Crítica | Doctor Who: Na Ponta da Língua, de Patrick Ness

estrelas 3,5

Equipe: 5º Doutor e Nyssa
Espaço-tempo: Temperance, Maine (EUA), 1945

Patrick Ness foi o responsável pelo 5º conto de aniversário de Doctor Who, numa série de ebooks publicados pela Editora Puffin para a comemoração dos 50 anos da série.

A história é uma das mais peculiares até agora, e por isso mesmo pretendo dividir um pouco as questões para dar uma atenção especial a cada uma delas, a começar pela ausência do Doutor na maior parte do livro, o que torna esse, se formos analisar fria e superficialmente, o livro “menos Doctor Who” da série até o momento.

A história se passa durante o último ano da II Guerra Mundial, em uma cidade do Maine, Estados Unidos. Nós acompanhamos o cotidiano de um garoto judeu-alemão e uma garota afrodescendente em uma cidade branca e protestante, que é tomada por uma moda muito estranha, uns “bichinhos” chamados “Reveladores da Verdade”.

Durante todo o tempo, Ness trabalha com elementos sociais e pessoais que nenhum dos outros autores trabalharam até o momento. Aqui e ali, durante a narrativa, temos uma ponta do Doutor e Nyssa, mas é tudo muito rápido. Eles só aparecerão de fato na conclusão do conto, que é na verdade a melhor parte da história, não só porque traz algumas surpresas bacanas, como também desperta no leitor aquele conhecido “efeito-fofura”, e é impossível não gostar do modo como as coisas terminam.

Todavia, durante o desenvolvimento da história, observamos esse afastamento narrativo do autor em relação ao Doutor, e eu não estou certo de que isso seja uma coisa realmente negativa. Embora o conto não tenha mesmo cara de uma aventura de Doctor Who, a ameaça alienígena, a intervenção do Time Lord e parte da mitologia da série se fazem presentes. Embora isso não seja algo que vemos amplamente explorado tal qual nos contos anteriores (com destaque para A Cidade Sem Nome e As Raízes do Mal), o pouco que esses elementos aparecem e como se concluem atende a todos os requisitos básicos esperados de uma obra literária desse Universo Who.

A outra questão que gostaria de falar em separado é sobre as intervenções do Doutor.

Mesmo que seja só para efeito de comparação ou exemplificar, lembremos de Love & Monsters, um episódio da 2ª Temporada da Nova Série. Nesse episódio, as coisas acontecem dentro de uma perspetiva que sabemos interessar ao Doutor, mas o foco central da história não é nele e em sua companion e sim nas “pessoas normais” que vivem em Londres. E este é um dos motivos pelos quais não acho negativo o afastamento de Patrick Ness daquilo que normalmente esperamos de uma aventura de Doctor Who, porque já vimos esse modo de trabalho antes, e quer saber? Funciona!

Em momentos distintos do conto lemos sobre a presença do Doutor em lugares diferentes da cidade, mas é realmente quando tudo se resolve que ele está lá para colocar um ponto final nos problemas. Já foi citado o “efeito-fofura” e isso é muito interessante, porque no conto anterior, As Raízes do Mal, tivemos o mesmo tipo de alumbramento, que, naquele caso, só parece ter uma carga diferente porque tivemos a presença do Doutor e/ou de Leela quase o tempo inteiro.

Patrick Ness faz um trabalho interessante nesse conto. É estranho por um lado, porque quebra muito da ideia que acabamos cultivando dos livros e dos episódios da série, mas é uma história bem escrita, com uma pegada social/psicológica notável e o trabalho com temas levemente delicados e considerados incômodos (ou humanos demais) é delicioso de se ler, o que dá mais alguns pontos para o autor. Não é um conto brilhante, obviamente, mas é uma baita de uma boa história.

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Patrick Ness fala sobre o projeto

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LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.