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Lista | Rainer Werner Fassbinder – Os Filmes Ranqueados

por Luiz Santiago
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IMPORTANTE: Cada indicação abaixo usa apenas um parágrafo da respectiva crítica! É só clicar nos links para ler os textos completos!

A carreira de Rainer Werner Fassbinder começou em 1967, quando se juntou ao Action-Theater de Munique – contra a vontade de parte do grupo, que via nele, um jovem de 22 anos, um intrometido – mas em apenas um ano ele conseguiu se tornar membro efetivo e respeitado, assumindo a liderança do grupo, que encenou sua peça O Machão (obra que depois viria a se tornar filme) em 1968, resultando no fechamento do teatro pela polícia um mês depois. Era o início de uma jornada artística intensa.

Fassbinder dirigiu 44 filmes em apenas 16 anos de carreira (uma dessas obras, o seu primeiro primeiro curta, infelizmente se perdeu), tanto para o cinema, quanto para a TV. Ainda trabalhou no teatro e atuou em obras de outros diretores. A presente lista traz todas as produções assinadas por Fassbinder e ranqueadas por mim, da pior para a melhor.

Você conhece a filmografia desse diretor? Quais são os seus filmes favoritos dele? Quais os que mais te tocaram? Faça a sua própria lista nos comentários e deixe sua opinião sobre esse Mestre do Novo Cinema Alemão!

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43º Lugar: O Café

O Café tem um valor de destaque para fase do Antiteatro na carreira de Fassbinder e mostra o lado mais cru e teórico de seu trabalho com a encenação direcionada para outro objeto que não o palco. No futuro, ele revisitaria esse mesmo conceito sob outra plataforma de intenções, porém, desta feita, com resultados bem mais interessantes.

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42º Lugar: O Pequeno Caos

Ao som de I Can’t Control Myself, do The Troggs, a cena final põe fim ao pequeno caos indicado no título. Pelo menos um fim aparente. Nada indica que o grupo não voltará a assaltar e, pelo modo como o plano é executado, há quase uma certeza que sim, voltará. O cinema entra aí como um elemento de fuga para essa juventude desregrada e amoral, que imita o gângster americano e vai ao cinema assim que termina de assaltar um apartamento. O Pequeno Caos é uma crônica sobre a delinquência juvenil alemã nos anos 1960, um instantâneo de uma época.

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41º Lugar: Amor e Preconceito

Belo, exagerado em sua concepção artística e uma boa adaptação para a obra de Theodor Fontane, Effi Briest é um filme difícil de agradar plenamente. Fassbinder acerta muito em alguns aspectos — como na composição dos planos, na escolha precisa da trilha sonora e direção de atores — mas perde a mão em outros, como na forma que o roteiro foi construído e, principalmente, na orientação para a montagem. Ao término da fita, uma coisa é certa: o público está imerso em sentimentos conflitantes, seja em relação ao conteúdo da obra, seja em relação à obra em si. Ou, em alguns casos, aos dois.

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40º Lugar: Pioneiros em Ingolstadt

A história é simples e Fassbinder não investe em um trabalho muito escrupuloso de direção – algo comum em seus filmes para a TV, normalmente mais “descuidados” –, todavia, a trama coloca em cena uma temática forte e de mistura de estilos, juntando questões sociológicas relacionadas à luta de classes, ao feminismo, militarismo, machismo e abuso de poder dentro de uma perspectiva já vista anteriormente em longas do diretor como O Soldado Americano ou, em termos de relações pessoais, em O Machão.

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39º Lugar: Rio das Mortes

Rio das Mortes é o filme de Fassbinder onde vemos o seu primeiro e sólido passo de distância do antiteatro. A obra marca o início de seu flerte com um aspecto muito mais forte entre indivíduo em sociedade, uma visão que, convenhamos, é o núcleo de sua carreira, mas que vez ou outra deu lugar a filmes que caminhavam pelas bordas dessa questão ou a traziam para o centro de uma discussão ainda maior em jogo.

