Entenda Melhor | Slasher, Safra 1981

1981 foi um ano de grandes acontecimentos históricos. A Grécia tornou-se parte dos tratados da União Europeia. A ONU declarou ser o Ano Internacional da Pessoa com Deficiência. A Princesa Diana, conhecida como Lady Di, casava-se com o Príncipe Charles e dava início ao seu posto de celebridade midiática pelas boas causas e ações. Para os brasileiros, na reta final dos anos de chumbo, o Memorial JK era inaugurado em Brasília. O post-it foi inventado neste mesmo ano, época de nascimento de diversos artistas, dentre eles, Britney Spears, Beyoncé, Chris Evans, Joseph Gordon-Levitt, Mariana Ximenes, Sergio Marone, dentre outros, cada um responsável por dar sua contribuição para as artes sonoras e visuais.

Neste mesmo ano, morreram alguns nomes importantes, tais como os brasileiros Glauber Rocha e Mazzaropi, além do cantor e compositor jamaicano Bob Marley e Jaime Aguilera, presidente do Equador. Ronald Reagan e o Papa João Paulo II, dois nomes da cena política e religiosa, respectivamente, sofreram atentados que quase os fizeram adentrar na lista das despedidas de 1981. O primeiro foi atacado por John Hinckley, desequilibrado mental que depois de relatos, explicou que tinha obsessão por Jodie Foster, em especial, por seu personagem em Taxi Driver, de Martin Scorsese. No caso do líder religiosa, os dois tiros alvejados o acertaram, mas não conseguiram cumprir a missão de ceifar a sua vida.

Slasher, Safra 1981: alguns cartazes dos lançamentos da época 

Em suma, 1981 foi um ano de muitos acontecimentos políticos, religiosos e, para a reflexão que nos interessa, a cultura. Em especial, a cultura promovida pela indústria cinematográfica e seus filmes prediletos do período: o subgênero slasher, estilo narrativo que teve mais de trinta filmes lançados dentro do calendário anual. Você, leitor, consegue imaginar o impacto disso? Pense na febre dos heróis que o cinema não cansa de lançar anualmente, bobagens que já perderam qualquer relevância cinematográfica, mas que ainda são parte da agenda dos grandes estúdios. Agora multiplique qualquer um desses por mais de trinta.

O resultado é complexo, pois ao passo que ajudou na calcificação do slasher como estilo rentável e com grande potencial de público, promoveu o vasto desgaste da trama sobre assassinos mascarados que geralmente escolhem uma data anual para promover uma série de crimes brutais com armas brancas. No final, quando não morrem, desaparecem para deixar a dúvida diante de uma possível continuação. A explicação para os seus atos geralmente envolve vinganças contra situações humilhantes do passado, com figurinos quase sempre semelhantes: uma capa ou roupa específica que tenha luva, uma máscara bizarra e muita força para aniquilar as suas vítimas.

Slasher, Safra 1981: outro panorama de cartazes dos lançamentos da época 

Depois de 1981, ponto alto do slasher nos anos 1980, temos outros quatro picos para o subgênero: os anos finais da década, fase do chamado Slasher Tardio, debate que será empreendido em nosso próximo texto sobre o assunto; a Retomada Slasher nos anos 1990, com Pânico e Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado; a Decadência Slasher, época das produções que plagiaram o esquema de Wes Craven e Kevin Williamson em narrativas sonolentas e bizarras após o lançamento de Medo em Cherry Falls, em 2000, ponto que considero o último suspiro do terror para a época; e a Renovação Slasher, era das refilmagens que perduraram entre 2007 e 2010, com nova embalagem para os grandes clássicos da época. Atualmente, Halloween encontra-se numa nova trilogia, iniciada com o retorno de John Carpenter e Jamie Lee Curtis, da produção de 1978, para o filme comemorativo de 2018, com estreias agendadas para 2020 e 2021.

