Avaliação da temporada:
(não é uma média)
- Há spoilers.
Pela primeira vez, fiquei com receio do futuro de Strange New Worlds. Por mais que a série tenha oscilado entre o primeiro e o segundo ano, essa nova temporada é preocupante, com muita inconsistência entre altos e baixos, infelizmente com mais baixos. Tenho um carinho gigantesco pela série e seus personagens, então fiquei decepcionando com a direção da produção, que perdeu ainda mais a oportunidade de explorar novos mundos e dilemas diferentes para nossos personagens, além de um orçamento que não é digno do conceito por trás do seriado. E mesmo nos episódios na nave, faltou um nível de qualidade, com as melhores tramas sendo as que se escoram na nostalgia e na reciclagem de capítulos clássicos da franquia. Mesmo com problemas, temos alguns episódios acima da média e, de maneira geral, o seriado continua agradável, mas fica a esperança de que a próxima temporada terá roteiros mais criativos, um cuidado maior com a narrativa e quem sabe um investimento melhor.
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Como fazemos em toda série que analisamos semanalmente, preparamos nosso tradicional ranking dos episódios para podermos debater com vocês, lembrando que os textos abaixo são apenas trechos das críticas completas que podem ser acessadas ao clicar nos títulos dos capítulos. Qual foi seu preferido? E o pior? Mandem suas listas e comentários!
10º Lugar:
A Space Adventure Hour
3X04
No final, quando o programa é encerrado e a Enterprise retoma sua rota, a pegada caricatural e paródica se mostra uma decoração para a ideia de que a ficção científica, mesmo quando tosca ou artificial, pode nos transformar de formas que nem sempre conseguimos prever, o que acontece com La’an e Spock, mesmo que não da forma orgânica e intensa que poderia ser. Mas tudo isso é raso demais, com A Space Adventure Hour não passando de um pastiche divertido.

9º Lugar:
Four-and-a-Half Vulcans
3X08
O maior problema de Four-and-a-Half Vulcans não é ser leve ou cômico, mas não conseguir encontrar consistência entre humor e narrativa. Quem acompanhou minhas críticas da maravilhosa The Orville, sabe que gosto dessa abordagem e a própria série já provou que pode misturar gêneros com inteligência, seja no suspense (onde teve mais sucesso), na aventura ou na comédia, mas aqui a execução carece de qualidade. O episódio quer rir dos próprios personagens, mas termina esvaziando-os, reduzindo-os a versões simplificadas e pouco interessantes. No fim, este oitavo capítulo da temporada deixa a impressão de tempo desperdiçado: uma ideia curiosa que poderia servir como comentário sobre identidade e sobre as relações desses personagens, mas que se perde em exageros e soluções fáceis. É divertido em momentos isolados, mas no conjunto não sustenta uma trama que é estranha e esquecível.

8º Lugar:
Wedding Bell Blues
3X02
No meio de tudo isso, claro, não poderia faltar um twist sci-fi: uma criatura poderosa altera a realidade, criando uma cerimônia onde a equipe está se preparando para celebrar o casamento de Spock e Chapel. Tudo é meio bobo, sem um conflito engajante ou resoluções surpreendentes, mas o texto é bem humorado, com boa participação de Rhys Darby como o “deus” travesso da vez, e dramas que reforçam que a série não é apenas jornada espacial: é a busca por laços, afetos e a forma como se vive em meio ao cosmos. Falta aquele algo a mais para temperar melhor a história, mas Wedding Bell Blues é um capítulo razoável dentro do que propõe, esticando alguns arcos curiosos em tangentes (o amadurecimento de La’an, o trauma de Ortegas), e dando foco para o amor conturbado de Spock e Chapel, mais uma vez no centro das atenções (sobra até um espacinho para o capitão e sua amada terem um momento fofo).

7º Lugar:
New Life and New Civilizations
3X10
New Life and New Civilizations simboliza bem o que foi a terceira temporada: ousada em alguns conceitos, mas irregular na execução e sem orçamento suficiente (sério que o clímax da temporada é aquela “lutinha” entre a Batel e o Vezda?). Como final de temporada, deixa a sensação de que a história poderia render um arco em duas partes, com mais espaço para explorar as ideias sci-fi do texto a contento e desenvolver melhor os temas sobre sacrifício, prisão e transcendência. O capítulo acaba se tornando muito condensado, forçando explicações bobas e saídas de roteiro idiotas, chegando num balanço final que tem sim um nível de emoção, especialmente ao dar a Pike e Batel um adeus carregado de simbolismo, mas também reforça os limites da série em lidar com conceitos de alta voltagem filosófica e a dificuldade em abordar ficção científica com uma narrativa mais inteligente. Espero que a próxima temporada seja melhor.