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38º Lugar: A Liberdade de Bremer (Afinal, Uma Mulher de Negócios)

Mas A Liberdade de Bremer não usa a posição da mulher oprimida como moeda de vingança. E nem os assassinatos são o foco central da trama. O diretor nos apresenta, na verdade, um pequeno estudo sociológico e psicológico, onde vemos destilar-se o veneno machista sobre Gesche — a protagonista vivida de maneira louvável por Margit Carstensen, que havia acabado de sair de As Lágrimas Amargas de  Petra Von Kant — e a forma como ela passa de esposa submissa e dominada para alguém que tem total controle de suas ações, desafiando regras preestabelecidas e se tornando, enfim, uma mulher de negócios.

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37º Lugar: Como Um Pássaro Sobre o Fio

Telefilme diferente de tudo o que Fassbinder já havia feito e ainda faria em sua carreira (guardando, talvez, alguma semelhança de concepção com Teatro em Transe), Como Um Pássaro Sobre o Fio é uma espécie de junção de pequenos clipes musicais unidos pela história de vida da atriz Brigitte Mira, que canta algumas canções dos anos 40 e 50 enquanto nos faz conhecer certos episódios de sua vida, a maioria manipulados pelo roteiro de Fassbinder, Hauptmann e Hohoff.

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36º Lugar: O Soldado Americano

Ao fechar a trilogia sobre os filmes de gângster, Fassbinder se entrega desnecessariamente ao subjetivo e finaliza um filme cujo valor está aquém de sua capacidade como diretor e que tinha muita coisa para ser bem melhor. Há uma ideia de abandono e desalento interessantíssima nas entrelinhas e a impressão de que não há esperança de melhoras para a sociedade pós-guerra é algo patente na projeção. Todavia, a narrativa ficou demasiadamente à superfície, uma falta de profundidade que custou a simpatia do público e muito da qualidade geral da obra.

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35º Lugar: O Machão

O Machão é a forma ampliada de uma peça escrita por Fassbinder para o Antiteatro, um coletivo de atores cujo objetivo era levar ao palco as mudanças sociais da Alemanha do pós-guerra, numa estrutura cênica e textual inspirada em Brecht. No cinema, Fassbinder transitaria de forma curiosa entre o palco e a tela, um tráfego que marcaria a primeira fase de sua filmografia (antes do contato com Douglas Sirk e Max Ophüls), e cuja marca estética principal foi a Nouvelle Vague.

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34º Lugar: Mulheres em Nova York

Baseado na peça The Women (1936), de Clare Boothe Luce, o filme foi uma produção para a televisão alemã que contou com toda a elegância de Fassbinder na direção, além de sets deliciosamente exagerados (um kitsch que coube muito bem ao contexto da peça), além de apresentar um tratamento bastante plural, ora irônico, ora histérico, ora cínico, que lembra um pouco a versão de George Cukor para a mesma peça (As Mulheres, 1939) e se diferencia imensamente de outras adaptações como a de David Miller, O Belo Sexo (1956) e a de Diane English, Mulheres – O Sexo Forte (2008).

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33º Lugar: A Viagem de Niklashauser

Em A Viagem de Niklashauser, seu primeiro filme a quebrar com o estilo do antiteatro, Fassbinder trabalhou ao lado de Michael Fengler, com quem dividiu os créditos de roteiro e direção. Fengler já havia sido parceiro de Fassbinder em Por que Deu a Louca no Sr. R.? e voltou a repetir a dose neste telefilme sobre o pastor Hans Böhm, que em 1476 foi condenado à morte na fogueira pela igreja. O motivo? O pastor dizia ter visto a Virgem Maria. Após o fato, dedicou-se à pregação do evangelho e foi tido pelos camponeses de seu feudo como um novo Messias. Como sabemos, a igreja não gostava nada disso, especialmente nesse momento da Idade Média, portanto, a condenação de Böhm não é nenhuma novidade dentro de seu contexto histórico.