A nona temporada da série antológica American Horror Story, intitulada 1984, é outro produto, neste caso, televisivo, focado na ode aos filmes slasher, material que dialoga com as incursões de Scream e de outra série antológica, Slasher, produção que entregou em 2019 a sua terceira temporada. Toda esta digressão é para reforçar que o subgênero parece sempre se reinventar, mantendo-se entre altos e baixos desde os anos 1970. Voltemos, então, para 1981, tendo em vista compreender os mecanismos que engendraram uma safra tão frutífera.

Sexta-Feira 13 Parte 2 e Halloween 2: Jason e Michael à espera de Freddy

John Carpenter não concordou com o esquema que envolvia o retorno de Michael Myers em 1981. Mas, por qual motivo, não investir em algo tão rentável? A sua resposta, nos documentários retrospectivos, era o excesso de violência solicitado pelos produtores. Desta vez, o antagonista da noite de Halloween seguia a sua insana trajetória em busca de Laurie Strode, internada no hospital onde metade da narrativa se desenvolve. Há méritos diversos que tornam o filme um terror bem concebido esteticamente, mas as mortes sangrentas demais deixaram o filme mais “industrial” que “artístico”, debate polêmico que descamba no velho duelo entre “arte” e “comércio”.

Cenas de Halloween 2 – O Pesadelo Continua!

Para alguns, o primeiro filme era pura sutileza, horror psicológico, enquanto a segunda incursão de Michael Myers tornou tudo um banho de sangue exagerado. No caso de Sexta-Feira 13, desde o primeiro filme, os realizadores destoaram da noite de 31 de outubro de 1978 e fugiram de qualquer sutileza, haja vista as suas mortes bastante violentas. Sean S. Cunningham também não tinha planos para uma continuação com Jason, personagem que habitava apenas a imaginação da final girl Alice. No entanto, graças ao estrondoso sucesso de bilheteria, a continuação foi agendada e os realizadores queriam Jason no segundo filme, em busca de vingança pela morte de sua mãe, decapitada no final do primeiro filme.

Cenas de Sexta-Feira 13 Parte 2

Foi com este projeto que Steve Miner assumiu a produção de Sexta-Feira 13 Parte 2, no mesmo acampamento que sediou as terríveis mortes da sexta anterior. Jason, ainda um mistério, habita as florestas e dizima as pessoas que insistem em atravessar as trilhas arbóreas de Crystal Lake. Lenda local, o antagonista, ainda sem a sua famosa máscara, transforma a vida dos monitores do acampamento num inferno sangrento com mortes violentas e muita perseguição. Tudo indicava que ambos os maníacos mascarados eram em 1981, franquias rentáveis que ainda resultariam em muitos filmes, o que de fato aconteceu. O irmão Freddy Krueger chegou apenas em 1984.

A Safra Slasher de 1981

As continuações de Sexta-Feira 13 e Halloween foram os picos mais altos para o subgênero slasher em termos industriais. Eram personagens mais fortes e que conseguiram manter determinada posição de prestígio ao longo dos anos seguintes. Isso não impediu, no entanto, que outros realizadores investissem no tema e trouxessem para o público sedento por mortes e sangue, os mais diversos psicopatas mascarados, cada um com suas armas e motivações para a trilha de corpos espalhados em seus respectivos espaços cênicos. Entre 01 de janeiro e 31 de dezembro de 1981, várias produções ganharam projeção em salas espalhadas ao redor do planeta.

