Home Colunas Plano Polêmico #13 | Rey Pode Fazer o Que Faz em Star Wars?

Plano Polêmico #13 | Rey Pode Fazer o Que Faz em Star Wars?

por Iann Jeliel
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  • Leiam nosso material sobre O Despertar da Forçaaqui.

Muito por conta da estrutura nostalgia e extremamente remetente a Uma Nova Esperança, O Despertar da Força atingiu o agrado a maioria, não atoa vem quebrando barreiras de bilheteria, como também era esperado de um retorno de uma saga tão grande como Star Wars. O único momento que quebra parte dessa parcial satisfação com o filme, vem sendo questionado pelos fãs, é do fato de Rey ter conseguido vencer de Kylo Ren mesmo que ela tenha usado a força pela primeira vez minutos antes da batalha, mesmo que Kylo tenha treinado anos e anos como Jedi e Sith, tornando meio que um absurdo que ele tenha perdido para a garota inexperiente da maneira como foi.

Assim, surge mais uma dentre tantas outras discussões inúteis do tipo “Quem atirou primeiro” no universo Star Wars. Essa por sinal, ainda mais fácil de se resolver, pois independe de contextos de diferentes versões de filme ou conceitos do universo expandido (canônico ou não) para compreender a coerência da vitória da personagem sobre seu adversário e para isso, retomaremos a construção trilogia clássica e aplicaremos a construção desse novo filme, que lembrem-se, é continuidade direta dos três filmes anteriores.
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A Força Movimentada Pela Fé da Resistência

A força na mitologia Star Wars surge com princípios praticamente religiosos. Em Uma Nova Esperança lembremos, Luke consegue fazer com o que o tiro da X-Wing atravesse a pequena fresta da estrela da morte porque ele acreditou que conseguiria “curvar” o tiro no momento exato utilizando a força, mesmo sem qualquer treinamento. Mais tarde em O Império Contra Ataca, aonde o personagem vai de fato treinar, percebam que não há um grande foco no domínio físico da força e o Yoda está como representação narrativa clara disso. O pequeno alienígena é caracterizado como indefeso e brincalhão propositalmente para Luke aprender que a força de nada tem relação com a capacidade física de quem a controla, mas sim do controle mental do seu “acreditar” perante a ela.

Claro que com a descoberta de Darth Vader como seu pai muda um pouco o cenário e transformar a condição da força em uma espécie de hereditariedade dentro da trilogia, onde somente membros da familia Skywalker ou decentes dos antigos Jedi teriam aptidão de usar a força, o que comunga em até hoje milhões de teorias sobre quem Rey seria filha.  A trilogia prequel não ajuda, uma vez que Vader surgiu como “criação da força” e o conceito de midi-chlorian meio que matematizou e limitou as possibilidades da força para um certo grupinho. Contudo, o próprio Lucas a partir de Ataque dos Clones passou a ignorar esse conceito que lhe ridiculamente criou, além do que, independentemente de quem a Rey seja filha, toda a construção antes da personagem usar a força, até pelo espelhamento direto com a estrutura do Uma Nova Esperança, é exatamente a mesma da jornada antes de Luke Skywalker antes de se tornar um Jedi. É a clássica jornada do herói.

A diferença entre as velocidades está no fato de que Rey, abraçou o seu destino mais fortemente, enquanto Luke passa o filme inteiro relutando acreditar na mitologia. O fascínio de Rey descobrindo essa mitologia naquele contexto “lendária”, aumenta sua crença nos mesmos durante o percurso. Através dessa fé, ela vai conseguindo passar dos obstáculos e se conectar cada vez mais com a força até o momento que a desperta de vez, naquela primeira cena que ela força os strormtroppers a liberarem ela. É muito promissor ver esse lado religioso ganhando contornos de maior destaque, especialmente por direcioná-las a linhas representativas. Rey abraça e acredita que a mitologia possa ser ponte para afirmar seu papel de mulher forte e independente, bem como Finn, que consegue manusear o sabre também porque acredita no poder da resistência que o motivou a conseguir fugir da escravidão da Primeira Ordem e ter a força de coragem confronta-la.