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32º Lugar: Whity

A história de Whity se passa nos Estados Unidos, em 1878. O personagem-título, vivido por Günther Kaufmann, é filho bastardo de um rancheiro nada escrupuloso e vive em um ambiente onde um de seus irmãos e sua madrasta tentam se livrar o mais rápido possível do patriarca para gozarem da herança. Paralelamente, o relacionamento de Whity com uma cantora e prostituta do saloon (vivida por Hanna Schygulla, estonteante, como sempre) ganha contornos sociais na obra e aparece como o segundo ponto de um roteiro que não tem intenção nenhuma de contar uma história com corpo identificável e lógica dramática. Whity é, acima de tudo, um assalto criativo a um gênero cinematográfico, um filme inacabado sobre relações de poder e sexo no Velho Oeste.

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31º Lugar: Roleta Chinesa

A ironia volta ao final, com a procissão e os votos de casamento estampados na tela, uma última cena marcada pelo mistério de um tiro que não vemos, o mistério possivelmente trágico para uma família aparentemente normal, algo bem diferente daquilo que imagináramos nos primeiros minutos do longa. No final das contas, nem descobrimos o elo fraco e nem temos pistas sobre a verdade. O diretor joga roleta chinesa com o público e o “indivíduo frágil” escolhido por ele está do outro lado da tela, tentando dar significado a tudo o que acaba de ver.

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30º Lugar: Por que Deu a Louca no Sr. R.?

Com um uso de trilha sonora aquém do esperado, filmado em espaços diminutos e priorizando os planos rasos, Por que Deu a Louca no Sr. R.? nos lembra o exercício futuro de Michael Haneke em O Sétimo Continente, exatamente porque prepara um cenário onde aparentemente tudo funciona e, no fim, nos apresenta uma impiedosa e perturbadora quebra dramática com a verdadeira realidade. Acaba sendo um alívio, no final das contas, por mais sádico que isso pareça. Enfim, o protagonista se livra (e aos atores sociais de seu circo pessoal de máscaras e dor) da humilhação e “invisibilidade” social que sofre. Pela primeira vez no filme, as pessoas realmente olham para ele. Mas isso já não tem mais importância nenhuma.

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29º Lugar: Nora Helmer

Fassbinder joga com o contexto de A Casa de Bonecas da maneira mais inteligente possível, misturando significados e ampliando as possibilidades para servir a uma mulher do século XX, o que de fato torna o filme atemporal (embora a peça, se o leitor/espectador tiver a sensibilidade necessária, também o seja). Vendo seus personagens através de espaços entre desenhos e móveis, o diretor se afasta da cena. Ao espectador, sobra o resultado desse afastamento, do desapego à forma de construir um drama criando uma forte relação entre público e personagens. Aqui, a ligação é oculta. Nós, espectadores, é quem a buscamos. E o que encontramos é pura indiferença e desfaçatez.

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28º Lugar: Teatro em Transe

Teatro em Transe (1981) foi o primeiro e único documentário dirigido por Fassbinder. Intercalando trechos de O Teatro e Seu Duplo, de Antonin Artaud e cenas de diversos espetáculos do festival Theater der Welt (Teatro do Mundo), em Colônia, o diretor faz um apanhado das raízes do teatro, passando pelas intenções políticas dessa arte, sua possibilidade de mudar ou não o mundo, os diferentes olhares que se pode ter para o que está no palco e, principalmente, qual é o sentido de “fazer teatro”.

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27º Lugar: O Vagabundo da Cidade

O roubo da arma e a atitude do vagabundo em matar os ladrões é um golpe de realização advinda da frustração. Nada aconteceu, no final das contas. Mas se olharmos com maior atenção, o vagabundo morrera ainda mais por dentro. E, ironicamente, ele está sozinho quando mais precisa de alguém. A solidão, a pobreza e o cadáver interno é o que resta no final de O Vagabundo da Cidade, com um homem deitado no chão de um parque, atirando, de forma imaginária, em duas pessoas que ele desejava ardentemente que fosse ele mesmo.

