Lista | Pennyworth – 1ª Temporada: Os Episódios Ranqueados

Nota da Temporada

Ninguém esperava realmente alguma coisa de Pennyworth. Mesmo assim, a série concretizou uma grande e boa revirada na carreira de Bruno Heller, criador tanto deste derivado protagonizado pelo mordomo do Batman, Alfred, quanto da mais conhecida Gotham. Depois da péssima temporada conclusiva do seu projeto anterior, Bruno Heller abraçou uma mitologia completamente renovada, sustentada tanto em um gênero muito específico – sem as esquizofrenias em termos de tom da outra série – quanto em propostas de arcos narrativos coesas – os personagens são muito bons, por sinal. Ora, os temas centrais da temporada mantiveram um mesmo eixo: a relação do homem com o seu propósito na Terra, a sua moral e ambições. Para aquele personagem que mais tarde tornaria-se um serviçal do Batman, acompanhamos sua trajetória, desde sua servidão irrevogável à Rainha, passando pela sua perversão mediante a necessidade por dinheiro, até chegar na sua derrocada e crença apenas num ímpeto vingativo. Logo, instiga-se um pensamento de que, mais tarde, teremos um Alfred destinado à crença de um ideal X – super-heróis são ideais, e é nesse ponto que, acredito eu, Heller anseia chegar. No mais, resta a expectativa pela renovação da série.

10º Lugar: Martha Kane

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O que acontece com Dave Boy e seu parceiro Bazza (Hainsley Lloyd Bennett), pelo menos nesse episódio, mostra ser pouco importante. Heller, pelo contrário, rejeita costurar uma trama a outra, como conseguiria caso tornasse as consequências de uma determinada morte acidental menos cômicas. Dentro de sua estrutura, o que se evidencia é apenas a constatação da vontade de Dave Boy em viver, apesar do seu tormento constante. Confere-se, portanto, uma conexão acerca das cicatrizes terríveis da guerra, que é compartilhada vagamente com o arco do protagonista. A sua conversa com Martha, em que aponta o pai da personagem como mentiroso, traça um paralelo mais concreto nesse sentido. Porém, a ausência de uma objetividade maior nas amarras entre os propósitos torna o episódio inteiro mais vago em relação às questões que aborda do que poderia.

9º Lugar: Pilot

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Embora a trama em si não convença pelo primeiro episódio, com elementos confusos surgindo à rodo, Bruno Heller prova trazer conteúdo. O roteirista certamente criou essa curiosa série com mais intenções que apenas imaginar aventuras descompromissadas do mordomo. Uma das melhores cenas do episódio, no caso, conta com Esme gritando para uma mesa de engravatados, clamando por socorro, apenas para ser ignorada. Em uma estruturação hierárquica, nada de mais marcante para se encerrar o episódio, assim sendo, que Alfred jurando à Rainha, beijando a sua mão. Essa construção do personagem, enquanto alguém imensamente leal, conversa diretamente com a sua simbologia classicista, onde é provavelmente a pessoa mais confiável para um herói ter ao lado. O mito da servidão é respaldado em várias cenas, como a no parque, em que Pennyworth justifica à Esme o seu passado mórbido na guerra, por justo amar a Coroa. Mas existem provocações a esse relacionamento quase às cegas. Pois, ao mesmo tempo, Danny Cannon, responsável pela direção, insere vários trechos desse passado de Alfred para o confrontar. O uso de tais cenas é cafona e não se mantém constante o episódio inteiro, entretanto, intensifica-se um processo importante de questionamento e percepção de quem merece nossa lealdade; quiçá os heróis, símbolos de ideais.

