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Fiquei surpreso comigo mesmo e consegui ler muito mais quadrinhos do que imaginaria que conseguiria quando 2025 começou. E, melhor ainda, fui capaz de conciliar obras dos mais variados tipos e nacionalidades, ainda que pecando por não ter lido muita coisa do Brasil, algo que pretendo remediar em 2026. Seja como for, o ano foi de experiências realmente surpreendentes – algo que fica evidente pelo primeiro lugar da lista que eu sequer poderia imaginar, já que não foi o maior fã desse tipo de HQ – e que me deixaram com vontade de ler ainda mais, em uma espiral insana que eu sei que não conseguirei manter por muito tempo.

Como li muita coisa (foram mais de 25 mil páginas, consideravelmente mais do que o dobro do que em 2024!), fiz como na minha lista anterior e incluí 10 obras como Menções Honrosas. Mas, no lugar de apenas listá-las na ordem alfabética de título, resolvi escancarar as portas e colocá-las em ordem de preferência, transformando meu Top 10 em um Top 20. Quem sabe ano que vem não me animo e faço um Top 30? Fiquem com a lista do 20º ao 11º lugares logo abaixo e, em seguida, o Top 10!

20. Hoje É um Belo Dia para Matar (Patrick Horvath – EUA, 2023/24)
19. Authority – Livro Um (Warren Ellis e Brian Hitch – EUA , 1999/00)
18. Ultramega (James Harren – EUA, 2021/25)
17. Batman & Robin: Ano Um (Mark Waid e Chris Samnee – EUA, 2024/25)
16. Estranhas Aventuras (Tom King e Mitch Gerads – EUA, 2020/21)
15. A Bibliomula de Córdoba (Léonard Chemineau e Wilfrid Lupano – Bélgica/França, 2021)
14. Transmetropolitan – Vol. 1 (Warren Ellis e Darick Robertson – EUA, 1997/98)
13. Criminal – Vol. 1: Covarde (Ed Brubaker e Sean Phillips – EUA, 2006/07)
12. Saga – Volume 12 (Brian K. Vaughan e Fiona Staples – EUA, 2024/25)
11. Supergirl: Mulher do Amanhã (Tom King e Bilquis Evely – EUA, 2021/22)

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10º – O Eternauta

Héctor G. Oesterheld e Francisco Solano López | Argentina | 1957 a 1959

O Eternauta é, sem dúvida alguma, uma obra fortemente política de grande valor para a Argentina e países vizinhos cuja mensagem infelizmente ecoa até os dias de hoje. Usando uma invasão alienígena para alegorizar a Guerra Fria e a luta contra a opressão, Héctor Germán Oesterheld e Franciso Solano López triunfaram ao conseguirem traduzir o que a Argentina passava naquele momento, mas sem em momento algum datar a experiência, transformando Juan Salvo, no processo, em um verdadeiro e potente símbolo eterno que transcende a mídia em que surgiu e até mesmo seu país de origem.

9º – Absolute Caçador de Marte – Vol. 1: Visão Marciana

Deniz Camp e Javier Rodriguez | EUA | 2025

Absolute Caçador de Marte estaria muito mais em casa em uma editora como a Image Comics ou no selo Vertigo da própria DC (imbecilmente descontinuado em 2020 – e não, o DC Black Label não é um substituto à altura), pois a recriação do clássico personagem “substituto do Superman, só que verde” por Deniz Camp e Javier Rodriguez é uma verdadeira obra de arte, uma reimaginação ousada, criativa, consideravelmente pesada e completamente enlouquecida – no bom sentido! – que desafia o leitor e até a própria mídia dos quadrinhos, em uma história de abordagem psicológica que examina identidade, controle, natureza humana, relacionamentos e uma infinidade de outros temas vizinhos que simplesmente não são normais de serem vistos em um título assim. Há sem dúvida um pouco da pegada autoral que J.M de Matteis e Mark Badger tiveram a felicidade de imprimir na minissérie Sonho Frebril, publicada no lá longínquo ano de 1988, mas Camp e Rodriguez parecem ter ganhado um cheque em branco da DC Comics aqui, uma verdadeira autorização ampla e irrestrita para fazerem o que bem entendessem com a única obrigação de indicarem, em algum momento, que a história realmente se passa no universo criado a partir de Darkseid, o que eles fazem de maneira lógica e não intrusiva em determinado momento.