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26º Lugar: A Encruzilhada das Bestas Humanas

Em A Encruzilhada das Bestas Humanas, um filme feito para a TV alemã, Fassbinder problematiza a relação trágica do romance juntamente com o sexo e a morte, adicionando elementos cristãos, cobrando um engajamento moral do espectador e criando nuances melodramáticas revestidas de normas clássicas (guardadas as devidas proporções, algo à la Chamas Que Não se Apagam, de Douglas Sirk), atitudes que fazem deste longa pouco conhecido e bastante subestimado um de seus filmes mais interessantes em termos narrativos e formais, especialmente nos setores de direção e montagem.

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25º Lugar: O Assado de Satã

Há um enorme pano de fundo niilista em O Assado de Satã, a começar do título. O espectador, no entanto, deve buscar, em meio a tanta acidez cômica ou desesperança de existência, algo que vá além da aparência, não tentando dar significado a tudo, mas procurando entender o por quê de tais elementos terem sido agrupados em um mesmo diabólico assado, como uma espécie de olhar divino sobre a obra de Mefistófeles no mundo, onde regras de normalidade e bom-mocismo simplesmente não existem.

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24º Lugar: Querelle

Lançado quase três meses depois da morte de seu diretor, Rainer Werner Fassbinder, Querelle (1982) é uma poética e instigante adaptação de Querelle de Brest, romance de Jean Genet escrito entre 1945 e 1946, mas lançado apenas em 1947, na França. Dada a escrita peculiar de Genet e as muitas modificações no roteiro que Fassbinder fez ao primeiro tratamento textual de Burkhard Driest, o filme ganhou um aspecto de sonho, a crônica de um delírio violento totalmente marcada pela masculinidade, em inúmeros de seus aspectos positivos e negativos, da emoção e afetividade às visões de mundo e sexualidades.

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23º Lugar: Lili Marlene

Lili Marlene é o “elo perdido” entre Berlin Alexanderplatz e os filmes finais da Trilogia da Alemanha Ocidental. É um longa de bastidores, um olhar para a cultura de espetáculos nazista sem ter Goebbels em cena; um filme que mostra que uma música pode ser utilizada como enlevo de um regime e, ao mesmo tempo, ser considerada degradante pelo mesmo grupo; ou como uma mesma canção pode ser ouvida como memória positiva de um amor e também objeto de tortura. Duvido que alguém termine a sessão sem cantarolar os versos de Lili Marlene mentalmente.

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22º Lugar: Bolwieser – A Mulher do Chefe de Estação

Bolwieser – A Mulher do Chefe de Estação (1977) é um dos filmes de R.W. Fassbinder que mais opõe opiniões. Alguns espectadores se incomodam com o roteiro teatral (o longa é a adaptação da obra de Oskar Maria Graf, escrita em 1931) e o ambiente meio trash onde vive essa “mulher do chefe da estação”, com seus amantes lascivos e um marido submisso que vai definhando no decorrer da história. Outros espectadores apontam o excelente trabalho de produção da obra, desde a trilha sonora ironicamente romântica e pontualmente dramática de Peer Raben à direção preciosa de Fassbinder. Ambos os lados estão certos.

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21º Lugar: Alemanha no Outono

Alemanha no Outono (1978) é um filme coletivo, feito por um grupo de 11 cineastas alemães no calor de uma série de acontecimentos sociopolíticos que abalaram a opinião do país no segundo semestre de 1977: o assassinato de Hanns-Martin Schleyer (o odiado Presidente da Confederação de Empregadores da Alemanha Ocidental); o sequestro do avião da Lufthansa (famoso caso do voo 181, que desencadeou a operação “Fogo Mágico” em Mogadíscio, na Somália); e o posterior suicídio na prisão de Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Jan-Carl Raspe, da RAF, Fração do Exército Vermelho.