8º Lugar: Julie Christie

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A descoberta de que o Sr. Pennyworth (Ian Puleston-Davies) é um dos seguidores da organização secreta desponta no momento certo, no qual sabemos tanto de seu caráter complexo quanto de sua sincera afeição pelo seu filho. Bruno Heller, outra vez, faz questão de pontuar no episódio o carinho dos pais de Alfred pelo jovem, o que permite complicar e enervar o envolvimento em questão entre público e personagem. Os espectadores estão diante, como no caso de Thomas também, de um personagem com camadas. Essas cenas esbanjam verdade em termos de contextualização, mas também preocupação do roteirista em as costurar a situações posteriores, como essa da reviravolta, na qual mais nuances são atribuídas às construções de personagens. Ora, em um episódio que trata justamente do demônio dentro de cada um de nós, é justo colocar o pai do personagem principal em meio a uma seita bastante questionável. Quem não possui um parente que segue algo ou alguém que pensamos ser moralmente reprovável? Não apenas, portanto, rico em compor seus elementos, Pennyworth traça em meio a eles uma coesão, que promove um pensamento acerca da relação do homem com o dever, igualmente multifacetado.

7º Lugar: The Landlord’s Daughter

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Como acontece com Alfred, a personagem precisa submeter-se, no caso aos impulsos de um guarda, servindo-o momentaneamente até que possa virar o jogo. Em paralelo, a mulher envia cartas para certas pessoas, o que inclui Esme, provocando a namorada do protagonista – novamente, traça-se uma costura narrativa. Com um ritmo muito coeso, que avança as temáticas da série em meio aos seus desenvolvimentos de personagem e de enredo, o único desvio reside na ponte entre o protagonista repensar esse seu relacionamento e enfim se entregar a ele. O pedido em casamento é abrupto e não passa por uma construção, nem uma conversa de Alfie com um amigo seu. Mesmo assim, a premissa da união matrimonial redefine as prioridades do personagem, que não mais servirá apenas a si, contudo, também ao seu conjunto com Esme. Nesse seu segundo episódio, a série prova, portanto, a sua maturidade, tanto visual – por conta da nudez e das tripas – quanto narrativa, concluindo-se com uma amostra das contradições sociais, que soam legitimar a violência em todos os seus níveis. Parece que o mal reside em cada esquina.

6º Lugar: Cilla Black

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Do nada, o episódio embarca num caminho que lembra De Olhos Bem Fechados, clássico de Stanley Kubrick, trazendo Martha Kane (Emma Paetz) para adentrar, junto com a irmã de Thomas Wayne (Ben Aldridge), em uma festa secreta e demoníaca. Por sinal – em uma breve digressão -, Wayne também vive confrontações morais no episódio, assim como os demais personagens. Aqui, o revelado espião da CIA é obrigado a aceitar uma missão que possivelmente o condenaria enquanto assassino. Entretanto, o resultado, para sorte única e exclusiva de Thomas, é positivo, o que não acontece com os demais. Já Martha, por outro lado, se encaminha a um evento que se desdobra em alucinações. Conhecendo um anfitrião misterioso, a garota tem seus arredores transformados completamente. De uma festa encenada sem muitas malícias, o cenário logo torna-se ambiente de orgias. Eagles, nesse sentido, consegue capturar bem o desnorte da mulher. Mais enigmático, porém, é o término, quando Martha encontra-se pelada no meio do nada. Pennyworth, dessa maneira, continua a satisfazer a nossa curiosidade.

4º e 5º Lugar: Lady Penelope & Shirley Bassey

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Quando o personagem principal relembra de um amigo do seu passado com uma de suas frases, exemplifica enxergar a sua vida como sendo uma comédia, ao invés de uma tragédia. Nesse sentido, Lady Penelope contrapõe Shirley Bassey, por ambas serem obras de gêneros um tanto quanto distintos. Se um capítulo traz uma visão mais leve e cômica, ainda que mascarando a sua perversão intrínseca, o outro consolida um drama trágico mais pungente, com os fantasmas do passado do protagonista ganhando forma e rosto, em oposição a serem meras sugestões. Em contrapartida ao beijo ansioso entre Alfred e Martha anteriormente – posterior a uma química notória -, a transa do protagonista com a filha do dono do bar é impessoal, ocorrendo basicamente em meio a mais violência e sangue: Dave Boy (Ryan Fletcher) à beira da sua morte, esperando um médico. Consequentemente, comprova-se como hediondas as ações de Pennyworth. Nenhum dos casos amorosos é, no entanto, puro – a traição continua a ser moralmente condenável -, mas o personagem, com as atitudes que toma em consequência ao assassinato de sua amada, passa a não se importar mais em fugir das tentações.