8º – Monstros

Barry Windsor-Smith | EUA | 2021

No entanto, sua obra máxima veio somente com o tempo e com a idade. No alto de seus então 72 anos e depois de 37 deles em gestação lenta, o mestre finalmente publicou Monstros, uma mega-graphic novel de 380 páginas em preto e branco, formato avantajado e capa dura que nasceu de uma ideia para uma história do Hulk que nunca foi para a frente e que se tornou uma espécie de Frankenstein moderno, com a mente criativa de Windsor-Smith contando de forma alinear uma história de gerações que gira em torno de Bobby Bailey, um jovem de 23 anos que, em 1964, se alista no exército americano e é percebido pelo Sargento McFarland como um candidato ideal para um programa ultrassecreto chamado Prometeu que, sem conhecimento dele, usa tecnologia nazista para criar o tão desejado Übermensch, de Adolf Hitler, ou seja, trazendo um pouco da obra seminal de Mary Shelley e outro tanto da origem do Capitão América, referências particularmente importantes em termos temáticos. Descrever mais do que isso é uma tarefa fútil que só teria o condão de extrair do leitor que porventura ainda não tenha lido Monstros a jornada de descoberta que é essa história ganhadora de mais do que merecidos três Prêmios Eisner nas categorias nobres de Melhor Graphic Novel, Melhor Roteirista/Artista e Melhor Letreirista.

7º – Thorgal: Série Clássica – Vol. 1

Jean Van Hamme e Grzegorz Rosiński | Bélgica/França | 1977/84

Thorgal é, nesses oito álbuns iniciais, uma prazerosa e engajante leitura que combina e recombina gêneros e nos apresenta a um protagonista fascinante e a uma constelação de personagens coadjuvantes, vilões e ambientações diferentes que aos poucos ajuda a erigir um mundo amplo, rico e complexo, com mitologia original e expansiva. Quando a última página da caprichada edição da Pipoca e Nanquim acaba – incluindo aí o completo material extra em seu final que nos oferece uma visão ampla do processo criativo de Van Hamme e Rosínski – tudo o que passa pela cabeça do leitor é quando é que os próximos álbuns serão disponibilizados. Esse universo viking-mágico-alienígena é, sem dúvida alguma, viciante e cativante, uma verdadeira joia das BDs europeias.

6º – Dias de Areia

Aimée de Jongh | Bélgica/França | 2021

A roteirista e artista conta uma história de beleza e delicadeza humanas em meio à ruína, de vida cercada pela morte e pela desesperança, de perseverança em meio ao abandono completo de um estado que investe recursos em fotografias para a documentação desse momento histórico, percebendo sua gravidade, mas não em fazer algo de concreto para aqueles que vivem ali, cercados de poeira, areia e mal sobrevivendo com o pouco de comida e água que resta. Entre sua amizade com uma  criança esperta e sua conexão – talvez amor – com uma jovem grávida que teve seus pulmões afetados pelas partículas suspensas no ar, John Clark vê uma outra face dos Estados Unidos, uma face escondida, por vezes romantizada, mas que ele aos poucos percebe ser a que verdadeiramente conta em contraste profundo com sua vida urbana na capital do país.

5º – Star Trek: Lower Decks – Warp Your Own Way

Ryan North e Chris Fenoglio | EUA | 2024

A promessa de algo semelhante à referida e saudosa coleção de livros, só que em quadrinhos, e com Mariner e companhia no protagonismo quase me fez adquirir imediatamente a versão digital da obra, mas eu me segurei. Eu queria a versão em papel para poder ler do jeito clássico, potencialmente revivendo as centenas de horas que investi em Escolha a Sua Aventura. Demorou alguns meses, mas eu finalmente comprei a HQ de 208 páginas que, para minha surpresa, tem dimensões pouco usuais para o mercado de quadrinhos americano, ficando ali em algum lugar entre o formatinho dos quadrinhos classicamente publicados no Brasil e o padrão dos EUA. Quando comecei a ler, a sensação de familiaridade com o universo em questão e com a proposta interativa da aventura foi imediata, com Ryan North não só mais uma vez capturando o espírito da série animada criada por Mike McMahan, como criando uma narrativa prosaica, mas imediatamente engajadora que começa com Mariner tentando dormir, mas sendo acordada pela combinação de um chatíssimo Spock holográfico despertador de D’Vana Tendi com o brilho de uma nebulosa por sua escotilha, levando-a então à primeira escolha para o leitor: Mariner toma um café humano ou um raktajino klingon?

