Avaliação das temporadas
(não é uma média)
- Há spoilers.
Em um ano politicamente assustador nos EUA, Trey Parker fez algo sem precedentes mesmo em South Park: tirou completamente as luvas de pelica e passou a atacar direta e explicitamente a presidência de Donald Trump e todos os inacreditáveis absurdidades feitas nesse período. E isso em meio à aquisição da Paramount pela Skydance e todo o risco que isso poderia representar para a série, além do lançamento dos episódios de maneira errática que levantou rumores de que ela estaria sendo censurada, e até mesmo a “divisão surpresa” dos 10 capítulos prometidos em duas temporadas de cinco cada, o que excepcionalmente me levou a fazer um ranking apenas levando em consideração as duas temporadas, até porque a linha narrativa é contínua. Temos que também lembrar que houve a renegociação bilionária do contrato com Parker e Matt Stone por uma das propriedades audiovisuais mais valiosas da televisão americana.
E o resultado é que as duas temporadas em conjunto, que contam a história da vinda do Anticristo, que seria o “bebê anal” de Trump com ninguém menos do que Satanás, desancam Trump e todas as demais figuras bizarras que gravitam ao redor do presidente laranja, em um daqueles casos mais explícitos que revelam como a ficção, hoje em dia, precisa correr atrás da realidade. Há uma uniformidade qualitativa muito boa ao longo dos 10 episódios, mesmo que a história vá ficando cada vez mais surreal e mesmo que, por vezes, o material base, ou seja, o grupo de crianças de South Park, seja deixado de lado para privilegiar a trama macro na Casa Branca. Mas faz parte do jogo, com Parker testando as águas da aceitação de algo tão abertamente crítico que para muitos parece ter revelado que, ora, ora, vejam só, a série é política, algo que ela foi desde seu primeiríssimo episódios há tanto tempo atrás. Agora é aguardar para ver como é que Parker continuará lidando com o segundo ano da presidência de Trump, pois ele ainda tem material pacas para explorar só aí.
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Como fazemos em toda série ou minissérie que analisamos semanalmente, preparamos nosso tradicional ranking dos episódios – desta vez das duas temporadas juntas, como uma coisa só – para podermos debater com vocês. Qual foi seu preferido? E o que menos gostou? Mandem suas listas e comentários!
10º Lugar:
Conflito de Interesses
27X05
Apesar de seus momentos cômicos, essa linha narrativa do bebê de Satã me parece fraca, diluída e repetida vezes demais só para permitir que Carr estragasse os planos de Trump depois que ele é influenciado não muito discretamente (não que Trump fosse perceber, lógico) por seu vice-presidente Tatu, ops, J.D. Vance e permitir a menção à perda da liberdade de expressão ao final. Foi tangente demais que Parker pegou para passar ao largo do problema maior e evitar polêmica (afinal, o episódio em que Kirk é zoado foi considerado pelo exército de doentes como uma das causas do assassinato, sendo que o próprio Kirk havia declarado ter adorado o que foi feito), algo que não é do feitio dele sem se curvar à exigências vindas de cima como eu desconfio que vieram. Mas, claro, espero fortemente estar enganado.

9º Lugar:
Baba-Ovo
27X03
Mais uma vez, Parker acerta em cheio em suas críticas venenosas e muito verdadeiras, mesmo sacrificando o uso da quadra central de personagens e também arriscando-se a uma certa repetição de temas entre os dois núcleos principais de Baba-Ovo. Não chega ao mesmo nível dos dois primeiros episódios da temporada por essas razões, mas, o nível de qualidade geral é, ainda bem, mantido, sem nenhum tipo de suavização à pegada direta e sem freio sobre o que inacreditavelmente acontece com os EUA no momento.