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20º Lugar: Oito Horas Não São um Dia

Oito Horas Não São um Dia (1972 – 1973) aparece justamente na fase melodramática do diretor, que vinha em uma sequência de trabalhos na televisão, o primeiro imediatamente após o início desta minissérie — A Liberdade de Bremer, que estreou em dezembro de 1972–; o segundo, A Encruzilhada das Bestas Humanas, pouco antes da exibição do terceiro episódio, Franz e Ernst; e o terceiro no final de 1973, a excelente minissérie Mundo ao Telefone, também sob as asas da WDR. Em níveis diferentes de intensidade, abordagem formal, grupo social de destaque ou foco dramático, o diretor procurava transmitir as inquietações da vida na Alemanha setentista, fazendo, na presente minissérie um épico drama familiar que pode caber em diferentes leituras.

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19º Lugar: Precauções Diante de uma Prostituta Santa

Poderíamos ver a personificação da “puta sagrada” na formação da Comuna (o trocadilho com o comunismo e a brincadeira com o pessoal do Antiteatro são propositais), que em uma dieta destrutiva de Cuba Libre, gritos e atuações anti-naturalistas tenta realizar o longa Patria o Muerte em um hotel, na Espanha. Também poderíamos vê-la no próprio filme a que estamos assistindo. Ou ainda no próprio cinema, a arte diante da qual a precaução é a palavra de ordem, afinal, o caos, o desespero, a brutalidade e a amargura estão em todos os seus meandros de produção, esperando por mais uma vítima atrás das câmeras, escondida das telas, além das bilheterias e do sucesso ou fracasso da fita pronta.

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18º Lugar: O Amor é Mais Frio Que a Morte

Fassbinder dedica O Amor é Mais Frio Que a Morte para Claude Chabrol, Eric Rohmer e Jean-Marie Straub, tendo ainda um agradecimento especial para este último, por sua contribuição nas filmagens de uma cena do filme em particular. Fassbinder estreava então o seu primeiro longa-metragem com uma clara homenagem à Nouvelle Vague, influência já percebida em diversos graus nos curtas O Vagabundo da Cidade e O Pequeno Caos e que agora ganhava uma forma maior e mais delineada, apesar da insegurança narrativa do jovem diretor de 23 anos.

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17º Lugar: Martha

Talvez um pouco teatral demais para o tema que explora — embora eu reconheça que esse esse ponto pode não ser algo negativo para outros espectadores — Martha é um filme sobre um casal condenado, um espelho de uma relação histórico-social cujo objeto refletido jamais se curou de sua doença primária, que é querer dominar o máximo possível através do medo refinado e de uma disfarçada opressão.

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16º Lugar: O Direito do Mais Forte é a Liberdade

O Direito do Mais Forte é a Liberdade marca o início da reformulação conceitual do cinema de R.W. Fassbinder, um momento que, de início, ainda matinha forte relação com o estilo sirkiano (aqui, especialmente, Tudo o que o Céu Permite) de guiar os dramas amorosos e as relações humanas através da forma do filme, mas que muito rapidamente ganhou cores distintas e identidade revigorada, um “produto final” resultante de diversas influências que desembocariam na famosa fase histórica da filmografia do diretor, iniciada em 1977, com Bolwieser – A Mulher do Chefe da Estação.

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15º Lugar: A Viagem de Mãe Küster Para o Céu

Baseado em uma história de Heinrich Zille, A Viagem de Mamãe Krause Para a Felicidade, filmada em 1929 por Phil Jutzi, o longa de Fassbinder tem uma forte abordagem política, colocando várias inclinações como alvo de críticas: o capitalismo, o socialismo e o anarquismo, um ciclo completado pela visão ácida do diretor para o papel sensacionalista da imprensa e para as complexas relações familiares.

