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Lista | Top 25 – Ennio Morricone: Composições para Conhecer o Mestre

por Luiz Santiago e Ritter Fan
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Ennio Morricone nasceu em Roma, em 10 de novembro de 1928, e começou sua prolífica carreira musical ainda sob tutoria de seu pai, Mario, que o ensinou a ler partituras e a tocar diversos instrumentos, dentre eles o trompete, especialidade do pai. Ele ingressou na Accademia Nazionale di Santa Cecilia ainda com 12 anos, completando o programa de quatro anos em apenas seis meses, focando seus estudos no trompete, coral e composição musical. Sua carreira profissional começou já nos anos 40, com composições para o rádio, trabalho que continuou ao longo dos anos 50 juntamente com suas performances como parte de uma banda de jazz e o início de seus trabalhos para a televisão italiana que o levou não só a compor para artistas de jazz e pop da época, como também para o cinema na década de 60, quando ele realmente explodiu no cenário musical mundial.

Falecido aos 91 anos em 06 de julho de 2020 em razão de complicações após cair e quebrar o fêmur, Morricone legou ao mundo mais de 500 composições para a Sétima Arte, além de um sem-número de obras para a indústria musical como um todo. Sua perda é sem dúvida irreparável, mas seu legado continuará para sempre, influenciando novos compositores e colocando-o no panteão dos grandes maestros e compositores do Cinema.

Para homenageá-lo, resolvemos criar uma lista com composições marcantes da carreira do mestre que não se restringe a seus trabalhos cinematográficos, ainda que, claro, a maioria seja de trilhas sonoras. O objetivo, aqui, não é fazer lista das melhores composições dele, mas sim passear cronologicamente por sua carreira, começando na década de 60, de forma que o leitor possa ter uma ideia da variedade de obras que ele criou e que não estão nem de longe restritas ao gênero western spaghetti, que o notabilizou e que todo mundo cita por aí como se fossem as únicas criações de Morricone. Só para se ter uma ideia do quão difícil foi fazer a lista, começamos limitando o número a apenas 10, mas foi impossível, pelo que expandimos para 20 e, depois, 25 e mesmo assim estabelecendo a regra que somente entraria uma composição por álbum ou filme. Ficar só em 25 foi uma tarefa excruciante, mas resolvemos parar aí, senão acabaríamos listando 100 composições…

Releiam nossas críticas de três shows ao vivo de Morricone que tivemos a oportunidade de assistir, aumentem o volume, relaxem, leiam – ou melhor, escutem! – a seleção que fizemos abaixo (Ritter Fan e Luiz Santiago) e mandem suas próprias listas de melhores do Maestro:

Titoli (Por Um Punhado de Dólares) – 1964

Já foi complicado desde o começo  fazer essa lista, pois separar apenas uma composição de Por um Punhado de Dólares foi torturante, até porque propositalmente deixamos a Trilogia dos Dólares incompleta aqui, sem a citação do filme do meio, algo que acrescentou à tortura. Mas a música tema do primeiro longa da Trilogia acabou entrando como representativa dessa inesquecível trilha.

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L’Estasi Dell’Oro (Três Homens em Conflito) – 1966

Temos plena consciência de que a música tema de Três Homens em Conflito talvez seja a mais conhecida do filme e ela é realmente sensacional e estaria aqui nessa lista se pudéssemos incluir mais de uma por filme/álbum. Mas nos contivemos e escolhemos a que consideramos talvez a obra máxima de Morricone, L’Estasi Dell’Oro, uma perfeita conjunção de cordas, percussão e canto que realmente nos leva ao êxtase musical.
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Se Telefonando (Studio Uno 66) – 1966