Safra 1981 em cenas de Home Sweet Home e Scream – Gritos na Noite

Na reflexão empreendida por aqui, excursionaremos por alguns destes filmes, sem o interesse de esgotar a abordagem. Home Sweet Home, slasher dirigido por Nettie Peña com roteiro escrito por Thomas Bush é o primeiro, um dos menos conhecidos e sem data de lançamento registrada nas principais bases de cadastros cinematográficos na esfera virtual. O que sabemos, no entanto, é que sua trama aborda a fuga de um paciente perigoso de uma instituição psiquiátrica em pleno Dia de Ação de Graças, infortúnio que fará os habitantes de Bradley’s pensarem duas vezes na exposição de eventos comemorativos. Com lançamento em 1981, o antagonista do filme possui os mesmos propósitos do matador de Scream – Gritos na Noite, slasher que chegou aos cinemas em 01 de janeiro de 1981 e apresentou ao público um festival de mortes sangrentas envolvendo turistas em visita à uma cidade-fantasma localizada numa região dos tempos do Velho Oeste.

Olhos Assassinos, estreia de 27 de março de 1981, trouxe um psicopata focado numa região urbana. Na trama, dirigida por Ken Wiederhorn, um psicopata é exaltado como o mais novo perigo pela mídia sensacionalista. Seu modus operandi é violento e supostamente aleatório. Quem descobre algumas pistas sobre os seus atos é uma repórter, mas ela sequer imagina que a sua irmã mais nova, deficiente visual, auditiva e sem aquisição da fala, é uma das próximas vítimas do psicopata sedento por sangue feminino. Com roteiro de Eric L. Bloom e Ron Kurz, a produção não é sanguinária quanto alguns outros do slasher, mas deixa uma trilha de corpos pelo caminho narrativo, tal como os demais filmes de psicopatas mascarados da época.

Safra 1981 em cenas de Aniversário Sangrento e Escola Noturna

No dia 28 de abril, sob a direção de Ed Hunt, guiado pelo roteiro de Barry Pearson, Aniversário Sangrento chegou aos cinemas. No filme, três crianças, de pais diferentes, nascidas ao mesmo tempo durante um eclipse total do sol. Até os seus 10 de idade, elas agem normalmente, mas depois disso, começam a matar deliberadamente. Dois irmãos, cientes das ações do trio, se tornam parte da macabra perseguição destas crianças maléficas e assassinas. Sem tanto sangue como o esperado neste tipo de produção, o filme é letárgico e até pueril quando comparado aos assassinatos gráficos de Escola Noturna, lançado alguns dias antes, em 24 de abril. Dirigido por Ken Hughes, sob orientação do texto de Ruth Avergon, o filme aborda uma série de assassinatos que ocorrem numa faculdade em Boston, crimes que envolvem decapitações responsáveis por deixar os investigadores perplexos e intrigados.

Safra 1981 em cenas de Assassinatos Misteriosos e A Hora das Sombras

Em Assassinatos Misteriosos, lançado em 01 de maio, quem pode estar por detrás dos crimes num aparentemente confortável ambiente universitário? Sob a direção de Herb Fred, também responsável pelo roteiro, juntamente com a dupla formada por David Baughn e Anne Marisse, o filme segue os princípios slasher e nos apresenta a morte de uma estudante bem na véspera de sua formatura. O motivo? Ataque cardíaco após cumprir uma pequena maratona olímpica. O que ninguém esperava era que algum tempo depois, os demais colegas esportistas começassem a morrer violentamente. Será que o espírito vingativo da falecida voltou para cobrar alguma dívida? Como quase todos os filmes do segmento, os exageros motivacionais pecam por sua falta de sutileza. No dia 05 de junho, outro campus universitário foi tomado por assassinatos misteriosos, quase todos off-screen: em A Hora das Sombras, de Jimmy Huston, também responsável pelo roteiro que ganha algum ritmo apenas na perseguição final, mas peca em todo o resto da estrutura, jovens incautos integram a lista de um psicopata disposto a vingar-se de algo do passado.