6º Lugar:
What Is Starfleet?
3X07
Há de se questionar a premissa por trás do documentário, em especial na forma agressiva que Beto toma partido ao longo da produção, mas serve a um intuito narrativo e a uma tentativa de trazer algo diferente à franquia. Acho que a trama do Jikaru e dos Lutani é mais interessante do que o doc. em si, então por vezes penso que o formato até atrapalha o que poderia ser um capítulo melhor se não precisasse desse encaixe, mas aprecio a ideia da equipe criativa e o que estão propondo aqui. No fim, o episódio não entrega uma resposta definitiva à pergunta do título. O que ele oferece é uma sensação de que a Frota Estelar é feita de paradoxos: de ordens impopulares, de falhas humanas, mas também de empatia radical diante do inaceitável. É justamente esse paradoxo que mantém Star Trek vivo há décadas.

5º Lugar:
Shuttle to Kenfori
3X03
Voltando à trama principal, o clímax dramático do episódio, com Batel aceitando a fusão com o DNA Gorn, não é apenas narrativamente eficaz, mas eticamente desconfortável, e por isso mesmo interessantíssimo. A série propõe aqui que nem todas as vitórias são limpas e que a fronteira entre salvar alguém e condená-lo a uma nova existência pode ser mais tênue do que gostaríamos de admitir nesse universo, algo que vimos diversas vezes na franquia. Ao contrário de episódios que limpam seus conflitos com tecnobaboseiras ou intervenções milagrosas, Shuttle to Kenfori olha o abismo no olho e pergunta se ainda somos nós quando sobrevivemos a qualquer custo. O final, com a tensão ainda pairando na ponte da Enterprise, não fecha o episódio com um laço bonito. Pelo contrário, amplia os desdobramentos que virão, tanto com Batel quanto com Ortegas, sugerindo uma temporada consequente, onde as ações de cada um realmente importam. E isso, dentro da estrutura clássica de Star Trek, é uma vitória. Mesmo com ressalvas, principalmente na direção que deixou a desejar na minha visão, o terceiro episódio é maduro e provocativo o suficiente para deixar uma boa marca na série.

4º Lugar:
Hegemony, Part II
3X01
Como o título não deixa enganar, a estreia da terceira temporada quer retomar a tensão épica deixada pelo final do segundo ano. Até certo ponto, penso que o hiato longo quebra o momentum da dupla de episódios (tenho certeza que, quem assistir em sequência, não terá o mesmo problema), mas, mesmo assim, Hegemony, Part II entrega em boas doses o escopo e a urgência esperadas depois que nos lembramos do contexto desse bloco. O retorno pleno da trama dos Gorns com a guerra iminente com a Federação em um show de efeitos espaciais reforça, outra vez, que Strange New Worlds não é apenas uma série de uniformes bonitos e ótimo design de produção: é um espetáculo espacial que sabe usar seu elenco e orçamentos para criar momentos cinematograficamente interessantes.

3º Lugar:
The Sehlat Who Ate Its Tail
3X06
The Sehlat Who Ate Its Tail não é um episódio necessariamente de grandes riscos narrativos ou visuais (apesar de ter gostado do design do Destruidor de Mundos), mas funciona bem como estudo de personagem e como exercício de tensão em escala controlada, com uma revelação final corajosa que agrega bastante aos arcos desses personagens, terminando numa nota agridoce e na lembrança de que, no espaço, o inimigo às vezes é apenas um reflexo distorcido de nós mesmos. Minha grande ressalva, que na verdade é mais uma pontuação do que uma reclamação, é o fato de ser um capítulo do Kirk e não do elenco principal de SNW, mas não tenho problemas graves com a decisão. É, no fim, um capítulo que equilibra ação e caráter, mais interessado em mostrar como se comanda uma nave no limite do que em reinventar a fórmula e, nesse recorte, entrega um ótimo resultado.

2º Lugar:
Terrarium
3X09
Terrarium não revoluciona a fórmula de Star Trek, mas mostra que a série continua capaz de extrair frescor de ideias antigas quando decide colocar seus personagens no centro da ação e quando decide sair da nave. Erica Ortegas ganha um episódio para si que marca sua passagem pela franquia e que mostra a faceta de um clássico adversário de uma maneira extremamente interessante.

1º Lugar:
Through the Lense of Time
3X05
Mesmo com essas conveniências de descuidado do grupo, Through the Lense of Time aborda um bom debate científico sobre as consequências da curiosidade desacompanhada de cautela, e de como a euforia de ser parte da Federação pode esconder o quão perigoso é a profissão. O arco de Gamble, apesar de rápido, é denso o suficiente para deixar uma boa marca na série, além de apresentar uma nova raça antagonista que promete muito, ainda mais se, além de tomarem indivíduos, possam assimilar tecnologia, como o gancho final indica. As frases de Pelia ao longo do episódio são de arrepiar e prometem um grande conflito. Para além de promessas para o futuro, o capítulo é um ótimo episódio de exploração e de descobrimento, não só de novas civilizações, mas dos personagens também. Que venham novos capítulos sobre estranhos mundos e estranhas criaturas, mas que tenha uma lição aprendida aqui.