Mina – ou Mina Mazzini – é uma das mais conhecidas cantoras italianas dos anos 60 e 70 e Ennio Morricone, nessa época, além de produzir incessantemente para o cinema e para a televisão, ainda criou para diversos artistas de renome. Se Telefonando é, talvez, seu maior hit musical fora do Cinema, com a melodia que ele compôs para a letra de Ghigo De Chiara e Maurizio Costanzo realmente mostrando sua veia pop saltando de seu treinamento clássico. Não ficaremos espantados se, depois de ouvir a música, você favoritar alguns álbuns de Mina em seu serviço de streaming de música favorito…
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Titoli (Joe, o Pistoleiro Implacável) – 1966

Sergio Leone certamente é o maior expoente do western spaghetti, mas ele não tem a exclusividade do gênero e nem das composições de Ennio Morricone para o gênero. A prova disso é a sensacional trilha que o mestre compôs para Joe, o Pistoleiro Implacável, de Sergio Corbucci, que, de certa forma, já antecipa os acordes de seu último trabalho de faroeste para Leone dois anos depois.
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C’era una volta il West (Era uma Vez no Oeste) – 1968

A música tema de Era uma Vez no Oeste encosta em L’Estasi Dell’Oro no Top 3 intocável de Morricone, com o mestre novamente mergulhando nas cordas e no uso de canto, com a versão com Claudia Cowenbergh sendo provavelmente a melhor. Ah, sim: esse é outro álbum que é impossível escolher uma composição só, mas tivemos que fazer esse sacrifício!
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Dies Irae Psichedelico (Escalada) – 1968

Um dos vários casos na carreira de Morricone em que a trilha sonora é melhor que o filme. O razoavelmente desconhecido Escalada, de Roberto Faenza, é o veículo para o compositor trabalhar temas bem distantes de seus clássicos anteriores, mas muito próximos de sua origem como trompetista de raízes jazzisticas, criando uma trilha – aqui representada por Dies Irae Psichedelico, com direito a coral em latim – que carrega na pegada psicodélica dos anos 60.
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Guerra e Pace, Pollo e Brace (Obrigado, Tia) – 1968

Falando em filme desconhecido, Obrigado, Tia é até quase impossível de encontrar, mas a obra de Salvatore Samperi é um duelo psico-erótico quase surreal, com Morricone não se fazendo de rogado e criando peças que chegam a ser até perturbadoras e disruptivas de seu estilo mais conhecido.
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Titoli (Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita) – 1970

Ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1971, o longa de Elio Petri conta com uma das mais interessantes trilhas de Morricone. Nas palavras do Luiz Santiago: “A música de Ennio Morricone, cujo tema principal se divide em três arranjos orquestrais; o primeiro similar à Psycho Suite de Bernard Herrmann e os outros dois, de maneira muito cínica, aos desenhos animados fabulares e absurdos, delineia o tom irônico que o roteiro cultiva com cuidado. Petri utiliza muito bem esse recurso musical como segunda voz dramática ou possível indicação de comicidade a determinadas situações“.
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The Feed-Back (Il Gruppo) – 1970

O coletivo musical Gruppo di Improvvisazione Nuova Consonanza, conhecido apenas como Il Gruppo ou The Group, foi criado pelo italiano Franco Evangelisti para albergar compositores avant-garde, tendo Ennio Morricone como um de seus principais membros não só na composição de obras de caráter psicodélico como a acima, mas também no trompete e na flauta. Morricone definitivamente não é só faroeste!
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Tema Italiano (Os Sicilianos) – 1971

Antes de Era uma Vez na América e Os Intocáveis, Morricone prestou serviços de composição da trilha sonora de Os Sicilianos, obra franco-italiana de Henri Verneuil, em que ele transporta sua pegada de faroeste para filmes de máfia pela primeira vez, com resultado inesquecível.
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Here’s to You (Sacco e Vanzetti) – 1971

Composta para Saco e Vanzetti, de 1971, que conta a história real de dois anarquistas italianos que foram julgados e condenados por um crime que não cometeram em um caso de perseguição política, Here’s to You é uma linda homenagem musical de Morricone e Joan Baez para o espírito de liberdade e heroísmo.
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Chi Mai (Maddalena) – 1971

