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Crítica | Variações Sobre o Prazer, de Rubem Alves

por Luiz Santiago
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estrelas 4,5

Será que Deus fica feliz quando vê os seres humanos sofrendo? Digo isso pelo fato de que os fiéis, ao fazerem promessas a Deus para obter seus favores, o que lhe oferecem são sempre objetos dolorosos. Nunca ouvi de um devoto que que tivesse oferecido a Deus uma sonata de Mozart ou um poema de Fernando Pessoa. A igreja ensinou que o prazer é o ninho do pecado. Como se o mundo fosse um imenso jardim cheio de árvores com frutos doces e coloridos, com placas em todas elas dizendo: “Proibido”.

Rubem Alves

Rubem Alves é um dos escritores e pensadores brasileiros que eu mais admiro. Suas obras sempre me impulsionam à pesquisa e me instigam a buscar mais sobre assuntos diversos, como se fosse um epicentro de conceitos que se espalha por todas as áreas, da ciência à sabedoria popular. Embora discorde de algumas de suas ideias, tenho-o em alta conta, especialmente porque ele é dos poucos escritores que se põe à prova, que levanta dúvidas sobre sua própria obra, que não se eleva a um pedestal de verdade absoluta e inquestionável.

Variações Sobre o Prazer (2011) pode não ser uma obra-prima do escritor, mas é um excelente exercício de análise que traz à tona questionamentos básicos sobre o que é o prazer, como o entendemos no Ocidente e como a nossa civilização o transformou através dos séculos, sempre sob o jugo de pecado ao qual as religiões monoteístas e algumas linhas de pensamento filosófico o condenou.

O autor traz um panorama de personagens históricos e fictícios para explicar como o prazer pode ser percebido e como sua visão no mundo das ideias foi arquitetada, desde Santo Agostinho até a cozinheira Babette, do maravilhoso filme de Gabriel Axel. Sua narrativa é familiar, quase uma conversa informal com o leitor, atitude que nos aproxima bastante da obra e facilita a apreensão de conceitos históricos, sociológicos, filosóficos e literários que estão espalhados por todas as páginas. Apesar de ser um livro “conceitual” sobre o prazer, não se trata de um livro-enigma, uma tese acadêmica ou algo do tipo. A erudição de Rubem Alves nos é transmitida em “linguagem de feira”, no melhor sentido do termo.

O que incomoda na obra é a ideia circular da narrativa. Parece-nos que o autor tem medo que nós nos esqueçamos do que foi lido no capítulo anterior e, a todo tempo, gira em torno de alguns conceitos já apresentados. Da metade do livro para frente temos que lidar com esse problema que, infelizmente, acaba por atrapalhar a apresentação de outros pontos da ação do prazer, como o seu contexto teológico (por Santo Agostinho) e o onírico e familiar (por Babette).

Independente das voltas dadas em torno dessa questão teórica, Variações Sobre o Prazer é uma antologia de pensamentos sobre a vida, o amor às coisas e pessoas em torno de nós e principalmente, a forma como lidamos com a obrigação (sempre um sofrimento) e o que entendemos por felicidade e prazer em nosso cotidiano.

Para o leitor mais incauto, alerto que não se trata de um livro de “autoajuda”. Jamais. Variações é um livro sobre percepções cristalizadas do mundo e sobre a quebra dessas percepções para a construção de um novo saber, de uma nova forma de lidar com o mundo. O autor nos convida a deixar a carranca antropológica e religiosa de lado e pensarmos na vida e no que fazemos como um enlevo, à margem do caminho do sofrimento e dos santos, como ele mesmo diz: “o caminho da santidade é o caminho do sofrimento. Não conheço nenhum santo que tenha rosto sorridente.”. O prazer aparece aqui como uma negação dos dogmas. Um convite para enxergar a filosofia e o cotidiano como algo menos amargo. Nada de fórmulas, exercícios, amuletos, mentalização e busca de um “eu interior obrigatório para vencer“. O prazer é também uma forma de se entender as coisas, tanto que é absolutamente relativo. E Rubem Alves faz questão de relativizá-lo ainda mais.

Variações Sobre o Prazer (Brasil, 2011)
Autor: Rubem Alves
Editora: Planeta do Brasil
163 páginas

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