3º Lugar: Sandie Shaw

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É que a série consegue expandir a sua costura de elementos a uma só unidade temática, que é demonstrar o sistema imoral dos poderosos. O controle dos cidadãos londrinos, portanto, torna-se um cerne importante ao capítulo e coeso, continuando com o estudo do seriado sobre a corrupção dos homens, que são alienados por várias forças que os comandam – como a presença do Diabo, retomada em uma conversa entre Thomas (Ben Aldridge) e Martha (Emma Paetz), avulsos no capítulo de maneira substancial, mas com presenças tangentes coerentes. Nesse sentido, a cena em que a mãe de Alfred, vivida por Dorothy Atkinson, percebe uma arma escondida na roupa do jovem define tudo o que se perdeu na caminhada – ora, até um momento de afeto é consumido pela perversão que o norteia. Já no posterior, em que todos os membros da família se reúnem, um sentimento mais puro de confraternização, em vista da segurança de todos, tenta se sobressair sobre o veneno consumido por aquelas pessoas, que ainda guardam segredos entre si. Haveria realmente outra solução possível para o desgaste ideológico, portanto, senão a prisão de Alfred?

2º Lugar: Marianne Faithful

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“Dane-se o fim”, comenta Alfred enquanto uma das pessoas que mais ama ameaça cometer um atentado terrorista, querendo assassinar a Rainha e outros nomes poderosos do governo. Para o protagonista, não importa se ao final das coisas a Inglaterra se tornar mesmo um lugar melhor – muito provavelmente não -, em vista da barbárie cometida pelo seu pai, que está pensando na re-ascensão da Sociedade dos Corvos. O que importa é o próprio, vivo e colecionando memórias com seus parentes. No mais, em um episódio coeso, mesmo a trama paralela à principal compreende essas questões que contrapõem ideais grandiloquentes às verdades mais minimalistas. Quando Martha (Emma Paetz) e Thomas (Ben Aldridge) se rendem ao primeiro beijo entre eles – em meio a um senso cômico inerente -, é esclarecido que Heller quer colocar a intimidade como um ponto contrário a qualquer luta maior. O atentado contra a vida de Thomas, em um dos ganchos que a temporada criou, é justamente o contraponto a essa noção de que o que vale são as relações pessoais. Os fins, portanto, não justificam os meios, pois do que vale o mundo mudado sem você?

1º Lugar: Alma Coogan

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Em meio a uma encenação dramática impecável, com interpretações precisas, existe credibilidade durante as pausas que o episódio oferece para o garoto se reconciliar com os seus progenitores e encarar as consequências que as suas desventuras causam neles – o roteiro, contudo, traz um câncer ao pai dele que surge de modo previsível. No entanto, no que se refere à compromisso, a série mostra isso em relação aos seus personagens, por dar espaço para que nos mobilizemos não apenas no sentido deles viverem ou não – o que costuma ser o mote básico de séries assim -, mas deles sofrerem ou não. Logo, parece que Heller enxerga a união entre pessoas como um fim moral, acima de todas as coisas. Não só entendemos como verossímil a desistência de Alfred em assassinar seus alvos – em vista dos vínculos pessoais existentes entre eles -, como lamentamos o ocorrido por ele distanciá-lo ainda mais de seus pais. É complexo, portanto, o misto de sensações que a série promove, no ápice da constatação dos bons personagens que construiu.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.