Safra 1981 em cenas de Corpos Estudantis e Perigo na Floresta

A estreia de Corpos Estudantis em 07 de agosto trouxe um clima mais paródico para o subgênero slasher. A trama guiada pelo cineasta Michael Ritchie, inspirado pelo roteiro de Mickey Rose, abordava o assassinato de jovens que são assassinadas sempre que estão próximas ao ato sexual. Os comentários do narrador e a forma grotesca de sua abordagem em relação ao corpo feminino é ao mesmo tempo hilária e macabra. Perigo na Floresta, lançado dia 04 de setembro, apresentou um enredo semelhante aos elementos narrativos de Pouco Antes do Amanhecer, trama agendada para estrear em novembro de 1981, ambas aparentemente na tentativa de emular Quadrilha de Sádicos, de Wes Craven. Dirigida por James Bryan, a produção nos apresenta ao maníaco que faz uma fileira de cadáveres numa região montanhosa. A perseguição final é garantida, mas quando isso ocorre, pouco nos importamos com os personagens do roteiro de Garth Eliassen. Não há catarse e a sensação é a de que o slasher estava indo longe demais, neste caso, indo do nada em direção ao nada, e o ano sequer havia acabado, isto é, o calendário de estreias ainda garantia uma série de filmes do segmento.

Safra 1981 em cenas de Absurd (Rosso Sangue) e Massacre Brutal 

Outubro, mês propício para as comemorações que envolvem o terror, foi um período de vários lançamentos do segmento slasher. Entre os dias 12 e 16 de mês em questão, foram lançados Massacre Brutal e Absurd (Rosso Sangue), respectivamente. Dirigido por Michael Laughlin, também responsável pelo roteiro, em parceria com Bill Condon, Massacre Brutal apostou as suas fichas dramáticas numa história clichê sobre um maníaco que deixa um extenso rastro de sangue entre os habitantes de uma cidade interiorana. Em Absurd (Rosso Sangue), realização italiana com produtores estadunidenses, o cineasta Joe D’Amato dirige o roteiro de George Eastman sobre um padre que persegue um serial killer. O maníaco curiosamente é conhecido por seu sangue que coagula rápido demais e em seu alvo está uma babá que cuida de duas crianças.

Safra 1981 em cenas de Pouco Antes do Amanhecer e A Vingança do Espantalho

A Vingança do Espantalho, exibido pela primeira vez para o grande público em 24 de outubro, trouxe um assassino em busca de vingança pelos maus-tratos recebidos no passado. A trama dirigida por Frank De Fellitta, baseada no roteiro de Butler Handcock e J. D. Feigelson, aborda quatro homens persecutórios, tendo Ritter como alvo, um homem com transtornos psíquicos, acusado de ter provocado a morte de uma garota. A situação extrema é assustadora porque na verdade ele tentou ajudar a jovem de um ataque de cachorro. Morto no processo, ele retorna para se vingar, através da figura de um espantalho macabro. No mês seguinte, especificamente no dia 27 de novembro, o cineasta Jeff Lieberman viu o seu filme, Pouco Antes do Amanhecer, estrear e assustar as plateias com uma trama sobre jovens que decidem acampar e fazer alpinismo numa região montanhosa. Advertidos dos perigos locais, ignoram e preferem ver por conta própria a sádica representação da morte, habitante da densa região florestal.

Ademais, há uma lista extensa de outros filmes que estrearam nesta época. As produções destacadas funcionam apenas como um mapeamento de um período bastante produtivo para este subgênero que tal como apontado, entregou mais de 30 filmes em apenas um ano e continua, ainda em no final da década de 2010, rendendo produtos, alguns inexpressivos, outros intrigantes e sábios. Depois de 1981, basicamente nenhum dos filmes apresentados conseguiu financiamento para continuações, com exceção das franquias Sexta-Feira 13 e Halloween, produções que alcançaram o patamar de marcas rentáveis da década. Até 1989, Jason retornou algumas vezes. Michael Myers um pouco menos. Ambos foram lançados, inclusive, no período conhecido por Slasher Tardio, fase que compreende os momentos finais dos anos 1980, época de desgaste das fórmulas do subgênero, mas que ainda apresentou alguns produtos curiosos e intrigantes.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.