8º Lugar:
A Cagada Final
28X05
Apesar de toda a bem-vinda crueza de A Cagada Final, que consegue efetivamente levar a narrativa macro a um final que faz sentido do jeito South Park de ser dentro de cenário absurdista da realidade retratada, tenho para mim que Parker poderia ter cuidado para trazer Cartman, Kyle e Kenny para esse encerramento. Afinal, temos que lembrar que toda a história de Trump, apesar de tangenciar South Park, foi quase independente da série, em uma das raras situações em que é perfeitamente possível separar uma coisa da outra em todos esses anos da série. Um final com os quatro amigos interagindo com a história macro teria sido uma maneira de estabelecer coesão narrativa com o espírito de South Park, ainda que, mesmo sem eles, a presença de um solitário Stan acabe sendo uma alternativa viável. Minha única dúvida é se Trey Parker pretende continuar a extrair ouro desse mesmo veio, considerando que ainda há três anos da presidência de Trump pela frente, e, se pretender, ele não encontrará obstáculos dentro do próprio conglomerado de entretenimento em que trabalha. Mas isso é coisa para descobrirmos em 2026 somente…

7º Lugar:
Corrida do Peru
28X04
Em seu episódio de Thanksgiving, a 28ª temporada de South Park entrega um dos raros capítulos de 2025 que é quase que integralmente passado na cidadezinha que dá nome à série, com uma Corrida do Peru patrocinada pela Arábia Saudita servindo de gatilho narrativo para Eric Cartman deixar mais uma vez bem claro o quanto ele é um racista de um tipo muito comum por aí que não tem a exata consciência do que ele é e para a introdução de outra figura do Governo Donald Trump cuja existência é mais estranha do que a ficção. Baseando-se fortemente, como de praxe, em frase de duplo sentido em inglês que se torna intraduzível para o português e em um certo grau de conhecimento do que vem acontecendo especificamente nos EUA dada a boa escolha da produção em tirar por completo o véu crítico, Corrida do Peru é mais uma pérola que Trey Parker traz para o deleite de seus espectadores.

6º Lugar:
Sora Mais
28X03
Focando a história que se passa efetivamente na cidade de South Park nas críticas à emergência da inteligência artificial, Trey Parker conecta Sora Mais com O Wok Já Era, o quarto episódio da temporada anterior, mais especificamente com a manipulação de Butters por Red, seu crush, para que ele a presenteasse com um Labubu especial que acaba sendo usado em um ritual satânico, que, se não é, deveria mesmo ser o principal uso desse horroroso objeto de desejo que, conforme foi anunciado recentemente, será transformado em um longa-metragem, por mais inacreditável que isso pareça para mim. Procurando vingança, Butters usa a inteligência artificial Sora 2, desenvolvido pela OpenAI, para criar um deepfake em que Red comete ignomínias e que, claro, logo viraliza por toda a escola, levando a menina ruiva a dar o troco e, com isso, iniciando uma linha narrativa que trabalha muito bem a fronteira entre realidade e ficção, entre o falso e o verdadeiro.

5º Lugar:
O Wok Já Era
27X04
São os Labubus os alvos de uma briga entre duas meninas na escola de South Park que Cartman logo detecta e chama seus colegas para assistir e que as leva diante da presença de Jesus, agora psicopedagogo, que fica estupefato primeiro sequer sem saber o que são essas pelúcias dentuças e, depois, sem saber o que fazer diante do que brigar por elas representa. E é um Labubu o objeto de desejo de Red, menina prestes a fazer aniversário, que interesseiramente convida Butters para sua festa pedindo de presente um Labubu raro específico, sendo que esses Labubus são vendidos em blind boxes, ou caixas fechadas, em que ninguém pode saber o conteúdo, fazendo com que mais dinheiro seja jogado no lixo em compulsões gastadoras. Mal sabe o coitado do Butters, porém, que Labubus raros são usados em cerimônias satânicas, muitas delas transmitidas em redes sociais, e é exatamente isso que ele acaba testemunhando, com a invocação demoníaca de ninguém menos do que… o indefectível Líder Laranja do “Mundo Livre”, o que, então, finalmente cria a ponte entre uma crítica desconectada do que vinha sendo o foco exclusivo da temporada até agora com a realidade mais estranha que a ficção que Trey Parker corre atrás para tentar ecoar em sua animação.