4º – Pyongyang: Uma Viagem à Coreia do Norte

Guy Delisle | França/Canadá | 2003

Mas à parte essas afirmações, Pyongyang: Uma Viagem à Coreia do Norte é uma leitura sensacional. Ela é um convite à pesquisa, à discussão, e pode trazer uma luz para pessoas que gostariam de estudar mais o assunto mas não sabem exatamente que rumos tomar. O autor ainda coloca na obra pequenas brincadeiras como o divertido jogo de “quem é o espião?” e duas páginas desenhadas de maneira adoravelmente caótica por seu amigo Fabrice, que também esteve lá… tudo isso, elementos que tornam a leitura mais leve e divertida — é preciso, pois o roteiro é composto por colagens dos dias, não há uma verdadeira história acontecendo e se não houvessem essas pequenas e boas amenidades, seria bem difícil terminar o volume.

3º – Eu Sou o Seu Silêncio

Jordi Lafebre | Bélgica/França | 2023

Alguns personagens da literatura e dos quadrinhos conseguem a proeza de falar mais alto do que qualquer outro ao seu redor e até mesmo do que a própria história em que está inserida. Na maioria das vezes, seus criadores começaram por eles e, então, partiram para erigir a plataforma em que eles são utilizados, resultando em uma simbiose perfeita entre personagem e história. Sherlock Holmes é um desses grandes personagens da literatura, assim como, nos quadrinhos, é o caso de Halo Jones, não que, claro, eu tenha certeza que seus respectivos autores começaram por eles, ainda que a desconfiança seja forte. Apesar de ser um convenção afirmar que o que importa é a história, tenho para mim que isso é relativo e, às vezes, o que importa mesmo é o personagem, seja ele protagonista ou antagonista, como no caso do Conde Drácula, por exemplo. A psiquiatra Eva Rojas, criada pelo quadrinista catalão Jordi Lafebre, é, sem dúvida alguma, uma dessas personagens que imediatamente arrebata o leitor do primeiro quadro em que ela aparece – andando na beira do telhado de um prédio com vista para a ainda inacabada Basílica da Sagrada Famíilia, em Barcelona – até o último, em que ela dorme no divã de seu terapeuta, como se a experiência de leitura tivesse sido um transe hipnótico.

2º – Condado de Essex

Jeff Lemire | EUA | 2007 a 2011

A leitura de Condado de Essex é uma magnífica experiência da Nona Arte. E não estou falando, aqui, da forma como Jeff Lemire, em seu primeiro trabalho remunerado em quadrinhos, consegue costurar suas três histórias principais – Contos da FazendaHistórias de Fantasmas e Enfermeira do Interior -, transformando-as em uma narrativa única ao final, ainda que isso também seja magnífico, não tenham dúvida. Falo mesmo é do puro prazer narrativo e visual que é ler essas histórias entrelaçadas que se passam no condado do título, em Ontário, no Canadá, onde o autor nasceu e cresceu, já que Lemire, no que pode ser chamado de uma semiautobiografia, captura o que é viver e crescer com delicadeza, lirismo e inteligência, abordando a infância e juventude com precisão, sofisticação e um toque de realismo mágico, o rito de passagem para a fase adulta e, depois, para a idade mais avançada, sem se esquecer de trabalhar com a inevitável, mas naturalmente assustadora morte, mas sempre com um olhar sereno e uma voz tranquilizadora que deixa o leitor emocionado e, ao mesmo tempo, absolutamente contagiado pela história que, na versão completa lida para a presente crítica, conta ainda com O Clube de Boxe do Condado de Essex e A Triste e Solitária Vida de Eddie Orelhas de Elefante, duas breves histórias que funcionam como epílogos.

1º – Old Boy

Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi | Japão | 1996 a 1998

Quando finalmente cheguei ao final da jornada de Gotô, minha sensação foi de completude, foi de ter lido uma história que, mesmo com sua premissa bizarra, fez completo sentido narrativo para mim. Tenho certeza, porém, que muitos devem ter achado a “revelação final” um tanto quanto decepcionante, mas, muito ao contrário, considero a escolha discreta e até simples de Garon Tsuchiya uma verdadeira pérola, com o roteirista mantendo, sem se desviar, de seu caminho humano e ponderado sobre a condição humana. E, mesmo que o final tivesse sido tenebroso, tenho para mim que estamos diante de uma daquelas obras em que o que realmente importa é a jornada e não o destino. Não estou, com isso, querendo arrumar desculpa para um final ruim, pois, como disse, o final foi exatamente o que tinha que ser para mim, mas sim para sublinhar que o que destaca Old Boy é justamente as escolhas não tradicionais que são feitas ao longo da narrativa e que subvertem completamente o que pode parecer, em um primeiro momento, apenas uma desculpa para atos de vingança de um homem torturado por 10 anos, tudo isso contado de maneira sublime, fluida, ritmada e absolutamente engajante da primeira até a última página. Meu receio, agora, é rever o filme de 2003 e me decepcionar…

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