Plano Polêmico #22 | Já Reclamou do Novo ThunderCats Hoje?

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  • O ano é 5.000 a.C. e J’lysh está reclamando com os netos.

__ Vocês acham que talhar esculturas com cobre vai levar nossa geração para algum lugar? Na minha época era tudo na pedra mesmo, vocês dessa geração “mamãe eu sei manipular metais!” são uma vergonha! Isso está acabando com a nossa civilização! Olha isso! Tudo bonitinho, com curvas bem feitas! É isso que estão ensinando pra vocês na escola? Essa Pablo Vittar agora foi longe demais!

  • O ano é 1440 e Abade Glimárcio olha com desprezo para Aulívio Eudécio.  

__ Que horror, que horror! Onde já se viu reproduzir desenhos na prensa? Na minha época era tudo feito à mão, uma coisa mais séria, mais inteligente. Agora olha só. Estão emburrecendo nossas gerações, com essa infância prolongada! E a gente nem pode mais jogar na floresta pra passar fome, que os Direitos Humanos dizem que traumatiza! Olha o que dá! Estão mexendo na arte escriba! E nossa memória, como fica?

  • O ano é 1836 e Carlão-Aquarela olha com nojo para o que está diante dele.

__ Como é o nome mesmo, grafia do quê? De fóton!? Foto? Fotografia? É isso que é o futuro, agora? Isso será a geração de crianças do século XIX? Quer dizer agora que os museus vão acabar? Que nunca mais vai existir pintura? Estão mexendo com uma memória muito importante pra mim, sabe, porque quando eu era pequeno, eu ia ao Museu Omelette Du Fromage desenhar aquarelas com meu pai. Agora esse pessoal de humanas está destruindo a minha infância. Daqui a pouco vão fazer o quê? Colocar gente nua nessas fotos?

O ano é 2018 e o Cartoon Network anunciou oficialmente a sua mais nova produção: Thundercats Roar, que deve estrear em 2019. Desenvolvido pela Warner Bros. Animation, esta versão 2019 do desenho terá um apelo familiar, ou seja, é uma série cômica, concebida para um público-alvo infantojuvenil, uma comédia de ação com felinos humanoides baseada na adorada série originalmente exibida entre 1985 e 1989, e que contou com quatro temporadas e um total de 130 episódios. Seguem a sinopse e o vídeo de divulgação da nova série.

ThunderCats roar vai se manter fiel à premissa da animação original, acompanhando Lion-O e os ThunderCats que escaparam da destruição de Thundera, acabando em um planeta exótico e misterioso do Terceiro Mundo. Eles logo vão descobrir que o novo local é habitado por criaturas bizarras e inúmeros vilões, inclusive o maligno Mumm-Ra, que fará de tudo para os ThunderCats não interferirem em seu reino tirânico.

Como era de se esperar, houve uma reação fervorosa de uma grande parte do público, a maioria, ligada ao ódio, desprezo ou taxação negativa da obra vindoura. E já quero levantar a primeira posição aqui. Se a reclamação é bem contextualizada (não estou falando da reclamação de mimadinhos com mais de 30 anos que, entre palavrões e choração de pitangas, não conseguem sequer argumentar por quê não concordam com algo) ela deve sim existir. Ponto. A reclamação, o bom argumento contrário — ou a favor — de alguma coisa é um exercício crítico que pode trazer discussões importantes e necessárias, como neste caso, sobre a cultura de massa. E sobre essa questão empresarial que qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento da indústria do entretenimento sabe: remakes, reboots, prequels, sequels e revivals são uma forma de a indústria minimizar os riscos de produção, apostando sempre em coisas que tiveram um grande público no passado, independente de que mídia estamos falando.

A questão não é nova sequer em teoria da comunicação, tendo versões clássicas sobre o tema já na Escola de Frankfurt, e trabalhadas ao longo das décadas por diferentes teóricos e com diferentes caminhos de análise (vale conferir A Tela Global: Mídias Culturais e Cinema na Era Hipermoderna, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy). A impressão que eu tenho é que os adultos que reclamam com a cólera no volume máximo, agem como os amantes loucos que transformaram essa linguagem artística (a amada série de sua infância) em uma pele que só o seu objeto de amor pode tocar, como argumentava Roland Barthes. O que falta a alguns espectadores, fãs e apaixonados por determinados produtos e obras é o entendimento de que, em um mundo globalizado, em uma crise institucional de ideias (veja A Criatividade Morreu?) e em uma maneira viva de encarar a arte dentro de mudanças sociais, de geração e de “olhares novos, para cada tempo“, como dizia Richard Wollheim, a cópia, da cópia, da cópia será o caminho mais comum. Dessa forma, se bem contextualizada, a reclamação é lícita e bem-vinda, colocando em pauta a concepção da coisa em si, via cultura de massas. Mas não é bem isso que a gente tem na maioria dos casos, não é mesmo?