4º Lugar:
Cristão Distorcido
28X01
No entanto, a melhor linha narrativa do episódio é a revolta do próprio Cristo contra tudo o que vê ser feito em nome da religião que ele catalisou. Sim, é didático pacas, mas, às vezes, explicar que as leituras convenientes que se fazem da Bíblia para encaixá-las em crenças aviltantes, imorais, preconceituosas e desumanas parece ser a melhor saída. Afinal, se alguém realmente acredita que a Terra tem poucos milhares de anos com base nos “textos sagrados” e que tudo o que está escrito ali é literal, então esse alguém realmente precisa ter tudo explicadinho o tempo todo. O único problema é que não adianta absolutamente nada explicar alguma coisa à essa gente, já que é mais fácil, como Parker deixa bem claro ao final, o próprio Cristo ser convertido em um mondrongo repetidor de baboseiras inacreditáveis do que um sujeito que crê que a Terra é plana porque “está escrito na Bíblia” perceber sua própria estupidez.

3º Lugar:
O Sermão da Montanha
27X01
Eu realmente não sei se O Sermão da Montanha, primeiro episódio da 27ª temporada de South Park, é hilário ou assustador. Ver Donald Trump transposto para a série exatamente como Saddam Hussein no longa South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes, ou seja, com seu rosto real animado “no estilo canadense” e dividindo a cama com Satã devia ser engraçadíssimo, devia ser de chorar de rir, devia ser de dar câimbras estomacais, mas a minha primeira reação foi a mesma de Trey Parker em seu roteiro: imaginar que a série em breve será cancelada pela forma como o governo de Trump vêm usando a máquina estatal (ah, a ironia…) para subjugar todos que olham enviesados para ele. O Sermão da Montanha é, para todos os efeitos, um episódio destruidor da série que demonstra aquilo que Parker e Matt Stone sempre tiveram, ou seja, a coragem de desancar todos que eles acham que precisam desancar, sem dó, nem piedade, doa a quem doer. E ele é também engraçadíssimo se sua comicidade não ficasse em xeque pela operação da realidade.

2º Lugar:
Fechando o Rombo
27X02
No entanto, fazendo o enorme esforço mental de me blindar ao que está acontecendo de verdade para apreciar Fechando o Rombo, é inegável que Parker acertou em cheio novamente em um episódio que joga uma rede ainda mais ampla do que a anterior e que não economiza no derramamento de quantidade generosa de ácido fluorantimônico em cima do I.C.E. e seu recrutamento de mondrongos que se acham no direito de aprisionar imigrantes legais e ilegais na base do “porque sim”, na parva Kristi Noem, a Secretária de Segurança Interna dos EUA que não parece ter capacidade sequer de colocar um triângulo dentro de um triângulo, em “influenciadores digitais” (se “você” é influenciado por qualquer um deles, também merece as aspas, talvez mais ainda) radicais que só falam estupidezes e perversidades para gerar cliques (não que os cretinos não acreditem no que falam, vejam bem), além de, claro, no exemplo máximo de que a democracia nem sempre acerta, o alaranjado líder do culto MAGA.

1º Lugar:
A Mulher de Chapéu
28X02
A Mulher do Chapéu é mais um daqueles episódios da série que encapsula perfeitamente, como em uma fotografia, um momento social, político e econômico bem específico, quase que literalmente jogando bosta no ventilador para ver se nós, do lado de cá, acordamos para a realidade que nos cerca. Mas, claro, não acordaremos coisísssima nenhuma e continuaremos a viver escolhendo a ignorância como válvula de escape, achando que redes sociais são bacanas, que criptomoeda é um bom investimento e que construir um salão de festas gigantesco na Casa Branca não é cortina de fumaça para os atos nefastos de um governo que, se formos notar, até sumiram um pouco da televisão, agora que a “moda” parece ter passado. Stan é que está certo!

