É cansativa a ideia de demonstrar felicidade total o tempo inteiro, consumir apenas coisas otimistas e estar saltitante para o mundo ver e aplaudir. Como filho desse sintoma exaustivo, existe também a noção de que “arte boa é arte que te deixa feliz, te inspira e te faz crescer como pessoa“. Que preguiça! Pois me deixem aqui com meus dramas narusianos para sentir toda a agonia da existência percorrer o corpo e me fazer sentir humano de verdade, não um bonequinho gratiluz. Porque se você acredita que felicidade perpétua é direito inalienável e que reconhecer a dureza da vida é fraqueza, nunca parou para pensar em como funciona o mundo real, com contas pra pagar, empregos precários, relacionamentos que apodrecem e sistemas garantindo que algumas pessoas nunca tenham as mesmas oportunidades. Pensando bem, o que há de “pesado” nos filmes de Mikio Naruse? Mulheres trabalhando em bares para sobreviver? Casamentos sem amor mantidos por conveniência? Roteiros sem reviravoltas mágicas? Para mim, o “peso” de Naruse é só a realidade nua e crua de viver numa sociedade que limita possibilidades… especialmente se você for mulher, pobre, ou ambos.
O artista filmou as reformas agrárias do pós-guerra, bares de Ginza, abandono parental e viúvas sustentando filhos. Kurosawa disse que Naruse era como um rio com superfície plácida dissimulando correntes furiosas. É disso que os psicopatas da total felicidade têm medo: do mundo real, da correnteza que te arrasta mesmo quando você nada com todas as forças. Entender que existem diferenças de classe e que nem tudo depende da força de vontade é tão grave? Para “ser feliz” é preciso ser alienado? Naruse mostra que o problema é falta de oportunidade, de dinheiro, de escolhas práticas e reais. Suas protagonistas não são vítimas passivas; são mulheres que negociam em sistemas opressivos, tomam decisões impossíveis e carregam dignidade quando tudo desmorona.

Mas o diretor nunca romantiza essa resistência. Ele não transforma sofrimento em virtude. O pessimismo de Naruse é um alerta para reconhecer que as coisas estão uma merda e que fingir ver flores não melhora nada. Seus personagens não se fazem de vítimas, não ficam lamentando parados. Eles encontram formas de manter dignidade dentro das piores possibilidades. Ninguém precisa estar rindo à toa. E nem romantizando atos hercúleos de resistência que jamais deveriam existir. Quando filmava uma mãe viúva passando fome, não estava vendendo superação, mas mostrando injustiça. Quando o diretor dizia que “o mundo nos trai“, estava sendo realista, político e analítico. Porque o mundo (leia-se: sistema econômico e organizações político-sociais) realmente trai ao prometer que esforço garante sucesso, que seguir regras garante vida sem problemas, que basta querer e trabalhar muito para “ter“.
O Japão que Naruse filmou durante quatro décadas, da industrialização dos anos 1930 à reconstrução pós-guerra, vivia mudanças violentas. E quem mais sofreu foram sempre os mesmos. Reconhecer a farsa das promessas meritocráticas é pessimismo? Ou simplesmente ser honesto sobre engrenagens de poder que determinam quem pode sonhar e quem precisa apenas sobreviver? Reconhecer e combater injustiças é ser honesto, não derrotista. Cinema que traz essas reflexões, por mais denso que seja, consegue algo maior que “boa arte“. E não, arte não precisa ter função. Mas se conseguirmos tirar dela algo tão engajador quanto essa “depressão” de Naruse, está servindo para coisas melhores que compartilhar vídeos de gatinhos, espalhar positividade tóxica e achar que o mundo só é ruim para quem não se esforçou. Naruse fez 89 filmes mostrando que a vida é dura, que estruturas sociais são cruéis, que fingir o contrário só ajuda quem se beneficia da alienação. Se isso incomoda o público, ótimo! Porque deveria mesmo.
