Todo mundo vira fotógrafo quando vê um pôr-do-sol. “Que luz linda! Olha essa paleta! Vamos tirar uma foto! Quantas nuances!” Mas… e quando a luz não “colabora”? Quando ela lembra a verdade dos dias sem graça, em vez do encanto romântico do cinema? Quando ela valoriza mais o cotidiano do que o espetáculo? Pois é exatamente isso que acontece nos filmes de Yasujirō Ozu, que têm como marca registrada a tendência ao otimismo e à representação simbólica e recorrente de dias ensolarados. Em seus filmes, passamos inúmeras cenas envoltos numa claridade total. O diretor filmou sob um Sol quase hostil porque não queria embelezar os dias artificialmente, mas fez questão de acenar para algo melhor, para uma possível felicidade sem filtros.
Ozu aceitava a natureza, gostava da luz do meio-dia que deixa todo mundo com cara de cansado, que evidencia cada imperfeição, que não perdoa ninguém. E, com isso, ele desafiava décadas de convenções cinematográficas. Porque a luz no cinema quase sempre mente: ela seduz, romantiza, disfarça, fabrica atmosferas que vão da mais profunda depressão e loucura à mais bela fantasia delirante. A luz de Hollywood esculpe rostos como esculturas gregas. A luz do expressionismo alemão transforma quartos comuns em pesadelos góticos. A luz do realismo poético francês dá às cidades um brilho e um contraste que nunca existiu de verdade. Já a luz de Ozu, não. É uma luz desconcertantemente honesta: mostra os problemas comuns com crueza, mas sem perder a ternura (diferente de Mikio Naruse, por exemplo,). É um gesto revolucionário, não pelo ritmo lento, nem por um suposto “bairrismo”, mas porque sua câmera recusa a beleza idealizada da luz.
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O cinema de Ozu serve como um desprogramador do nosso olhar viciado em encantamentos fabricados. Ao nos negar o deslumbramento visual fácil, o diretor abre espaço para uma luz que não organiza o mundo em planos esteticamente hierárquicos. Ele nos arrasta para o banal, para o ordinário, para aquilo que a gente evita olhar direito porque não parece “cinematográfico” o suficiente. Porque o excesso de escrupulosa beleza plástica também cansa. Porque nem tudo precisa ser sublime o tempo todo. E, às vezes, é preciso reaprender a ver antes de querer sentir. O cinema de Ozu nos desintoxica dessa necessidade constante de espetáculo e explora uma nova ética do olhar. Sem key light esculpindo rostos heroicos; sem atmosfera dramatizada transformando cada momento em clímax emocional; sem vontade de transformar personagens em deuses ou mártires, o cineasta devolve à imagem o seu peso original. Como se bastasse contemplar e entender as suas densas luzes e o seu Sol uniforme. Como se a verdade da luz comum fosse suficiente, mesmo no século XXI.
Então o filme acaba e a gente volta à realidade. E aí sim, finalmente limpos de expectativas fabricadas, nos deslumbramos como crianças diante das nuances vibrantes de um pôr-do-Sol coloridíssimo. Ozu não mata a beleza. Ele só exige que a gente mereça ela. Que a gente entenda primeiro a luz opressiva do meio-dia, o cansaço, a honestidade brutal de uma imagem sem exageros, sem promessas vazias de glamour ou redenção estética. Só depois de atravessar essa aridez luminosa é que o encantamento volta. Mais verdadeiro, mais merecido, mais humano… e feliz! E descobrimos que nunca precisamos daqueles filtros todos ou de uma beleza estrambólica. A beleza real sempre esteve ao nosso redor. A vida realmente é luminosa. A gente é que vive exigindo que ela minta suas cores, luzes e sombras.
