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Lista | Os Melhores Filmes de 2025 – Luiz Santiago

O fluxo nunca termina.

por Luiz Santiago
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Foram elegíveis para esta lista, apenas: o que foi OFICIALMENTE lançado nos cinemas brasileiros em 2025; o que foi lançado nos streamings e VODs OFICIALMENTE acessíveis no Brasil em 2025; o que foi exibido OFICIALMENTE em Festivais brasileiros em 2025 ou filmes de festivais que foram OFICIALMENTE acessíveis a partir do Brasil.

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O ano de 2025 foi, de fato, um bom ano cinematográfico, apesar dos pesares. Claro que tivemos as bobagens de sempre, mas olhando para o nível, as temáticas e as abordagens que encontramos no cinema, podemos dizer que estivemos muito bem servidos. Para mim, mais um ano dentro da média, embora eu tenha visto muita coisa de lançamento tempos depois da estreia, no conforto do meu sofazinho… Abaixo, a minha lista com os melhores que eu vi em 2025!

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10º – Ne Zha 2: O Renascer da Alma

Yu Yang | China | 2025

O Renascer da Alma tem uma reta final emocionante e um desenvolvimento que impressiona pelo novo fôlego que traz em sua história, pela abordagem estética que não faz feio frente as mais caras criações hollywoodianas; que muitas vezes parece encarnar a estética e a movimentações de videogames, e que tropeça pouco (basicamente na linha de humor repetitivo e meio bobo — que eu já tinha apontado como um defeito do filme anterior — e na dependência de conceitos importantes do filme anterior), deixando claro para o espectador o porquê de seu enorme apelo. Uma animação visual e narrativamente diferente, tocante e de alta qualidade.

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9º – O Filho de Mil Homens

Daniel Rezende | Brasil | 2025

Em última análise, a adaptação de Daniel Rezende funciona porque entende que a beleza não está na ausência de defeitos, mas na harmonia criada entre peças quebradas. Ao remover a dependência das reviravoltas literárias, o diretor expõe o esqueleto emocional da história, entregando um filme que é completo tal qual o livro, mas que caminha com as próprias pernas. É uma obra sobre o coletivo, sobre como o peso das peças micro só é verdadeiramente compreendido e validado quando se olha para o todo. O filme vem para isso: para provar que a imperfeição compartilhada é a forma mais pura de perfeição humana. Daniel Rezende assina uma obra que, embora se utilize de seguranças estéticas, arrisca-se no terreno mais perigoso de todos: o da sinceridade emocional absoluta.

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8º – O Agente Secreto

Kleber Mendonça Filho | Brasil, França, Países Baixos, Alemanha | 2025

No entanto, um encerramento menos do que perfeito de um épico de outra forma quase irretocável não é um  problema realmente sério e O Agente Secreto triunfa como um thriller de queima lenta que nos deixa ver um aspecto pouco explorado da ditadura em meio a uma história carregada de vigor narrativo e apuro estético, com um fenomenal trabalho dramático de Wagner Moura. Kleber Mendonça Filho, com “apenas” seis longas em sua filmografia, sedimenta-se como um daqueles raros cineastas modernos incapazes de oferecer menos do que pérolas cinematográficas aos espectadores, algo que já fica evidente aqui antes mesmo de a cena no posto de gasolina de beira de estrada acabar, mas que é reiterado sucessivas vezes até os créditos começarem a subir.

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7º – Foi Apenas Um Acidente

Jafar Panahi | Irã, França, Luxemburgo, EUA | 2025

O acidente do título recorta um grupo de pessoas e cria uma rede de conexões traumáticas que buscam pelo menos entender quem estava por trás dos piores momentos de suas vidas. Não existe, na verdade, um plano geral. Existe a vontade de saber. De entender. Porque nenhuma dessas pessoas consegue lidar com aquilo que não podem remediar. Elas não sabem o que fazer com aquilo que não pode mais ser desfeito. Porque “o que foi feito” está em seus corpos, em suas memórias, em seus sentimentos. O quanto isso não está contaminado pelo ódio ou pelas nuvens do tempo, nós não sabemos. Mas temos a certeza de que, para transformar pessoas comuns em cruéis aterrorizadores que vão usar de todas as zonas cinzentas para justificar seus atos, basta um pequeno acidente. E toda a cadeia de eventos que daí surge, vira trauma e história.

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6º – Trilha Sonora Para um Golpe de Estado

Johan Grimonprez | Bélgica, França, Países Baixos | 2024

Trilha Sonora Para um Golpe de Estado se estabelece como um manifesto político e artístico que expõe, sem concessões, as engrenagens de um sistema que sempre vendeu ilusões de progresso, enquanto perpetuava dominações estruturais que moldam nosso mundo até hoje. Johan Grimonprez guia esse imenso volume de informação sem jamais perder o controle da narrativa, tornando a obra uma experiência enriquecedora e transformadora. Se a história costuma ser contada pelos vencedores, este documentário é um raro exemplo de contra-narrativa que busca restituir vozes ou visões silenciadas, além de oferecer uma nova perspectiva sobre os eventos que redefiniram a política global no meio do século XX. Um filme essencial para todos que almejam enxergar com mais clareza os desafios do presente e as batalhas do futuro, nem sempre guiadas por um acorde agradável ou um improviso inspirador de jazz.