Mas os sabres de luz não são armas especificas dos Jedis? Como o Finn pode usá-la? É… Mais ou menos. Finn pegar o sabre é um princípio para uma desconstrução de conceitos trazendo direcionamentos mais complexos do que a simplicidade da exclusividade, especialmente hereditário. Ele usa primeiro para abrir essa possibilidade para a Rey também poder usar. O fato dela ter levado vantagem de Kylo ao invés de Finn, foi talvez pelo simples fato de que ela já demonstrava ter maiores habilidades com armas brancas, como o bastão que ela. O ruim é que fica a dúvida se essa desconstrução se configurara no próximo filme, uma vez que o sabre também “chama” a Rey, o que direciona para essa lado mais hereditário, mas torço para que seja somente um gatilho e que essa interessantíssima remodelação do conceito da força, assumidamente mais direcionada para o lado espiritual se concretize para o episódio VIII.
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Condições Especificas da Batalha

A questão da fé é forte, mas ela, obviamente e se tratando de um princípio de transição, não poderia ser o único fator. Kylo Ren era evidentemente mais forte e tinha, em condições normais, total capacidade de derrotar Rey e Finn ao mesmo tempo sem dificuldades. Contudo, não era condições normais. Kylo tinha acabado de matar o próprio pai, a decisão mais difícil que já tomara, obvio que existia no personagem um mínimo de desequilíbrio emocional, que é sentindo perante a ótima construção que o personagem tem de acordo com a também ótima construção do aspecto emocional do embate, e lógico, a excelente performance de Adam Driver que transparece em todo segundo o quão conflituoso está o personagem.

Como se não bastasse esse desequilíbrio emocional, Kylo também estava gravemente ferido pelo disparo da besta de Chewbacca. O filme me alguns momentos reforça o poderio da arma, que havia causado estrago em vários stormtroppers e capaz até mesmo de explodir em alguns tiros. Não foi o caso com o Kylo, afinal se seguisse uma linha realista, ele teria morrido com a explosão interna. O tiro atravessa a região do abdômen, o que deve doer demais, mas não tanto quando o sangue está quente da batalha, por isso ele constantemente dá batidas na barriga como modo de manter quente e disfarçar a dor, mas obvio, ele estava sentido desde o momento em que foi atingindo. Fora que ele teve que enfrentar o Finn antes também, que o acertou em um determinado momento da luta, deixando ainda mais debilitado fisicamente.

Tais condições para esse lado, em contraponto as condições da construção de crescente da fé da Rey para o outro, equilibraram o embate de igual para igual naquele momento. Porque se Kylo realmente tivesse em condições, certamente seus momentos seriam mais plásticos do que impulsivos como eram realizados e em contrapartida, Rey por inexperiência, também só realizava movimentos puramente instintivos, de sobrevivência, com a execução dos últimos que garantiram sua vitória por um devaneio de conexão mais poderosa com a força, que a guiou de uma forma mais racional, embora ainda não habilidosa, a vitória. Não entro nem no mérito de Kylo não ser naquele momento um mestre Sith. Segundo o Snoke seu treinamento nem estava concluído, além do fato de que a força nele pela questão conflituosa entre os lados era menos presente do que a Rey que já sabia para que queria usar a força. Só a questão da fé bem construída é suficiente, com as condições realistas mais convincente ainda. É um deus ex máquina? Sim, mas e daí? Existem os bons e mal construídos. Há como defender esse em cada uma das vertentes. O que não dá para dizer é que ele é incoerente.

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A verdade é que essa polêmica só foi construída por ter vindo de personagem feminina. Certeza que se fosse um personagem masculino, como é o caso do Luke na trilogia clássica, isso seria aceito tranquilamente. O que é simplesmente lamentável. Como dito, espero que essa reconfiguração social se solidifique nos próximos filmes e que esfregue na cara do “fã” que Star Wars sempre foi e sempre será sobre resistência.

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