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14º Lugar: Os Deuses da Peste

Os Deuses da Peste é o primeiro filme da “fase teatral” de Fassbinder a trazer de maneira clara elementos que seriam marca registrada do diretor no futuro. Sua disciplina espartana para escrever roteiros e dirigir (sem ensaios e sem repetições) fez com que ele chegasse a 10 filmes em apenas 4 anos de carreira, o que evidentemente abriu espaço para a sua maturidade precoce já a partir de 1971. É justamente neste ponto que vemos o motor de sua criatividade mais rigorosa começar a funcionar.

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13º Lugar: O Comerciante das Quatro Estações

O Comerciante das Quatro Estações, também conhecido como O Mercador das Quatro Estações, estreou na Alemanha Ocidental em 4 de novembro de 1971, quando Fassbinder já havia tido o revolucionário contato com a filmografia de Douglas Sirk. A partir deste momento de sua carreira, vemos um progressivo (mas nunca total) distanciamento em relação ao Antiteatro, como se existisse uma ponte artística entre os longas de abertura e fechamento daquele período – O Amor é Mais Frio que a Morte (1969) e Precauções Diante de uma Prostituta Santa (1971) – e este marco estilístico que se tornou O Comerciante das Quatro Estações, obra que serviu como porta de entrada para os melodramas distanciados do diretor.

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12º Lugar: Mundo ao Telefone (O Mundo Por Um Fio)

Em 1990, Godard citaria esta obra de Fassbinder em seu longa Nouvelle Vague e, nove anos depois, os filmes Matrix e O 13º Andar nos trariam exatamente a mesma temática, cada um a seu modo, ambos fortemente influenciados por Simulacron-3 e, especialmente no caso de Matrix, marcados pelo simbolismo rico e tratamento técnico que Fassbinder deu à obra de Galouye neste Mundo ao Telefone.

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11º Lugar: A Terceira Geração

Propositalmente esquecido e tardiamente lançado em home video, o filme permanece atual e muito preciso em suas reflexões, embora seja uma daquelas películas do tipo “ame ou odeie”, o que, convenhamos, não é muito diferente daquilo que temos para a maioria das produções fassbinderianas. Mesmo tantos anos depois, A Terceira Geração é um filme que [ainda] precisa ser descoberto.

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10º Lugar: Despair – Uma Viagem Para a Luz

Despair é um filme sobre estar à beira do precipício. Fassbinder disse sobre a obra que ele imaginava algo como um “rearranjo de vida […] quando não apenas a mente, mas o corpo percebem que o jogo chegou ao fim“. A tragédia com pitadas de esperança a que o cineasta nos apresenta é um mergulho de fora da sociedade para dentro da alma do homem. Nunca “viajar na luz” foi algo tão tentador, tão contraditoriamente sombrio e angustiante quanto neste filme.

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9º Lugar: O Medo do Medo

Em mais um excelente trabalho em parceria com a atriz Margit Carstensen, o diretor cria no telefilme Medo do Medo (1975) um estudo melodramático da opressão “invisível” sobre a mulher, que, ao longo da trama, ganha tons alegóricos não só a partir da protagonista mas também das outras mulheres que fazem parte desse estranho universo: a sogra, a cunhada e a filha de Margot, a perturbada e aflita personagem de Carstensen.

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8º Lugar: O Medo Consome a Alma

Brutal, de certa forma profético e dirigido com uma precisão quase irritante — a composição dos quadros são como pequenos palcos para cada “ato” do longa, com destaque para o apartamento de Emmi e o bar Asphalt –, O Medo Consome a Alma é um notável filme sobre a humanidade e os sentimentos humanos dentro de uma comunidade e sob influências históricas sobre as quais não tem controle. Seu enredo é cada vez mais atual e seu final, um dos mais tocantes da história do cinema. Fassbinder realiza aqui uma obra-prima simples e ao mesmo tempo poderosa e atemporal. Uma película difícil de ser esquecida.