1971 foi um ano especialmente enlouquecido para Morricone. Só nesta lista aqui, esse é o terceiro – e penúltimo! – filme daquele ano que citamos. Em alta demanda, o compositor criou peças realmente impressionantes em uma espécie de linha de montagem alucinante que resultava em tudo, menos mesmice Chi Mai, de Madalena, é impressionantemente apenas uma das músicas que tínhamos vontade de citar do filme, ainda que a película em si, como várias outras para as quais ele compôs, não seja particularmente memorável.
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La Lucertola (Uma Lagartixa num Corpo de Mulher) – 1971

O giallo estava a todo vapor na Itália na década de 70 e era óbvio que Morricone não ficaria de fora dessa febre. Um dos mais psicodélicos exemplos – e o título não nos deixa mentir – Uma Lagartixa em Corpo de Mulher, segundo filme do gênero de Lucio Fulci. A música tema reúne diversas das características de Morricone e, mesmo não parecendo de filme de terror, funciona bem especialmente apartada do filme.
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Titoli (O quê Vocês Fizeram com Solange?) – 1972

Mais um giallo, desta vez de Massimo Dallamano, com Morricone compondo uma de suas trilha mais ricas, com a música tema começando com um piano solo e embarcando em uma pegada lírica, quase onírica que encanta o ouvinte imediatamente e mais uma vez funcionando maravilhosamente bem fora do filme (que, por sua vez, não é nada especial, vale dizer).
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Bambole (Spasmo) – 1974

Alguém aqui falou em giallo? Pois lá vamos de mais um! Como o Ritter falou acima, o gênero estava com tudo na Itália dos anos 1970 (na verdade foi A Década do estilo, especialmente a primeira metade) e este filme de Umberto Lenzi tem a música de Morricone como um presente, cheio de evocações macabras, mas controladas por algum instrumento numa linha melódica de tom mais alto ou tempo diferente, como esta que temos aqui, entre o coro fantasmagórico e a base instrumental da faixa. É de uma beleza tétrica!
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Cinzas no Paraíso (Cinzas no Paraíso) – 1978

Aqui o compositor retrabalha alguns temas ligados à cultura local em uma abordagem esperançosa, que convida à construção de um novo momento, que aponta para “uma nova marca” na vida dos personagens. O tema principal, como vocês podem ver, traz à tona esse sentimento de luta, mas nunca de prostração. Há uma conversa entre grupos diferentes de instrumentos, que expõem os dois lados de uma grande luta. Pouco a pouco o tema vai crescendo, não a ponto de se tornar épico, grandioso, mas de ressaltar com força aquilo que propõe.
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Main Theme (O Enigma de Outro Mundo) – 1982

Eu sempre fui fascinado pela maneira como Morricone fazia evocações ligadas ao terror, suspense ou atmosfera de tensão. A marcação do tempo e adição de novos instrumentos, nesse tipo de composição, é uma das principais colunas, e a obra terá sucesso se souber explorar bem isso, algo que vimos o compositor fazer diversas vezes, tanto nos terrores quanto nos faroestes (só lembrar da criação de tensão e medo que ele faz na abertura de Os Oito Odiados!). Aqui em The Thing, o compositor escolheu um caminho que nos mantém o tempo inteiro alertas. Notem que a marcação do tempo sugere uma batida de coração, mas com um espaço de três tempos entre uma e outra. Preenchendo esse espaço temos a orquestra trazendo algo sombrio, num tema que nunca se resolve de fato. É justamente esse espasmo das batidas ligado ao tema que não se resolve que nos mantém à espera de algo tenebroso acontecer, criando um horror permanente, penetrante.
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Deborah’s Theme (Era uma Vez na América) – 1984