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5º – Blue Moon

Richard Linklater | EUA, Irlanda | 2025

Em Blue Moon, não temos apenas as fragilidades de Lorenz Hart reveladas. O filme destaca, é verdade, o seu ponto de vista para as coisas, mas é possível perceber o quanto os outros profissionais em torno dele possuem inseguranças, dúvidas, ansiedade e uma melancolia que muito tem a ver com o momento que vivem (a Segunda Guerra Mundial) e que, talvez por fuga ou por mentirem para si mesmos, tentam deixar de lado e destacar apenas o “aqui e agora“, a beleza de uma letra, de um acorde, de um artigo, de uma fotografia, de um enredo… tudo misturado às mais diversas emoções humanas. Nós saímos de Blue Moon com uma sensação esquisita de “completude incompleta“. Por um lado, temos a saciedade de bons diálogos de um olhar até mesmo invasivo para Lorenz Hart. Por outro, a fome de mais elementos para além de seu núcleo, de seu olhar viciado e lamentador. Não diria, porém, que é uma armadilha inevitável do filme. É somente parte de nossa curiosidade, nascida da altíssima qualidade com que o diretor projetou a sombra de um artista que tanta beleza trouxe para o mundo, mas que não conseguiu utilizá-la para iluminar o seu próprio caminho.

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4º – A Voz de Hind Rajab

Kaouther Ben Hania | Tunísia, França, EUA | 2025

A voz da garotinha pedindo ajuda, querendo companhia e voltar para o abraço de sua mãe é torturante e aterradora, mas ela é, também, uma espécie de hino antibelicista que precisa ser ouvido. Kaouther Ben Hania, com seu A Voz de Hind Rajab, cumpre seu difícil papel de divulgar esse apelo para o maior público possível, na esperança de que a Humanidade perceba o quão desumana ela pode ser. Ficção e realidade falam com uma só voz aqui, e essa voz é a de uma criança de cinco anos em uma guerra que ela sequer entende.

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3º – Os Diários de Ozu

Daniel Raim | EUA | 2025

Os Diários de Ozu talvez não seja um documentário feito para quem desconhece completamente a filmografia do mestre, mas tenho para mim que o conhecimento profundo faz-se desnecessário para a apreciação do que Daniel Raim faz aqui, que é conseguir usar os breves comentários nas centenas de caderninhos de Ozu para descortinar uma vida rica que gerou uma das filmografias mais importantes da História do Cinena e que, tenho certeza, pode servir como porta de entrada para que mais gente mergulhe nas obras do diretor. Finalmente Yasujiro Ozu ganha o tratamento biográfico audiovisual que merece e que, espero, não seja o último.

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2º – Sirāt

Oliver Laxe | França, Espanha | 2025

Oliver Laxe faz uma demolição cuidadosa da ilusão de salvação. A ponte islâmica do título não é uma promessa de livramento. Ela age como uma sentença. Nenhum personagem consegue atravessá-la de fato; todos caem, repetem, retrocedem. A cinematografia de Mauro Herce transforma o deserto em protagonista — um espaço que não oferece piedade, somente espelha o desespero e a ânsia que, contraditoriamente, as pessoas estavam lá para expiar –, e a trilha sonora de Kangding Ray, também premiada em Cannes, aprofunda de propósito a sensação de colapso inevitável. Sirât é, portanto, um filme de martírio. Para aqueles dispostos a enfrentar a travessia com os personagens (a propósito, podem esquecer as promessas de redenção), a obra oferece um dos mais interessantes desafios, talvez um pouco confuso em seu final, mas certamente um dos melhores de sua safra, exatamente porque admite que alguns caminhos não levam a lugar nenhum, e que isso, se pensarmos bem, é tudo o que temos.

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1º – Flow

Gints Zilbalodis | Letônia, Bélgica, França | 2024

O roteiro faz a uma reflexão profunda sobre a dualidade da passagem das Eras: para algumas criaturas, a inundação representa uma oportunidade; enquanto para outras, é um desafio e uma ameaça. Essa coexistência de experiências chama a atenção para a necessidade de acompanhar as mudanças e se transformar… ou então encarar a extinção. A equipe técnica de Flow demonstra um cuidado meticuloso ao explorar visual e tematicamente a ascensão e queda das civilizações e crenças (os resquícios da presença humana são absolutamente angustiantes!), utilizando a água como metáfora para a transitoriedade (fluidez) da vida e das estruturas sociais. Com um desenho de som simples, mas muito funcional, o diretor constrói uma ambientação autêntica, e assim como a música, que abraça a atmosfera da obra intensificando a melancolia e a beleza presentes na jornada dos personagens, não descamba para o excesso. Esta obra-prima nos lembra de que algumas mudanças são inevitáveis, e que sobreviver à fluidez interna e externa depende de vencer medos, saber relacionar-se com os diferentes, abraçar a coletividade e abstrair, mesmo com sentimentos conflitantes, que vida e morte são faces de uma mesma moeda. Tudo flui. Tudo muda. E isso é o que dá sentido à existência.

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