Por um lado, não é difícil entender que quando mexemos na memória de infância, adolescência ou juventude de alguém, estamos mexendo em um território — pelo menos para a maioria dos indivíduos — de refúgio e felicidade. Daí, quando um estúdio resolve ganhar dinheiro em cima de algo que fez parte de um momento de nossas vidas que lembramos com carinho, a bile pode ferver. Isso é compreensível. Agora, o que não é compreensível, é a atitude de criança catarrenta que se joga no chão do supermercado e fica chorando e esperneando porque a mamãe não comprou a BOLACHA que a criança tanto queria… exatamente o que hordas de fãs antigos da série estão fazendo pela internet a fora.

Pessoalmente, preferiria que esse tipo de produção nunca existisse. Um mundo sem continuações, sem nada que se aproveitasse de obras anteriores. E sim, eu trocaria rapidamente Poderoso Chefão 2 e 3, Mad Max: Estrada da Fúria ou Blade Runner 2049 — só para citar alguns exemplos — por um cenário só com “obras originais”. Mas a indústria do entretenimento, especialmente a TV, realmente não se importa com sua relação pessoal com um desenho… Se você tem ótimas memórias dele. Se você ia correndo da escola para chegar em casa e assistir. A Reprodutibilidade Técnica não perdoa ninguém. E cada geração tem algo que vai marcá-la, precisa de algo que tenha a sua cara, que dialogue com ela, que faça parte de seu mundo. E as empresas, como sempre, vão querer lucrar com isso, refazendo clássicos quantas vezes forem necessárias.

Nenhuma infância será destruída. Você já viveu a sua infância. Sua memória não vai ser apagada só porque um desenho vai ganhar ramake com outros traços e outra concepção — e que provavelmente você nem vai assistir. Não estão “emburrecendo” as crianças com essa “fofice”. Crianças de novas gerações são, em média, mais inteligentes do que a minha e a geração de vocês foram. Pena que vivem em um mundo onde tendem a ser facilmente mais alienadas. Mas por favor, isso não tem nada a ver com o remake de ThunderCats! Já passou da hora de crescer. Nós tivemos o nosso ThunderCats. Deixem os nutellinhas terem o ThunderCats deles!

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FAQ
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1 – Mas tenho obrigação de gostar disso?

Não tem. Se baterem em sua porta com um contrato escrito: “Você Tem Que Gostar do Novo ThunderCats” é só não assinar.

2 – Mas eu acho isso ridículo, os desenhos não são do meu agrado, são muito feios! E aí?

Sem problemas. Mas você precisa entender que a Warner sobreviveu até hoje sem a consultoria de seus gostos pessoais para o que é um desenho bonito ou feio, certo? Não é difícil imaginar que ela vai continuar fazendo o mesmo.

3 – Mas você não acha que tem que respeitar os desenhos antigos?

Imagine seu filho pequeno, seu sobrinho, seu afilhado, seus priminhos falando exatamente essa mesma frase, do ThunderCats 2019, quando fizerem outro remake dele, em 2049. Imaginou? Ridículo, não é? Pois é.

4 – Deviam ter pegado outro desenho, não esse! Você não acha?

Eu acho que não deveriam pegar nenhum, meu anjo, deviam é criar desenhos novos. Mas eu sou só um [adicione aqui o jargão Plano Crítico para críticos e afins]

5 – Mimimi mimi mimimimimi mimimi mi mimimi mi mi mi?

Mi.

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E aí, seus reclamões, o que acharam dessa história toda do remake de Thundercats? Vendo as imagens divulgadas, o que acharam dos desenhos? A animação pareceu interessante para vocês? Acham que vai chamar a atenção das crianças? Pretendem assistir?

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.