Os primeiros acordes desse tema já geram na nossa mente aquela “sensação de choro” que algumas composições são capazes de sugerir. É um tema inicialmente sobre a solidão, que ganha reforço no solo do violino, que chora, que lamenta, tendo um acompanhamento quase caloroso da orquestra, que parece querer consolar. A partir de um certo momento, porém, a temática ganha uma outra cor (isso sem alterações bruscas), muda esse estágio inicial de solidão para uma outra coisa. Um tema profundamente sentimental.
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Gabriel’s Oboe (A Missão) – 1986

Eis aqui um tema de deslumbramento e conexão. Eu não sei se vocês se lembram da cena para a qual ele foi escrito, mas o personagem de Jeremy Irons (o jesuíta Gabriel) chama a atenção e se conecta com os índios a partir dessa melodia que toca no oboé. Dramaticamente também serve como um contraste à tensão criada na cena, uma forma de afastar o medo e convidar à convivência. Com a orquestra, que ouvimos no final da sequência e em todo esse vídeo, o tema se torna ainda mais notável.
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Main Theme (Os Intocáveis) – 1987

Lembram daquele aspecto de marcação do tempo que eu comentei na trilha de O Enigma de Outro Mundo? Pois bem, vejam aqui um outro uso da mesma dinâmica, agora sob uma aparência de tensão, gerando no espectador a sensação de inquietação, perigo e fuga. A percussão e o andamento sincopado do tema quase nos faz ver os personagens olhando de um lado para outro, escondendo-se atrás de alguma coisa. É um tema fortemente visual e que diferente da tensão à toda prova que o compositor escolheu para The Thing, termina relaxando a tensão no final. Como uma corda arrebentando sobre o abismo.
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Main Theme (Cinema Paradiso) – 1988

Cinema Paradiso é um filme sobre memórias de uma vida e também sobre cinema, sobre a relação de um indivíduo com o cinema desde a infância. Esse tema principal da obra dialoga com a proposta da obra de forma quase inacreditável, funcionando como uma narração de um tempo passado. É de uma delicadeza que impressiona. Sei lá, me faz lembrar da infância, de correr com meus amigos, de comidas natalinas na infância. Lembranças de um adulto para momentos felizes da sua tenra idade. Um dos temas mais doces de Morricone, com certeza.
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Main Theme (Busca Frenética) – 1988

Isso é que é trabalhar bem com o inesperado, não é mesmo? Vejam como o compositor começa esse tema. Sua influência sonora, o instrumento utilizado e o tempo que marca a música. Ele nos introduz a esse Universo de uma maneira inesperada, intensa, e com a mesma imprevisibilidade altera o tempo e a abordagem no decorrer da obra, usando um leitmotif instrumental que nos faz lembrar da origem, resolvendo o tema como uma espécie de “retorno (transformado) à casa”. É genial.
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Playing Love (A Lenda do Pianista do Mar) – 1998

Neste fantástico filme de Giuseppe Tornatore temos algo que este tema exibe de forma rápida e até muito simples, mas não menos instigante por isso. O início, que flerta com o jazz, rapidamente dá lugar a uma plácida exposição sobre o amor, de forma leve, simples e tocante.
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Voci dal Silencio (Malena) – 2000

Este é um outro tema de deslumbramento, mas de ordem diferente daquele que ouvimos e A Missão. É um deslumbramento libidinoso, mas de certo modo triste, inalcançável. A admiração silenciosa que muitas vezes dedicamos a alguém, algo que esse tema captura de forma extremamente verdadeira.
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L’Ultima Diligenza per Red Rock (Os Oito Odiados) – 2016

Quentin Tarantino já havia usado remixagens de trilhas anteriores de Morricone em seus filmes, mas, aqui, é a primeira vez que o maestro cria composições originais para o diretor americano, marcando, também, seu retorno aos filmes de faroeste em uma assombrosa e marcante criação. Por seu trabalho aqui, Morricone levou seu único Oscar de Melhor Trilha Sonora (além do Oscar honorário pelo conjunto de seu trabalho, claro), premiação que veio mais do que tardiamente, mas que pelo menos veio.

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