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7º Lugar: Lola

Fassbinder mais uma vez acerta em cheio na direção (a dramaturgia de seus filmes sempre deixa o espectador de queixo caído, principalmente depois das mudanças estilísticas que ele empreendeu depois de Precauções Diante de uma Prostituta Santa) e Peer Raben na composição da trilha sonora, um duo que faz de Lola uma sátira política, humana e amorosa impossível de ver um só vez.

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6º Lugar: O Casamento de Maria Braun

A protagonista do longa é interpretada por Hanna Schygulla, que não filmava com Fassbinder desde Amor e Preconceito (1974), uma pausa feita após desentendimentos artísticos entre os dois, segundo Fassbinder, por uma “crise de estrelismo” da atriz, algo que a amizade que tinham há anos conseguiu superar, fazendo-os retomar a parceria que duraria até Lili Marlene (1981), realizado um ano antes da morte do cineasta.

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5º Lugar: Berlin Alexanderplatz

A versão de Berlin Alexanderplatz por Fassbinder começa com uma torrente de emoções, mostrando como alguém com inúmeros problemas pessoais, psicológicos e sociais tenta se encaixar no mundo, procurando tornar-se alguém melhor, mas muitas vezes sendo tomado pela corrente, ao mesmo tempo liberando muito mais do que tem te ruim em si, e sofrendo os horrores causados pelos outros. Uma cadeia de dor que só pode mesmo ser visto como um castigo. E aqui presenciamos como tudo começa, com um filtro difuso utilizado pela fotografia, com atuações fantásticas, trilha sonora que ora ameaça e ora dança com o ambiente, mais uma direção que integra a abordagem teatral das cenas internas ao principal assunto discutido: uma sociedade doente que estava prestes a piorar.

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4º Lugar: O Desespero de Veronika Voss

Fassbinder dirige os atores dentro de “espaços de personalidade”. Cada persona em cena é um universo que vive em um universo maior, manipulando-o como um reflexo de sua alma e personalidade. O mundo pós-guerra criado pelo diretor conclama a morte pelo desespero, pela busca de um significado ou de uma paz que é impossível alcançar porque o vício ou as sequelas de um passado recente atormentam a memória e empurram o indivíduo para a morte. O Desespero de Veronika Voss esquadrinha a alma e a existência em uma Alemanha que se reconstrói, porém, sob os mortíferos pilares do vício e da indiferença.

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3º Lugar: Em Um Ano de 13 Luas

Dotado de uma beleza crua, cheio de cores quentes e opressivas (a exemplo de Querelle) e dirigido com primazia, Em Um Ano de 13 Luas não é só um dos filmes-chave e mais cruéis de seu diretor, mas também um dos grandes ensaios dramáticos sobre desejo, pulsões sexuais, hipocrisia social e o disfarçado vampirismo daqueles que estão ao redor. Um filme tremendamente pessimista, sombrio e frio (mais frio que a morte), retratando alguém que só queria ser visto, entendido e respeitado como pessoa. A vida de alguém que simplesmente queria existir.

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2º Lugar: Eu Só Quero Que Vocês me Amem

O título de aparência romântica e alguns frames isolados de Eu Só Quero Que Vocês me Amem (1976) podem dar uma impressão errada sobre o objeto central do filme. É importante deixar claro que não se trata de uma busca libidinosa por amor ou de uma gratuita entrega de alguém a essa busca, lugar-comum de determinados enredos sobre relacionamentos humanos. O que temos aqui é a versão de R.W. Fassbinder para o homem engolido pelos aspectos simples do “cotidiano burguês” — pessoal e financeiramente — sem a aparência de um discurso militante ou qualquer coisa que o valha.

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1º Lugar: As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant

Foi a partir de Petra Von Kant que Fassbinder se entregou de corpo e alma aos roteiros que mostravam quase exclusivamente personagens femininas em conflito com os mais diversos ambientes dramáticos, fase de sua carreira marcada pela influência dos melodramas de Douglas Sirk que já havia, inclusive, pautado o seu filme anterior, o fantástico Comerciante das Quatro Estações (1971).

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