Plano Polêmico #23 | O Fim de Roseanne ou “Irmandade Muçulmana & Planeta dos Macacos Tiveram Um Bebê = VJ”

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Roseanne Barr. Conhecem? Produtora, escritora e atriz americana natural de Utah, ela começou a ter destaque em produções de TV e cinema em meados dos anos 80, e seu grande triunfo como profissional veio em 1988, quando se tornou Produtora Executiva e estrela (ao lado de John Goodman, Sara Gilbert, Michael Fishman, Laurie Metcalf e Lecy Goranson) da série… adivinhem só… Roseanne! O show estreou na ABC em 18 de outubro de 1988 e ficou no ar até a sua 9ª Temporada, encerrada em 20 de maio de 1997.

Seguindo a onda saudosista de ressuscitar o que quer que tenha feito sucesso no passado, a emissora trouxe a série de volta, em 2018, para uma 10ª Temporada, que, como esperado, chamou atenção do público e da crítica e ganhou a esperada renovação. Isso até o tuíte de Roseanne Barr em  29 de maio de 2018. Como vocês viram no título, ela não se fez de rogada ao, como diria depois, “fazer uma piada ruim“, “uma brincadeira” e que “deveria ter pensado melhor“, ao comentar a aparência de Valerie Jarrett (a “VJ” do tuíte), ex-Assessora Sênior de Barack Obama, entre 2009 e 2017. E só para constar, Valerie Jarrett nasceu em Xiraz, Irã, filha de pais americanos — o pai era médico, e estava no Irã, com a família, a trabalho, isso em 1956.

Após o tuíta de Barr, a ABC demorou apenas algumas horas para cancelar a bem falada Roseanne, tirando da grande uma de suas séries de maior audiência em horário nobre. Mesmo com as devidas desculpas oferecidas na mesma rede social — “Eu peço desculpas a Valerie Jarrett e a todos os americanos. Eu realmente sinto muito por ter feito uma piada ruim sobre a política e a aparência dela. Eu deveria ter pensado melhor. Perdoem-me pela piada…” — o impacto causado foi irreversível. Atores da série se manifestaram contra a declaração de cunho racista da colega de trabalho e Channing Dungey, presidente da ABC, colocou a pá de cal: “A afirmação de Roseanne em seu Twitter é horrenda, repugnante e inconsistente com os nossos valores, e nós decidimos cancelar sua série“.

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Valerie Jarrett e Roseanne Barr.

Por mais de uma vez, nos últimos anos, a gente viu artistas, apresentadores, atletas, políticos, modelos e profissionais das mais diversas áreas serem alvo de polêmicas por conta de declarações racistas, homofóbicas, xenofóbicas ou de qualquer tipo de preconceito e proposta de segregação para as mais diversas minorias. E como sempre, nesses casos, temos a discussão sobre OS LIMITES DO HUMOR, título que pode significar um monte de coisa e fazer muita gente vociferar que “é tudo mimimi“, “ninguém pode falar mais nada“, “tudo agora é ofensivo“, “no meu tempo ninguém se ofendia com isso” e coisas do tipo. O que essas mesmas pessoas não entendem, é o seguinte: o mundo tem mais gente. E mais gente conectada. E mais gente conectada que — ainda bem!!! — tem espaço para falar aquilo que considera ofensivo ou não, tendo em vista algum tipo de preconceito manifestado.

Ou seja, se a gente faz uma piada ou fala alguma coisa em uma rede social ou em qualquer outro espaço, e se a gente tem um papel de formação de opinião ou de acesso a um determinado público, nós temos responsabilidades. E posso dar exemplo aqui no nosso quintal. Quantas vezes meu parceiro na co-editoria chefe aqui do Plano Crítico, Ritter Fan (o homem de 9,54 bilhões de anos) não discutiu previamente comigo o conteúdo de alguma crítica ou artigo que ele pretende fazer, perguntando o que acho do tom, das palavras usadas, da abordagem. Eu fiz com ele a mesma coisa com ele, quando escrevi o PP #19, Catherine Deneuve, Feminismos e as Denúncias de Abuso Sexual na Indústria do Cinema; meu amigo Fernando Campos também discutiu previamente comigo o conteúdo do FP #37, O Caso Mark Wahlberg e Michelle Williams: Pela Causa ou Pelo Marketing? e nosso crítico Marcelo Sobrinho também me chamou para uma conversa de contexto quando estava pensando em rascunhar a crítica de O Último Tango em Paris.

É claro que erros acontecem, mesmo com conversas prévias; e opiniões consideradas “questionáveis” podem sair em uma argumentação ou outra, mas são discordâncias pontuais de abordagem, como vocês podem ver nos comentários do PP #21, Turma da Mônica, Forças Armadas e o Peso dos Quadrinhos de Mauricio de Sousa. Uma coisa é preciso ter em mente: TODOS NÓS TEMOS PRECONCEITOS. E não, ao contrário do que muita gente possa pensar, ninguém nasce “desconstruído”. Toda forma de preconceito é problemática, mas convenhamos que é mais fácil lidar com preconceito musical do que aceitar, em pleno 2018, preconceito racial vindo de uma voz artística, que produz conteúdo para milhões de pessoas. E com isso não falo apenas de Roseanne Barr, falo de críticos de cinema, apresentadores de TV, políticos e… de nós mesmos. Se alguém é acostumado a fazer esse tipo de piadinha em seu feudo, na sua bolha, e receber os aplausos de seus ouvintes, não significa que o alvo de suas piadas deverão estender tapete vermelho, chamar uma bandinha folk de Llanfairpwllgwyngyll e aplaudir efusivamente a ofensa, dançando com balões amarrados nos braços, melancia na cabeça e patins nos pés.

Falar em rede social, falar para um grande público, ter algum tipo de influência no mundo digital é uma responsabilidade grande e isso é tanto para evitar gente exagerada que realmente acha que tudo é ofensivo (óbvio que existe neurose e bizarrice de pessoas que não entendem e invertem tudo o que você disse), quanto para não ser babaca e destilar preconceitos pela internet. A grande questão é: e quando isso acontece? Pessoas podem se arrepender, certo? Podem mudar de opinião, certo? E não estamos falando de Instituições aqui, estamos falando de seres humanos. Como fica um indivíduo depois de uma polêmica dessas? Sua colocação no mercado, em sua área? Até que ponto vocês acham que o “humor” deve ir e até que ponto um indivíduo deve receber a punição por atos preconceituosos que cometeu?

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.